Arquivos Diários: 8 abril, 2009

NO PLÁGIO TE ROUBAM UM POUCO D’ALMA por valdeci gonçalves da silva

 

“Mas quando falamos de seqüestro da subjetividade, não há a necessidade de cativeiro material. O roubo é mais profundo, pois é levado muito mais que a materialidade da vida” (FÁBIO DE MELO – Padre).

No dia 21 de outubro de 2008, recebi um e-mail que dizia: “Gostei do artigo X, mais gente gostou, tanto é que o seu trabalho foi publicado como sendo de Fulana de tal, no Jornal Y, da cidade Z, na página…, exemplar do dia 21 de outubro (hoje), …”. Até então esta notícia me soou meio irreal, embora ciente de que o informante, devido às suas responsabilidades e seriedade, não perderia seu tempo com pegadinha ou algo do gênero. Bem sei que o bicho homem é propenso a tudo, mas é como se eu tivesse, num primeiro momento, dificuldade de aceitar a realidade de que alguém fosse capaz. O dito ser humano se encarrega de práticas monstruosas a ponto de arrastar criança dependurada em carro; jogar filha pela janela do prédio (o que é bem diferente da monstra que, mesmo jogando seu bebê num lago ou córrego, compreende-se que foi levada pelo desespero ou loucura da psicose puerperal, etc.), e de tantas outras barbaridades que me fazem indagar: Esse tipo de vivente pode ser chamando de humano? Ou é humano por ser exatamente isso: Monstro? Se, com bastante freqüência, dispensam suas habilidades em coisas horripilantes, plagiar…

Minha inicial incredulidade, talvez, também tenha a ver com o fato de que as pessoas, nas figuras de advogados, procurador, professores, padre, estudantes e outros, ao se utilizarem dos meus textos para argumentar suas peças jurídicas, como recurso didático em sala de aula, e fundamentar tese, dissertação, trabalho monográfico de conclusão de curso, respectivamente, sempre tiveram a decência de me pedirem autorização. Isto tanto no Brasil quanto em Portugal, e algumas ainda tiveram a gentileza de me enviar o material. E, também nos sites que permiti meus textos, bem como aqueles que copiaram sem me consultar, a todos que tive acesso, até hoje, fizeram uso do procedimento ético de citarem autor (a minha pessoa) e fonte (www.algosobre.com.br). Apenas em um, possivelmente o responsável pela postagem, dizia ter descoberto um texto interessante e que fizera algumas alterações. Meio eufórico chamava a atenção para que os internautas o lessem. Percorri, atentamente, todo o texto e pude constatar que o mesmo se encontrava na íntegra. Assim, as mudanças anunciadas, na verdade, só podia se tratar do referencial bibliográfico que não constava.

A única notícia de plágio que tomei conhecimento foi de um atribuído a Paulo Coelho em relação ao texto de uma psicóloga chilena. Em termos de vivência que me ocorrera foi dar apoio (indicando alguns endereços solicitados) a uma colega cujo ex-aluno nosso havia plagiado e apresentado um dos seus trabalhos num congresso. Mas, naquele momento não me toquei em pergunta-lhe qual era o seu sentimento de ter sido plagiada. Depois de plagiado perguntei para ela que me disse ter sentido muita raiva e a sensação de roubada. No seu caso, o plagiador que já ocupava a função de professor em duas universidades, “teve a dignidade” de pedir exoneração das mesmas, e se recolher à sua cidade de origem. Mas, diante de vários parágrafos, meus, recortados e montados para formar um texto assinado por outra pessoa, com o mesmo título do qual se deu apenas ao trabalho de retira-lhe os dois pontos! Tive a sensação de insegurança, de invasão, de constrangimento, desrespeito e falta de chão. É como se o ladrão, ou melhor, a ladra tivesse desfilando com peças prediletas do meu guarda-roupa, e eu vendo tudo aquilo sem poder, de imediato, desmascará-la e resgatar o que é meu, a deixando nua em pêlo diante de todos. Mas tenho que resolver de modo informal a partir de alguma negociação ou na legalidade por meio da justiça.

Mas essa analogia ainda não parece suficiente para explicitar meu sentimento. Porque, para adquiri qualquer outro objeto o que basta é ter dinheiro suficiente, ir até a loja e sair satisfeito com a compra na sacola. Mas o plágio de um artigo é o roubo de algo que nasceu das entranhas da mente, vísceras e coração depois de um período, geralmente sofrido, de gestação. O roubo do produto intelectual não pode, simplesmente, ser comparado ao furto de um objeto que não implica, comumente, em nenhum grande dispêndio de energia além do encanto pela sua beleza, utilidade e prazer do poder aquisitivo ou de compra, porque está pronto. O máximo do que pode precisar é de se fazer algum pequeno ajuste, e ter disposição para usá-lo. Enfim, o artesanato conseqüente das inquietações, angústias, gastos financeiros, sacrifícios, não pode ter a mesma valoração do objeto fabricado alienadamente em série, anônimo, impessoal e em surpreendentes quantidades.

Roubo por plágio é como se te levassem um filho, não um recém-nascido com qual se teve pouca convivência, apesar da grande espera e expectativa, mas gradinho com o qual já se teve uma história, um investimento emocional, cuidados devotados  para vê-lo se desenvolver saudável. Além da praxe que afirma: Criança dá trabalho. E todos os filhos, como dizem, são igualmente queridos. Embora que, com alguns, se tenha mais afinidade. Nesse episódio, me levaram um dos quais eu mais me identificava, por isso o vazio da impotência parece aumentado. É uma sensação de ter o coração cheio de amor para dá a esse filho, os peitos cheios de leito, mas sem jamais poder amamentá-lo. Na medida em que, paralelo a isso, vislumbro uma aura de impureza, uma sensação não mais de acolhimento, mas de rejeição. O filho já não é mais o mesmo, foi mexido, violentado, adulterado, alguém está, indevidamente, se deliciando com a proximidade da sua companhia, o vendo crescer, sorri, indagar com perguntas de “gaveta” sobre as “banalidades” do existir.

O processo de criação, obviamente, não acontece à toa. A fecundação, por regra, é conseqüência de uma orgia, da promíscua entrega aos mais variados autores, etc. Num primeiro momento, sou tomado pela febre da inquietação daquilo que não se encaixa, que parece incongruente, que falta algo sobre o qual ainda precisa ser dito, ou que apesar de toda fala ou descrição a respeito ainda sugere incompleto. Como se a verdade tivesse sido revelada, mas não toda a verdade, ou, pelo menos a verdade que eu a entendo como primordial. E, por vezes, também a necessidade de questionar aspectos anormais, bizarros, que parecem perfeitamente integrados à paisagem e cristalizados no pensar e fazer profissional, no cotidiano das interações e relações íntimas. Em vista disso, acho que não consigo viver pura e simplesmente como um animal. A vida vivida apenas pelo prazer hedônico de gozá-la não me interessa. A existência me inquieta, Deus me provoca, a sociedade me incomoda e que quero utopicamente aplacar, traçar um perfil suportável desse insuportável que, por vezes, me ultraja a condição digna de cidadão brasileiro. Uma vez fisgado por essas dúvidas, me vem o desejo de esclarecê-las, de entendê-las melhor. Porém, enquanto isso está sendo gestado, durmo ruminando a idéia e acordo me se espreguiçando com novos insights ou ainda mais angustiado.

Essa gravidez cresce, e para aliviar o peso dessa barriga enorme e invisível, como toda prenha (palavra horrorosa) se empenha no bem estar do feto (termo detestável, me sugere coisa estragada, podre, e não à bela imagem de um serzinho em formação) e preocupação com o seu futuro de bebê corre, sem pudor, atrás de exames, ajuda médica. Em suma, para ser acompanhada, eu corro para as livrarias. Vejo primeiro o que tenho disponível na estante da casa, livros, revistas. Mas a vontade de sentir o descendente forte, não me faz se contentar com o habitual ou caseiro, procuro fortalecê-lo com o que existe de mais atual e moderno. Não com o propósito de segui-lo, mas que sejam parâmetros para situar minhas argumentações no contexto da contemporaneidade. Nem sempre encontro o que quero ou espero nesses supermercados do saber, faço pedidos, vou a sebos. Algumas bulas sumárias parecem promissoras e, por isso, levo alguns volumes para mais tarde descobrir que são pouco calóricas. As histórias se repetem, e é comum constatar a ausência do essencialmente novo, a maior parte é de idosos, ou mesmo, caducos, maquilados de releituras. Mas a cata continua, na Internet, etc., até o ponto de me certificar de que todas as fontes disponíveis foram esgotadas.

O próprio feto ajuda, tem uma orientação intrínseca. Não raro direciona, ele parece saber o momento preciso de parar e anunciar o esboço dos seus contornos faciais. Como geralmente meus rebentos são polêmicos, por isso procuro me fundamentar. Convém salientar que, ser polêmico, não é nada mais nada menos do que não ter preconceito, não mascarar, dizer naturalmente o que pensa e sente. Até porque há uma forte e imediatista sedução social para tudo que é sem alma, de fachada, oco e artificial. Uma evasão em massa, tonta, desorientada feito besouro na claridade pronta para se incrustar e se acomodar na camada mais superficial dos vernizes. Polêmico é não esconder, e se dispor em se ariscar de trazer para visibilidade aquilo que boa parte, por conta do medo, do narcisismo prefere manter encoberto. O costume do faz de conta parece mais ardente do que a intenção compromissada de inquietar, de provocar substanciais mudanças. E, assim, em meio às bobagens ou discussões fúteis tentam tamponar o que de fato são os ingredientes que motivam os dramas, os atrasos, as injustiças, etc.

Vivemos a fantasia e o engodo do real. Em razão disso e por causa dos meus temas polêmicos, procuro a cumplicidade dos autores, primeiro dos consagrados, depois dos menos endeusados, embora estes, por vezes, me digam mais a respeito dos conteúdos que pesquiso. Em síntese, é uma busca incessante desses médicos intelectuais para deixar meu feto mais intelectualmente robusto. Não sou dado à imitação, reprodução, sempre procuro imprimir nem que seja um filete que conduza a alguma reflexão. Assim sendo, não me contento apenas com essas garimpagens, enveredo numa retrospectiva do meu banco de dados, das experiências em atendimento clínico (a fonte mais rica), da interação nas aulas que ministro e das minhas vivências pessoais, para ver se consigo colher prováveis preciosidades, ou, pelo menos, algo de diferente. Depois, faço um balanço de tudo isso visando, o que não é fácil, dar coerência e leveza a um rosto que já nasce agreste – porque não tenta agradar -, mas singular.

Essa luta envolve os mais diversificados modos de investimento costurados ou atravessado por situações que representam o intelecto como fácil e supérfluo. Um dia resmunguei sobre o preço de um livro fino e caro, e o atendente disse: “Mas o que é setenta e cinco reais para você que é professor e ganha uma nota!?” Completei: “Uma nota baixa, diga-se de passagem!”. Contendo a minha irritação pela sua falta de compreensão de que aquele preço me limitava de saber mais, de ter acesso a mais informações, lhe disse: “Para quem, uma vez perdida, compra um livro! Tudo bem. Mas para quem está sempre comprando…”. Ele disse: “É mesmo professor. Aliás, o senhor é um dos que mais compra, ou melhor, é o segundo porque tem a professora da universidade XYZ que sempre gasta em terno de 500,00 (quinhentos reais) por mês”. Meio que atingido nos meus brios ou estimulado por uma competição paranóica e, portanto, babaca. Assim, sabedor de que brasileiro adora comprar a prazo, que sempre quer ter ou ostentar um padrão de vida além das suas reais posses. Mesmo que em detrimento de repousar, à noite, a cabeça tranqüila no travesseiro. Num tom de brincadeira aproveitei para me gabar: “É, mas tenho certeza que ela não compra como eu, ou seja, à vista!” Ele disse: “É verdade, só tem o senhor mesmo”. Detesto prestação, se o comércio dependesse de mim, certamente ficaria em apuros, meu cartão de credito, parafraseando Cazuza, que não é substituto de navalha, só raramente tem serventia para alguma hora.

Voltando a minha gestação. Às vezes, o feto nasce prematuro, mas tem condição de sobrevivência. Também não consiste numa excepcionalidade que, de repente um se desmembre, nascendo, assim, gêmeo, trigêmeo. Alguns passam dias para nascer, mas todo nascimento, quase sempre é resultado da liquidificação das noites adentrando as madrugadas com dores que são transmutadas para o computador. Não raro rabisco pedaços de papéis procurando desvendar as características do rebento, enxoval, etc., e quando passo para tela adquire ou assume outra configuração que aceito ou aproveito alguns órgãos, ou deleto e começo tudo novamente. Em resumo, são os preparativos para o parto, construção de um bebê que sempre nasce tendo como testemunhas os primeiros raios de sol batendo na vidraça da janela, em meio ao burburinho tímido da redondeza que desperta. A felicidade desse nascimento acaba se manifestando em outras oportunidades com colegas e alunos mais próximos, com expressões mornas do tipo: “Hoje cedo conclui um texto que parece interessante, nele consegui dizer exatamente o que queria havia tempo!”.

Enquanto alguns bebês parecem ter nascido prontos para cair no mundo, outros demoram em adquirir feições próprias, precisam de inúmeros retoques ou plásticas. Por vezes, os descrevo com palavras ou frases em parágrafos que digo para mim mesmo, mas isto é genial! Mereço um prêmio. Noutros, de repente um parágrafo não se harmoniza, ou descubro que o repeti com outras palavras. Acho que a redação é comum demais, que não acrescenta nada. Enfim, que é uma droga, e que Diogo Mainardi (considero fascinante sua cultura e escrita. Pena que não use seu enorme potencial para conscientizar ao invés de alimentar picuinhas), certamente, riria de mim. Essa briga é constante, aí, depois de toda crítica, prazer, desprazer o feto nasce. Talvez pelo cansaço que demanda o gestar, e esforço em colocar para fora, “dar à luz”. Num primeiro momento sou tomado por uma atmosfera de contemplação. Assim, toda obra recém-chegada, por alguns instantes, parece perfeita, maravilhosa. Eis aqui uma mãe sugada, exausta e em estado de graça com o bebê nos braços. Lambo a cria, e a legitimo com o olhar generoso e doce tão próprio do instinto maternal. Passado este frisson contemplativo, começo a examinar e a vê-la em detalhes.

Logo em seguida surgem as dúvidas: Se aceito ou não esse filho? Se o lanço ao seu destino? Cometo infanticídio ou o mantenho em cárcere privado? Como será seu caminhar longe da vigilância dos meus olhos? Da minha defesa? Como interagirá com as pessoas? Como será tratado? E quando, finalmente, lhe dou assas não sei se ele cumprirá sua missão ou se será mais um medíocre a incrementar um universo de futilidades? Ou se terá brilho próprio e será reconhecido? Alguns são paridos com tanto amor, e passam em brancas nuvens. Outros, meio que feinhos, que eu não dava muito por eles, e que por isso quase os abortei. Mistério: Caem na simpatia do público, e passam a ser bem solicitados, no que gera certo ciúme: “Puxa aquele pelo qual fiz tanta força poucos dão atenção!”. Mas, até agora em relação a todos meus rebentos não tenho do que me queixar, foram bem aceitos. Nunca recebi crítica abertamente negativa. Já chegaram a comentar sobre os tamanhos das criaturas, mas que, apesar de afetados pelo estirão do crescimento, não cansam, concluem os comentaristas.

Por tudo isso, um roubo intelectual não tem como ser comparado a um simples furto material. Furto é furto. Se o ladrão de objeto vai preso, o larápio da produção intelectual também deveria ter esse mesmo tipo de punição. Se isso não acontece é porque denota a desqualificação do trabalho gerado no coração e nos labirintos luminosos e assombrosos da massa cinzenta. A ladra me roubou não só “um mosaico de parágrafos”, mas as minhas noites mal dormidas, solidão, privação da vida social e pessoal, tudo dentro desse mesmo pacote chamado Direito Autoral que deve ser respeitado. Essa pessoa é tão bandida e perigosa como qualquer outro marginal. Ela não se apossou apenas do meu rebento, mais também dos “colegas” que os convidei para esse banquete, e que tenho o cuidado de registrar seus nomes quando preciso recorrer nem que seja a uma sua única palavra ou fala deles.

A desavergonhada possa com um bem que não é seu, é uma pessoa violenta, mau caráter que no maior cinismo exibe o produto do seu furto. Uma alma imoral, sem ética, uma bandida que devia esta na cadeia junto aos seus pares. É uma miserável de nível superior que comprova sua incapacidade ou preguiça para trabalhar e criar, que coloca sob suspeita sua formação acadêmica. Como será que conseguiu se graduar? O que não deve ter feito para conseguir um diploma? O que ela não será capaz de fazer para aparecer ou tirar proveito? O mais surpreendente é que essa sujeita em momento algum pensou que pudesse ser desmascarada. O que a leva achar que ficaria impune? Certamente, mantém a moral corrupta de que pode burlar a lei e/ou a polícia.

A justiça, em geral, é morosa, isto obviamente exige tempo e dinheiro. Já enviei e-mails comunicando à usurpadora que identifiquei seu plágio, e também para negociarmos uma saída, mas, até a presente data, 10 de novembro de 2008, não tive retorno. Não sei com qual objetivo ou estratégia, essa senhora continua em silêncio. Talvez, para que eu desista. Está perdendo a chance de ter a hombridade de assumir seu crime imaterial e evitar a justiça. Lógico que é sabedora que plagiou, isto é, copiou e colocou sua assinatura, e, assim, pôde enganar muita gente, mas não todo mundo e muito menos a si mesma. Como provar que o texto é de minha autoria? Estou documentado tanto com material impresso quanto com a divulgação virtual em vários sites no Brasil e em Portugal com registro de data anterior a esse furto. Confio na justiça, e se, por ventura, as provas não forem suficientes, tem a minha estilística. Colegas e alunos reconhecem facilmente meus escritos, minha forma de expressão verbal. Na última das hipóteses é só comparar o texto plagiado com os meus demais textos e com os textos da plagiadora para perceber: Linearidade do meu lado e oscilação do lado dela.

Será que nunca vamos ter um nível razoável de moralidade neste país? Se por acaso a justiça não me contemplar, o que espero que não aconteça. Eu faço justiça, literalmente, com as próprias mãos: Escrevo neste site revelando a identidade da criminosa, exponho a foto do meu filho seqüestrado junto com sua foto de nascença, para que o leitor as compare. Finalmente, divulgo nos meios de comunicação da sua cidade a sua fraude. Com certeza ela sentirá o gosto amargo de ter plagiado. E que isto lhe sirva, e também a outros desonestos, de LIÇÃO.

 

OS RICOS-POBRES por marta medeiros


Anos atrás escrevi sobre um apresentador de televisão que ganhava um milhão de reais por mês e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. Classifiquei-o imediatamente como uma pessoa pobre.
Agora leio uma declaração do publicitário Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. Ele diz que há no mundo os ricos-ricos (que têm dinheiro e têm cultura), os pobres-ricos (que não têm dinheiro, mas são agitadores intelectuais, possuem antenas que captam boas e novas idéias) e os ricos-pobres, que são a pior espécie: têm dinheiro, mas não gastam um único tostão da sua fortuna em livrarias, museus ou galerias de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorância e a grosseria.
Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura, educação e viagens, e com isso propagam o que conhecem e divulgam bons hábitos. Os pobres-ricos não têm saldo invejável no banco, mas são criativos, efervescentes, abertos. A riqueza destes dois grupos está na qualidade da informação que possuem, na sua curiosidade, na inteligência que cultivam e passam adiante. São estes dois grupos que fazem com que uma nação se desenvolva. Infelizmente, são os dois grupos menos representativos da sociedade brasileira. O que temos aqui, em maior número, é o grupo que Olivetto não mencionou, os pobres-pobres, que devido ao baixíssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso à cultura, infelizmente não ganham, não gastam, não aprendem e não ensinam: ficam à margem, feito zumbis.
E temos os ricos-pobres, que têm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste país um lugar que mereça ser chamado de civilizado, mas que nada: eles só propagam atraso, só propagam arrogância, só propagam sua pobreza de espírito.
Exemplos?
Vou começar por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou. Parei atrás de um Audi preto do ano. Carrão. Dentro, um sujeito de terno e gravata que, cheio de si, não teve dúvida: abriu o vidro automático, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como se o asfalto fosse uma lixeira pública.
O Audi é só um disfarce que ele pôde comprar, no fundo é um pobretão que só tem a oferecer sua miséria existencial. Os ricos-pobres não têm verniz, não têm sensibilidade, não têm alcance para ir além do óbvio. Só tem dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais caro e tratam o garçom com desdém, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e não sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevês de plasma em todos os aposentos da casa e só assistem a programas de auditório, mandam o filho pra Disney e nunca foram a uma reunião da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.
O Brasil tem saída se deixar de ser preconceituoso com os rico-ricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve não só para proporcionar conforto, mas também para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que são aqueles inúmeros indivíduos que fazem malabarismo para sobreviver, mas, por outro lado, são interessados em teatro, música, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.

É este o luxo de que precisamos, porque luxo é ter recursos para melhorar o mundo que nos coube, e recurso não é só money: é atitude e informação.

Marta Medeiros

MÁRIO QUINTANA – CARTA A UM POETA

 


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para osmario-quintanacontemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana