LAVRADOR DE OUTONOS poema de joão batista do lago

Chegado é o tempo da colheita!

Há muitos frutos para se colherem

Depois dum verão causticante (e)

Antes que o inverno de águas torpes

Carregue para o leito das correntes

Toda beleza das rosas e das flores.

 

Venho dos campos de terras tombadas

Ardidas e calcinadas por mãos assassinas

Onde se plantaram o fogo do madeiro

Hoje a cruz de cinzas que volatiza a vida

Transformando todos os frutos em carvão

Enferrujando a lavoura e a água e o sal.

 

Lavrei-me de todas essas rudezas (e)

Diante do altar de todas as plantações

Viscerálgico como carpideira solitária

Fui carpindo uma a uma minhas dores

Plantando em cada semente visionária

A possibilidade de me ser toda floresta.

 

Todo o fruto da terra que ainda me resta

Colho-o com as mãos duma criança

Para comê-lo com o sabor da esperança

Visceral diante do altar da vida

Como se fora a última hóstia dos mortais

Para queimar o fogo dos dias finais.

 

Talvez assim – quem sabe! – o fogo pagão

Aprenda a arar a terra de todos os campos

Salvar todas as nascentes de qualquer Jordão

Capaz de banhar a vida com todos os encantos

Gerados do ventre da terra… E ao final

Cantar o terço numa oração de bem-aventurança.

 

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