NO ESCURINHO DE LISBOA por alexandra prado coelho (Portugal)

DEFICIÊNCIA E ORIENTAÇÃO SEXUAL

Deficiência visual

 

Na escuridão temos que nos socorrer dos outros sentidos. Distinguimos sons que nunca ouviríamos antes, surpreendemo-nos porque os olhos não nos avisaram

que os nossos dedos iam tocar em algo frio ou molhado ou rugoso, identificamos locais pelo cheiro, tentamos perceber sabores de alimentos sem cor. Duas experiências – um passeio por Alfama e um jantar de cozinha molecular – às escuras em Lisboa.

a Confiança cega. Agora percebemos exactamente o que a expressão quer dizer.
Agarramos o braço do guia, logo acima do cotovelo, e vamos caminhando, passo inseguro, venda nos olhos, de vez em quando um braço à frente, tacteando o ar. “Cuidado, não gesticules tanto, ias batendo na cara de um senhor”, avisa Tiago. É ele o nosso guia nesta visita do projecto Lisboa Sensorial, uma ideia do estúdio criativo Cabracega, em colaboração com a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), os Lisbon Walkers, e a Associação do Património e da População de Alfama (APPA).
Nas ruas estreitinhas de Alfama esse é um risco grande. As pessoas desviam-se, mas pode não haver espaço suficiente e podemos, inadvertidamente, atingir alguém. O melhor é manter os braços baixos afastando-os só um pouco do corpo para sentir a parede, o corrimão, as grades de uma janela, uma porta. Depois vamos aprendendo. Um bruáaa significa que passámos em frente de um café – ouvem-se pedaços de conversa, frases soltas – depois percebemos que a parede recomeçou, mais à frente é o olfacto que nos ajuda, o cheiro revela que é um talho.
“Podes baixar-te”, diz o guia. “O que é isto?”. É peludo, tem temperatura de ser vivo e mexe-se. “Um cão?”. Acertámos. Mas onde está a cabeça? “É do lado oposto a esse”. Ahhh….
A experiência é sensorial a todos os níveis à excepção de um. “Esqueçam os olhos”, pede Carlos, o guia cego da ACAPO, no início da visita. De qualquer forma não temos alternativa. Com a venda posta perdemos aquele que é, muitas vezes sem termos real consciência disso, o sentido em que mais confiamos.
Tentamos então recorrer à memória que temos das ruas de Alfama e procuramos traçar um mapa mental do caminho que estamos a percorrer. Se virámos à esquerda devemos estar a entrar naquela rua que sobe, de repente o ar muda, os sons alteram-se e estamos num largo. Ah, deve ser o largo tal, mas quando tentamos confirmar, perguntando, descobrimos que o nosso sentido de orientação (que não é grande coisa, admitamos) nos deixou ficar mal.
Antes de começarmos o passeio tinham-nos sido dadas algumas instruções básicas. Um braço do guia atravessado em frente da nossa barriga significa que temos que parar, provavelmente porque há escadas para descer. E se for numa rua estreita temos que nos pôr em fila indiana, mão direita no ombro de quem vai à nossa frente. Depois os pés tacteiam o chão, deslizando prudentemente até ao que parece ser o degrau.
Ar fresquinho Quando o piso incerto de Alfama se torna, subitamente, liso debaixo dos nossos pés, isso quer dizer alguma coisa. “O adro de uma igreja”, lança alguém.
Era. Já distinguir tipos de árvores pelas rugosidades do tronco e o formato das folhas é um trabalho para especialistas. Mas perceber que estamos agora junto ao gradeamento de um miradouro é mais fácil, quanto mais não seja pelo ar fresquinho que nos dá na cara e por os sons parecerem vir de muito longe, lá em baixo.
Mais à frente atravessamos uma zona com muita gente, sentimos os corpos a passarem ao nosso lado, desviamo-nos sem saber se o estamos a fazer para o lado certo. “Há um grupo de turistas que está a olhar para nós com um ar espantadíssimo”, conta Tiago. Isso é o que menos nos incomoda. Não vemos as expressões de espanto nos rostos deles – é como se não existissem. “Para vocês é uma vantagem”, explica Tiago, a rir. “A pressão social fica toda connosco”.
Os guias continuam a conduzir o grupo que, às apalpadelas, lá avança por Alfama. Desta vez entramos num sítio coberto e tocamos em algo informe e molhado.
É uma peça de roupa num tanque num lavadouro público. Tacteando o rebordo do tanque, avançamos até ao estendal e tentamos, pelo formato, distinguir as peças de roupa penduradas. É tempo de nos sentarmos e ouvirmos Carlos explicar como, sem ver, escolhe a cor da roupa que quer vestir.
Mais à frente, Carlos há-de tocar fado, claro, mas também modinhas brasileiras. E no fim, de olhos ainda vendados, iremos testar o paladar, o sentido que ainda nos faltava. Parece tão evidente aquele sabor, mas porque é que não o conseguimos identificar?
A refeição Mas essa é uma pergunta que já tínhamos feito inúmeras vezes na noite anterior. Estávamos no restaurante Bem-me-Quer, junto à Praça do Chile, em Lisboa, e… não víamos absolutamente nada. Foi um Jantar Sensorial, antes do passeio sensorial por Alfama. A ideia é de Paula Cascais, dona do Bem-me-Quer e inspira-se no já famoso restaurante Unsicht Bar de Berlim, onde se come às escuras.
Agora, às quintas e sextas à noite, isso também é possível em Lisboa. Por enquanto, Paula só aceita grupos reduzidos, para ver como resulta, e para deixar Ana Serôdio adaptar-se à sua nova tarefa. Ana é cega desde os cinco anos e nunca tinha servido à mesa num restaurante. Mas aqui é ela quem, de todos nós, mais à vontade está na escuridão total da sala. Há uma música de fundo baixinha, mas como nada nos distrai a vista sentimos mais intensamente o silêncio da sala, e isso leva-nos a conversar de uma mesa para outra. Entrámos ali como desconhecidos, mas, no “escurinho do restaurante”, falamos como velhos amigos, fazendo perguntas a Ana, que, com infinita paciência, responde a tudo. Sim, em casa é ela quem cozinha, não, não tem medo de usar facas, sim, ficava sozinha com a filha quando ela era pequena, sim trabalhou 17 anos num banco e agora está a tirar um curso de informática, não, Lisboa não é uma cidade adaptada a cegos. “Às vezes sinto-me mesmo revoltada, tento controlar a revolta, mas é difícil quando vou na rua e há tantos obstáculos que não nos deixam passar”.

Foi por causa disso que Paula pensou neste projecto. Tinha à porta do restaurante dois grandes vasos com plantas e só quando viu um programa sobre os obstáculos que os cegos enfrentam nas ruas é que pensou “ai, os meus vasos”. Depois falou com a ACAPO e descobriu a Ana. Mas um jantar às escuras não lhe parecia suficiente para clientes que já conheciam bem a cozinha vegetariana do Bem-me-Quer, por isso decidiu entrar não numa mas em duas aventuras simultâneas:
o que comemos às escuras é cozinha molecular, feita pela Paula em colaboração com o Cooking Lab.
Descobertas A primeira descoberta é a de que, se não as virmos, decoramos mais facilmente o nome das pessoas. O nome e o som da voz são as referências a que nos agarramos quando, sentados à mesa no meio da escuridão, não nos podemos socorrer de olhares e gestos – se nos queremos dirigir a alguém temos que o chamar pelo nome.

À nossa frente quando nos sentamos está já uma taça com alguma coisa lá dentro. O truque, aprendemos rapidamente, é começar por tentar perceber o formato do recipiente. No restaurante da Paula pode ser de muitos formatos, redondo, quadrado, semi-oval, quadrado pequenino. No caso desta entrada, a ideia é pegar-lhe com a mão e levá-la à boca. Não ter o cérebro a enviar-nos mensagens sobre o que os nossos olhos acabaram de ver e a preparar as nossas papilas gustativas para um sabor que guardamos na memória faz toda a diferença.
Quando a comida chega à boca não temos nenhuma informação sobre ela. Começa o jogo de detectar sabores, perceber formas. Chegam depois três copos, dois quentes e um frio. São sopas com sabores inéditos. A seguir vem o prato principal, ou melhor, os três pratos que compõem o principal, e o desafio é cada vez maior. Os dedos percorrem a margem dos pratos, depois deslizam cautelosamente até ao interior. Não há facas nem garfos, mas uma colher, com a qual percorremos o fundo dos pratos tentando perceber se nos escapou alguma coisa. Tornamo-nos mais intuitivos.
Na escuridão a conversa continua. Mantemos hábitos inúteis – viramos na direcção de quem fala e pomos uma expressão de quem está a ouvir com interesse.
Mas acenar com a cabeça ou sorrir em silêncio não resulta. É preciso falar.
As sobremesas são supreendentes. Uma delas faz estalinhos na nossa boca e o som, como pipoquinhas a estalar, ouve-se claramente na sala.
Ana aproxima-se mais uma vez. Tocando levemente na mesa e no nosso braço localiza o prato e levanta-o. Depois, com os mesmos gestos serenos, traz-nos um chá. O jantar está a acabar. Tivemos sempre os telemóveis desligados e não fazemos ideia de que horas são.
A comida estava deliciosa. Mas para o sabermos foi preciso arriscar.
Confiança cega. Agora sabemos o que isso é.

Lisboa Sensorial – Passeios às cegas por Alfama 26 de Julho às 11h (provavelmente serão retomados em Setembro) Sujeito a marcação prévia (máximo de 8 participantes) Preço: 20 euros (reverte inteiramente para a ACAPO) Telf: 913806479

Jantar Sensorial Restaurante Bem-me-Quer Av. Almirante Reis nº 152 r/c e 1º esq.
Quintas e sextas-feiras (por marcação) Preço: 40 euros Telf: 218476678

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: