Arquivos Diários: 11 abril, 2009

PREFÁCIO em ARTHUR RIMBAUD – por jean cocteau

É uma honra para o nosso país que uma obra fechada como a de Arthur Rimbaud domine com a mesma intensidade que a obra semifechada de um Charles Baudelaire ou a obra tão clara de um Victor Hugo. Como os pintores que se destacam não pelo modelo que escolhem mas pela maneira como o pintam, o milagre de Arthur Rimbaud depende menos de suas revoltas e do que dele disse Claudel, “Um místico em estado selvagem”, que do fato de ele ter feito a idéia nascer do verbo, enquanto antes dele o verbo se colocava a serviço da idéia.

Apollinaire falava sempre do poema-acontecimento, do verso-acontecimento. Acontece, por exemplo, que um poema um pouco convencional de Baudelaire pode se erguer do chão e levitar pela força de um único alexandrino.

Em Guillaume Apollinaire, uma gota de tinta que treme na extremidade de sua pena cai marchetando uma página que, sem essa mancha requintada, estaria ameaçada pela monotonia.

É isto que torna os poetas intraduzíveis. Não compreendemos nada de Puchkin, a não ser a certeza secreta de um ritmo de feitiçaria que ele tirava de uma gota de sangue negro.

Mas o rimbaldismo é universal. Sua fosforescência atravessa a barreira das línguas.

Poderíamos temer que as tempestades do casal Verlaine/Rimbaud fossem se chocar contra a glória, que é mulher. Uma vez mais a moral inclina-se diante do gênio, pois o gênio não é senão o fenômeno que consiste em santificar os erros escritos, pintados ou vividos.

É verdade que uma celebridade tão grande quanto a de Rimbaud não se faz sem controvérsias. As inumeráveis vítimas do séquito se empenham em perpetuar um certo comportamento, uma certa insolência rimbaldianos, sem imaginar que, se este aspecto foiconsiderável, foi por causa de um emprego novo da sintaxe que diviniza aos meus olhos “Bonne pensée du matin” e faz “Ma bohème”, “La rivière de Cassis”, “Bruxelles”, “Mémoire” ocuparem um lugar em meu panteão íntimo com a neve que escorrega pela manga de seda preta do príncipe Gengi.

São nesses poemas que Rimbaud conserva a invisibilidade da elegância.

Eu sempre disse que uma criatura de algum planeta mais evoluído que o nosso poderia talvez zombar de Einstein, mas não poderia zombar nem de Van Gogh nem de Cézanne.

Nesse campo de uma força que escapa à análise e aos progressos da ciência, Arthur Rimbaud representa um terrível explosivo. Um raio de abril, uma arma, um heroísmo que se opõem à idéia toda feita do heroísmo e das armas.

É isso que me autoriza a terminar estas linhas copiando, à intenção da paz no mundo e de Rimbaud, um desejo que eu formulava em 1915 no Discours du Grand Sommeil:

Laurier inhumain que la foudre
D’avril te tue.*

P.S.  Se não falo de Marselha em 1891 é porque esse período me é intolerável. Faz-me sofrer muito.

Sempre afirmei que não é verdadeiramente poeta quem não erra. Aqui a regra ultrapassa os limites. Mas é preciso ver na amputação uma prova do combate com o anjo e do amor feroz das Musas, semelhante ao da louva-a-deus que devora o macho.

“Eles detestam a beleza quando ela é feia. Eles adoram a feiúra quando ela é bela. Nisto está todo o drama!”

É da fabulosa herança de alguns artistas, mortos na miséria, que todos nós vivemos. Quis o destino que um jovem poeta desconhecido contradissesse os filhos-de-papai que somos e descobrisse o segredo de um novo mártir.

* Louro inumano que o raio/De abril te fulmine.


 

BOURDIEU, O CAMPO ERUDITO E A SEMANA DE 22 – editoria

O Campo da Arte e da Produção Erudita

 

            Segundo Pierre Bourdieu um campo se constitui quando ele ganha autonomia em relação a outros campos, ditando suas próprias regras e padrões. O campo artístico definiu-se em oposição ao campo econômico, ao religioso e ao político. O artista ganha autonomia ao se libertar de seus patronos burgueses, a Igreja e as cortes.

            Tal fato ocorreu  por volta do século XV, com a invenção da imprensa, que aumenta o alcance da obra, principalmente o da literatura. A função artística antes associada à religião (a maioria das obras das pinturas na época ainda eram ligadas a religião) e ao poder político ou econômico. Artistas que antes produziam obras que tinham de ter uma função estética exigida pelo patrono ganharam autonomia para produzir arte enquanto tal. Bourdieu comenta sobre esse fenômeno:

 

Embora a vida intelectual e artística estivesse sob a tutela, durante toda a Idade Média, em grande parte do Renascimento e, na França, com a vida na corte, durante todo o período clássico, instâncias de legitimidade externas, libertou-se progressivamente, tanto  econômica como socialmente, do comando da aristocracia e da Igreja, bem como de suas demandas estéticas.[1]

 

Ainda afirma:

Destarte, o processo de autonomização da produção intelectual e artística é correlato à constituição de uma categoria socialmente distinta de artistas ou de intelectuais profissionais, cada vez mais inclinados a levar em conta exclusivamente as regras firmadas pela tradição propriamente intelectual ou artística herdada de seus predecessores, e que lhes fornece um ponto de partida ou um ponto de ruptura, e cada vez mais propensos a liberar sua produção e seus produtos de toda e qualquer dependência social (…).[2]

 

Cabe ressaltar que esse momento se dá através de uma nova relação do artista com o não-artista e com outros artistas. Essas novas relações, estão associadas a industria cultural e a produção erudita respectivamente. Isso não quer dizer que uma obra de cunho erudito não possa atingir não-artistas, mas que primeiramente ela é formulada com vistas aos pares.

A relativa independência dos artistas aumentou cada vez mais a parti da revolução industrial. A produção cultural em massa conseguiu difundir ainda mais os “produtos” artísticos o que teve dois resultados distintos. Um deles é a constituição de uma economia de bens simbólicos no mercado, com produção artística em grande escala sendo vinculada em folhetins, revistas e outros meios. O outro foi a constituição de um grupo de indivíduos que estabelecem a regra do campo, se constituindo não em artistas ordinários, mas representantes e juízes de uma tradição artística. Ou seja, instaura-se “uma dissociação entre a arte como simples mercadoria e a arte como pura significação, cisão produzida por uma intenção meramente simbólica e destinada à apropriação simbólica”[3].

A respeito da constituição deste campo artístico erudito, gostaria de abordar um fato histórico nacional, a Semana da Arte Moderna, de 1922, pois constitui um cisma entre um padrão artístico que vigorava desde o final do século XIX e um novo padrão que reivindicava liberdade e reconhecimento no campo. É um caso que ilustra muito bem “a estrutura e o funcionamento da produção erudita”.

 

A Semana da Arte de 1922

(…) o campo da produção erudita tende a produzir ele mesmo suas normas de produção e os critérios de avaliação de seus produtos, e obedece à lei fundamental da concorrência pelo reconhecimento propriamente cultural concedido pelo grupo de pares que são, ao mesmo tempo, clientes privilegiados e concorrentes”

 

A semana da Arte Moderna aconteceu na cidade de São Paulo de 11 a 18 de fevereiro de 1922. A exposição apresentava uma série artes plásticas, palestras sobre a modernidade, declamação de poesias e apresentações musicais. Os artistas participantes foram Mário de Andrade e Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, entre outros.  

Os artistas que idealizaram a semana propunham um rompimento com a estética vigente e por isso trouxe desconforto para or artistas consagrados da época. Na Europa o processo de mudança de padrão estético já vinha acontecendo e o que esses artistas fizeram foi fazer promoção desses novos padrões. As principais influências foram do cubismo, expressionismo e futurismo. A exposição teve grande imapacto na época, no entanto impacto negativo.

 

Isso ocorreu porque, segundo Bourdieu, as obras produzidas no campo erudito são, geralmente, inteligíveis para o público não-artista. Com isso os crtiticos, dotados de um reconhecimento, leêm as obras e indicam o que é bom e o que é ruim para o público. Acontece que há uma relação entre esses críticos e os artistas. Dessa maneira constitui-se uma arena fechada para a consagração, na qual só participa da disputa os que são legitimados por esses “juízes” que tem de forma subjetiva os critérios de classificação.

Um dos momentos onde fica mais clara a tentativa dos modernistas de entrar no campo, estabelecendo uma nova elite artistica, foi o poema “Sapos” de Manuel Bandeira, crítica ao Parnasianismo, que abriu a exposição e foi seriamente criticado.

A poesia parnasiana caracteriza-se pela sacralidade da forma, pelo respeito às regras de versificação, pelo preciosismo rítmico e vocabular, pela rima rica e pela preferência por estruturas fixas, como os sonetos. O emprego da linguagem figurada é reduzido, com a valorização do exotismo e da mitologia. Os temas preferidos são os fatos históricos, objetos e paisagens. Era a verdade arte pela arte, porque, segundo seus autores a poesia deve existir por si só, não dependendo de sentimentos. Entre seus adeptos havia Olavo Bilac. A seguir poesia de Olavo Bilac a respeito da língua portuguesa, Última Flor do Lácio:

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

          O Parnasianismo se constitui um bom exemplo a respeito do  campo erudito pela rigidez exigida pelos autores a respeito da métrica e dos temas tratados. E para criticar tal rigidez, o poema de Manuel Bandeira:

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
– “Meu pai foi à guerra!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:
– “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
– A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

 

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…

           

O poema todo é uma afronta ao quebrar todo o padrão proposto pelos parnasianos e ainda ao criticá-los abertamente. Os artistas da Semana da Arte Moderna conseguiram o reconhecimento só com o tempo, tendo a exposição grande importância histórica em questões de contestação, de reclame de identidade cultural nacional e outros aspectos.

            Mais importante para o nosso estudo de cultura, a Semana de 22, mostrou que artistas disputam um campo no qual se briga constantemente pela sua arbitragem. Quem permanece no campo é quem dita as regras para que se faça parte dele, mas um rompimento através da constituição de uma consciência coletiva também é possível. Foi por causa desses artistas que procuravam quebrar a vanguarda que tivemos nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Tarsila do Amaral e outros artistas hoje consagrados, que possivelmente não teriam valor nenhum caso permanecessem os valores do século XIX no campo.

 


[1] Bourdieu, Pierre. O mercado de bens simbólicos. In: Sergio Micelli (org.), Ed. Perspectiva, São Paulo, 2004, cap. 3 p. 100

[2] Idem, p.101

[3] Ibidem, p. 103

 

TRANÇAGEM – poema de jairo pereira

 

 

 

No cesto trançado

da fala

o ímpeto do fazer

construir

a poesia trançada

com as mãos

adornada com as  cores

da mata extinta

pintada à argila fresca

da beira do rio.

A poesia, cesto

de sentenças úrbicas

suspensa

nas árvores do pensar

pensado

o pensamento trançado

de fio a fio, nó em nó

no tempo

cesto trançado das idéias idas

revividas idéias vindas

das altas fontes do saber

redescobrir

de instintos produtivos.

Pés nus no chão de espinhos palavra

sobre palavra, signos entre

signos

tranço o cesto de meu viver, palavra

fagulhas do fogo aceso

do criar

transpasso a trança do terçado.

No cesto trançado do meu dizer

cabem todos os mundos

da palavra

a santa que satisfaz, a pura,

a odiosa a renomada, a bem aventurada, a que engana

o artífice na poesia.

Palavras, vozes que soam

no cesto trançado da fala

dentro dos ossos

antigos dos conceitos

:primitivas aparições:

LAVRADOR DE OUTONOS poema de joão batista do lago

Chegado é o tempo da colheita!

Há muitos frutos para se colherem

Depois dum verão causticante (e)

Antes que o inverno de águas torpes

Carregue para o leito das correntes

Toda beleza das rosas e das flores.

 

Venho dos campos de terras tombadas

Ardidas e calcinadas por mãos assassinas

Onde se plantaram o fogo do madeiro

Hoje a cruz de cinzas que volatiza a vida

Transformando todos os frutos em carvão

Enferrujando a lavoura e a água e o sal.

 

Lavrei-me de todas essas rudezas (e)

Diante do altar de todas as plantações

Viscerálgico como carpideira solitária

Fui carpindo uma a uma minhas dores

Plantando em cada semente visionária

A possibilidade de me ser toda floresta.

 

Todo o fruto da terra que ainda me resta

Colho-o com as mãos duma criança

Para comê-lo com o sabor da esperança

Visceral diante do altar da vida

Como se fora a última hóstia dos mortais

Para queimar o fogo dos dias finais.

 

Talvez assim – quem sabe! – o fogo pagão

Aprenda a arar a terra de todos os campos

Salvar todas as nascentes de qualquer Jordão

Capaz de banhar a vida com todos os encantos

Gerados do ventre da terra… E ao final

Cantar o terço numa oração de bem-aventurança.

 

SONHOS E DESEJOS poema de rosa mel

O sonho que eu sonho
Dou para ti em desejo
E em corpo eu deponho
O desejo que almejo

Estar em teus braços
Sedentos de amor
Mirando-me os traços
Tremulos de ardor

Derreto em teu corpo
Quente e aconchegante
É este o meu porto
Onde fico estonteante

Abrasador e envolvente
Mergulhado em minh’alma
Absorvente e carente
Onde busco a minha calma

Por entre corpos enroscados
Sem começo e nem fim
Pernas e braços entrelaçados
E a ternura brotando em mim

Muito grande esse tesão
Que por ti eu sinto e quero
E eu desperto num repelão
A mulher ardente e espero

Que ventura me cobrir
Com beijos apaixonados
No amor e no servir
Vivendo entrelaçados

COM O DIABO LÁ DENTRO! por ubirajara passos

A frase é um dos lugares comuns mais batidos, ainda que sempre hilário e chamativo: “moço, ele tá com o diabo no corpo” (ou no couro, dependendo da região ou contexto sócio-cultural em que é pronunciada). E nos dá conta de uma realidade, aparentemente, irrefutável, autônoma e sem maiores matizes: o sujeito foi “possuído” (no sentido mais ingênuo e simplório possível) pelo demônio e pronto! Não há mais o que explicar, questionar ou conjecturar. Salta aos olhos a visão do cara furibundo, a baba a escorrer de uma boca furiosa que profere os mais cultos e ferinos impropérios, ou debochados e “pornográficos” xingamentos; os olhos normalmente esbugalhados, o corpo tenso como um tronco de árvore, os membros a se movimentar de forma rápida e ríspida.

Mas o que eu não conhecia ainda, até umas três semanas atrás, é a versão sofisticada e insinuante do adágio. Uma estagiária, que segundo alguns é a versão “feminina” (com todas as qualidades clássicas prováveis que o adjetivo encerra) do Peruca, me entrou, outro dia, em pleno cartório, com aquele ar de quem havia visto o capeta e, tão circunspecta quanto um humorista inglês, nos contou que uma parte em disputa com outra numa audiência do Juizado Especial Criminal (aquele setor que, entre coisas, atende majoritariamente às reclamações do povão a crimes do tipo: “doutor, minha vizinha me chamou de corno”) lhe havia avisado, aos gritos: “moça, é bom chamar os brigadianos (os policiais militares do Rio Grande do Sul) que ela tá com o diabo lá dentro!”.

Juro que se não fosse o tom de humor contido da minha cara estagiária, eu não teria dado maior bola à frasesinha, tomando-a por sua irmã similar e mais comum, e teria continuado a maldita e insossa rotina dos cálculos judiciais – coisa, que no início é até interessante, mas depois de vinte anos se torna mais banal e sem graça que aquela matrona com que o leitor se casou aos quinze anos, gatinha linda, gostosa e doidona, e agora, aos sessenta, se tornou rabugenta e horripilante, o verdadeiro dragão do inferno.

O inusitado da situação, entretanto, despertou-me a atenção para a versão fora do comum da coisa. “Com o diabo lá dentro!?”. Antes de mais nada, dentro de quê? Se estar com o diabo no corpo é algo inespecífico, que não anima muitas dúvidas, o “lá” deixa a entender um órgão bem delimitado, de onde se extrai as mais diversas e estapafúrdias hipóteses!

“Lá” dentro onde? Na buceta, o que pode ser uma resposta tremendamente entusiasmante para os mais inveterados tarados, boêmios ou simples amantes da coisa mais gostosa e linda que a natureza criou como eu? Ou simplesmente no fígado, no pulmão nos rins, caso em que a possível conseqüência, além das obviamente supostas (como no útero, quando poderá, segundo os badalados filmes yankees nascer o anti-Cristo de uma “Rosimeri” qualquer, ou até mesmo o clone do Inácio dos Noves Dedos), pode tanto ir de um devastador câncer a um incremento dos portadores da peste emocional fascista. A idéia de se localizar no cérebro, ou no coração não é muito criativa, já pressuposta na expressão “diabo no couro”, mas, para os cornos mansos, “ter o diabo nos cornos” pode até servir de alguma coisa…

Porém, a coisa não fica por aí. Se está lá dentro por onde (e como) entrou? Sabendo que as possíveis respostas da anatomia (excetuada a capacidade de atravessar matéria sólida) envolvem não mais que uns sete buracos, dos quais pelo menos uns três se prestam à mais safada orgia, devemos crer que não se trata, provavelmente, de um diabo qualquer (se bem que “entrar o diabo pelo cu” é algo meio “vulgar), brigão e impertinente como chefe de repartição pública e maldoso e intrigueiro como puxa-saco de patrão, mas “O Diabo”, com todas as qualidades que justificam sua fama de rebelde e imoral perante o moralismo judaico-cristão, assim como a seus congêneres greco-romanos (Dionísio e Baco), africanos (Exu e seus comandados) ou islâmicos (os djins, gênios não necessariamente identificados com o mal, mas que fogem ao controle da razão burocrática ocidental). Ou seja, um diabo folgazão, putanheiro e sem-vergonha, e, dependendo do possuído, até adepto da Marcha do Orgulho Gay!

Seja como for, o pior de tudo é saber como tirá-lo de “lá”. Afinal, contra um capeta tão sofisticado e especializado (que bem poderia se enfiar no núcleo básico de formação da matéria e energia e criar meios de destruição, ou de transformação inusitada, do mundo “concreto” que conhecemos bem mais complexas que as bombas nucleares ou os pretensos poderes para-normais ou a alquimia) não é qualquer exorcismo de padre gagá, broxa e/ou pedófilo que resolve! E muito menos a atitude bronca e direitosa de qualquer comandante de polícia militar estadual enfrentando revolucionários de palhaçada por aí a fora… Presumo que para expulsar este tipo de entidade infernal somente uma overdose do prazer maior que justifica sua localização na parte precisa do corpo pode surtir efeito! Isto se não for um diabo viciado. Porque aí não tem jeito mesmo.

Seja como for, fica lançado o desafio aos leitores que se animarem a comentar esta crônica: onde é mesmo que o diabo se encontra, por onde entrou e como é que vai sair?

UM MUNDO DE COITADINHOS por philio terzakis

Dia desses, assisti ao tão falado documentário “O segredo”, da australiana Rhonda Byrne.

Pra quem não sabe, é o tal filme da polêmica, que fala da lei da atração universal: pensamento positivo atrai coisa boa, e pensamento negativo atrai coisa ruim (grande novidade!).

É um trabalho interessante pra quem nunca ouviu falar do poder da mente e quer aprender um pouco sobre o assunto. Quem já estuda o tema pode achar o filme superficial e materialista.

Já os anti-auto-ajuda vão vomitar.

Pra esses, ninguém pode dizer: “Vamos lá! Mude sua vida! Você pode! Tente pelo menos! Acabe com esse casamento que não funciona! Largue esse emprego do qual você não gosta! Sua vida é você quem faz! Faça um esforço, puxa!, em vez de ficar aí se lamentando nesse buraco!”.

Não, não. É coisa feia e tola de se dizer. É de dar vergonha, né? Em nosso mundo, o pessimismo e a crítica são muito mais chiques que o otimismo. Cabra inteligente não sai por aí dizendo que o mundo é lindo. Isso é coisa de gente burra, desse povo que lê livro de auto-ajuda.

Mas de se fazer de vítima, ninguém tem vergonha, né? De dar uma de coitadinho e acusar os outros das próprias misérias, todo mundo gosta e acha inteligentíssimo. Eu nem sei como o mundo agüenta essa superpopulação de coitadinhos. Todos são vítimas de tudo: do Estado, da crise econômica, do chefe, do marido, da esposa, dos filhos, dos países imperialistas, da televisão e de quem mais chegar.

É tanta inocência, Meu Deus! É tanto “eu não tenho nada a ver com isso”! Ô, tadinhos! Será que se criam?

Perfeitamente compreensível. O que é mais fácil: acusar os outros ou tentar mudar a si mesmo? Precisa responder? Se eu posso reclamar, porque danado vou fazer um esforço e tomar decisões radicais e enfrentar meus medos e talvez até, Meu Deus!, que terror!, quebrar a cara? E na frente de todo mundo!!!

Não. Melhor ser um coitadinho, né? E botar a culpa no Lula. Ou em qualquer outro aí, que esteja de bobeira, disposto a carregar o peso da minha ignorância, da minha preguiça e da minha covardia.

Quanto ao termo “auto-ajuda”, eu o acho até interessante, embora meio redundante. Que tipo de ajuda não é auto? Qualquer ajuda começa dentro da gente. Nem que seja pelo simples fato de pedir ou de aceitar uma ajuda.

 

AS MELHORES FRASES DOS PIORES ALUNOS

 

-O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra!

 

-O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.

 

-O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia, praticamente, toda a gente tem um.

 

-Quando o olho vê, não sabe o que está vendo, então ele Amanda uma foto eléctrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.

 

-O nosso sangue divide-se em glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e até verdes!

 

-Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.

 

-O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.

 

-O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.

 

-Antes mesmo da guerra a Mercedes já fabricava Volkswagen.

 

-Pedofilia é o nome que se dá ao estudo dos pêlos.

 

-O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0.

 

-Nos aviões, os passageiros da primeira classe sofrem menos acidentes que os da classe economica.

 

-O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebê. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.

 

-O homossexualismo, ao contrário do que todos imaginam, não é uma doença, mas ninguém quer tê-la.

 

-Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.

 

-O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.

 

-Na segunda guerra mundial toda a Europa foi vítima da barbie (queria dizer, decerto, barbárie) nazi.

 

-Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica.

 

-O hipopótamo comanda o sistema digestivo e o hipotálamo é um bicho muito perigoso.

 

-A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.

 

-Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.

 

-Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.

 

-Quando os egípcios viam a morte a chegar, disfarçavam-se de múmia.

 

-Uma linha reta deixa de ser reta quando encontra uma curva.

 

-O aço é um metal muito mais resistente do que a madeira.

 

-O porco é assim chamado porque é nojento.

 

-A fundação do Titanic serve para mostrar a agressividade dos icebergs.

 

-Para fazer uma divisão basta multiplicar subtraindo.

 

-A água tem uma cor inodora.

 

-O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe.

 

-A idade da pedra começa com a invenção do Bronze.

 

-O sul foi posto debaixo do norte por ser mais comodo.

 

-Os rios podem escolher desaguar no mar ou na montanha.

 

-A luta greco-romana causou a guerra entre esses dois países.

 

-Os escravos dos romanos eram fabricados em África, mas não eram de boa qualidade.

 

-O tabaco é uma planta carnívora que se alimenta de pulmões.

 

-Na Idade Média os tratores eram puxados por bois, pois não tinham gasolina.

 

-A baleia é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios.

 

-Quando dois átomos se encontram, vai dar uma grande merda.

 

-Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai completamente molhado.

 

-Newton foi um grande ginecologista e obstetra europeu que regulamentou a lei da gravidez e estudou os ciclos de Ogino-Knaus.

 

-Pergunta: Em quantas partes se divide a cabeça? Resposta: Depende da força da cacetada.

 

-A trompa de Eustáquio é um instrumento musical de sopro, inventado pelo grande músico Belga Eustáquio, de Bruxelas.

 

-Parasitismo é o fato de um cara não trabalhar e viver à custa dos outros, de dinheiro, cigarros e outros bens materiais.

 

-Ecologia é o estudo dos ecos, isto é, da ida e vinda dos sons.

 

-A Biologia é o estudo da saúde. E para beneficiar a saúde é que foi inventado o biotonico.

 

-As constelações servem para clarificar a noite.

 

-Ao princípio os índios eram muito atrasados mas com o tempo foram-se sifilizando.

 

-O Convento dos Capuchos foi construído no século 16 mas só no século 17 foi levado definitivamente para o alto do monte.

 

-A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.

 

-A Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puxada por dois cavalos.

 

-As aves têm na boca um dente chamado bico.

 

-A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.

 

46850coala primo irmão da “preguiça”. foto livre.

NO ESCURINHO DE LISBOA por alexandra prado coelho (Portugal)

DEFICIÊNCIA E ORIENTAÇÃO SEXUAL

Deficiência visual

 

Na escuridão temos que nos socorrer dos outros sentidos. Distinguimos sons que nunca ouviríamos antes, surpreendemo-nos porque os olhos não nos avisaram

que os nossos dedos iam tocar em algo frio ou molhado ou rugoso, identificamos locais pelo cheiro, tentamos perceber sabores de alimentos sem cor. Duas experiências – um passeio por Alfama e um jantar de cozinha molecular – às escuras em Lisboa.

a Confiança cega. Agora percebemos exactamente o que a expressão quer dizer.
Agarramos o braço do guia, logo acima do cotovelo, e vamos caminhando, passo inseguro, venda nos olhos, de vez em quando um braço à frente, tacteando o ar. “Cuidado, não gesticules tanto, ias batendo na cara de um senhor”, avisa Tiago. É ele o nosso guia nesta visita do projecto Lisboa Sensorial, uma ideia do estúdio criativo Cabracega, em colaboração com a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), os Lisbon Walkers, e a Associação do Património e da População de Alfama (APPA).
Nas ruas estreitinhas de Alfama esse é um risco grande. As pessoas desviam-se, mas pode não haver espaço suficiente e podemos, inadvertidamente, atingir alguém. O melhor é manter os braços baixos afastando-os só um pouco do corpo para sentir a parede, o corrimão, as grades de uma janela, uma porta. Depois vamos aprendendo. Um bruáaa significa que passámos em frente de um café – ouvem-se pedaços de conversa, frases soltas – depois percebemos que a parede recomeçou, mais à frente é o olfacto que nos ajuda, o cheiro revela que é um talho.
“Podes baixar-te”, diz o guia. “O que é isto?”. É peludo, tem temperatura de ser vivo e mexe-se. “Um cão?”. Acertámos. Mas onde está a cabeça? “É do lado oposto a esse”. Ahhh….
A experiência é sensorial a todos os níveis à excepção de um. “Esqueçam os olhos”, pede Carlos, o guia cego da ACAPO, no início da visita. De qualquer forma não temos alternativa. Com a venda posta perdemos aquele que é, muitas vezes sem termos real consciência disso, o sentido em que mais confiamos.
Tentamos então recorrer à memória que temos das ruas de Alfama e procuramos traçar um mapa mental do caminho que estamos a percorrer. Se virámos à esquerda devemos estar a entrar naquela rua que sobe, de repente o ar muda, os sons alteram-se e estamos num largo. Ah, deve ser o largo tal, mas quando tentamos confirmar, perguntando, descobrimos que o nosso sentido de orientação (que não é grande coisa, admitamos) nos deixou ficar mal.
Antes de começarmos o passeio tinham-nos sido dadas algumas instruções básicas. Um braço do guia atravessado em frente da nossa barriga significa que temos que parar, provavelmente porque há escadas para descer. E se for numa rua estreita temos que nos pôr em fila indiana, mão direita no ombro de quem vai à nossa frente. Depois os pés tacteiam o chão, deslizando prudentemente até ao que parece ser o degrau.
Ar fresquinho Quando o piso incerto de Alfama se torna, subitamente, liso debaixo dos nossos pés, isso quer dizer alguma coisa. “O adro de uma igreja”, lança alguém.
Era. Já distinguir tipos de árvores pelas rugosidades do tronco e o formato das folhas é um trabalho para especialistas. Mas perceber que estamos agora junto ao gradeamento de um miradouro é mais fácil, quanto mais não seja pelo ar fresquinho que nos dá na cara e por os sons parecerem vir de muito longe, lá em baixo.
Mais à frente atravessamos uma zona com muita gente, sentimos os corpos a passarem ao nosso lado, desviamo-nos sem saber se o estamos a fazer para o lado certo. “Há um grupo de turistas que está a olhar para nós com um ar espantadíssimo”, conta Tiago. Isso é o que menos nos incomoda. Não vemos as expressões de espanto nos rostos deles – é como se não existissem. “Para vocês é uma vantagem”, explica Tiago, a rir. “A pressão social fica toda connosco”.
Os guias continuam a conduzir o grupo que, às apalpadelas, lá avança por Alfama. Desta vez entramos num sítio coberto e tocamos em algo informe e molhado.
É uma peça de roupa num tanque num lavadouro público. Tacteando o rebordo do tanque, avançamos até ao estendal e tentamos, pelo formato, distinguir as peças de roupa penduradas. É tempo de nos sentarmos e ouvirmos Carlos explicar como, sem ver, escolhe a cor da roupa que quer vestir.
Mais à frente, Carlos há-de tocar fado, claro, mas também modinhas brasileiras. E no fim, de olhos ainda vendados, iremos testar o paladar, o sentido que ainda nos faltava. Parece tão evidente aquele sabor, mas porque é que não o conseguimos identificar?
A refeição Mas essa é uma pergunta que já tínhamos feito inúmeras vezes na noite anterior. Estávamos no restaurante Bem-me-Quer, junto à Praça do Chile, em Lisboa, e… não víamos absolutamente nada. Foi um Jantar Sensorial, antes do passeio sensorial por Alfama. A ideia é de Paula Cascais, dona do Bem-me-Quer e inspira-se no já famoso restaurante Unsicht Bar de Berlim, onde se come às escuras.
Agora, às quintas e sextas à noite, isso também é possível em Lisboa. Por enquanto, Paula só aceita grupos reduzidos, para ver como resulta, e para deixar Ana Serôdio adaptar-se à sua nova tarefa. Ana é cega desde os cinco anos e nunca tinha servido à mesa num restaurante. Mas aqui é ela quem, de todos nós, mais à vontade está na escuridão total da sala. Há uma música de fundo baixinha, mas como nada nos distrai a vista sentimos mais intensamente o silêncio da sala, e isso leva-nos a conversar de uma mesa para outra. Entrámos ali como desconhecidos, mas, no “escurinho do restaurante”, falamos como velhos amigos, fazendo perguntas a Ana, que, com infinita paciência, responde a tudo. Sim, em casa é ela quem cozinha, não, não tem medo de usar facas, sim, ficava sozinha com a filha quando ela era pequena, sim trabalhou 17 anos num banco e agora está a tirar um curso de informática, não, Lisboa não é uma cidade adaptada a cegos. “Às vezes sinto-me mesmo revoltada, tento controlar a revolta, mas é difícil quando vou na rua e há tantos obstáculos que não nos deixam passar”.

Foi por causa disso que Paula pensou neste projecto. Tinha à porta do restaurante dois grandes vasos com plantas e só quando viu um programa sobre os obstáculos que os cegos enfrentam nas ruas é que pensou “ai, os meus vasos”. Depois falou com a ACAPO e descobriu a Ana. Mas um jantar às escuras não lhe parecia suficiente para clientes que já conheciam bem a cozinha vegetariana do Bem-me-Quer, por isso decidiu entrar não numa mas em duas aventuras simultâneas:
o que comemos às escuras é cozinha molecular, feita pela Paula em colaboração com o Cooking Lab.
Descobertas A primeira descoberta é a de que, se não as virmos, decoramos mais facilmente o nome das pessoas. O nome e o som da voz são as referências a que nos agarramos quando, sentados à mesa no meio da escuridão, não nos podemos socorrer de olhares e gestos – se nos queremos dirigir a alguém temos que o chamar pelo nome.

À nossa frente quando nos sentamos está já uma taça com alguma coisa lá dentro. O truque, aprendemos rapidamente, é começar por tentar perceber o formato do recipiente. No restaurante da Paula pode ser de muitos formatos, redondo, quadrado, semi-oval, quadrado pequenino. No caso desta entrada, a ideia é pegar-lhe com a mão e levá-la à boca. Não ter o cérebro a enviar-nos mensagens sobre o que os nossos olhos acabaram de ver e a preparar as nossas papilas gustativas para um sabor que guardamos na memória faz toda a diferença.
Quando a comida chega à boca não temos nenhuma informação sobre ela. Começa o jogo de detectar sabores, perceber formas. Chegam depois três copos, dois quentes e um frio. São sopas com sabores inéditos. A seguir vem o prato principal, ou melhor, os três pratos que compõem o principal, e o desafio é cada vez maior. Os dedos percorrem a margem dos pratos, depois deslizam cautelosamente até ao interior. Não há facas nem garfos, mas uma colher, com a qual percorremos o fundo dos pratos tentando perceber se nos escapou alguma coisa. Tornamo-nos mais intuitivos.
Na escuridão a conversa continua. Mantemos hábitos inúteis – viramos na direcção de quem fala e pomos uma expressão de quem está a ouvir com interesse.
Mas acenar com a cabeça ou sorrir em silêncio não resulta. É preciso falar.
As sobremesas são supreendentes. Uma delas faz estalinhos na nossa boca e o som, como pipoquinhas a estalar, ouve-se claramente na sala.
Ana aproxima-se mais uma vez. Tocando levemente na mesa e no nosso braço localiza o prato e levanta-o. Depois, com os mesmos gestos serenos, traz-nos um chá. O jantar está a acabar. Tivemos sempre os telemóveis desligados e não fazemos ideia de que horas são.
A comida estava deliciosa. Mas para o sabermos foi preciso arriscar.
Confiança cega. Agora sabemos o que isso é.

Lisboa Sensorial – Passeios às cegas por Alfama 26 de Julho às 11h (provavelmente serão retomados em Setembro) Sujeito a marcação prévia (máximo de 8 participantes) Preço: 20 euros (reverte inteiramente para a ACAPO) Telf: 913806479

Jantar Sensorial Restaurante Bem-me-Quer Av. Almirante Reis nº 152 r/c e 1º esq.
Quintas e sextas-feiras (por marcação) Preço: 40 euros Telf: 218476678