CARTAS por hamilton alves


 

 

                                               Lendo há dias uma resenha de jornal sobre Samuel Beckett, o grande dramaturgo, autor de peças revolucionárias do teatro mundial, prêmio Nobel de literatura, vim a saber que era dado a escrever cartas, anunciando-se que um volume delas será editado e lançado em breve por conceituada editora brasileira.

                                               A carta é um gênero literário como outro qualquer, com a particularidade de ser, entre todos, muito peculiar, no sentido de que, diferente de fazê-lo no livro, quando nunca faz, o escritor pode se derramar em confissões que jamais faria de público.

                                               Quem gostava muito de escrever cartas era Elizabeth Bishop, que dizia: “Tenho pena de quem não gosta de escrever cartas”.

                                               Outros escritores brasileiros trocaram cartas inúmeras, não foram nem duas nem três. Cito os casos de Drummond e Mário de Andrade, que pela vida afora se trocaram recados compridos ou curtos, para alegria de muitos de seus admiradores espalhados por aí, que puderam descobrir na troca de missivas feita por ambos as confidências íntimas sobre tantos assuntos, que jamais revelariam em crônica, contos, poemas, etc.

                                               Eu mesmo gosto de escrevê-las.

                                               Quando não tenho para quem escrever escrevo para mim mesmo. Tenho algumas cartas que me dirigi, nesse solilóquio com que acabo me divertindo ao lê-las ou relê-las. Maluquice? Adoro as minhas maluquices, sem elas não saberia viver. Ou minha vida, aos meus olhos, se empobreceria.

                                               Ainda hoje escrevi duas cartas. Uma para um amigo que anda nervoso nos Estados Unidos com a crise que assola aquele país. Procurei animá-lo.
                                               “ – Obama dará um jeito em tudo” – disse-lhe, confiante no tirocínio e liderança do novo Presidente.       

                                               Outra para um amigo no Rio, que pouco temos nos visto ultimamente, eu por nunca mais ter ido lá, ele que esteve aqui há pouco, mas de curta passagem. A carta é a forma de nos aproximar porque, obviamente, os recados telegráficos do computador não alimentam nossa sede de maiores expansões verbais e emocionais.

                                               Fiz-lhe uma revelação que só poderia ser feita através do sigilo ou da discrição da carta. Não contaria jamais o episódio numa crônica ou de outro modo qualquer. Para ele mesmo, um velho chapa, me custou muito confessá-la ou narrá-la. Será certamente pegado de surpresa com a minha confidência, tal a crueza com que narrei o fato. Ou rirá muito à vista dos lances tais quais lhe foram confiados.

                                               Daí a importância da carta, que é uma forma de extravasar tudo, todo o lixo que nos vai n’alma (n’alma tem hora).

                                               De que outro jeito lhe confidenciar pormenores tão crus ou tão arrepiantes? Que constituem segredos que não podem ser assim espalhados ao vento?

                                               Assim, temos o recurso da carta. Com três pinceladas compõe-se uma carta. Nada mais que trinta linhas ou cinqüenta. Nem menos nem mais, senão a carta fica quilométrica e, a partir de certo momento, por mais interessante, começa a aborrecer o mais paciente leitor.   

                                               Já escrevi tantas cartas (tenho-o feito com freqüência nesses últimos tempos) que não é de duvidar que, se um dia alcançar algum nome como escritor, haverá algum abelhudo que queira publicá-las. E tem desde já meu veto. A carta é algo rigorosamente confidencial.

 

 

( março/09)

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