Arquivos Diários: 7 abril, 2009

ECCE HOMO poema de manoel de andrade

manoel-de-andrade-foto-22782457187_3de45fe315               foto livre.

 

ECCE HOMO

 

 

 

 

 

Levam ao Sinédrio o humilde nazareno          

para que se julgue o amor e a inocência          

e  diante  da  judaica  prepotência

o Mestre se mantém doce e sereno.                 

 

Por ser blasfemador é réu de morte                

diz Caifás com desprezo ao acusado               

e  depois  de  cuspido e  injuriado                   

aos romanos entregam a  sua  sorte.                  

 

No pátio do palácio a massa se aglutina             

e um prenúncio sinistro percorre a multidão  

traído e abandonado à própria provação       

aguarda  o  prisioneiro  a  sua  sina.                     

 

– É um visionário, um sonhador  somente      

– e me comove sua mansidão, sua pobreza…               

diz Pilatos…, convicto  da  certeza                    

de estar frente a um homem inocente.              

 

Diante da  injustiça  e  do  impasse                     

transfere  a  Antipas  a  sentença                          

mas o tetrarca  devolve-lhe a presença                        

com os espinhos ensangüentando a face.

 

Coberto com  o  manto  da ironia                       

e como cetro uma cana  retorcida                     

nessa  imagem de realeza  escarnecida                   

trazem novamente o Rabi à pretoria.

 

Tenta Pilatos um último  artifício

para acalmar a plebe alucinada

e espera que a espádua açoitada

salve  o  Galileu  do sacrifício.

 

Rasga-lhe  a  carne  o  látego  cruel

e nem um murmúrio de dor ante o flagelo

envilecido e ultrajado, invencível e belo        

cumpre a Trágica Figura o seu papel.

 

Mas ainda assim a turba em desatino                                     

exige que a condenação seja mantida                                    

e Pilatos propõe à massa ensandecida

que  delibere  sobre  o  seu  destino.

 

Diante do pretório e amotinado

o  povo  absolve  Barrabás

e movido pelos asseclas de Caifás

exige o Galileu crucificado.

 

Ante a sentença e os gritos do estrupício

e entre a verdade e o interesse dos seus atos

lava  as  suas  mãos  Pôncio  Pilatos

e  entrega  o  Cordeiro  ao  sacrifício.

 

Na mais ingrata e suprema solidão

maltrapilho,  descalço  e  abatido

para o meio da escória é conduzido

sob o escárnio  cruel  da  multidão.

 

Passos  cambaleantes,  dor,  delírio

toda a ignomínia no símbolo da cruz

o madeiro infame nos ombros de Jesus

e o lancinante caminho do martírio.

 

Ergue-se o holocausto ao amor crucificado

na  dor  que  esmaga,  na  sede  insaciável

no estóico silêncio, no deboche intolerável

no lento suplício de um homem sem pecado.

 

E na agonia do Calvário, rumo à glória

roga  a  Deus  perdão  para  os  algozes

por tanto amor recebe os golpes mais atrozes

e o julgamento mais iníquo da história.

 

                                                                Curitiba,   26/02/04

 

 

(*) “Eis o homem”. Palavras de Pilatos ao apresentar Jesus aos judeus

 

Este poema consta do livro “CANTARES”, editado por Escrituras

VINHO BARATO, MULHER FEIA E ROCK PAULEIRA

caderno-g-foto-untitled

cavalo. largo da ordem. curitiba.

 

Funcionava assim. Você encontrava os amigos na rua durante as tardes de sábado para combinar como seria a noitada, mesmo que o local fosse sempre o mesmo. Com todo vigor que seus 13, 14 ou 15 anos lhe injetavam nas veias seguia o caminho a pé. Subia a 24 de Maio para passar na 24 Horas, a rua que não dormia. O bando contava as moedas, normalmente roubadas do troco do pão, para rachar garrafões de Large Field. Alguns tinham que salvar ainda o passe do madrugueiro.

Na época os comerciantes não se importavam se era prudente autorizar que três adolescentes, na média, dessem uma beiçada em cinco litros de vinho. Não havia copos. Controlar a dose certa do gole num garrafão era necessário treino, que estava sendo religiosamente cumprido há pelo menos um ano. Do contrário, entrava até pelas narinas.

Éramos 1,3 milhão, só que sem crack. O máximo de violência era voltar para casa sem os sapatos. A meia jogava-se fora para não passar ridículo. As gangues normalmente tinham o nome da praça usada para confabular o melhor ataque aos inimigos, os meninos das outras praças. Em algumas regiões, como o Água Verde, até padaria podia dar origem ao nome de um “temido grupo”. Assistiu “The Warriors – Os Selvagens da Noite”? Era mais ou menos assim, só que sem revólveres, facas, bastões de beisebol e metrô.

As ruas escolhidas para chegar até o Largo da Ordem eram as que tivessem relação com o meretrício. Não para consumir. Mas a paisagem era mais bonita e sempre rendia uma boa história no dia seguinte. Talvez ainda não fosse politicamente incorreto esvaziar a bexiga numa árvore. E sempre dava vontade na altura da Muricy. O problema era achar árvores ali. Então…

Na chegada os dentes já estavam roxos. Encontrava os outros, com camisetas do Pantera, Sepultura e… Slayer!!! As meninas se fantasiavam de Mortícia. Roupa comprada no Shopping Omar. Era óbvio que ninguém que estava ali iria para o El Mago, coisa de playboy. Só existia um lugar que poderia abrigar tanta gente diferentemente igual: Hangar.

Primeiro problema: não podia entrar com bebida. Garrafão vazio no lixo então. A vantagem é que já se entrava com a mira calibrada. Digamos que o local não era reconhecido pelas lindas mulheres que lá aportavam. Só que era preciso se manter em pé. Caso caísse uma saraivada de botinadas lhe acertava até o âmago. Pura diversão.

Uma coisa não tinha explicação: você simplesmente não podia se encostar nas paredes. E não era tinta fresca. A teoria mais aceita é que a combinação engolir vinho rapidamente, mulher feia mais pontapés no estômago causavam um vômito imediato e forte que o golfo acertava as paredes antes de encontrar o solo. Uma noite perfeita naqueles tempos.

Hoje é difícil você encontrar um curitibano legal que não tenha passado bons fins de semana no Hangar no começo dos anos 90. Que não tenha escutado Gipsy Dream e dezenas de outras bandas cover de “rock pauleira”.

Pois bem, o bar chegou à maioridade. Completou 18 anos e ficou registrado na memória de muitos. A dúvida que fica é se hoje ainda há espaço para esse tipo de experiência inocente inconsequentemente divertida. Que não começa e termina dentro da balada. Não se vê mais pessoas passeando a pé na madrugada. Os motivos são óbvios. Temos violência, Lei Seca, mulheres mais bonitas (as feinhas têm muito mais recursos hoje, vai) e internet. Ou seria apenas o que chamamos de nostalgia?

 

caderno G. GP

 

EU E AS LATAS por carlos ferrari

Refrigerante ou cerveja? Com certeza dependendo do momento, do seu gosto pessoal ou até mesmo de um impulso, fica fácil para qualquer um fazer essa escolha em segundos. Pois bem, sentei agora para escrever essa coluna. Estou em um quarto de hotel em Brasília, e neste momento estamos eu e as latas. Não sei quem é quem, refrigerante, cerveja, água tônica e, por isso, acabei decidindo por conversar um pouco sobre isso com vocês.

A percepção da deficiência ao longo dos anos tem sofrido um constante processo de mutação. Da maldição até o inatingível, da inutilidade até os super-poderes; muitos foram os estereótipos construídos que de uma forma ou outra e de acordo com o senso comum, sempre afastaram a pessoa com deficiência da condição compreendida pela sociedade como normal.

Assim pudemos assistir ao longo da história a caridade durante séculos como único meio para garantia de subsistência.

A transição desse cenário é relativamente recente, e tem se dado por meio da luta do segmento e da reconstrução do conceito de deficiência, que agora não mais somente considera a limitação do individuo, pois passa a correlacionar essas limitações com a desadequação da sociedade e seus espaços físicos, equipamentos, serviços, sinalizações e comportamentos.

Então é fato que quanto menor a adequação do mercado maior a deficiência do consumidor.

De acordo com a lógica capitalista, desprezar por volta de vinte e sete milhões de consumidores em se tratando de Brasil, caracterizaria uma estratégia suicida e nem um estudioso ou profissional de marketing consideraria essa hipótese como possível. As ações, no entanto, vão na contra-mão do que ditam as regras de mercado, excluindo um segmento que muitas vezes tem que brigar para ter o consumo como um direito, mesmo tendo o recurso financeiro.

A peça publicitária que tratava da venda da bíblia falada, gravada por Cid Moreira trazia um alento àquelas pessoas de religião que até então não podiam ler. Cegos, baixa visão, dislexos, idosos, comemoravam a novidade na medida em que uma voz animadora anunciava a boa nova. O fechamento seria cômico se não fosse trágico; “Ligue agora para o telefone que está em seu vídeo e adquira nosso produto”!

Você já pensou nas dificuldades de um cadeirante para experimentar as roupas em boa parte das lojas ou mesmo para adentrar em bares e restaurantes de qualquer canto deste País?

Pois é, estamos aqui eu e as latas e vou buscar na sorte uma bebida gelada para matar a sede e renovar a esperança de termos em breve um mercado que não entenda essa questão como uma ação de responsabilidade social, mas sim do aproveitamento do potencial de consumo de um público que trabalha, que tem família ou mesmo recebe benefícios governamentais, enfim um público com poder de compra.

* Carlos Ferrari é administrador de empresas, mestre em Administração de Empresas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e pós-graduado em Marketing pela Fundação Cásper Líbero. O vice-presidente da Instituição é deficiente visual de nascença e ficou totalmente cego aos sete anos de idade. Atualmente é professor universitário nos institutos Ítalo-Brasileiro e Faculdade Interação Americana. Vice-presidente da AVAPE, instituição focada na inclusão de pessoas com deficiência. Ele é, ainda, Membro Titular do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, presidente da Federação Paulista de Desportos para Cegos (FPDC), sócio-proprietário da Supera Treinamento e Gestão Sócio-Ambiental. Idealizador do treinamento Superação de Limites e Identificação de Potencialidades. Entre em contato com o autor pelo e-mail carlos.ferrari@avape.org.br

Sobre a AVAPE Com 26 anos de atuação, a AVAPE (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais) é uma instituição filantrópica beneficente de assistência social, que tem como missão promover as competências de pessoas com deficiência. Fundada em 1982, a entidade é considerada modelo de gestão e foi a primeira em sua área a receber a certificação ISO 9001. A AVAPE é reconhecida pelo trabalho de prevenção, diagnóstico, reabilitação clínica e profissional, qualificação e colocação profissional, programas comunitários e capacitação em gestão para organizações sociais. Oferece atendimento a pessoas com todos os tipos de deficiência, do recém nascido ao idoso. Desde o seu início, já realizou mais de 18 milhões de atendimentos gratuitos e inseriu 10 mil pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na busca de parâmetros internacionais, mantém parcerias e termos de cooperação técnica com diversas organizações do mundo.