Arquivos Diários: 18 abril, 2009

DANTE MENDONÇA LANÇA SEU LIVRO HOJE EM FLORIANÓPOLIS

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Não há quem não elogie Curitiba por seu perfil europeu, sua civilidade plena de cortesias, sua face organizada de Brasil que dá certo. Claro, como ninguém é perfeito, falta o mar, o cheiro das ostras e maresias uma ausência tão sentida que, para nós, Curitiba quer dizer ostracismo.

O que ninguém sabia é da existência de uma Curitiba secreta, cheia de cerebrinas histórias, bares e restaurantes memoráveis – entre os quais o da empreiteira que inaugurou uma casa de pasto num buraco, comemorando a canalização de um rio na Rua Voluntários da Pátria.

Não é piada do Dante Mendonça, o neotrentino catarina que é hoje o mais celebrado chargista-escritor da terra do Vampiro. A empreiteira organizou um churrasco dentro das canaletas do riacho, ainda a céu aberto. E convidou as “otoridades” para o faturamento de praxe. O eterno prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, confessa o seu estupor:

— Quando vi onde seria o churrasco, levei um susto. O povo passava acima, ao nível da rua, e eu devorando uma picanha num túnel de lama!

O ex-prefeito, gourmet de fina linhagem, recomenda “Curitiba. Melhores defeitos, Piores qualidades” como o saboroso cardápio “à la carte” da bela e – seria verde? – capital paranaense. Curitiba, ensina Dante, não tem uma única cor, mas várias. Seu livro é um “intensivão” sobre os meandros da variada alma da “Potylândia” – ou você não sabia que nasceu e morreu em Curitiba o maior ilustrador gráfico do Brasil, o mitológico Napoleón Potyguara Lazzarotto (1924-1998), o “Poty”, bico de pena predileto de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Mário Palmério e Raul Bopp?

Os painéis de Poty estão no aeroporto, nos mercados, nos parques, nos monumentos históricos. “Numa cidade em que os artistas se tornam invisíveis, Poty é o artista mais visível de Curitiba”.

Flagrado no tal churrasco subterrâneo, o grande prefeito, que fundou a nova Curitiba, oferece seu selo de qualidade ao livro, como se ele fosse a surpreendente “sobremesa” daquele churrasco:

— O livro é um delicioso passeio pela história de Curitiba. Leitura obrigatória para curitibanos e não curitibanos, neotrentinos incluídos.

O autor, que já nos obsequiara com um verdadeiro “Tratado do Bem Beber”, um “Berlitz” sobre as linguagens do bar e de seus tipos, coloca na prancheta as “almas” – a ostensiva e a secreta – de uma cidade que seduz aos poucos, revelando os seus segredos apenas àqueles que merecem essa “Eureka”.

Como o vampiro Dalton Trevisan, Dante admite que “às vezes dói morar em Curitiba”, mas como é tão milagreiro quanto a Santa Paulina de Nova Trento, o autor descobre que há até sol na sua terra de adoção…:

— Sim, há sol em Curitiba. Mas somos a única capital brasileira onde os ouvintes ligam para as rádios reclamando porque o tempo vai melhorar…

Vou amanhã a Santo Antônio de Lisboa, debaixo de um sol adriático, e à beira de uma fazenda de ostras, comprar o instigante livro do Dante Mendonça, desvairada declaração de amor a Curitiba.

Afinal, se a vizinha capital não é o Paraíso, não deixa de ser um excelente “Limbo”.

 

Sérgio da Costa Ramos

17/04/09

 

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Carta do Cacique americano ao Presidente dos Estados Unidos da América.

 

 

Em 1854, o Governo dos Estados Unidos tentava convencer o chefe indígena Seatle a vender suas terras. Como resposta, o chefe enviou uma carta ao presidente que se tornou famosa em todo o mundo. Seu conteúdo merece uma reflexão atenta pois é uma lição que deve ser cultivada por todos, por esta e pelas futuras gerações.

 

 

 

CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATLE

“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro (…).Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem deve tratar os animais desta terra como seus irmãos (…)O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamosirmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos ( e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): nosso Deus é o mesmo Deus.
Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ela é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está a árvore?Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los?Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas a idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo aslembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.Eu não sei. Nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.Não há lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo.O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.”
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.”

 

 

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