O SONHO GEOMÉTRICO DE ESCHER por flávio calazans

Mauritis Cornelius ESCHER nasceu na Holanda em 17 de junho de 1898; lá abandonou a escola de arquitetura para ser artista plástico, dedicando-se às obras de arte em sua possiblidade de reprodução em cópias múltiplas, as gravuras sobre metal, pedra e madeira.

            Em 1935 reside em Granada, Espanha, onde apaixona-se pelos arabescos geométricos do castelo de Alhambra, construído pelos árabes, e do estudo dos arabescos Escher desenvolve um estilo próprio, empregando brincadeiras com a geometria para ampliar a percepção e expandir a consciência por meio da arte.

            Incompreendido pela crítica de sua época, Escher escreveu artigos tentando explicar o inexplicável: um trabalho inovador e fora dos parâmetros previsíveis, obra coerente e original ao extremo, genialidade que hoje é “Cult” e clássico entre quem sabe apreciar a arte.

            Em um artigo sobre artista gráfico e artista plástico, Escher explicou que a vida só pode ser percebida pelos contrastes, e esta paixão quase barroca espanhola leva Escher a explorar o que a Psicologia da Gestalt chama lei da Figura-Fundo, contrastando massas pretas e brancas em gravuras com anjos e demônios, por exemplo, onde a consciência foca a figura dos anjos enviando os demônios como fundo subliminar, entre tantas outras.

            Por vinte anos Escher pesquisou cristalografia, a estrutura dos cristais (lembrando que o elemento carbono é a origem dos diamantes e da vida orgânica na Terra) e a refração da luz pela física óptica, além de estudar astronomia desenhando detalhados mapas estelares do céu noturno; chegando a desenvolver teorias próprias sobre cristais e estrelas que contribuiram para que desenvolvesse uma nova perspectiva na qual as linhas paralelas em um ponto do espaço tornam-se convergentes a um ponto de fuga piramidal; como se olhando sob fios de um poste telegráfico, deslocando a cabeça até o ponto em que as linhas paralelas correm para o horizonte.

            Escher afirma que seus contrastes e paradoxos visuais buscam causar um “salto” de percepção no observador-fruidor-público, questionando a realidade física, o continuum espaço-tempo, efetuando metamorfoses inesperadas entre formas de vida diversas e até elementos inorgânicos, além de imagens que encaixam-se umas nas outras reduzindo-se ao infinito (o que antecede em 1940 o que viria a ser a geometria fractal de Mandelbrot de 1980).

            Sempre dasafiando os limites, bordas e fronteiras, Escher cria uma arte delirante, diferente, subliminar, que atinge intensamente todos os que detem-se para sentir longamente seus paradoxos e impossiblidades visuais. Idéias e símbolos místicos e esotéricos preenchem sua obra discretamente, e Escher escreveu confirmando que depois de prontas descobria nas gravuras axiomas místicos como “o que está acima é como o que está abaixo” os quais eram ilustrados e demonstrados visualmente, evidências esotéricas iniciáticas de arquétipos do Inconsciente Coletivo..ouroboros, espirais, sinais zodiacais e cabalísticos, caveiras iconesas subliminares e camaleões cósmicos povoam as obras.

            Combinando e cruzando a Teoria Gravitacional de Newton com a Relatividade de Einstein e com imagens religiosas persas, egípcias, chinesas, etc…como conteúdo e como forma a geometria dos cristais e das mesquitas mouras, Escher surpreende o leitor atento a cada imagem com um desfile desafiador de impossiblidades que falam por sí, um discurso para quem abre bem os olhos.

            Consciente, Escher explica sua obra entre arte e ciência: “Minhas imagens requerem explanação por que sem isto elas permanecem muito herméticas”.

            Escher contava histórias em imagens, nas quais o espectador encontra a sí próprio refletido, suas próprias dúvidas e inquietações cósmicas sobre crescimento e metamorfose projetadas nas figuras.

            “O construtor, o arquiteto, nada mais é do que um escravo da gravidade” provoca Escher em outro texto.

            A gravitação de Newton é questionada nas perspectivas impossíveis de cachoeiras em castelos e escadarias múltiplas que inspiram até abertura de telenovelas de Hans Donner na Rede Globo de Televisão.

            O ritmo de suas gravuras é musical, ele mesmo pergunta-se: “É possível comparar a imagem visual com o som audível?”.

            Em uma crítica ao racionalismo, Escher mostra desenhos perfeitos em seus detalhes mas escondendo truques de perspectiva ilógicos em um desafio à razão, Koans, paradoxos visuais convidando a transcender a mente e os estreitos limites da lógica.

            Desafiando a Biologia, Escher cria o “Bicho-rodapé” como um tatú de seis patas que enrola-se sobre sí mesmo em espiral para andar, imagem de desenho animado.

            Incompreendido e isolado, fazendo imagens muito à frente de sua época, Escher cria um universo que esconde uma complexa superpopulação variada e rica como reflexo de seu mundo interior sensível e avançado, racional mas transcendendo os limites da razão.

            Escher demonstra que a arte tem um poder visual de ampliar os horizontes da nossa percepção da realidade, e hoje sua obra é estudada em faculdades de arquitetura e ilustra livros de física teórica.  

 

 

 

 

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