A VÓS JUVENTUDE! poema de vera lúcia kalaari / Portugal

A vós, 
Juventude incompreendida, 
Á vossa voz, 
Á vossa sede incontida 
Da vida, 
Eu dou os versos que faço. 
A vós, 
Que quereis tudo e não quereis nada… 
Que sonhais sonhos acordada 
Meus irmãos heróis, 
Meus irmãos loucos, 
Eu ofereço quanto tenho: 
Estes sonhos, este andar de estrela para estrela. 
Escutai! 
Rir-nos-emos do mundo que não vale nada! 
Porque nós, juventude transviada 
Estamos acima de todos! 
Estamos lado a lado com o céu firme, brilhante, 
Sob as cores dum arco-íris. 
E abaixo de nós 
Está o bando de gente dispersa, superior, 
Que arrasta os pés, tacteando, 
No crepúsculo das ruelas. 
A nós, o sol da esperança, 
Aquece-nos as mãos, reacende-nos os olhos. 
Hoje, tu, mocinha louca 
Tens o próprio sol nas mãos! 
Qu’importa o amanhã? Um amanhã que talvez nunca virá? 
Um amanhã com carga de canhões, com nuvens de fumaça, 
Com ondas púrpuras de sangue 
E gemidos de queixas e prantos? 
Vivamos o hoje! 
Sigamos um só caminho! 
O caminho sem preconceitos! 
Um caminho em pontes erguidas 
Sobre pântanos, sobre estradas abertas 
Entre corrupções e ódios. 
Ninguém sabe, ninguém, 
Se a primeira gota de sangue dos nossos corpos, 
Gotejará amanhã. 
Porque a terra, as águas, o ar, 
Estão transformados! 
Porque por toda a parte, 
Há almas enlouquecidas, implorando: “Paz”! 
Porque a terra está nua! 
Porque o mundo todo, é uma orgia sangrenta 
Sem auroras puras iluminando rostos de crianças! 
E talvez, sim, talvez, jamais volte cor 
Sobre o estertor do mundo sem alento! 
E nós, crianças, nós, juventude revoltada, 
Ovelhas negras dum rebanho de ovelhas negras, 
Cruzaremos os braços d’espanto e gemeremos: 
-Senhor, que fiz eu? 
E teremos, revoltados, os pensamentos parados! 
Guardaremos no peito, o ódio e o desespero. 
Perderemos a esperança duma felicidade futura! 
Pisaremos com rancor as flores, 
Embriagados pelo sangue, os dentes rangendo d’ódio! 
E os nossos olhos verão o dia transformar-se em noite! 
Veremos as estrelas que se acenderam para nós 
Sufocadas pelo brilho ardente das armas nucleares! 
(Oh tristeza! Oh horror d’um céu sem estrelas!) 
Por isso somos a juventude revoltada. 
Por isso caminhamos de rua em rua, de cidade em cidade, 
Jogando sem preconceitos a alegria e o riso, 
Como o bimbalhar de sinos festivos, tocando a finados! 
E tentamos a mente embriagar. 
Tentamos que o mar, imponente, se deite a nossos pés. 
Que a terra, a humanidade, nos tema, nos odeie. 
Mas vede: Tudo é uma farsa! 
Porque sob o menino orgulhoso, 
Se esconde o temor da redenção. 
Se alastra a solidão entre imagens de pedra, indiferentes, 
Que nunca estendem a mão ao vagabundo que passa. 
Porque o suspiro dos nossos peitos, é o suspiro, 
Duma estrela moribunda! 
Porque somos os filhos do vazio, 
Porque nossas vozes secas, são fracas, insignificantes! 
São preces de vento, rolando em erva seca! 
Porque somos os homens d’amanhã, 
Carne para canhão, corpos sem forma, sombras sem cor, 
Aqueles que nasceram já no reino da morte: 
Os guardados em conjunto, os empalhados, 
Para uma luta final, 
No reino crepuscular. 
E nesta derradeira jornada, 
Neste caminhar por um vale sem estrelas, 
Continuaremos cegos, independentes, 
Um rebanho sem pastor 
Caminhando… caminhando… 
Entre o desejo e a revolta, 
Entre a emoção e a decepção, 
Entre a claridade e a sombra, 
Entre o sonho e a realidade, 
Nas asas dum tempo, 
Sem ontem nem amanhã.

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