MÁRIO crônica de hamilton alves

Mário é o nome de um amigo que fiz há pouco. Tem setenta e oito anos, mas aparenta ser ainda um homem disposto para qualquer parada, cabelos grisalhos, bastante lúcido, sem nenhum problema de saúde aparente e dono de um bom humor contagiante. Toma vinho, cerveja, caipirinha. Come com moderação, sem escolha de cardápio. Ou seja, o que vier traça. Exercício físico, segundo deduzi em algumas horas de conversa, não faz nenhum. Ou não se dedica a fazê-lo. Exame médico, não se lembrava mais do último que fez. Consulta a médico, também, só se recordava de ter feito duas ou três durante toda a vida, mesmo assim para doenças passageiras.

                                               Passou o diabo para sobreviver, oriundo de uma família pobre, de oito irmãos (incluindo-se ele). Começou a frequentar a escola com onze anos, mas logo percebeu que tinha que trabalhar para ajudar nas despesas da casa.

Reuniu-se com três outros amigos (dois deles filhos de médicos e um outro de marinheiro) para trabalhar na caça a rãs. Os filhos dos médicos e ele eram caçadores, enquanto o filho do marinheiro tratava de limpá-las para vendê-las. Colhiam sempre uma boa grana nesse comércio. O filho do marinheiro tinha uma destreza incrível no trato das rãs. Tornou-se um perito nessa tarefa. As rãs, depois de devidamente limpas, eram colocadas numa sacola, conduzidas num carrinho de mão, dirigido por ele, depois do que eram comercializadas, especialmente com italianos, que as adoravam para comê-las ou revendê-las.

                                               Com esse trabalho inicial deu os primeiros passos na sua vida trabalhosa.

                                               Casou-se aos 21 anos com uma mulher diplomada em universidade (não me disse qual). Colocou-o nos trilhos (dito por ele), insistindo que voltasse a estudar. Seguiu seu conselho. Com isso, um amigo lhe arranjou um emprego numa empresa que trabalhava na comercialização de arroz. Entrou nela sem saber o salário que ia ganhar de início. Só seria estabelecido depois que provasse sua capacidade de gerenciamento. Trabalhava doze, treze, quatorze horas, sem descanso, nos feriados e domingos, que era quando saía em viagens para no dia seguinte ter contato com adquirentes do produto. No fim de 35 anos, aposentou-se. Abriu seu próprio negócio.

                                               Formou uma família de quatro filhos: dois homens e duas moças, sendo um engenheiro agrônomo, o outro comerciante, uma das moças é dentista,  a outra é enfermeira de grau universitário. Dois deles, o agrônomo e a enfermeira, fizeram mestrado e doutorado na Alemanha, vindo a casar com alemães, do que resultou uma neta alemã, tendo dez netos.

                                               A filha, diplomada em enfermagem, conhece alemão, assim como o filho agrônomo. Dão palestras por toda parte. Ela é professora universitária.

                                               Perdeu a mulher aos cinqüenta e sete anos de casado. Me declarou (alto e bom som)  que lhe deve tudo o que foi e o que é.

                                   – Qual seu estado civil atual?

                                   Fiz-lhe essa pergunta levando em conta sua jovialidade, deduzindo que, por isso, teria se amarrado a algum rabo de saia.

                                   – Sou viúvo. – respondeu com muita convicção, como se assim quisesse revelar que, mesmo depois de morta, guarda fidelidade à velha companheira.

                                   Findou o encontro confessando-me:

                                   – Só se colhe o que se planta.

                                  

 

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