Arquivos Diários: 26 abril, 2009

OFERTÓRIO – ÓDIO / poema de jb vidal

ainda ofereço este ódio

que se alimenta da inveja e do ciúme

da ganância e do poder

que macera sobre fracos e inúteis

ri do sucesso e do fracasso

e reina absoluto no tempo

 

 

 

um ódio total,

solícito, voluntarioso e polido,

cínico e exuberante,

com elegância faz as guerras e dizima pela fome,

que, em nome de Deus, pune, mata e destrói,

timoneiro único, em seu barco de chamas, navega os corações

 

 

 

um ódio que elimina obstáculos e é espelho maior

um ódio eterno que se disfarça em glórias e orações,

penitências, óbolos, ladainhas e procissões

que surge lentamente, lentamente, lentamente

para aflorar como um vulcão impiedoso e destruidor

derrotando sentidos, sentimentos, esperanças e pulsações

 

 

ofereço pois a quem nunca estendeu a mão

a quem ofendido não perdoou

agredido não esqueceu

esquecido não lembrou

a quem a inveja e a calúnia foram santos no altar

a quem a morte é o momento de saber que não viveu

MÁRIO crônica de hamilton alves

Mário é o nome de um amigo que fiz há pouco. Tem setenta e oito anos, mas aparenta ser ainda um homem disposto para qualquer parada, cabelos grisalhos, bastante lúcido, sem nenhum problema de saúde aparente e dono de um bom humor contagiante. Toma vinho, cerveja, caipirinha. Come com moderação, sem escolha de cardápio. Ou seja, o que vier traça. Exercício físico, segundo deduzi em algumas horas de conversa, não faz nenhum. Ou não se dedica a fazê-lo. Exame médico, não se lembrava mais do último que fez. Consulta a médico, também, só se recordava de ter feito duas ou três durante toda a vida, mesmo assim para doenças passageiras.

                                               Passou o diabo para sobreviver, oriundo de uma família pobre, de oito irmãos (incluindo-se ele). Começou a frequentar a escola com onze anos, mas logo percebeu que tinha que trabalhar para ajudar nas despesas da casa.

Reuniu-se com três outros amigos (dois deles filhos de médicos e um outro de marinheiro) para trabalhar na caça a rãs. Os filhos dos médicos e ele eram caçadores, enquanto o filho do marinheiro tratava de limpá-las para vendê-las. Colhiam sempre uma boa grana nesse comércio. O filho do marinheiro tinha uma destreza incrível no trato das rãs. Tornou-se um perito nessa tarefa. As rãs, depois de devidamente limpas, eram colocadas numa sacola, conduzidas num carrinho de mão, dirigido por ele, depois do que eram comercializadas, especialmente com italianos, que as adoravam para comê-las ou revendê-las.

                                               Com esse trabalho inicial deu os primeiros passos na sua vida trabalhosa.

                                               Casou-se aos 21 anos com uma mulher diplomada em universidade (não me disse qual). Colocou-o nos trilhos (dito por ele), insistindo que voltasse a estudar. Seguiu seu conselho. Com isso, um amigo lhe arranjou um emprego numa empresa que trabalhava na comercialização de arroz. Entrou nela sem saber o salário que ia ganhar de início. Só seria estabelecido depois que provasse sua capacidade de gerenciamento. Trabalhava doze, treze, quatorze horas, sem descanso, nos feriados e domingos, que era quando saía em viagens para no dia seguinte ter contato com adquirentes do produto. No fim de 35 anos, aposentou-se. Abriu seu próprio negócio.

                                               Formou uma família de quatro filhos: dois homens e duas moças, sendo um engenheiro agrônomo, o outro comerciante, uma das moças é dentista,  a outra é enfermeira de grau universitário. Dois deles, o agrônomo e a enfermeira, fizeram mestrado e doutorado na Alemanha, vindo a casar com alemães, do que resultou uma neta alemã, tendo dez netos.

                                               A filha, diplomada em enfermagem, conhece alemão, assim como o filho agrônomo. Dão palestras por toda parte. Ela é professora universitária.

                                               Perdeu a mulher aos cinqüenta e sete anos de casado. Me declarou (alto e bom som)  que lhe deve tudo o que foi e o que é.

                                   – Qual seu estado civil atual?

                                   Fiz-lhe essa pergunta levando em conta sua jovialidade, deduzindo que, por isso, teria se amarrado a algum rabo de saia.

                                   – Sou viúvo. – respondeu com muita convicção, como se assim quisesse revelar que, mesmo depois de morta, guarda fidelidade à velha companheira.

                                   Findou o encontro confessando-me:

                                   – Só se colhe o que se planta.

                                  

 

Nossos criminosos olhos azuis / por alceu sperança

 


 

Joseph Pulitzer achava que um governo enrolão e uma imprensa “cínica, mercenária e demagógica” produziriam um povo igual. Um povo impostor, misto de Pedro Malazartes, Papai Noel, cegonha, Barão de Münchausen e coelhinho da Páscoa. Será que chegaremos a isso – a ter um povo tão canalha quanto as elites espoliadoras? Ou, na verdade, o sofrimento pelo qual o povo brasileiro passa vai servir de lição para não cair mais em conversa fiada eleitoral?

Terão uma função educativa a crescente insegurança, medo de perder o emprego, terror de não poder pagar as dívidas empenhadas nos cartões de crédito, a ameaça de declínio social, a impotência diante da corrupção, a quebradeira dos serviços públicos em cotejo com a mais brutal carga tributária do planeta, preços altíssimos para tudo, como uma indecente tarifa do lotação e o custo do litro de gasolina? 

Como aprendemos no bê-a-bá do marxismo que tudo está ligado, é impossível desligar esse caos urbano e rural que varre o Brasil do desastre da ideologia. Depois de convencer todo o mundo de que estavam certos, eles mesmos estão comprovando que tudo estava errado: o Estado que se queria mínimo vai socorrer os bancos quebrados, reforçar o caixa das empresas falidas, socorrer os ricos com os caraminguás dos pobres.

E agora a polícia desanda a dar borrachada em pobre desde a elegante Londres até o grotão mais miserável da Tailândia. É um tal de baixar o cassetete que a face mais visível do Estado na crise é ele assumir um caráter policial, xerifesco. Descem o pau a cada tentativa de exigir justiça, direitos e benefícios provindos dos impostos embutidos em tudo o que se compra.

Não há como negar que o mundo está submetido a um comando policial, exercido pelos EUA a pretexto de combate ao terrorismo. Isso vai se refletir também nos países dominados pela mão pesada do Grande Irmão do Norte. Aliás, a ditaduras sangrentas que se implantaram em consequência da maldita Guerra Fria eram quentíssimas no lombo dos povos latino-americanos, africanos e asiáticos. Que outro sentido teve a “Operação Brother Sam”, avalista da ditadura do 1º de abril? Os EUA têm sido a polícia do mundo: prendem e arrebentam pelo planeta afora e espalham sua ideologia de perseguição e exclusão. É mera consequência que a violência e a criminalidade aumentem no Brasil.

Já houve um tempo em que os “quinta-coluna”, brancos de olhos azuis, eram rancorosamente perseguidos. Nossos avós italianos eram presos e espancados por qualquer motivo. Os alemães iam para o xilindró por um simples sotaque. Até era possível se fazer de mudo e botar peruca preta para ocultar os cabelos louros, mas não havia como disfarçar aqueles criminosos “olhos azuis”, pois não havia lentes de contato à venda nos bolichos. Esses perseguidos na II Guerra Mundial é que depois fariam a força e o desenvolvimento da economia no Sul.

E o que será dos perseguidos de hoje – os moreninhos e brancos, de olhos de todas as cores, empurrados para as favelas por conta de uma ditadura violenta e governos gastadores? Eles já poderiam ser o grande capital humano para o futuro da economia brasileira, mas os dirigentes e as elites preferem a matança dos jovens da periferia a melhorar a educação, a saúde e a geração de empregos.


….

O autor é escritor.

 

 

lula-de-olho-azulilustração do site. arte digital de néo correia.

RUMOREJANDO (Cota de avião? A próxima legislação de interesse deles algum pai da pátria já deve estar bolando. Até quando? / por juca (josé zokner)


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O abandono dela me deixou sentido.

Meu coração, que era maciço,

Ficou, por tal razão, carcomido.

E parecido com um queijo suíço.

Constatação II

O candidato eleito é a antítese, o antípoda, a dicotomia, a discrepância do candidato em campanha.

Constatação III

Foi a tenista americana Serena Wiliams que um admirador tranqüilo, calmo, sereno fez uma serenata pra ela no meio de um forte sereno, cantando “serenô eu caio, eu caio, serenô deixa cair”…

Constatação IV

Corja é o coletivo

De um pessoal

Muito vivo?

Constatação V (Para os meus amigos Beto Guiz e Marcos Recchia e para Inezita Barroso).

Quando o interiorano foi pela primeira vez assistir um balé que apresentou o Lago dos Cisnes do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky e, mais tarde, contou para os amigos: “Só me alembro de algumas partes que eu assisti. As otras eu drumi. Abriu uma cortina de uma baita janela. Adespois vejam só:

Ela parecia mermo uma garça

Quando na ponta do pé

Tava a dançá

Uma linda varsa.

Será que ela tava

Com dor no carcanhá?

Que deve ter incomodado ela

Bastante?

Um cristão

Ficava

Arrodeando

Ela todo instante

E se agarrava nela.

Devia tá matutando

Arguma má intenção

Arguma má fé.

Tinha jeito de tê

Arguma tara.

Num gostei do infeliz.

Eu até quis

Dá nele um safanão

O fiô duma égua,

Que vá dança

Com aquela

Ropa de cetim,

Cateretê

Com as muié,

Que quisé

Muinta légua

Pra morde longe de mim.

Constatação VI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É no peritônio

Que se manifesta

O cara ser idôneo?

Constatação VII

E como fabulava o obcecado: “Meus carinhos são sempre sem segundas intenções, mas que elas existem isso lá existem”.

Constatação VIII

Assim como o parvo diz parvoiçada e o besta diz besteirada quem diz disparate é um sujeito resultante da soma do parvo e do besta na tabuada?

Constatação IX (Para o meu Amigo Luiz Ivan de Vasconcellos se recuperando de um acidente).

Foi o lírio

Que disse para a ágata:

“Você é uma gata

Que, como ouro, reluz.

Pros meus olhos uma luz,

Um colírio.

O teu desdém

Me obriga, no jantar,

A tomar

Um chá de mentruz

Pra me acalmar

Você é alguém

Que me induz,

Num vaivém,

A frequentar

O Sus.

Constatação X (Dúvida crucial).

Foi o marisco

Que, para não se molhar,

Por causa de um chuvisco,

Adentrou ao mar?

Constatação XI

Não se pode confundir purista com jurista, até porque nem todo jurista é purista e nem todo purista é jurista. Evidência, evidentemente, evidente, prezados leitores.

Constatação XII

Muita gente reclama porque Noé levou para a sua – dele – arca certos insetos inconvenientes, como, por exemplo, um casal de pulgas. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas este assim chamado escriba acha que, por estar muito atarefado em conciliar os lugares para todas as espécies, Noé não tomou tal iniciativa. Elas, as pulgas, devem ter tomado carona no casal de cães. Pelo sim e pelo não Rumorejando se propõe a esclarecer o que realmente ocorreu. Tão logo tenha uma resposta dará a conhecer aos seus estimados leitores. Obrigado pela compreensão.

Constatação XIII

O horroroso

Não se considerava

Pavoroso,

Nem, ao menos, feioso

E não se achava

Mirífico*

Ou magnífico.

Ele se julgava

Meio-termo,

Pois vivia ermo

Só e abandonado.

Coitado!

*Mirífico = “2   extraordinariamente belo; perfeito, maravilhoso, admirável” (Houaiss).

Constatação XIV

O corporativismo é uma reunião de interesses comuns, defendendo causas incomuns.

Constatação XV

E foi a ametista

Que levou a boca-de-leão

Ao dentista

Por causa de uma inflamação?

Constatação XVI

O banguela

Desceu com o carro

Na banguela

Na estradinha de barro

Um pouco lisa.

O dentista tinha arrancado

Mais de um dente

Que o doutor tinha achado

Excludente.

Coitado!

De repente ele divisa

Um buraco.

Freou,

Meio devagar, fraco.

Mesmo assim,

O carro derrapou

E a companheira

Que ia ao lado

Bateu no pára-brisa

A moleira.

Quebrou um dente,

Também ela.

Ficou danada.

“Você não cuida de mim!”

Coitada!

Constatação XVII

Rico sofre de amnésia; pobre, nunca presta atenção.

Constatação XVIII

E como explicava, poetando, aquele velho professor de matemática contrário à máquina de calcular:

“Qualquer resolução

De uma equação

Passa, antes de mais nada,

Pela velha tabuada.

Constatação XIX (De uma dúvida crucial).

Por que será que a diretoria do meu Paraná não se demite ao invés de demitir técnicos?

Constatação XX

Rico leva donativo; pobre, corretivo.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br