SONATA PARA VITRINA E PEDRA por jorge lescano

para A. vidraça e pedra e ângela; 

 aos pais destes  meninos.

 

Esta crônica foi escrita em 1987, decidi-me a “publicá-la” novamente em virtude de um fato real noticiado pela imprensa: um menino de 9 anos foi assassinado a bala por um investigador de polícia em represália por  ter atirado uma pedra no portão de sua residência, pois acreditou que se tratava de um assalto. Segundo  o jornal Notícias Populares, os últimos atos de menino dentro de casa, antes de sair para brincar, foram:  montar a árvore de natal e abraçar sua mãe. O policial  não foi demitido e, ao que se sabe, continua circulando armado pela cidade, para proteger sua população dos vândalos. No final do segundo milênio cristão, a história de Davi e Golias tem um desfecho renovado.

São Paulo, dezembro de 1999

 

Processo inédito    Juiz intima para depor criança que atirou pedra em carro

A Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) decidiu investigar processo em que foi expedido mandado de busca e apreensão contra um menino de 5 anos (foto) em Serrana (SP). O processo foi aberto há dois anos porque o garoto jogou pedra num carro. Na última sexta, PMs foram procurá-lo em sua casa. O pai do menino, então, levou-o à presença de um juiz na segunda-feira. Ao vê-lo, o juiz decidiu arquivar o processo.

Diário de S. Paulo. sexta-feira, 25 de agosto de 2006, A1.

 

Ele olha a janela e vê o fulgor do crepúsculo nela refletido. O sol é cobre condensado na vidraça. A luz de fogo antigo é seu Eu e pede aos gritos para ser multiplicado. O Anjo sabe disso porque há uma comunhão inexplicável entre os três. Ele sente no bolso da camisa o peso das pedrinhas de areia; a forma arredondada passeia brevemente pela ponta dos seus dedos e deita no couro do estilingue. A pedra e ele sabem que o espaço deseja ser cortado por um corpo sólido rumo a um destino certo. O vazio da tarde espera as notas de cristal. Então o Anjo é poeta, escultor, músico, pintor: empunha sua batuta e com olho certeiro modela na realidade algo que nunca antes existira e que jamais voltará a se repetir. Ele sabe que cada vidraça, e cada pedra, e cada garoto, e cada tarde silenciosa, é única. O ar é uma vibrante corda de violino. O vidro morto salta em fagulhas de sons e cores; a tarde toda vira um caleidoscópio, do qual também fazem parte o brilho assombrado dos olhos do Anjo, e seu sorriso, e o pulsar do coração, que se antecipa e quer fugir.

 

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