O EGOISMO SOCIAL E A MOBILIDADE HUMANA por tonicato miranda

 


No último 22 de Setembro de 2008, no auditório do Ministério das Cidades, aconteceu o Seminário “Jornada Na Cidade Sem Meu Carro”. Dos que participaram do evento, 80% chegaram a ele conduzindo um automóvel ou vieram como passageiro de veículo motorizado. O evento teve a abertura do Ministro das Cidades, do Governador de Brasília e do representante do DENATRAN. Não pode ser dito que foi hipocrisia, mas o Ministro chegou ao evento pedalando uma bicicleta emprestada, em um trecho de menos de dois quilômetros. Valeu pelo simbolismo.

Ao final do evento todos se dirigiram aos seus carros e o Ministro, seguiu para outro rumo no banco de trás do automóvel oficial, guiado por seu motorista vestido de quepe e da pompa da institucionalidade do cargo, felizmente sem luvas brancas.

Estamos todos doentes. A velocidade dos automóveis, reflexo dos avanços buscados a peso de ouro e dos petroeuros pelo mundo da Fórmula 1, pela Fórmula Indy, é objeto de consumo impossível para os citadinos. Nas cidades, nossas velocidades de segurança não devem ultrapassar a 60 km/h, sendo 35 km/h, segundo estudos de vários institutos de pesquisa da Alemanha, da Holanda e da Suécia, aquela em que um pedestre tem 85% de chance de sobreviver num atropelamento. Não é à toa que hoje circula em toda Europa forte campanha para convencer as autoridades municipais a adotar para a maioria das vias urbanas a velocidade de 30 km/h.

Muitos diriam ser pouco. Mas quanto vale a vida dos nossos avôs, bisavôs ou das nossas crianças? tonicato-miranda-foto-da-depressao-de-20-nos-euaO automóvel vem se transformando no nosso bem, nosso mal, desde seu início, no final do Século XIX. Nascido simultaneamente com a bicicleta, da mesma forma que a magrela, faz tempo já atingiu o seu limite de desenvolvimento e eficiência.

No livro o Choque do Futuro foi mostrada a sua ineficiência. Embora atraente, pode-se mostrar como esta máquina é extremamente incompetente. Para transportar 55 ou 85 kg do peso de um adulto a tara (o peso próprio) dos automóveis tem de 1.100 a 1.700 kg. A bicicleta, para transportar estes mesmos pesos de carga não tem mais de 15 kg. Assim, o automóvel carrega vinte vezes mais o peso da carga a transportar, enquanto a bicicleta tem seis ou sete vezes menos o peso da carga transportada.

Muitos diriam isto é bobagem, o importante é que dentro do meu veículo eu ouço música, estou “protegido” e ele me leva onde eu quero “rapidamente”. Mas protegido do que? O acidente entre veículos motorizados é a segunda “causa mortis” em nosso País há muito tempo. Consegue fazer mais vítimas do que os atropelamentos de pedestres e de ciclistas. Senão vejamos alguns dados apenas da nossa cidade símbolo da motorização e terceira maior metrópole do planeta.

Pois São Paulo, em 2005 apresentou 1586 mortos no trânsito, sendo 757 atropelamentos de pedestres; 39 ciclistas; 177 motociclistas e 132 passageiros dos automóveis. Embora estes dados retirados do “blog” “Apocalipse Motorizado” tenham sido elevados em muito nos últimos três anos, eles já mostram o cenário de guerra no qual vivemos. Somente para se ter uma idéia, em 2008 o número de motociclistas mortos ascendeu para 857, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET.

Mas o automóvel é o meu conforto e não abro mão dele, diriam os mais acostumados às comodidades da motorização. Está certo. Ainda agora, neste nosso último feriado da Semana Santa, os jornais estamparam em suas páginas “São Paulo bate recorde de congestionamento – 235 km”. Isto é progresso? É isto que queremos para nossa cidade? Para nossas vidas? Ficarmos engarrafados no trânsito, dentro de um veículo com ar condicionado, por horas a fio? Não é à toa que São Paulo tem a terceira maior frota de helicópteros do mundo.

Assim, esta coisa de dizer que ter carro é símbolo de “status social”, é somente para otário e pobre de espírito. Há muito tempo que ricos em São Paulo andam de helicóptero. Também não sendo incomum a presença de inúmeros edifícios com muitos heliportos em suas coberturas. Para que? Para que os grandes capitalistas não enfrentem o que todos os mortais enfrentam no seu dia-a-dia. Grandes congestionamentos, muita irritação, fechadas de veículos, bate-bocas generalizados com vidros escancarados, alguns culminando em agressões físicas e mortes de bala de chumbo grosso mesmo.

A Grande jornalista/urbanista Jane Jacobs, em seu laureado livro Vida e Morte das Grandes Cidades Americanas, teceu uma frase antológica “bicicletas aproximam as pessoas, automóveis afastam”. Como ciclista, confirmo integralmente esta máxima e posso “dar meu testemunho”. Estava em Utrecht, na Holanda, acompanhado de um amigo holandês que me mostrava a cidade e os projetos nela implantados para a bicicleta. Ao final do nosso encontro nos despedimos e fiquei a olhar a sua trajetória de saída. Logo uns trinta metros à frente, percebi que ele se dirigia a outro ciclista e perguntava se poderia acompanhá-lo, pedalando ao seu lado. Ou seja, é possível entre ciclistas, quase de imediato estabelecer uma camaradagem, coisa muito rara em se tratando de motoristas, sempre em regime de competição e disputa por oportunidades, seja vaga para estacionar, seja espaço para circular.

No entanto, o maior egoísmo social é a publicidade veiculada nas TVs e nos programas de auditório, fazendo do automóvel o objeto de desejo de consumo de classes de renda muito baixa. São inúmeras as residências que mal têm seis metros de testada de lote, mas que guardam espaço para abrigar um automóvel. Ou seja, têm a cama sobre o veículo, e este tem seu espaço garantido, mesmo que não haja espaço na sala de estar para comportar toda a família para assistir a um programa de TV, e/ou mesmo uma alimentação de qualidade.

Posso afirmar ser este um egoísmo social porque os governos não provêem as cidades de espaços seguros e agradáveis para as famílias passearem ou simplesmente estar. No passado os passeios públicos, parques e praças já cumpriram este papel. Hoje, porém, com o egoísmo exacerbado, a violência sem o freio do policiamento folgado e burocrático, transformou o espaço da rua em espaço da dúvida, da terra de ninguém e do medo.

É claro que o automóvel alarga o horizonte e permite às famílias aproveitar momentos de férias e de feriados prolongados. No entanto, muitos em tempos como o da Semana Santa ou do próximo feriado de Tiradentes, ficarão na cidade. Alguns por decisão própria, outros por total falta de condições para sair de carro, ou em se abrigar na casa de um parente em outro local. O fato é que nem todos têm dinheiro sobrando para bancar estadia em hotel ou realizar gastos com viagens. Em geral, como diria Caetano Veloso, ficam nas grandes cidades os “pretos e pobres, que são quase todos pretos” e acrescento eu, e ainda alguns brancos, mas igualmente pobres, além dos velhos etonicato-miranda-congestionamento-na-beira-mar-norte dos enfermos.

Agora a nova moda entre os proprietários de automóvel é usar o defectível vidro escuro, transformado por uma película conhecida como “insufilm”. Covardia. Afirmo ser isto uma covardia porque faz do motorista um ser anônimo e impede aos pedestres e aos ciclistas que entendam a intenção dos condutores de autos e se estes estão enxergando nossos movimentos. Afirmam os motoristas que este procedimento visa a dotar os veículos de melhor conforto, diante das condições do nosso País tropical, muito quente em determinados períodos e com luz por demais ofuscante. Também porque os protege de assaltos na via pública. Cretinice – adianto. A segurança é exatamente o contrário. Qualquer seqüestrador ou assaltante poderá fazê-lo sem nenhuma percepção dos demais transeuntes de uma via. Dado que não há visão, não há segurança.

É bem por isto que se comprova que as casas mais seguras não são aquelas cheias de trancas e de muros altos, onde o ladrão depois que entra se encontra seguro para praticar as maiores atrocidades, sem que nada seja percebido pela vizinhança. E isto é tão real e científico que os projetos mais ricos de Florianópolis e adjacências, como em Jurerê Internacional ou em Pedra Branca, no município de Palhoça, as casas não têm muros, mas cercas singelas, com arbustos sempre cortados à meia altura.

De volta à mobilidade, não se entende porque os governantes apartaram a bicicleta do cenário das cidades, deixando de oferecer infraestruturas adequadas e seguras à circulação dos ciclistas. Dizem os governantes “não há espaço”. É claro que não, nas nossas cidades mais de 30% do espaço dos seus territórios são ocupados por áreas para circulação e estacionamento de veículos motorizados.

Apenas na cidade de São Paulo a CET estima que há 1 milhão de vagas públicas gratuitas. Quantas existem em Curitiba? Em Florianópolis e em outras cidades quantas são? 200 mil? Quantas vagas existem para deficientes nessas cidades? Em São Paulo são 158. Ou seja, 0,015% ou um centésimo de 1%. E será que existem apenas 158 deficientes querendo estacionar? É claro que não. Este é mais um dos aspectos do egoísmo social.

A expropriação das oportunidades urbanas daqueles que têm opção diversa – como os ciclistas; ou daqueles portadores de deficiências físicas, não são realizadas apenas pelos detentores do poder e do capital, mas por uma parcela significativa da população, hoje identificada como os grupos motorizados. O meio urbano nas grandes cidades vem sendo construído ao longo de séculos, por acréscimos sucessivos aos espaços legados por nossos ancestrais. É impossível a ele, sem a adoção de cirurgias profundas, “abrir” espaços para a circulação e guarda em estacionamentos ao ar livre de tantos automóveis, como querem seus proprietários.

Faz tempo a racionalidade deixou de nortear administradores públicos e a população em geral. Ela que clama por mais e mais espaço como se este fosse um direito lídimo e intocável. Ela se coloca contra o pedágio urbano; contra o pedágio rodoviário; contra os impostos; contra as zonas azuis e suas outras corruptelas; contra as multas no trânsito e as lombadas eletrônicas, as quais chamam de instrumentos da indústria da multa. Enfim, contra todos os instrumentos de controle. E chegam mesmo a dizer que a Constituição Federal garante a elas “o direito de ir e vir”. Mas qual nada, cara pálida, o direito de ir e vir se aplica ao cidadão e não ao seu automóvel.

É mesmo assim que se comporta a nossa sociedade motorizada e hipócrita. Curitiba tem um dos melhores sistemas de transportes do País, sendo objeto de desejo dos olhares de muitas cidades mundiais. Recentemente uma equipe da “Streetfilms” esteve em Curitiba, entrevistando pessoas, entre elas Jaime Lerner, o atual Prefeito e secretários municipais, para conhecer mais sobre o sistema que pretendem implantar em Nova York. Mas nós aqui insistimos em dizer que o sistema está superado.

De fato, muito ainda precisa ser mostrado quanto às mazelas decorrentes do uso exagerado da motorização no meio urbano. Principalmente quanto às poluições ambientais, devido as emissões de gases e ruídos. Sobre o primeiro aspecto, ainda na cidade de São Paulo, é alarmante o número de mortes de recém-nascidos devido a inalação dos gases provenientes do escapamento dos automóveis. Mas diriam os discípulos de São Tomé – quem polui são os ônibus e caminhões e não os automóveis. Bobagem grossa, novamente digo eu. Os carros de passeio são de longe os maiores poluidores.

Estudo realizado pela UFRGS, em 1993, observou que os automóveis de passeio eram responsáveis por 56% da emissão de gases nocivos em Porto Alegre; vindo em seguida os ônibus, com 14%; depois os caminhões, com 12%; as indústrias da periferia urbana, com 12%; outros 6% atribuídos a emissões diversas, como queimadas. Ocorre que as pessoas não se dão conta de que as emissões dos carros são quase invisíveis, mas em número avassalador. E como se obtêm isto? Perguntariam os céticos. Ora, através da análise de filtros colocados em pontos específicos da cidade. Também porque os combustíveis utilizados pelos veículos são diferentes nas suas composições. Simples, não é mesmo?

Esta é uma das várias razões porque devemos controlar cada vez mais o uso do automóvel no meio urbano. Ter automóvel é sim uma coisa boa. Mas usá-lo indiscriminadamente é mais do que um ato anti-social é uma agressão ao seu vizinho, um desrespeito à saúde do seu avô e da sua avó. A natureza humana agradece e lhe dá boas vindas à sociabilidade e a um mundo menos egoísta. E que tal se, ao invés de ir à feira com o seu carrinho, não vá a pé ou de bicicleta e aprecie os jardins das casas dos vizinhos? Quem sabe não nasça em seu dia um pouco mais de prazer e identificação com a cidade em que escolheu para viver?

Mas se nada disso faz parte das suas pretensões, não lamente a crise, não diga que a cidade está ficando insuportável. Você ainda não está preparado/preparada para viver num ambiente do Século XXI. Interessante o que nos diz um texto que li recentemente, no qual não lembro agora o autor, me perdoem, o qual faz comparação entre Berlim e Bangcok. Mostrava o texto que Berlim tem três vezes mais automóvel do que a cidade asiática, mas ao contrário o número de viagens motorizadas correspondia a menos de um quarto da capital tailandesa. E chegava a conclusão de que se a posse de veículos motorizados representava a riqueza de uma nação, o uso do carro de forma indiscriminada demonstra quão pobre ainda esta nação se apresenta. Não foi à toa que um dos maiores investimentos de Berlim, realizados para a Copa do Mundo de Futebol de 2006, destinaram-se a dar maior mobilidade para a bicicleta. Em especial, entre os estádios e os hotéis; e entre os terminais do transporte coletivo os estádios e os novos hotéis, construídos para atender a grande demanda aos eventos.

Mas se nada deste texto a(o) convenceu da ignomínia que é ir a padaria buscar pão de automóvel. Esqueça. De fato, o mundo gravita ao redor do seu umbigo. Deixo apenas um pequeno abraço. Da minha parte, vou continuar pedalando minha bicicleta, indiferente às suas reclamações ingênuas e ineficazes para com a ganância dos impostos governamentais em cima do seu objeto de consumo maior, do seu papagaio de estimação sobre quatro rodas. Passar bem.

 

FOTOS: a primeira foi feita na depressão americana de 1920.

a segunda na Av. Beira Mar Norte (Florianópolis) fora da temporada.

Tonicato Miranda é Presidente da União de Ciclistas do Brasil – UCB.

 

2 Respostas

  1. Concordo plenamente com tudo o que foi explanado. Infelizmente a sociedade brasileira, não posso falar das outras, ainda não está preparada para essa evolução de pensamento.

    Ando de bicicleta desde pequeno, estou com 24 anos e tenho 1 carro, e continuo andando até hoje. Sempre opto por me locomover de bike, só utilizo mesmo o carro quando a distância me dificulta ou impossibilita de usar a bike.

    É uma pena que as cidades, de um modo geral, não estejam preparadas para o convívio de todos os meios de transportes (carros, bikes, skates, patins, pedestres, etc). O ciclista, hoje em dia, tem que saber se virar, pois a bicicleta não possui espaço nas ruas.

    Quando andamos de bike na calçada, os pedestres reclamam, e quando a utilizamos no asfalto, são os motoristas que mostram sua insatisfação. ONDE VAMOS ANDAR ENTÃO?!?!/!

    O pior de tudo é quando as raras ciclovias existentes são utilizadas por pedestres (que reclamam quando passamos rápido demais)e até motos, sem contar alguns carros, que a utilizam como acostamento, sem a menor cerimônia.

    Espero que um dia esse quadro possa ser modificado.

  2. Que texto maravilhoso! Parabéns.

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