FACULDADE VIROU SHOPPING CENTER por amandio luís de almeida teixeira

Quando paro a pensar sobre a educação superior desse país, vejo-a como um doente terminal, abandonado sobre uma maca em um corredor de hospital. Foram-se os tempos em que possuir uma pós-graduação, um mestrado, ser um doutor ou um professor catedrático era visto com respeito e como sinônimos de competência, experiência e capacidade de um trabalhador de qualidade, um cientista.

As políticas educacionais, a meu ver, se equivocaram. Todas, independentemente de governos e partidos, quando resolveram – e nisso todos os governos pós-ditadura incorreram – democratizar, massificar, ou “igualar” (por baixo) as oportunidades de acesso ao terceiro grau. O resultado dessa visão clientelista, num país que parece confundir democracia com populismo, pode ser muito bem sintetizado no que observamos no atual governo. Ao mesmo tempo em que o presidente alardeia sua vaidade e seu orgulho por não ter um diploma, perpetua e agrava a situação, ao querer sedimentar ainda mais a idéia de que todo mundo pode e deve ter um diploma universitário.

Já não bastasse a proliferação descontrolada de universidades de “fundo de quintal”, onde o que vale é poder pagar para seu diploma conseguir. Hoje uma universidade assemelha-se muito mais a um shopping center do que a uma instituição de ensino de qualidade, frequentadas por professores e alunos despreparados. Ao invés de salas de aulas bem montadas, laboratórios, bibliotecas, o que se vê? Lojas, bancos, restaurantes e lazer, parte fundamental dessa estrutura deformada. Parece que em cada esquina há uma universidade. Que o tal ensino à distância, eliminou de vez a distância entre a mediocridade e a aptidão natural de cada indivíduo para conquistar uma profissão de nível superior. Para que tanto diploma? Para que tantos licenciados, bacharéis e pós-graduados?

Acredito que chamar esse ensino de superior já é um equívoco. Superior só se for pela quantidade de médicos, engenheiros, advogados, entre tantos outros profissionais, que são despejados, a cada ano, de forma descontrolada, num mercado de trabalho já saturado. Profissionais para os quais o diploma é apenas a ferramenta necessária e legitimadora de seu direito como cidadão a se tornar um profissional de segunda, numa terra de terceira. Médicos que não sabem suturar, advogados do crime, engenheiros da demolição do saber.

Ou pior, concurseiros (públicos) profissionais. Não o pobre como alardeia o governo, mas aqueles mais afortunados, inocentes ou não, que sustentam essa famigerada indústria dos concursos. Indústria essa que movimenta milhões e milhões de reais, feita de cursinhos especializados, empresas promotoras especializadas (em concursos), o próprio governo que tem aí uma renda vultosa em taxas de inscrição, os cartórios que enriquecem ao autenticar tanta papelada desnecessária.

 

Hoje tudo é especializado. Os professores mal pagos e já engolidos por essa máquina. Esses que já não ensinam, mas que se especializam em treinar em macetes para passar. Esses que usam apostilas “obrigatórias” sem conteúdo, que custam uma fortuna, mas nada mais são do que receitas de bolo, dicas e truques, provas anteriores, cujo lema é “Aprendam como passar”. Parece-me mais especializadas no “seja esperto!”. Não precisa saber, é só se “preparar”! Preparar para que? Ao final disso tudo o que são esses concursos? E os famosos cadastros de reserva? Quantos são cancelados, postergados por anos, e ao final, sem ninguém contratar, voltam a se apresentar ao público? De quem é a culpa? Perguntem ao nosso sábio presidente…

Pobres tempos esses em que o saber já não importa. Em que a ciência é achincalhada, as cabeças pensantes decepadas. Poucos, muito poucos, sobreviveram a esse tsunami de diplomas fajutos, muitos comprados, outros tantos falsificados, milhares obtidos pela compra criminosa de monografias, dissertações e teses. Poucos, muito poucos, de forma árdua ao estudar, ao se dedicar, anos e anos de suas vidas “desperdiçar”, crédulos cidadãos que em algum momento acharam que isso lhes daria alguma real e honesta chance de no mercado de trabalho se encaixar.

Uns, mais inteligentes, ou mais lúcidos, vão embora. Fazer carreira, fama e dinheiro honesto nos países dos lourinhos de olhos azuis e viram celebridades, por mérito reconhecido é certo, mas ridiculamente aplaudido aqui, pelos mesmos que se indignam quando alguém ousa pensar. Outros decidem ficar. Por menos oportunidade, familiar necessidade ou que, por convicção, acham que é onde devem estar e lutar.

Essa é a minoria de sonhadores onde me incluo. Minoria de esperança persistente, de valor nunca reconhecido que tanto assusta e incomoda a esse país lulista, de reais valores, desprovido. Somos nós esses “velhos” com mais de 45 anos a elite pensante? A burguesia dominante? Ou a absoluta minoria que teima em sobreviver, mesmo que de forma tão humilhante? Só posso falar por mim.

Esta é minha ficha criminal:

Engenheiro, pós-graduado, mestrado, doutorado, pós-doutorado.

Professor universitário (enquanto agüentei).

Última ocupação: diretor de projeto – BID/Nasa.

Ocupação atual: desempregado, há três anos em casa.

 

3 Respostas

  1. Caro Prof. Amandio

    Preciso falar-lhe.
    Pode me ligar para o 011 7716-7137 ou 011 5501-8601?
    Ou contatar-me pelo email: celso.queiroz@concremat.com.br .

    Grato.
    Celso.

  2. Olá Amandio, quero falar com você…. entre no facebook e me informe o seu e-mail e telefone. Abs, Arthur Fish (Leblon – Selva de Pedra 1975)

  3. É… a coisa tá feia. Parabéns pela coragem Amandio. Espero q. em casa vc continue a “causar” pra orgulho de outros tantos q. tbem já voltaram pra casa. (Me incluo nesses…). A mediocridade tá acabando com o ânimo do brasileiro criativo. A cultura q. se institui é a da malandragem, suga-suga, e pesquisadores via Google.

    Abraço.

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