Arquivos Diários: 24 abril, 2009

SONATA PARA VITRINA E PEDRA por jorge lescano

para A. vidraça e pedra e ângela; 

 aos pais destes  meninos.

 

Esta crônica foi escrita em 1987, decidi-me a “publicá-la” novamente em virtude de um fato real noticiado pela imprensa: um menino de 9 anos foi assassinado a bala por um investigador de polícia em represália por  ter atirado uma pedra no portão de sua residência, pois acreditou que se tratava de um assalto. Segundo  o jornal Notícias Populares, os últimos atos de menino dentro de casa, antes de sair para brincar, foram:  montar a árvore de natal e abraçar sua mãe. O policial  não foi demitido e, ao que se sabe, continua circulando armado pela cidade, para proteger sua população dos vândalos. No final do segundo milênio cristão, a história de Davi e Golias tem um desfecho renovado.

São Paulo, dezembro de 1999

 

Processo inédito    Juiz intima para depor criança que atirou pedra em carro

A Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) decidiu investigar processo em que foi expedido mandado de busca e apreensão contra um menino de 5 anos (foto) em Serrana (SP). O processo foi aberto há dois anos porque o garoto jogou pedra num carro. Na última sexta, PMs foram procurá-lo em sua casa. O pai do menino, então, levou-o à presença de um juiz na segunda-feira. Ao vê-lo, o juiz decidiu arquivar o processo.

Diário de S. Paulo. sexta-feira, 25 de agosto de 2006, A1.

 

Ele olha a janela e vê o fulgor do crepúsculo nela refletido. O sol é cobre condensado na vidraça. A luz de fogo antigo é seu Eu e pede aos gritos para ser multiplicado. O Anjo sabe disso porque há uma comunhão inexplicável entre os três. Ele sente no bolso da camisa o peso das pedrinhas de areia; a forma arredondada passeia brevemente pela ponta dos seus dedos e deita no couro do estilingue. A pedra e ele sabem que o espaço deseja ser cortado por um corpo sólido rumo a um destino certo. O vazio da tarde espera as notas de cristal. Então o Anjo é poeta, escultor, músico, pintor: empunha sua batuta e com olho certeiro modela na realidade algo que nunca antes existira e que jamais voltará a se repetir. Ele sabe que cada vidraça, e cada pedra, e cada garoto, e cada tarde silenciosa, é única. O ar é uma vibrante corda de violino. O vidro morto salta em fagulhas de sons e cores; a tarde toda vira um caleidoscópio, do qual também fazem parte o brilho assombrado dos olhos do Anjo, e seu sorriso, e o pulsar do coração, que se antecipa e quer fugir.

 

JORGE (rapsódia) de jorge barbosa filho

( para meu pai jorge barbosa)

antes que ele morra

 

 

 

meu nome é jorge.

filho

de uma feiticeira circe,

amante de ulisses

e do prazer suíno

de seus amigos.

 

filho

de um pai também

jorge.

criou-me no samba,

no culto das madrugadas

pra mais além,

batucou-me grogue

com o gênio das garrafas.

e em ambas

aprendi a mágica:

 

e sôo

jorge,

o caborje

louco cego

como borges.

prego ego solto

no eterno,

o anjo e o diabo

nas esquinas do eco,

onde peco e rebato,

e mimético

meu vôo disfarço.

 

 

jorge,

acima do ben e do mautner.

filho

de gerações de sensuais e místicos

da laia dos velozes e fatais

e nos bares recito:

não gosto dos ritmos do mundo

por isto

inventei os meus.

assim sou o seu

 

jorge

portugal que descobre

áfricas na língua

da ginga brasileira.

e desfila acordes

escambos e o escambau

pelas bahias das minas

de salomão

 

jorge

que amadurece barbosa

o sol de cabo verde.

filho

da luz do precipício.

lorde

no país do carnaval,

e neste hospício

bispo do rosário

 

jorge

amado e odiado

bamba do império que lapido

nas madureiras, o âmbar

das terras do sem fim

e com meu verso inconsútil

invento orfeu

filho

dessa negra fulô.

 

 

 

 

jorge

de lima e grosa,

dilapido as horas

do fútil mistério

que cobre o meu sexo:

confesso,

sou lésbico com as palavras

e a túnica de minha poesia, dilacero.

eu sou bem safo!

 

 

ou meu santo é forte

filho

de ogum

e a sorte de ser são

jorge.

eu e meu cavalo

no subúrbio da lua

à galope no que valho,

cravo pelas ruas

o dragão

de meu epitáfio:

sou poeta, foge!

 

jorge

que bebeu dionísio

na barrica de diógenes

e na fonte de belerofonte:

meu mito escorre

pela boca maldita

ao largo da ordem

onde tomei porres, daqueles

babacas,

que não fodem

e não saem de cima.

 

 

 

 

 

 

 

meu nome é jorge

nem agora josé

nem enfim joaquim.

filho

do tempo

e suas relações naturais

um parto de campos

e matos

onde caetano, modesto

encanta o leão

e dá o compasso

ao nosso qorpo santo,

nefasto.

 

e eu sou

jorge barbosa filho.

branco, negro e índio,

xamã dos meus xarás

e minha tribo me espera lá

alto lá!

jorge de bar e bossa

fio da véia teia,

na festa da cumeeira

aonde brota o mel

no mar, no céu de yemanjá:

a fina vela blues de buzuca

e a pipa gay de jorge do kaká.

 

ou como me chamam cá

jorge barbosa filho,

um agnóstico aflito

com espelhos vastos…

jorge de qualquer lugar!

ninguém me deixa sonhar

porque sou portela, boêmio,

um jorge e um diabo do irajá

que  acena

um salve jorge

apenas num olhar.

 

e a minha vó… zilpa!

EGOSSISTEMA poema de ernâni getirana

 

no escuro de mim
é que me perco e me acho:
boi cego a ruminar estrelas
vida, meu jogo radical,
nem tanto ao bem,
nem tanto ao mal.
antes eu, de mim mesmo a ferida.

meu corpo, planeta profano,
em trânsito pela galáxia de humanos e máquinas.
eu (perplexo), espelho invertido, convexo
do mundo que me engasga.

meu tempo, o tempo que dura a emoção.
elemento estrábico onde leio remotas notícias de mim.

sangro dentro da noite
num monólogo mudo, terminal,
por entre zonas de sono e silêncio
onde toda verdade é mentira,
onde toda mentira é real