QUEM PRECISA DE IDEOLOGIA PARA VIVER? por alceu sperança


 

Em 2030, nano-sensores serão injetados na corrente sanguínea de uma pessoa, implantando microchips para amplificar e até suplantar diversas funções cerebrais. Com isso, as pessoas vão compartilhar memórias e experiências íntimas emitindo as sensações como ondas de rádio para os sensores de outra pessoa.

É uma descrição tecnologizada da telepatia, feita por Raymond Kurzweil, um sujeito que muito guri gostaria de ser: músico, cientista, inventor, empresário, escritor.

Sabe fazer arte, inventar e ganhar dinheiro. E também assustar a gente. Não é terrível a idéia de que você poderá ter um nano-sensor implantado em seu sangue enquanto estiver dormindo ou tomando uma injeção? Com o microchip instalado, você receberá sinais externos que poderão controlar sua mente.

Isso pode parecer assustador, Mr. Kurzweil, mas alguém já pensou nisso antes. O “chip” atual só demora um pouco mais para ser implantado, pois começa a entrar no sangue e no espírito desde o nascimento e acompanha o sujeito ao longo de sua existência. Chama-se ideologia.

Por vezes as pessoas estranham o emprego da expressão “a ideologia”, pois acreditam haver mais de uma e que a palavra significa “um conjunto de ideias”.

Nosso querido Cazuza embolou ainda mais o meio de campo ao cantar que precisava de uma ideologia “pra viver”. Mas ideologia, a meu ver, é palavra de uso apenas singular. A confusão que ocorre com esse termo é similar à que cerca a palavra “alternativa”.

Não existem “alternativas”, mas apenas “a alternativa”. Claro que também se usa o plural em casos particulares: “As alternativas ao liberalismo e ao colonialismo”, por exemplo, pois são duas coisas.

Ideologia é um conjunto de controles educacionais, culturais, religiosos, comportamentais, éticos, legais etc impostos pela classe dominante. A palavra foi criada em 1801 por Destutt de Tracy (1754–1836).

Napoleão, num discurso ao Conselho de Estado, em 1812, declarou:

“Todas as desgraças que afligem nossa bela França devem ser atribuídas à ideologia, essa tenebrosa metafísica que, buscando com sutilezas as causas primeiras, quer fundar sobre suas bases a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história”.

Foi Auguste Comte (1798–1857) quem levou a palavra ideologia a significar especificamente o conjunto de idéias de uma época. Mais ou menos aquilo que se costuma chamar de “senso comum” e “opinião pública” – a somatória da elaboração teórica dos pensadores dessa época.

Para Marx, a ideologia integra a superestrutura dominante: “(…) teremos que examinar a história dos homens, pois quase toda ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida desta história ou a uma abstração completa dela”.

Ideologia seria, assim, o total dos conhecimentos científicos e crenças dominantes. Gramsci via na ideologia elementos unilaterais e fanáticos, mas também elementos de conhecimento rigoroso e até mesmo de ciência. Nesse sentido, a ideologia seria “todo o conjunto das supra-estruturas”.

Conclui-se que a ideologia é produzida pelos sábios, que recolhem as opiniões correntes, organizam e sistematizam tais opiniões e, sobretudo, as corrigem e orientam de acordo com os interesses prevalecentes nessa época. Assim, ela passa a ter um papel de comando sobre a consciência dos homens, que devem se submeter voluntariamente ou à força a seus critérios e mandamentos.

É por isso que a gente “pensa” que tem esta ou aquela opinião sobre algo e só quando a submete a uma análise criteriosa e autocrítica percebe que ela foi imposta em nossa pobre cabeça pela ideologia.

Sem precisar dos chips e nano-sensores do nosso prezado Mr. Kurzweil.

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