ECCE HOMO poema de manoel de andrade

manoel-de-andrade-foto-22782457187_3de45fe315               foto livre.

 

ECCE HOMO

 

 

 

 

 

Levam ao Sinédrio o humilde nazareno          

para que se julgue o amor e a inocência          

e  diante  da  judaica  prepotência

o Mestre se mantém doce e sereno.                 

 

Por ser blasfemador é réu de morte                

diz Caifás com desprezo ao acusado               

e  depois  de  cuspido e  injuriado                   

aos romanos entregam a  sua  sorte.                  

 

No pátio do palácio a massa se aglutina             

e um prenúncio sinistro percorre a multidão  

traído e abandonado à própria provação       

aguarda  o  prisioneiro  a  sua  sina.                     

 

– É um visionário, um sonhador  somente      

– e me comove sua mansidão, sua pobreza…               

diz Pilatos…, convicto  da  certeza                    

de estar frente a um homem inocente.              

 

Diante da  injustiça  e  do  impasse                     

transfere  a  Antipas  a  sentença                          

mas o tetrarca  devolve-lhe a presença                        

com os espinhos ensangüentando a face.

 

Coberto com  o  manto  da ironia                       

e como cetro uma cana  retorcida                     

nessa  imagem de realeza  escarnecida                   

trazem novamente o Rabi à pretoria.

 

Tenta Pilatos um último  artifício

para acalmar a plebe alucinada

e espera que a espádua açoitada

salve  o  Galileu  do sacrifício.

 

Rasga-lhe  a  carne  o  látego  cruel

e nem um murmúrio de dor ante o flagelo

envilecido e ultrajado, invencível e belo        

cumpre a Trágica Figura o seu papel.

 

Mas ainda assim a turba em desatino                                     

exige que a condenação seja mantida                                    

e Pilatos propõe à massa ensandecida

que  delibere  sobre  o  seu  destino.

 

Diante do pretório e amotinado

o  povo  absolve  Barrabás

e movido pelos asseclas de Caifás

exige o Galileu crucificado.

 

Ante a sentença e os gritos do estrupício

e entre a verdade e o interesse dos seus atos

lava  as  suas  mãos  Pôncio  Pilatos

e  entrega  o  Cordeiro  ao  sacrifício.

 

Na mais ingrata e suprema solidão

maltrapilho,  descalço  e  abatido

para o meio da escória é conduzido

sob o escárnio  cruel  da  multidão.

 

Passos  cambaleantes,  dor,  delírio

toda a ignomínia no símbolo da cruz

o madeiro infame nos ombros de Jesus

e o lancinante caminho do martírio.

 

Ergue-se o holocausto ao amor crucificado

na  dor  que  esmaga,  na  sede  insaciável

no estóico silêncio, no deboche intolerável

no lento suplício de um homem sem pecado.

 

E na agonia do Calvário, rumo à glória

roga  a  Deus  perdão  para  os  algozes

por tanto amor recebe os golpes mais atrozes

e o julgamento mais iníquo da história.

 

                                                                Curitiba,   26/02/04

 

 

(*) “Eis o homem”. Palavras de Pilatos ao apresentar Jesus aos judeus

 

Este poema consta do livro “CANTARES”, editado por Escrituras

2 Respostas

  1. Cara Vera Lucia, ele não se esconde, nós é que não sabemos procurá-lo.
    Eu o achei nos capítulos 5,6 e 7 do Evangelho de Mateus: no Sermão da Montanha. Aliás o próprio Gandi disse que se se perdessem todos os evangelhos e ficasse apenas o Sermão da Montanha, o Cristianismo estaria salvo.
    Sua mensagem é o perdão.
    Amar os inimigos, orar por quem nos ofende, dar a outra face e perdoar 70 vezes 7 vezes ou seja perdoar sempre, porque nós somente temos paz quando desculpamos os erros alheios.
    Quando damos a outra face deixamos o caminho aberto para a reconciliação, mas se devolvemos a ofensa, quase sempre fazemos um inimigo pra sempre.
    Para mim a essência do Cristianismo é sabermos transformar o ódio em amor e o orgulho em humildade.
    Religião não “salva” ninguém e somente somos livres quando perdoamos. O amor une e liberta enquanto o odio sapara mas imanta a vítima ao algoz.
    Creio que o perdão e a caridade é chave para entendermos Jesus de Nazaré, que não é Deus, mas um espírito cuja longa evolução o levou à angelitude, onde todos também chegaremos um dia.
    Um fraterno abraço…, Manoel

  2. Um poema magnífico, que, aliás, já tinha lido…
    A figura de Cristo é a minha figura de referência, apesar de, por muito que me esforce, não consiga vê-lo se não como um homem que deixou no mundo uma lição única e imortal. A minha fé, aliás, falta de fé, não me permitiu ainda acreditar nele como Deus.E quanto me esforço para que isso aconteça…Vou passar-lhe um breve poema para entender melhor esta minha dúvida:

    A fé, o conhecido-desconhecido
    Na África de agora,
    Fé cristã, fé muçulmana, fá marabu, fé em qualquer coisa.
    Fé…Sim, tu és para mim nas minhas esperanças sem futuro,
    Neste obstáculo à Divindade que d’algum modo vem murmurar ao meu ouvido,
    O caminho da minha felicidade.
    Fé…Cristo na esperança e na expectativa dum último dia
    sempre novo, no meu feticismo inato, abandonado,
    Eis que agora me agarro à Fé de Cristo. Mas como a aprender e como a assimilar? Serei eu capaz de Fé?
    Nesta desordem onde nem mesmo compreendo o meu Cristo nas suas cem mil interpretações e nos seus milhões de cultos, onde estás tu para mim, Cristo…Onde te escondes. Guia-me…Agora mais do que nunca para que meu coração te possa glorificar.”

    Como vê, se calhar estou em desvantagem, em relação a si… Mas não passa um dia em que o meu último pensamento não seja para Ele.

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