Arquivos Mensais: maio \31\UTC 2009

CALVERO por hamilton alves

 


 

Quando assistiu ao filme de Chaplin, Luzes da Ribalta, Carlos Drummond de Andrade contou a amigos (ou narrou numa crônica) que do cinema Metro, em Copacabana, até sua casa, na rua Conselheiro Lafayette, distante seis quilômetros, fez toda a caminhada para refletir sobre o tema desse grande filme, um dos maiores do cinema e destaque na filmografia do grande ator e cineasta.

                                       A história se resume no fato de, certo dia, quando se recolhe bêbado, como de rotina, a um quartinho modesto e despojado de uma modesta pensão, onde morava, cujos degraus sobe com dificuldade, eis que vê uma fumacinha sair debaixo da porta do  quarto vizinho. Empurrou-a, derrubou-a e o que constatou foi que, com isso, uma jovem queria por fim à vida. Depois revelou que essa era sua intenção porque estava privada de sua arte, a dança clássica (ballet), por paralisia das pernas.

                                        A partir de então, Calvero, que é um artista que passa por uma má fase, sem contratos com produtores de espetáculos, vivendo de coleta pública com outros artistas de rua, passou a se interessar pelo problema da moça, a incutir-lhe que o que estava fazendo era incompreensível. A vida não sugeria que deve se lhe por fim; era um dom de Deus, e, fosse o que fosse, deveria ser preservada

                                       Paralelamente a essa ajuda prestada, Calvero acaba se apaixonando por ela que, em relação a ele, tinha idade para ser sua filha. Nunca lhe revelou essa paixão. A moça é que a manifestou por ele. Tentou dissuadí-la de tal absurdo sentimento. Ela insistia por convencê-lo que não era fruto de gratidão de ter-lhe salvo a vida, mas, sim, de algo verdadeiro, nascido espontaneamente em seu coração.

                                       Calvero volta a tentar exibir-se em pequenos teatros, mas fracassa. Não é o mesmo artista aplaudido de outros tempos. Vê que não tem mais condições de revelar-se o grande Calvero de outros tempos. O desânimo o alcança. A moça, agora, revertendo-se os papéis, procura encorajá-lo. Mas parece que Calvero se sente irremediavelmente liquidado. Entrementes, ensaia passos com a jovem no quarto em que mora. Até que um dia têm uma forte discussão. Ela esquece-se, por momentos, de que tem um problema de imobilidade, dá passos em sua direção, de que se aproveita para comprovar-lhe que tudo de que padece é uma inibição psíquica, que pode dominar e voltar a dançar.

                                         Os dois voltam juntos, no fim, a um espetáculo teatral. Em certo momento ela dirige-se a Calvero atrás do palco para lhe agradecer por tudo, por seu êxito, por voltar à dança, quando nova crise de paralisia lhe acomete. Inibe-se de voltar ao palco. Ele responde à crise aplicando-lhe um tapa no rosto, pelo que retoma seus passos de dançarina. Calvero segue no espetáculo com seu número, no que é delirantemente aplaudido, retomando seus grandes dias de glória. Mas por um acidente ocorrido no palco, vem a cair dentro de uma bacia, e ali fica entalado e vem a morrer.

                                          O filme resume-se, mais ou menos, a esses dados.

                                          Também eu, a exemplo de Drummond, quando vi esse filme, não digo que, como ele, percorresse um trajeto de seis quilômetros, mas realizei, afortunadamente, uma viagem de carro de Tubarão, onde morava então, até a Ilha, ruminando os lances desse grande e inesquecível filme de Charles Chaplin, que passou à história do cinema como um dos seus maiores momentos.

                                            Valeria dizer, em resumo, que Chaplin, de certo modo, se retratou em Calvero. Mas este, a exemplo de tantos outros personagens, ganhou vida própria e passou, sem dúvida, à condição de ícone.

MACHINA conto de silvio barros

Ali estava o coliseum e eu o vislumbrava pela primeira vez. Estava em frente a sua ala incendiada. Mais uma marca para ele arrastar pelo tempo. As pedras naquele lado, calcinadas, tinham metal incrustado a um ponto que elas e o metal pareciam elementos híbridos. O homem ao meu lado suspira, naquele lugar com um cheiro nauseabundo. E embargado pela emoção, segurando as lágrimas, aponta para as pedras calcinadas.

– Aquilo foi um happening de um artista que trabalhava velocidades altas. Aceleradores de partículas deslocando fótons. Era bancado por um conglomerado industrial. Isso foi há noventa anos, ele morreu no happening . Overdose de energia nos reatores, que implodiram e volatilizaram toda a matéria que estava próxima. Não houve como reparar o Coliseu, sua estrutura ficou comprometida. E ali, naquela ala, vai ficar para sempre a marca, tingida de metal. Certas horas da manhã ele brilha. Um brilho escuro, estranho. O artista montou seu ciclotron, um anel de metal com tubos aceleradores de fótons azul metálico, que se encaixava ao ocre-tempo das pedras do coliseu. Um reator na junta do anel pegou fogo e houve uma grande fissura nos tubos. Principalmente os daquele lado. A imagem do artista e da máquina já estava sendo vinculada pelas mídias da época, meses antes. Sorte é que aconteceu no ensaio geral. Mesmo assim, foram dezenas de vítimas. Se fosse mesmo no happening, seria uma tragédia. Ele foi um dos primeiros artistas a trabalhar com máquinas pesadas, era muito famoso. Chamavam-no de “Number One”. Seu filho não teve o mesmo talento, até que forçaram a barra. Mas ele fracassou. Só treze anos depois um italiano, Benvenuto, tomou o seu lugar. Trabalhava com máquinas gigantescas, era apoiado por um consórcio europeu. Criou uma serpente verde com vários tubos, aceleradores enroscados. Circundavam o Vesúvio como um colar de jade. À noite, o acelerador operando, brilhava. Meu pai era criança, se emocionava só de contar. A obra era chamada de a décima terceira maravilha do mundo. Aí veio a decadência dessa grande arte. Hoje não há mais esses artistas, o tempo os levou. Não há mais dinheiro, água, nada . As máquinas fabulosas ficaram no passado.

– E como começou essa decadência?

– Alguns anos depois que a serpente foi erguida no Vesúvio, um grupo de americanos planejou várias máquinas , que acopladas, criariam uma super máquina no deserto da Califórnia em forma de serpente. Batizaram-na de snake em homenagem a um antigo artista, chamado Richard Serra. Seria vista até do espaço. Ainda na fase inicial, pesquisa de material e estudos, a operadora do projeto faliu. Foi um escândalo. Os americanos foram , por décadas, motivo de chacota por isso. Em sessenta e três, teve o terremoto que destruiu Nápoles e o Vesúvio foi sacudido. A serpente, desligada, ficou entortada como um trompete sob as patas de um touro. Meu pai contava que minha avó ficou uma semana de cama chorando, e meu avô sentado, calado, por quase um mês, olhando pela janela o Vesúvio. Sem a serpente verde como um colar de jade. Minha avó foi enterrada com um colar de pedra verde, que imitava a serpente. Foi moda durante anos. Logo depois disso, as corporações romperam suas alianças com os artistas. Não havia mais verba para as máquinas pesadas. A última foi feita por um artista japonês, radicado em Paris, há sessenta anos. Eram tubos azul-celestes pendurados por semi-arcos na vertical, na margem esquerda do Sena, da Ponte L’Alma a Ponte Invalides. Era uma máquina esguia, elegante. Vi imagens dela. Não durou muito, seus reatores produziam muito barulho. E aí houve uma guerra política entre a prefeitura de Paris e a corporação energética-industrial que dava suporte. A corporação foi derrotada judicialmente em um tribunal popular. Emissões sonoras acima do nível tolerado em uma urbe, foi o veredicto.

– E o italiano?

– Benvenuto enlouqueceu, não conseguiu se adaptar a época das máquinas menores. Foi internado em Nápoles, sob diagnóstico de profunda depressão. Do seu quarto via o cume do Vesúvio,e passou seus últimos momentos o desenhando. Um dia amanheceu morto.

– E as máquinas?

– A cada ano foram diminuindo, até a algumas décadas atrás acabarem. Com o estado de sítio por causa da falta d’água, a arte voltou as formas primárias. Hoje, só o mau cheiro, o calor, e esse sol que dói a pele…

O homem tira do bolso do casaco comprido, algo que deviam chamar de maço de cigarros. Já vi imagens. O maço era azul claro, com um elmo com asas. Os cigarros eram curtos. Ele tirou um e não me ofereceu, e a fumaça se misturou às lamúrias do inválido, que ao nosso lado se aconchegava para cagar.


CRONOLOGIA

· 1991 – Em 17 de fevereiro, nasce em Long Island (USA), Andrew Philip Woodcock, o Number One.

· 2001 – Começo da saturação da Arte Conceitual e da afirmação da Arte Virtual e dos Blogs.

· 2010 – Arte Conceitual entra em total declínio, e a Arte Virtual se esgota. Blogs tornam-se obsoletos.

· 2013 – Em 2 de agosto, nasce em Nápoles (ITA), Benvenuto.

· 2015 – Primeiras máquinas são usadas em happenings.

· 2040 – Number One, com o anel-máquina, explode no Coliseu, matando 45 assessores e 130 curiosos que observavam a montagem do lado de fora.

· 2045 – O romance se esgota como gênero. Últimos remanescentes.

· 2053 – Benvenuto instala a serpente verde no Vesúvio.

· 2058 – Artistas americanos planejam a super máquina snake no deserto da Califórnia.

· 2061 – Aberto processo de falência da operadora do projeto americano.

· 2063 -Terremoto destrói a obra de Benvenuto no Vesúvio.

· 2066 – Corporações cortam as verbas para as grandes máquinas.

· 2068 – É instalada na margem esquerda do Sena, a última máquina. Tinha 1,8km de extensão com tubos com circunferência de 12m.

· 2073 – Prefeitura de Paris vence batalha na justiça e retira a máquina, sepultando a magna arte.

· 2075 – Benvenuto morre em Nápoles.

· 2085 – Máquinas pequenas dão lugar à poesia feita na carne.

· 2101 – Estado de sítio pela falta de água e de matérias primas

MARTIN LUTHER KING

martin_luther_king_2“O QUE MAIS PREOCUPA NÃO É O GRITO DOS VIOLENTOS, NEM DOS CORRUPTOS, NEM DOS DESONESTOS, NEM DOS SEM ÉTICA. O QUE PREOCUPA É O SILÊNCIO DOS BONS ”
Martin Luther King

SOU FELIZ poema de ana carolina cons bacila

Sim, estou feliz.

Não sei o que me fez sentir assim,

só sei que é maravilhoso estar feliz.

 

Sim, sou feliz!

Algo parecia me impedir,

queria me destruir, mas sou feliz.

 

Não sei se era você,

não sei se era eu.

Não sei quem me queria ver sofrer,

se era alguém com ciúme que doeu.

 

Não sei se era você

não sei se era eu.

Não sei se era pra doer,

mas juro, não doeu.

 

Por isso digo pra você,

infeliz quem queria me ver sofrer,

haha, se fudeu!

Literatura dá grana? É, para alguns escolhidos – por alceu sperança

O escritor francês Émile Zola (1840–1902) via com preocupação o misto de temor com desprezo que os governantes têm tem das letras, as artes de ler e escrever, que são a base de todo conhecimento: “Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”.

Escapa, de fato, como vejo agora no livro “Lendas de um Coração (Poesia em Defesa da Igualdade)”, de Álef, obra que integra um pentateuco editado pelo Instituto Brasileiro de Projetos Comunitários (IBP).

Além de a obra ser primorosa, o IBP é uma das mais sensacionais novidades na praça. Algo como um farol de amor e cultura.

Lendo o esplêndido livro de Álef reforça-me ainda mais a convicção de que é preciso lutar por um mundo melhor. E lutar aqui, lutar agora. Não são os deuses que nos infelicitam: somos nós que fazemos as escolhas.

Política não é eleição, mas aquilo que você faz com sua vida. Não é algo, portanto, que deva deixar entregue a safados, bestas e corruptos.

Seria conveniente perguntar se não haveria nada mais a fazer por nossa comunidade além de pensar apenas em eleições e podres poderes. Uma leitura ao pentateuco de Álef e um contato com o IBP talvez transformassem um desencanto contraproducente em ação e luz.

Ação e luz foi o que se viu em um encontro promovido pela Academia Cultural Uso da Palavra (Acup), de Cascavel, em homenagem ao cinema nacional.

Dele brotou a sensação de que algo de efervescente está cozinhando no caldeirão cultural do Paraná. A saudável iguaria exibe nacos de cinema, teatro, música, artes plásticas e dança.

Todavia, nesse caldeirão ainda está faltando uma bela proteína: a escrita. É no ler e no escrever que se forjam os talentos digna e justamente premiados em todas as demais artes, mas isso tem sido ignorado.

O Concurso Literário Celso Formighieri Sperança vem sendo levado bravamente pela Biblioteca Sandálio dos Santos, em Cascavel, mas ainda é o primo-pobre das artes cascavelenses.

É descontínuo e tem uma premiação irrisória e divulgação precária. Nem nas escolas chega a ser conhecido. É como se a Biblioteca fosse um corpo estranho na estrutura cultural e educacional de Cascavel e a literatura fosse um elemento desprezível.

Um “pecado solitário” de gente teimosa que no silêncio e no isolamento, espécie de molusco fincado no interior de um caracol inacessível, desse trela a suas taras egoístas escondido num auto-hospício introspectivo, sem ligação com o mundo real.

Não se escreve num palco, afinal. Entretanto, é simplesmente impossível compreender porque o Município de Cascavel deu quinze troféus ao Festival de Teatro (merecia 30!) e deixou o Concurso Literário Celso Formighieri Sperança do mesmo jeito que estava há uma década, ou seja, promovido apenas a cada dois anos.

Agora que a Caixa Econômica Federal passou a apoiar, precisaria continuar a ser bianual? Foi esse concurso literário, diga-se, que deu a base para o magnífico espetáculo teatral A Encruzilhada, de Miguel Joaquim das Neves, a nossa “Via-Sacra” histórica, digna de ser reprisada anualmente.

O Concurso Paulo Leminski, de Toledo, aliás, é anual e dá grana aos vencedores. Grana… Cascavel nem sabe o que é isso!

Não é possível compreender o descaso com as artes de ler e escrever, porque sem o estímulo à leitura continuaremos a ter essa sociedade meio besta que aí está.

Vê-se isso pelas idéias de jerico dos líderes políticos locais, com seu egoísmo jactante e demófobo, seus atropelamentos, suas brigas pueris, seu absoluto desprezo pelos que sofrem.

Acham que o sem-terra e o sem-nada deve ter menos ainda do que não têm. É, estão certos: sem leitura o sujeito fica besta, mesmo.

O BOBO e CONTRA-CENA – mini contos de raymundo rolim

O bobo

 

Era isso o que pensavam então! Então era isso! Pensavam mas nunca falavam. Eram uns esquisitos aquela gente. De onde cargas-d’água tinham vindo? Ninguém sabia dizer nada que prestasse, só coisinhas assim, de nada, bobagenzinhas. Eram palavras tolas, coisa de gente que sabia falar sem saber o que falava. Riam-se. Pelo menos isto faziam, ih, e como riam!!! Pra piorar, as vozes que tinham eram guinchados horríveis, estridentes. Aquilo era nada. Parece que aquela gente tinha saído debaixo do chão. Rotos, sujos e não sabiam nada. Tinham fome, ih se tinham, e bebiam água. E diziam bobagem e riam. Um deles era o representante do resto, aquele que acreditavam ser o bobo-mór, que lhes era igual ou superior. Esse nem ria e nem falava. Observava calado toda aquela indolência hirta. Parecia estar plugado num’outra instância. Pelo menos mantinha os olhos bonitos e serenos abertos; como olhos de hindus. Esse era o bobo deles! Gestos graúdos como os de um ator e de repente, este bastante representante desta choldra, desabou, revirando os grandes olhos especulativos, para se pôr de pé em seguida e à guisa de oráculo, falou-lhes na linguagem das cavernas, ou antes, linguagem de magma. E eles se entreolharam e riram mais uma vez, um risinho bobo, de gente tola, que nem sabia rir de nada. Quando o bobo voltou à tona, isto, é, a si, fez um sinal único e rápido, simples e enérgico com a mão. E logo um raio saltou de banda e levou aquela gente que só ria, ria de nada, riam deles, era uma asneirazinha. Tinham visto numa telenovela uma vez e aprenderam depressa! Só isso! É que o bobo-mór era assim mesmo, às vezes meio temperamental e impunha-se a si a tarefa de limpar a terra de gente que ria, de nada, de bobagenzinhas, gente de grande inutilidade. Depois o bobo sumiu! Dizem que partiu para um certo planalto. Para um planalto central. Para prestar ajuda a muitos, pois reclamava a si o reino da Inglaterra. Ele era a rainha da Inglaterra. Havia visto sua majestade numa capa de revista, na banca da esquina, gostou do traje e a vaidade se lhe afeiçoou. Tomou-lhe o juízo. Passou-se a chamar Dom, Dom Fernando.

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Contra-cena

 

O interesse pelo show era geral. Finalmente a estréia seria dali a duas horas e a imprensa noticiara. Noticiara não; fora bombardeado com exaustivos clichês o grande evento; o megaevento. Os batedores com suas motocicletas se aprontavam em frente ao hotel para abrir alas no trânsito perturbado, nervoso e engessado. Encontravam dificuldades de locomoção, rugiam seus motores e aceleravam, sem que saíssem do lugar. Alguns carros bateram, coisa leve, logo à frente e outros lá em cima no cruzamento e lá atrás também. O trânsito ameaçava transformar-se num caos previsível, aliás, completamente previsível. O astro dentro da limusine aguardava como podia e não deveria ceder em hipótese alguma aos impulsos de gritar e se descabelar. Afinal, já estava “aprontadinho para o show”. Meia horinha de camarim para relaxar e em seguida subir ao palco; seria este o roteiro suficiente. Era o que imaginava. Aproveitou o incidente para ficar ali quietinho e repassar mentalmente algumas letras das novas canções com os novos arranjos. Contava cada passagem, em que rufariam forte as baterias, ali e acolá entrariam os solos da guitarra; o contrabaixo que faria contraponto com o piano, o sax que duelaria furioso com o clarinetista. Os metais entrariam logo depois, na segunda música, e ficariam até a quinta, quando então seria o improviso e ele, o artista principal, poderia tomar um pouco de água e ar. Fazia de conta que não ouvia as sirenes que teimavam em desequilibrar o seu senso e sistema auditivo e nem as muitas buzinas dos bilhares de carros que, parados, aceleravam e aceleravam. Andar que era bom, nada! Ainda bem que o ar condicionado funcionava legal. Apertou um botão e saltaram da saliência à sua frente copos e gelo nos copos, e achou que poderia tomar um grande e bom trago do velho J.D. Não arriscaria um cow-boy pra não ficar troncho antes da hora, pois que o jantar seria servido apenas depois do espetáculo concluído, quando teria convivas especiais. O comandante do trânsito apareceu, de repente, singrando os céus, num helicóptero barulhento, numa última e desesperada tentativa de resgatá-lo e só não o fez por problemas com a seguradora, que informada da situação, alertou que nas cláusulas do contrato firmado entre a companhia e aquele senhor artista, não estava previsto esse tipo de resgate, de acrobacia aérea. Não foi possível e não houve show. Problemas com o trânsito. Foi o alegado. Mesmo porque, ele distraíra-se a esvaziar aquela garrafa e ainda outra que estava sob o banco e bem que poderia errar algumas notas, ou mesmo frases inteiras e já tinha dificuldades em balbuciar o próprio nome, quanto mais fazer o “bis”. Foi a última coisa que pensou antes de adormecer profundamente no banco traseiro da limusine que felizmente, tinha ar condicionado e uma garrafa vazia a lhe fazer companhia.

OH SÃO LUIZ .ma – poema de nauro machado

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

INACREDITÁVEL: SUSAN BOYLE perde REALITY SHOW

  Oi?! Sim, isso mesmo. Acabou de sair o resultado. Susan Boyle, a super ultra mega übber favorita, perdeu e ficou em segundo lugar no show de calouros. E ela perdeu para um povo que dança. Nada mais me lembro! Após ter enfrentado uma semana com notícias negativas, como tratar mal a imprensa, ter problemas com a fama repentina, etc, Susan ficou com a imagem manchada e o público não deu o prêmio de £ 100 mil à escocesa. Triste.  

SUSAN BOYLE

SUSAN BOYLE

Porém, mesmo levando o segundo lugar para casa, Susan já está feita. “Ela é internacionalmente famosa e os Estados Unidos amam ela”, teria dito Simon Cowell à publicações inglesas durante esta semana. Estima-se que em um ano ela ganhe U$ 5 milhões com o lançamento de um álbum. Enfim, acho realmente chato que ela tenha perdido. A mesma coisa com o Adam Lambert noAmerican Idol. Parece que sempre que alguém “diferente” se destaca mais, a mídia podre e suja tenta derrubar. Cretinos ignorantes. E para finalizar esse post, que é muito triste, fica a última apresentação de Susan Boyle noBritain’s Got Talent.

 

por aldrin cordeiro.

Os Burgueses de Calais – por carlos saul duque

Calais é uma cidade no litoral da França que fica no ponto mais estreito do Canal da Mancha, aquele que separa a Inglaterra do continente Europeu. Do outro lado, o britânico, fica Dover. Antes do Eurotúnel, se você quisesse ir da França até a Inglaterra, tinha que pegar o barco em Calais.

 

É claro que essa localização estratégica meteu a cidade em várias broncas através dos séculos. E uma delas foi na Guerra dos 100 anos, lá nos anos mil e trezentos. É de lá que vem a história dos Burgueses de Calais.

 

Eduardo III, rei da Inglaterra, cercou a cidade e o rei da França, Felipe VI, disse para o pessoal segurar o tranco a qualquer custo. Só que o Felipão não conseguiu liberar a cidade e a fome instalou-se entre os habitantes de Calais.

 

Foi então que o rei Eduardo propôs o seguinte: entreguem-me seis dos homens mais importantes da cidade que eu livro a cara do povo. Minhas condições: que eles venham até mim com o mínimo de roupas, que tenham cordas no pescoço e que carreguem as chaves da cidade e do castelo de Calais.

 

Um dos mais ricos habitantes da cidade, Eustache de Saint Pierre, foi o primeiro a ser voluntário e outros cinco burgueses prontamente o seguiram.

 

Resumo da ópera: a rainha da Inglaterra, que estava grávida, achou que seria de mau agouro executar os seis burgueses e pediu para o marido poupar os franceses em nome do filho que estava por nascer.

 

Em 1888, Auguste Rodin, o famoso escultor francês, foi convidado pelo prefeito de Calais a executar uma escultura em homenagem aos seis burgueses. A obra original está na cidade, mas há cópias em diversas praças e museus do mundo. As imagens que você vê são da instalação que existe no Victoria Tower Gardens, ao lado do Parlamento inglês em Londres.

 

O mais bacana desta escultura é a representação desprovida de heroísmo que Rodin fez de seis homens poderosos. A face de cada um reflete o desespero da situação, as roupas e as cordas deixam suas figuras frágeis e impotentes frente ao destino trágico que acaba não acontecendo.

 

Pois é. Toda a vez que eu leio alguma coisa sobre a crise mundial eu penso nos Burgueses de Calais. E vejo muitas lições a serem aprendidas. O rei que cerca é o mercado financeiro, que exige um sacrifício. O povo está lá, na berlinda e embarricado, esperando que alguém tome uma atitude e que, pelo amor de deus, o rei que manda segurar as pontas não exija mais nada dele. Se não vai aparecer ninguém para fazer o papel dos Burgueses, pelo menos que surja uma outra Philippa de Hainault, a rainha grávida, que ache de muito mau agouro jogar mais essa fatura na conta do povo de Calais.

OS BURGUESES DE CALAIS                                    ilustração do autor.

BÁRBARA DAMÁSIO convida (ITAJAI):

ITAJAÍ - beira do rio.

ITAJAÍ - beira do rio.

 

Domingo dia 7 de junho

no Teatro da Univali às 20 horas
com o violonista Ricardo Capraro
Abertura do show da cantora Joanna.
Show beneficente ao Hospital Infantil Pequeno Anjo
40 reais e 20 reais (meia entrada)
 
 
 
Sexta dia 12 de junho
no Espaço Cultural Indaiá em Itapema 
com o pianista Paulo Davi.
às 21 horas.
 
 
Sábado dia 13 de junho
no Café & Cultura no Mercado Público de Itajaí.
com Bruno Moritz (acordeon)
e Willian Goe (bateria)
às 22 horas
 
 
Domingo dia 28 de junho.
Show: “Na Beira do Roçado”
com Bruno Moritz (acordeon)
Willian Goe (bateria e percussão)
no Teatro de Bolso do NEFA.
às 20 horas.
Ingressos: 15 reais.

BOCHINCHO poema de jayme caetano braun

 

A um bochincho – certa feita,
Fui chegando – de curioso,
Que o vicio – é que nem sarnoso,
nunca pára – nem se ajeita.
Baile de gente direita
Vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quireral.

Atei meu zaino – longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
‘Pero – que las, las hay’,
Sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.

No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Me entreverei no banzé.
Chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candieiro, bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalé china lindaça,
Morena de toda a crina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
Com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta.
Eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
E o gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu – contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos – flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
– Cumpriu-se o velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei – de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava – com espanto,
Mais sério do que um capincho!

E foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono de rodeio.
Quis me partir pelo meio
Num talonaço de adaga
Que – se me pega – me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa – chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na volta do braço
Consegui tirar o talho
E quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei – sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas ainda hoje me arrepia
Lembrar aquela peleia,
Talvez quem ouça – não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E aquilo foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E amigos – foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho – quando estoura,
Tinidos de adaga – espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Gritando – de toda guela,
Num berreiro alucinante,
Índio que não se garante,
Vendo sangue – se apavora
E se manda – campo fora,
Levando tudo por diante!

Sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos – se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chínaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro – alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
– Já quase sem munição,
Todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Me dei conta – de repente,
Não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na do fundo,
Saí na Porta da frente…

E dali ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E inda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zaino era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

E a china? – essa pergunta me é feita
A cada vez que declamo
É uma coisa que reclamo
Porque não acho direita
Considero uma desfeita
Que compreender não consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

E a china – eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Em bárbaro frenesi.
Talvez ande – por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou – talvez – nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas – que se banha nua
No espelho das aguadas!

DAIMON poema de delinar pedrinho

Daimon

 

O diabo se compraz do meu amor

 

Sofro, choro e remôo ilusões e acontecimentos que sonho ter novamente

 

Deus, nele o amor também o é louvável

 

O sofrimento purifica o homem

 

A min o amor é tudo isso, resultando em um goticismo crônico e febril

 

Hirto de senti-lo cada vez mais pois que o único sofrimento desejável a este ser caducifólio

TONICATO MIRANDA, poeta, COMENTA em: “OFERTÓRIO-DOR” poema de jb vidal

 Tonicato Miranda

Novembro 21, 2008 22:29 pm às 22:29 pm | Responder


Devo estar mesmo cego, atingido pelos vaticínios de Saramago, com o seu Ensaio Sobre aTONICATO  MIRANDA - FOTO  008Cegueira. De fato, meu Caro Vidal, passei batido, desbengalado, e tropecei no vazio, quando a beleza estava aqui ao lado em seu Ofertório-Dor.

Permita-me somar algumas palavras às palavras da Zuleika, da Marilda, do Altair e à narrativa contundente, e afiadíssima qual navalha de barbeiro, do incansável e indescritível João do Lago.

Ofertório-dor é de fato obra rara. Certa feita, em uma raríssima oportunidade, num almoço em sua casa, quando ainda em Curitiba, você dizia que ao poeta basta apenas um poema para ser lembrado, declamado, e se fazer presente na memória dos seus pares e do povo em geral. Todo o poeta deve trabalhar num poema para servir-lhe de cartão de visita, daqueles para os quais nem a terra, nem os dentes das minhocas, nem dentes de qualquer verme poderão apagar.

Ofertório-Dor é seu poema chave. É de fato seu poema-cartão de visita, de permanência, de lucidez e de loucura ao mesmo tempo. Sua contribuição universal ao mundo da poesia. Ao mesmo tempo Dante, ao mesmo tempo Bukoviski, em certo sentido Dostoieviski, numa alto flagelação, numa sofreguidão, numa ânsia de entrega, capaz de causar inveja a Cruz e Souza se saltasse da tumba e viesse aqui nos visitar.

Vou discordar, mas somente um pouco. Vou maldizer, mas somente um pouco. Vou mentir, mas somente um pouco. Vou contrariar, mas somente um nada, do João do Lago. Este não é um poema de ocorrência de 10 mil anos, não. Bobagem. A eternidade não se escreve em anos. Para além de 10 mil anos todos serão esquecidos, inclusive Cristo, Nero, Cléopatra e todos os impérios. Nossa eternidade está na lembrança dos últimos súditos, às vezes nem com eles perdura, pára nos amigos. Nossa eternidade está na obra, que pode durar um, dois ou três mil anos. Ou simples horas. Quem saberá dizer?

O seu poema Ofertório/Dor é eterno porque vive em mim e sinto sua fragância me dominando, pairando para além dos meus dias, dos dias do João, da Marilda, do Altair e da Zuleika. Esta última tem razão quando afirma ser o verso “Ofereço a dor da ânsia divina de morrer” como um dos grandes versos já vistos por nós. Mas também é divino o ponto e o contraponto do tiroteio que lhe precede

“…da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer”

E veja que quando Zuleika falou do último verso, associou a ele a metade do primeio verso da estrofe, recriando o poema. Ou seja, um poema que permite visitação pode ser considerado um poema-instalação.

Você conseguiu, Vidal.
Este é um transatlântico com rota, destino e perdição.
Quanto tempo perdi eu em não ter embarcado alguns portos antes para navegá-lo por mais tempo.

O João, a Marilda, a Zuleika me trouxeram de volta ao poema. Quanta cegueira na minha e na sua dor.

 

veja o poema comentado: AQUI

ALTAIR DE OLIVEIRA, o poeta, COMENTA em: “OFERTÓRIO-DOR” poema de jb vidal

Julho 27, 2008 14:12 pm às 14:12 pm | ResponderAltair de Oliveira

Taí uma poesia que muito muito me toca. Este poeta Vidal é contundente, inquietante e não escreve mesmo por acaso!
Altair de Oliveira - O lento Alento 09Enfrentar-lhe os poemas é ousar cair em si. É tentar erguer os olhos a partir de nossa precariedade humana, da nossa sensibilidade arcáica, das nossas heranças escondidas ou ostentadas. Incrível, mas a poesia desse cara me faz sentir precisar de consertos se acaso um dia eu queira soar como concerto… Muito muito bom que o poeta tenha, enfim, se decidido nos presentear com a publicação deste “Ofertório”! Quando setembro vier a poesia estará mais orgulhosa disto!

Altair de Oliveira.

 

veja o poema comentado: AQUI

RÁDIO E ELETROLA crônica de sérgio da costa ramos

O domingo tem sons que os outros dias não tem. É um som inconfundível, que mistura frigideira com churrasqueira, comida com futebol .

O rádio alto do vizinho. Jogo de futebol, portanto, é logo associado ao domingo. Há o ritmo da narrativa crescente, o ataque tecendo a armadilha para o tiro final – e o grito prolongado de “gol” – o locutor esticando a goela até cansar. Há o barulho da torcida, entre chiado e estática – sons que chegam pelo reboco das paredes, vindos provavelmente da “eletrola do vizinho”.

Eletrola. Palavra antiga. Móvel de madeira, sobre pés finos como palitos. Uma caixa para abrigar o prato, sobre o qual se assentam os discos negros de vinil.

Da minha infância, emanam sons misturados, rádio e eletrola. Gritos e atabaques. Canções melosas, boleros, cantoras “velhas” – Ima Sumak, Dalva de Oliveira, Isaura Garcia, Nora Ney, Linda Batista, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida. E canções antigas: Babaloo, Kalu, Risque, Jezebel, Quizás, Malagueña, La Vie en Rose… Isso, na primeira infância.

Da juventude, chega-me Roberto Carlos nada místico, cantando a Jovem Guarda, hoje mais do que grisalha: Calhambeque, A Namoradinha de um amigo meu, E que tudo o mais vá pro inferno…

Se há liturgias a se cumprir num domingo, a primeira delas é a de tornar o dia compatível com os seus sons. Num domingo, tilintam, em alguma paróquia, as campainhas da consagração, enquanto do altar se espalha o cheiro do incenso. Dentro de sua solene estola, um padre eleva a hóstia à reverência dos fiéis:

– Dominus vobiscum…

Há sons bem mais profanos. Em alguma outra sacristia, o som é o da descompressão de uma tampa de cerveja, ou da “chapinha” do líquido enlatado – e o som de ambos os movimentos é um dos mais repetidos do domingo. Segue-se outro som, ainda mais característico: o do entorno da cerveja, ganhando volume no copo, em espasmos de espuma. Não chega a ser o “chuááá” das propagandas, mas tem, sim, algo de sibilino, como os guizos de uma cascavel.

Até o início da tarde, mudam os sons: há o som da picanha, estalando em sua pele de sal grosso. O da costela, pingando gorduras sobre a brasa incandescente. As picanhas explodindo e estalando – como se alguém quebrasse uma noz na dobradiça da porta.

E se não for o som do churrasquinho, há de ser o de outras comidas. Som de batata frita, por exemplo. Dizem que inventadas por um agrônomo francês do século 18, Auguste Parmentier. Será “vero”?

Só espero que os sons deste domingo, barriguinha satisfeita, tragam a paz e o conforto aos trabalhadores do Brasil – e que lhes dê ânimo e disposição para salvar o Brasil, amanhã, segunda-feira, de manhãzinha.

VERA LÚCIA KALAARI COMENTA em: DEUS e o DIABO na barca de CRISTO – por viegas fernandes da costa

  1. em Agosto 24, 2008 8:04 am às 8:04 am1 vera luciaVERA LÚCIA KALAARI - ULTIMAS - Sem título1

Saramago sempre se caracterizou pela sua irreverência perante a religião cristã, aliás, perante qualquer religião. Ateu confesso, num país profundamente católico, onde Fátima continua a ser o expoente máximo, compreende-se porque encontrou tantos inimigos que lhe truncaram, por completo, a sua carreira.
Não sei, se com a idade, o seu cepticismo se manteve. Não sei, se tal como Guerra Junqueiro (a coroa de glória para a Igreja, que o conseguiu converter ) os anos lhe foram negando a sua falta de fé. No caso daquele, foi preciso que a avançada idade chegasse (morreu com oitenta e seis anos), para que o conseguíssem demover dos seus princípios ateus e da sua profunda negação ao papel da Igreja. Espero bem que isso não aconteça com Saramago.De qualquer forma julgo que quando se atinge “o fim da estrada” a incerteza do que nos espera é tão grande, que há a tendência de se “jogar” pelo seguro!

veja a matéria comentada: AQUI

FAMOSOS e suas FRASES sobre a POESIA – editoria

Eis que temos aqui a Poesia,

a grande Poesia.

Que não oferece signos

nem linguagem específica, não respeita

sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.

como o sangue nas artérias,

tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.

E ao mesmo tempo tão elaborada –

feito uma flor na sua perfeição minuciosa,

um cristal que se arranca da terra

já dentro da geometria impecável

da sua lapidação.’

Rachel de Queiroz, escritora brasileira

  • Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;

São almas de violetas

Que são poetas também.’

Florbela Espanca

  • “O poeta é como o príncipe das nuvens. As suas asas de gigante não o deixam caminhar’

Charles Baudelaire

  • “O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel’

Paul Claudel

  • “À pergunta habitual: ‘Por que é que escreve?’. A resposta do poeta será sempre a mais curta: ‘Para viver melhor'”

Saint-Jonh Perse

  • “O poeta faz-se vendo através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”

Arthur Rimbaud

  • “A poesia não voltará a ritmar a acção; ela passará a antecipar-se-lhe”

Arthur Rimbaud

  • “A solidão da poesia e do sonho tira-nos da nossa desoladora solidão”

Albert Béguin

Fonte: “Poesia da Presença”

  • “Deus, que nos fizeste mortais, porque é que nos deste a sede de eternidade de que é feito o poeta?”

Luis Cernuda

Fonte: “As Ruínas”

  • “Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”

Federico Lorca

Fonte: “Conversa Sobre o Teatro”

  • “E nunca o tormento acha um céu e nunca o desejo acha uma terra. É por isso que a poesia existe”

Birger Sjoberg

Fonte: “Pensamentos”

  • “A poesia não é nem pode ser lógica. A raiz da poesia assenta precisamente no absurdo”

José Hidalgo

Fonte: “Poema”

  • “Fazer poesia é confessar-se”

Friedrich Klopstock

Fonte: “Odes”

  • “Um poema é um mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor”

Stéphane Mallarmé

  • “A poesia é ao mesmo tempo um esconderijo e um altifalante”

Nadine Gordimer

Fonte: “Poema”

  • “A poesia numa obra é o que faz aparecer o invisível”

Nathalie Sarraute

  • “Para mim, o importante em poesia é a qualidade da eternidade que um poema poderá deixar em quem o lê sem a ideia de tempo”

Juan Ramón Jiménez

  • “A poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”

William Wordsworth

Fonte: “Lyrical Ballads”

  • “A poesia é um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor”

Dámaso Alonso

Decálogo do Bom Professor – por vicente martins

Apresento aos professores e futuros professores da educação escolar um decálogo contendo dez princípios para atividade docente de um bom professor do terceiro milênio, século marcado pela informação e pelo conhecimento tecnológico.
O professor do século XXI é aquele que, além da competência, habilidade interpessoal, equilíbrio emocional, tem consciência de que mais importante do que o desenvolvimento cognitivo é o desenvolvimento humano e que o respeito às diferenças está acima de toda a pedagogia.
A função do bom professor do século XXI não é apenas a de ensinar, mas de levar seus alunos ao reino da contemplação do saber.
Eis, então, os dez passos na direção de uma pedagogia do desenvolvimento humano:


1.º-Aprimorar o educando como pessoa humana

A nossa grande tarefa como professor ou educador não é a de instruir, mas a de educar o nosso aluno como pessoa humana, como pessoa que vai trabalhar no mundo tecnológico, mas povoado de sentimentos, dores, incertezas e inquietações humanas.
A escola não se pode limitar a educar pelo conhecimento destituído da compreensão do homem real, de carne e osso, de corpo e alma.
De nada adianta o conhecimento bem ministrado em sala de aula, se fora da escola o aluno se torna um homem brutalizado, desumano e patrocinador da barbárie.
Educamos pela vida como perspectiva de favorecer a felicidade e a paz entre os homens.

2.º-Preparar o educando para o exercício da cidadania

Uma dos pontos altos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) é o reconhecimento da importância do ensino e aprendizagem de valorez vinvulados à cidadania na educação escolar.
Para isso, assinala a LDB, uma “bíblia sagrada” do bom professor, que o fim último da educação é a formação da cidadania, incorpora nas finalidades da educação básica, princípios e valores fundamentais que dão um tratamento novo e transversal ao currículo escolar.
Anterior à promulgação da LDB, sabe-se que, tradicionalmente, afora o trabalho das escolas confessionais ou religiosas, os valores vinham sendo ensinados, em sala de aula, de forma implícita, sem aparecer na proposta pedagógica da escola, configurando o que denominamos de parte do currículo oculto da escola.
A partir da nova LDB, promulgada em particular com os Parâmetros Curriculares Nacionais, ficou explicitado para todas as instituições de ensino o reconhecimento da importância do ensino e a aprendizagem dos valores na educação escolar, e doutra sorte, o Conselho Nacional de Educação (CNE), ao estabelecer as diretrizes curriculares para a educação básica, deu um caráter normativo à inserção e integralização dos conteúdos da educação em valores nos currículos escolares.
A idéia de que a educação em valores permeia os dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pode ser observada à primeira leitura do artigo 2º, que, ao definir a educação como dever da família e do Estado, afirma que a mesma é inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tendo por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Depreende-se da leitura do artigo 2º da LDB que a educação em valores dá sentido e é o fim da educação escolar já que, junto com aquisição de conhecimentos, competências e habilidades, faz-se necessário a formação de valores básicos para a vida e para a convivência, as bases para uma educação plena, que integra os cidadãos em uma sociedade plural e democrática.
No seu artigo 3º, a LDB elenca, entre os princípios de ensino, vinculados diretamente a educação em valores, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber (inciso II), pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; (inciso III); IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância (inciso IV) e gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino (inciso VIII).
O artigo 27 da LDB faz referência à educação em valores ao determina que os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes “a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e a ordem democrática” (inciso I).
A educação em valores deve ser trabalhada na educação infantil, ensino fundamental e no ensino médio, etapas, conforme a nova estruturação da Educação Básica, prevista na LDB.
No artigo 29, a LDB determina que a educação infantil, sendo a primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. É interessante assinala que a educação em valores se fundamental no respeito mútuo do desafio do professorado, do aluno e da família. Requer, pois, que as instituições de ensino utilizem o diálogo interativo, o envolvimento do professores, alunos e seus pais ou responsáveis.
No que se refere ao Ensino Fundamental, a LDB aponta a educação em valores como principal objetivo desta etapa da educação básica, a formação do cidadão, mediante aquisição de conhecimentos através do desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como estratégias básicas o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo e de três competências relacionadas explicitamente com a educação em valores: a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade (inciso II); o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; (inciso III) e o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (inciso IV).
Para o Ensino Médio, a LDB, no seu artigo 35, aponta além do desenvolvimento cognitivo, que se caracteriza pela a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos (inciso I) e pela preparação básica do educando para o trabalho e a cidadania (inciso II) e explicitamente aponta o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; e mais ainda a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina (inciso IV).
A formação de valores vinculados à cidadania é a principal missão de uma escola verdadeiramente democrática e popular. A ética e a moral devem ser sistematicamente trabalhadas em sala para que o aluno, futuro cidadão, possa então, na vida em sociedade, saber conviver bem e em paz com o próximo.
Se de um lado, primordialmente, devemos ter como grande finalidade do nosso magistério o ministério de fazer o bem às pessoas, fazer o bem é preparar nosso educando para o exercício exemplar e pleno da cidadania.
Ser cidadão não começa quando os pais registram os seus filhos no cartório nem quando os filhos, aos 18 anos, tiram as suas carteira de identidade civil.
A cidadania começa na escola, desde os primeiros anos da educação infantil e estende-se à educação superior, nas universidades; começa com o fim do medo de perguntar, de inquirir o professor, de cogitar outras possibilidades do fazer, enfim, quando o aluno aprende a fazer-fazer, a construir espaço de sua utopia e criar um clima de paz e bem-estar social, político e econômico no meio social.

3.º – Construir uma escola democrática

A gestão democrática é a palavra de ordem na administração das escolas. Os educadores do no novo milênio devem ter na gestão democrática um princípio do qual não arredam pé nem abrem mão.
Quanto mais a escola é democrática, mais transparente é. Quanto mais a escola é democrática, menos erra, tem mais acerto e possibilidade de atender com eqüidade as demandas sociais.
Quanto mais exercitamos a gestão democrática nas escolas, mais os preparamos para a gestão da sociedade política e civil organizada. Aqui, pois, reside uma possibilidade concreta: chegar à universidade e concluir um curso de educação superior e estar preparado para tarefas de gestão no governo do Estado, nas prefeituras municipais e nos órgãos governamentais.
Quem exercita a democracia em pequenas unidades escolares, constrói um espaço próprio e competente para assumir responsabilidades maiores na estrutura do Estado. Portanto, quem chega à universidade não deve nunca descartar a possibilidade de inserção no meio político e poder exercitar a melhor política do mundo, a democracia.

4.º – Qualificar o educando para progredir no mundo do trabalho

Por mais que a escola qualifique os seus recursos humanos, por mais que adquira o melhor do mundo tecnológico, por mais que atualize suas ações pedagógicas, era sempre estará marcando passo frente às novas transformações cibernéticas, mas a escola, através dos seus professores, poderá qualificar o educando para aprender a progredir no mundo do trabalho, o que equivale a dizer oferecer instrumentos para dar respostas, não acabadas (porque a vida é um processo inacabado), às novas questões sociais, sem medo de perdas, sem medo de mudar, sem medo de se qualificar, sem medo do novo, principalmente o novo que vem nas novas ocupações e empregabilidade.

5.º – Fortalecer a solidariedade humana

É papel da escola favorecer a solidariedade, mas não a solidariedade de ocasião, que nasce de uma catástrofe, mas do laço recíproco e quotidiano e de amor entre as pessoas.
A solidariedade que cabe à escola ensinar é a solidariedade que não nasce apenas das perdas materiais, mas que chega como adesão às causas maiores da vida, principalmente às referentes à existência humana.
Enfim, é na solidariedade que a escola pode desenvolver, no aluno-cidadão, o sentido da sua adesão às causas do ser e apego à vida de todos os seres vivos, aos interesses da coletividade e às responsabilidades de uma sociedade a todo instante transformada e desafiada pela modernidade.

6.º – Fortalecer a tolerância recíproca

Um dos mais importantes princípios de quem ensina e trabalha com crianças, jovens e adultos é o da tolerância, sem o qual todo magistério perde o sentido de ministério, de adesão aos processos de formação do educando.
A tolerância começa na aceitação, sem reserva, das diferenças humanas, expressas na cor, no cheiro, no falar e no jeito de ser de cada educando.
Só a tolerância é capaz de fazer o educador admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferente dos de um indivíduo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos.
O fortalecimento da tolerância recíproca só é possível quando, na escola, há respeito à liberdade e o apreço à tolerância, que são inspirados nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana.O educando, no processo de formação escolar, tem necessidade de amar e compreender. Da mesma forma, o professor, no exercício de seu magistério, tem necessidade de ser amado e ser compreendido.
Assim, a necessidade de amar do aluno e o desejo de ser amado do professor nunca andam separados, são a base de uma relação fraterna e recíproca entre professor e aluno.
Uma criança quanto mais sente que é amada, mais disciplinada estará para receber a ministração das aulas. Onde não há reciprocidade, isto é, o amor do aluno para com o professor e do professor para com seu aluno, não assimilação ativa, não há a razão de ser da educação escolar: o desenvolvimento do educando como pessoa humana.
A nova Lei de Diretrizes e Bases da da Educação Nacional (LDB), a Lei 9.394, promulgada em 1996, trouxe as bases do que venho denominando, nos meios acadêmicos, de Agapedia, a Pedagogia do Amor.
É a LDB que nos oferece os dois mais importantes princípios da Pedagogia do Amor: o respeito à liberdade e o apreço à tolerância, que são inspirados nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Ambos têm por fim último o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania ativa e sua qualificação para as novas ocupações no mundo do trabalho.
Na educação infantil, a Pedagogia do Amor torna possível o cumprimento do desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, na medida em que o processo didático complementa a ação da família e da comunidade.
No ensino fundamental, a Pedagogia do Amor se dá em dois momentos: no primeiro, no desenvolvimento da capacidade de aprendizagem do educando, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores e, no segundo momento, no fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.
No ensino médio, a Pedagogia do Amor se manifesta na medida que nós, professores e futuros professores, aprimoramos o educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.
Na educação superior, há lugar também para a Pedagogia do Amor. Ela se manifesta no momento em que os professores estimulam o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular, os nacionais e regionais. É a Agapedia que leva os alunos à prestação de serviços especializados à comunidade e estabelece com esta uma relação de reciprocidade.

7.º – Zelar pela aprendizagem dos alunos

Muitos de nós, professores, principalmente os do magistério da educação escolar, acreditam que o importante, em sala de aula, é o instruir bem, ou seja, ter domínio de conhecimento da matéria que ministra na aula.
No entanto, o domínio de conhecimento não deve estar dissociado da capacidade de ensinar, de fazer aprender. De que adianta ter conhecimento e não saber, de forma autônoma e crítica, aplicar as informações?
O conhecimento não se faz apenas com metalinguagem, com conceitos a, b ou c, mas sim, com didática, com pedagogia do desenvolvimento do ser humano, sua mediação fundamental.

 

O zelo pela aprendizagem passa pela recuperação daqueles que têm dificuldades em assimilar informações, seja por limitações pessoais ou sociais. Daí a necessidade de uma educação dialógica, marcada pela troca de idéias e opiniões, de uma conversa colaborativa em que não se cogita o insucesso do aluno.
Se o aluno fracassa, a escola também fracassou. A escola deve riscar do dicionário a palavra FRACASSO. Quando o aluno sofre com o insucesso, também fracassa o professor.
A ordem, pois, é fazer sempre progredir, dedicar mais do que as horas oficialmente destinadas ao trabalho e reconhecer que o nosso magistério é missão, às vezes árdua, mas prazerosa, às vezes sem recompensa financeira condigna que merecemos, mas que pouco a pouco vamos construindo a consciência na sociedade, principalmente a política, de que a educação, se não é panacéia, é o caminho mais seguro para reverter as situações mais inquietantes e vexatórias da vida social.
É preciso que a escola ensine aos educandos como se dão as coisas relativas ao conhecimento da linguagem, como se processa a informação lingüística. E isso serve não só para o ensino da língua materna como também para as demais disciplinas escolares.
Um cálculo como 34 x 76 tem muito a ensinar além do resultado. Há o processo (as etapas de uma operação matemática) que deve ser visto como algo mais significativo no ensino e, por que não dizer, mais significativo, também, no momento da avaliação formativa.
As crianças precisam aprender e apreender essas informações da linguagem, da leitura, da escrita e do cálculo, com clareza e de forma prazerosa, lúdica. Quem sabe, ensina.
Quem ensina, deve saber os conteúdos a serem repassados para o aluno. A escola precisa levar as crianças ao reino da contemplação do conhecimento. Vale o inverso: a escola deve levar o reino do saber às crianças.
Nas ruas, as crianças não aprenderão informações lingüísticas. Farão, claro, hipóteses, extraídas, quase sempre da fala espontânea. É nas escolas, com bons professores, que aprenderão que essas informações lhes darão habilidade para a leitura e para a vida fora da escola.
Nos lares, a tarefa de reforço do que se aprender na escola se constitui um complemento importante, desde que os pais se sintam parte do processo.
Aliás, a educação escolar, de qualidade, é um dever das instituições de ensino. Doutra, dever, também, compartilhado por familiares e co-responsabilidade dos que operam com os saberes sistemáticos, que envolve a sociedade

8.º- Colaborar na articulação da escola com a família

 

O professor do novo milênio deve ter em mente que o profissional de ensino não é mais pedestal, dono da verdade, representante de todos os saberes, capaz de dar respostas para tudo.
Articular-se com as famílias é a primeira missão dos docentes, inclusive para contornar situações desafiadoras em sala de aula.
Quanto mais conhecemos a família dos nossos alunos, mais os compreendemos e os amamos. Uma criança amada é disciplinada. Os pais, são, portanto, coadjuvantes do processo ensino-aprendizagem, sem os quais a educação que damos fica incompleta, não vai adiante, não educa.
A sala de aula não é sala-de-estar do nosso lar, mas nada impede que os pais possam ajudar nos desafios da pedagogia dos docentes nem inoportuno é que os professores se aproximem dos lares para conhecerem de perto a realidade dos alunos e possam, juntos, pais e professores, fazer a aliança de uma pedagogia de conhecimento mútuo, compartilhado e mais solidário.

9.º – Participar ativamente na proposta pedagógica da escola
A proposta pedagógica não deve ser exclusividade dos diretores da escola. Cabe também ao professor participar do processo de elaboração da proposta pedagógica da escola, até mesmo para definir de forma clara os grandes objetivos da escola para os seus educandos.
Um professor que não participa, se trumbica, se perde na solidão das suas aulas e não tem como se tornar participante de um processo maior, holístico e globalizado. O mundo globalizado para o professor começa por sentir parte ativa no terreno das decisões da escola, da sua organização administrativa e pedagógica.

10.º – Respeitar as diferenças

Se, de um lado, devemos levantar a bandeira da tolerância, como um dos princípios do ensino, o respeito às diferenças conjuga-se com esse princípio, de modo a favorecer a unidade na diversidade, a semelhança na dissemelhança. Decerto, o respeito às diferenças de linguagem, às variedades lingüísticas e culturais é a grande tarefa dos educadores do novo milênio.
O respeito às diferenças não tem sido uma prática no nosso quotidiano, mas, depois de cinco séculos de civilização tropical, descobrimos que a igualdade passa pelo respeito às diferenças ideológicas, às concepções plurais de vida, de pedagogia, às formas de agir e de ser feliz dos gêneros humanos.
O educador deve, pois, ter a preocupação de se reeducar de forma contínua, uma vez que, a nossa sociedade ainda traz no seu tecido social as teorias da homogeneidade para as realizações humanas, teoria que, depois de 500 anos, conseguiu apenas reforçar as desigualdades sociais.
A nossa missão, é dizer que podemos amar, viver e ser felizes com as diferenças, pois, nelas encontraremos as nossas semelhanças históricas e ancestrais: é, assim, a nossa forma de dizer ao mundo que as diferenças nunca diminuem, mas, somam valores e multiplicam os gestos de fraternidade e paz entre os homens.

Pela manhã, o bom religioso abre o livro sagrado e reflete sobre o bem e o mal. Por um feliz amanhã, o bom professor abre a LDB e aprende a conciliar o conhecimento e a humanidade.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. Contatos: vicente.martins@uol.com.br

VILÃO poema de leonardo meimes

 

 

Quem inicia a reza

Quando não há irmão?

Quem reivindica a terra

Quando não há pão?

 

Quem quer é o bom

Quando não há opção?

Quem vira a besta

Quando encontra o vilão?

 

Quem sabe um dia chegarão

Quando ninguém mais pisar o chão

Quem um dia eu chamei

Naquela oração

“FLORIANÓPOLIS, BRASIL, É UMA DAS 44 CIDADES PARA VISITAR EM 2009” -The New York Times- por paulo monteiro

Ponte Hercílio Luz que une a Ilha de Santa Catarina ao continente.  

 

 

Ponte Hercílio Luz que une a Ilha de Santa Catarina ao continente.

 

 

O renomado New York times elegeu Florianópolis como um dos 44 destinos turísticos a serem visitados em 2009; é o único destino selecionado em toda a América do Sul!…
A exuberância das belezas naturais, a qualidade de vida e todas as demais peculiaridades da Ilha da Magia estão conquistando o Mundo!

 

Vamos até a praia de Matadeiro:

 

atravessando uma ponte.

atravessando uma ponte.

 

Agora que o Verão cedeu espaço às primeiras friagens do Outono no hemisfério sul, torna-se imprescindível homenagear a praia desta estação em Floripa: Matadeiro!
Localizada no sul da ilha da magia, bem menos urbanizado e afamado do que seu congênere do norte, Matadeiro, ainda uma praia de nativos – mas, não se iluda: não existem mais praias desertas e perdidas no mapa na ilha (talvez só a imensa e inóspita Moçambique, mas aí o papo é outro!) –, mas hoje redescoberta pelos “socialites” florianopolitanos, só é acessível por uma relativamente curta trilha de pedra que se inicia depois de deixar o carro estacionado no centrinho da praia da Armação e que vai serpenteando morro acima, com direito a passagens no meio das rochas e a uma ponte de pedra que cruza um bucólico riacho, onde, se der sorte, você poderá banhar-se junto com alguns amiguinhos como os “brincalhões” da foto!

 

 

enseadas na trilha pa Matadeiros.

enseadas na trilha para Matadeiro.

 

 

na trilha para Matadeiro.

na trilha para Matadeiro.

 

Se ficou assustado (a) com a trilha de acesso, fique tranquilo: não é trilha apenas para eco-turistas e andarilhos profissionais; com um mínimo de esforço, ser-lhe-à possível transpor o trajeto que o (a) levará até à praia e você certamente será largamente recompensado pelo esforço dispendido.
Antes de chegar à praia de Matadeiro propriamente dita, você ainda terá a oportunidade de passar por deslumbrantes enseadas de águas transparentes que formam paradisíacas piscinas naturais, onde, se os deuses disserem amém (acredite….para mim eles disseram!), poderá banhar-se inteiramente solitário num romance orgiático e luxurioso com seu grande e maior amor: você mesmo (a) !…..

 

 

piscinas naturais no caminho.

piscinas naturais no caminho.

 

 

no caminho...ÊXTASE!

no caminho...ÊXTASE!

 

Muitas fotos e encantamentos depois você estará finalmente em Matadeiro; linda e acolhedora, ela ainda guarda um quê de paraíso perdido que se revela na estrutura rudimentar dos bares de atendimento e nas pouquíssimas casa de veraneio que a circundam; mas não desanime: a cerveja é estupidamente gelada, as doses de caipirinha são generosas e os peixes e frutos do mar, embora preparados de forma simples e trivial, são saborosos e tentadores, como aliás em quase toda a ilha, e darão o toque final a um dia inesquecível numa das praias mais belas (sem favor algum!) deste nosso riquíssimo e exuberante litoral verde-e-amarelo!

 

 

MATADEIRO...enfim! paradísíaco...

MATADEIRO...enfim! paradísíaco...

 

 

Paulo Monteiro, o autor da matéria, em MATADEIRO é claro!

Paulo Monteiro, o autor da matéria, em MATADEIRO é claro!

 

paulo monteiro, que é um amazonense, hoje morando na praia dos Ingleses, na mesma ilha, nos mostra uma “pequena” parte da ILHA DE SANTA CATARINA, em Florianópolis, lugar de onde sai o PALAVRAS, TODAS PALAVRAS para mundo!

A REVOLUÇÃO DIGITAL, DEZ ANOS DEPOIS DE MATRIX por joão luis de almeida machado

Como em todas as grandes revoluções pelas quais passou a humanidade, a Era Digital também tem seus marcos culturais, materiais, humanos. Se na Inglaterra dos primeiros tempos da industrialização o grande invento era a máquina a vapor, fator tecnológico decisivo para a implantação de um sistema de trabalho ininterrupto nas fábricas, a Era Digital se sedimentou com o advento da Internet, a rede mundial de computadores.

 

Se a Independência dos Estados Unidos, que influenciou os passos políticos de praticamente todas as demais nações do continente na luta contra metrópoles europeias, teve líderes marcantes como George Washington e Thomas Jefferson, a Revolução Digital firmou no horizonte o espaço virtual colaborativo a partir de trabalhos como a Wikipédia, criada por Jimmy Wales ou os Blogs, celebrizados a partir da maior plataforma de criação desses instrumentos, o Blogger, idealizado por Evan Williams.

 

Se na Revolução Francesa, por exemplo, falávamos dos pensadores iluministas e de suas obras – Rousseau, Montesquieu, Diderot e D¹Alembert -, hoje nos lembramos de Larry e Andy Wachowski, criadores de Matrix. Se ainda no contexto revolucionário francês podemos nos lembrar das manifestações populares, das disputas entre a burguesia e os sans-cullottes, por sua vez podemos destacar o ciberativismo do século XXI, com suas manifestações globais a partir da rede, em prol do meio ambiente e de tantas lutas legítimas.

 

A Era Digital foi modificando as bases de funcionamento da economia. Foram estabelecidas condições para que tudo funcionasse de forma conectada, globalizada e alheia a qualquer impedimento espacial ou temporal. Os investidores financeiros operam de olho em monitores que lhes permitem acompanhar o fechamento dos negócios em Wall Street (Nova Iorque) – Dow Jones ou Nasdaq – enquanto ao mesmo tempo acompanham os rumos da Bovespa (SP), os dados de Tóquio ou ainda os mercados europeus.

 

Não podemos mais nos dizer cidadãos brasileiros, americanos, alemães, japoneses ou australianos. Somos todos seres globalizados, que a qualquer momento, pelas vias reais ou virtuais, se transportam para destinos próximos ou distantes. Se na França revolucionária se definiram as bases do mundo burguês, consolidando o capital como o elemento crucial ao redor do qual giram as relações humanas, o terceiro milênio, estruturado em bases virtuais e digitais, propõe e realiza o sonho da onipresença. Vivemos uma época em que é possível a noite virar dia pela web, na qual Morfeus (o mitológico Deus do Sono) pode ser trocado pela comunicação instantânea (via celular, Wi-Fi ou rede 3G, de qualquer lugar do mundo civilizado).

 

O dinheiro deixou de ser sonante, virou plástico e caminha cada vez mais para a virtualização. Recebemos salários e pagamos contas sem que nenhuma nota ou moeda tenha que passar por nossas mãos. O que era aparentemente só devaneio de escritores de ficção científica ganhou vida. Isaac Asimov, Arthur C. Clarke ou Phillip K. Dick acertaram em inúmeras de suas ³previsões² literárias.

 

Até mesmo a política consolida suas novas bases operacionais utilizando-se do conceito de convergência das mídias e celebrando o computador e a internet como os grandes beneficiários desta nova realidade tecnológica. Barack Obama que o diga. Há, no mundo de hoje, mais de 1,6 bilhão de internautas – aproximadamente um quarto da humanidade está conectada ao mundo virtual. Nenhum outro recurso tecnológico teve tamanho impacto sobre a humanidade em tão pouco tempo.

 

Cabe, no entanto, refletir sobre tudo isso com mais calma e tempo do que a Era Digital nos compele a fazer. Tudo hoje é expresso, rápido, acelerado. E é exatamente neste ponto que ainda não se fez uma leitura necessária e pontual sobre o questionamento central de Matrix, produção cinematográfica que, de certa forma, inaugurou enquanto marco cultural a Era Digital.

 

A pílula vermelha e a azul simbolizam não apenas a revolução e o imobilismo, a mudança e a continuidade, a transformação e permanência. Seu significado vai além de simplesmente compactuar, usufruir ou utilizar os recursos da tecnologia, do mundo virtual. Exigem uma leitura analítica, detalhada e crítica, para que possamos dizer sim, não ou talvez, de acordo com nossa consciência e clareza a respeito do mundo em que estamos vivendo.

 

Não podemos simplesmente aderir. Não podemos ser corporificados pela tecnologia e pela Era Digital. É imprescindível compreender, selecionar, rejeitar, opinar, entrar e sair de acordo com nossas escolhas. Caso não façamos isso, o que estará acontecendo (e que já está se processando na maioria dos casos), é a escolha – ainda que inconsciente -, da pílula azul. Migramos de uma realidade analógica para uma digital, mas ainda que percebamos o impacto das tecnologias sobre nossas existências pouco ou nada mudou, apenas trocamos os tipos de ferramentas que usamos.

 

Se, por outro lado, resolvermos assumir nossas dúvidas, inseguranças e fraquezas, ingerindo a pílula vermelha para descobrir “até onde vai a toca do coelho”, por mais dor e angústia que isso possa provocar, estaremos realmente nos posicionando e lutando por um mundo no qual a humanidade não estará abrindo mão de seu mais precioso bem, a liberdade.

 

A proposta presente na pílula vermelha simbólica de Matrix é a de que não sejamos apenas os bestializados, que a tudo assistem passivos, sem participação real. Que não nos tornemos os apertadores de botões que movimentam linhas de produção e ao final não compreendem o processo produtivo no qual estão inseridos.  Não há arautos, profetas nem tampouco devem existir intermediários. A leitura e compreensão da Era Digital, que está diante de nós, é pessoal, intransferível, inalienável.

*João Luís de Almeida Machado é editor do Portal Planeta Educação, doutor em Educação pela PUC-SP e autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte Aprendendo com o Cinema”

POEMAS MANUSCRITOS de JAIRO PEREIRA

JAIRO PEREIRA - SCAN0009

 

JAIRO PEREIRA - SCAN0011

 

JAIRO PEREIRA - SCAN0013

MAYTÊ CORRÊA convida para HOJE (28/05/09)

MAITÊ PROENÇA - CONVITE -noname

Blues Velvet Bar – inaugura hoje em Curitiba (28/05/09)

ConviteBluesVelvetCuritiba

 

Programação fIXA:

 

Segunda-feira: Mostra de Cinema e Show de Cabaret

Terça-feira: Experimental Jazz

Quarta-feira: Mix

Quinta-feira: Música Brasileira

Sexta-feira: Modern Jazz, Sábado: Traditional Jazz.

 

Serviço:
Blues Velvet Curitiba Jazz, Rua Trajano Reis, 314, telefone: 41 3538 3275

WILLIAN SHAKESPEARE e RUDI BODANESE em FOTOPOEMA

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PAULO LEMINSKI fala da ARTE de RETTA – editoria

 

 

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

 

“paraporque jesustificar a desobra dobra do retta, o mais curvo dos criadores do plantel local? ao falo ” não fique doente,ficção” passo a palavra. retta sempre foi pedra de escândalo. fonte de pânico. alteração. sub-supra-versão. acidente que aleija. acaso que enche o saco. a droga é que esse experimentador(não dá pra passar por cima bons mocinhos)tem um puta nível de competência na manipulação dos códigos. humor branco, amarelo. humor. vermelho. humor. azul. a coisa do retta se situa na terra cinzenta-de-ninguém. esses extremos guestalticos e cromáticos. essa fornocomunicação, que brinca de parecer tão facsimilar à primavista é uma introdustria, monstrução. sua imagem favorita : código devorando código. a fêmea do louva-deus come o macho depois da cópula, para refazer as forças. trocadilho entre dois ou mais códigos: traducadilho. arretação.cartoom.foto.filme.design.desenho. desígnio.lay out. lay in.enquanto menores cultivam o tema retta teima. o traço. a obra:tão difícil porque transparente transa aparente de entender.+ que conteúdo. toda significado. eros tanatos. no duro o seguinte: (como retta diz quando fala sério) vida e morte. vida e morte no trabalho deste gaúcho que (felizmente) se encontra entre nós.”

P.LEMINSKI

 

UM POEMA  de RETTA:

 

quando você se cala o silêncio fala
canta o galo zumbe a abelha
mia o gato pia o pinto ruge o leão

quando você se cala o silêncio fala
a baleia bufa o burro zurra
o bezerro berra o bode bala ladra o cão

quando você se cala o silêncio fala
grasna o ganso o rato guincha
o cavalo rincha bate meu coração

quando você se cala o silêncio fala
a cigarra estrila a hiena gargalha
o dedo estala e canto esta canção

 

 

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

PRYSCILA VIEIRA na final do HQMIX!!

O Paraná, considerado um polo de quadrinistas, ilustradores, chargistas, desenhistas enfim, emplacou dois representantes na 21ª edição do Troféu HQMIX, o “Oscar” brasileiro dos quadrinhos e do humor gráfico. Pryscila Vieira, de 30 anos, concorre na categoria Tira Nacional. José Aguiar, 33, está no páreo em outras duas categorias: Desenhista e Roteirista Nacional. Pryscila foi classificada pela sua tira Amely, veiculada na internet e no jornal PubliMetro. O álbum Quadrinhofilia, publicado ano passado pela editora HQM, credenciou Aguiar para o concurso. Os vencedores serão conhecidos dia 7 de agosto, em cerimônia agendada para acontecer nas dependências do Sesc Pompéia, em São Paulo.

 

PRISCILA VIERIRA -tn_620_600_priscila_acima                   a tira AMELY criada por priscila após uma decepção amorosa.

gp.

 

pryscila vieira

                                 PRYSCILA VIEIRA. foto sem crédito.

vamos lá querida amiga! os PALAVREIROS DA HORA estão na torcida por você! alguns colaboradores, do site, residentes em são paulo, estarão presentes no sesc pompéia para conhecê-la. grande beijo.

jb vidal

O HOMEM LOUCO poema de otto nul

Num discurso meio longo

O homem louco referiu

Todos os seus projetos

Próximos e distantes;

 

No meio de tudo

Não atinei com sua fala

Nem com seus sonhos

Nem com nada;

 

A certa hora, olhou-me

E sentiu piedade de mim

Que nada compreendera

De sua catilinária;

 

Saiu espavorido porta-fora

Sob o vento

sob a inclemência

da chuva que despencava,

 

Na busca de alguém

Que o ouvisse

Que o acolhesse

Que o amasse.

 

        x x x

 

(maio/09 – Otto Nul)

A DOR QUE DÓI MAIS por martha medeiros

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. 
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

RONALD MAGALHÃES músico e compositor CONVIDA:

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CANSEI e CANSAMOS por juliano schiavo

Não faço parte daquela campanha do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, “Cansei”, surgida em 2007 e liderada pela Ordem dos Advogados do Brasil – seccional São Paulo. Também não me incluo na campanha do “Cansamos”, criada pela Central Única do Trabalhador e outras entidades sindicais.

 

Porém, numa rápida análise, vejo que “cansei” e que muitos de nós “cansamos”. Até mesmo estes dois movimentos cansaram de se cansar e, dois anos depois, se fecharam num ostracismo típico dos cansados. Seria um ataque coletivo da mosca tsé-tsé, aquela que transmite a doença do sono?

 

Vejo que ainda se discute, por exemplo, a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Já estou satisfeito com este assunto. Depois de ouvir por anos a fio que a educação é a força motriz de uma nação – quem não se cansou de ouvir que a educação é tudo? –, há ainda discussões sobre a exigência de um diploma para atuar como jornalista.

 

É um tremendo contra-senso: ao invés de se estimular o estudo, a pesquisa, o entender científico da comunicação, apagam-se as luzes. Típico de um país, com p minúsculo mesmo, que está cansado e repleto de pessoas que dizem “Cansei”. Eu sou um deles, inclusive. Cansado de entender algumas lógicas ilógicas e algumas posições tão estranhas, fico me perguntando: será que não entendi porque estou cansado?

 

O país do pijama

 

E ainda usam como argumento que o diploma de jornalismo é contra a liberdade de expressão, uma vez que impede que qualquer um possa escrever uma matéria jornalística. Confunde-se, assim, liberdade com profissionalismo.

 

Não é nada estranho ao se tratar de um país em que deputados constroem castelos; quadrilhas operam de dentro das prisões; lojas de luxo sonegam milhões; a violência contabiliza 50 vezes mais mortos que na Faixa de Gaza; mais de 40 mil pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de trânsito e, tantas outras coisas estranhas, tão comuns aos que cansaram desse déjà vu.

 

Discutir a obrigatoriedade de um diploma só gera canseira, marasmo, embolação. Para que tentar empurrar o país para a frente? Não sei. Cansei de matutar. Mas nada mais me assusta, a não ser a nova reforma ortográfica – que me deixa cansado só de pensar que vou ter que rever meus conceitos na escrita.

 

Para não deixar este texto mais cansativo – eu sei, há milhares de artigos defendendo ou não a exigência do diploma de jornalista – termino-o por aqui. Cansei e acho que todos nós cansamos. Não interessa estimular a educação, não importa a capacitação profissional, pouco interessa saber que, por detrás de um texto jornalístico, há toda uma técnica que deve ser aprendida. Vivemos no país do pijama, por isso, a música de ninar deveria ser nosso hino. Fui… Descansar.

UM HOMEM NO CAIS poema de manoel de andrade

MANOEL DE ANDRADE - UM HOMEM NO CAISNo cais....Lisboa.preview

 

 

Que saldo trago da vida?!
da existência escassa e vadia que vivi?!
que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro
e desviar meus passos do caminho do cais?!
eu, que tornei meu corpo ambulante
a vagar de porto em porto em busca de um navio!
em busca de um destino qualquer que flutuasse
e me levasse pra bem longe e sem destino,
fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!
Ah, minha vida…
imenso cais deserto!
e eu a perambular pelas cidades portuárias
em busca de um capitão!
minha vida sem sal e sem sol!
sempre à sombra dos grandes cascos,
aspirando as emanações das coisas marítimas,
derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!
Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!
a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de 
                                                        /mercadorias
                                                                                                         /cadorias!
e depois, cansado e com os pés doídos
sentar-me na calçada dos armazéns 
para ver os estivadores e os guindastes em movimento
e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.
Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!
e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!
ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!
gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!
gente de terra que entra e sai das docas, 
vigias, conferentes, administradores do porto,                                                      despachantes, funcionários das capitanias,
homens dos rebocadores, dragas, barcaças,
dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras
oficiais de bordo, embarcadiços,
tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas
                                                          /dos navios 
                                                                                                            /navios.
Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!
ah, marinheiros debruçados nas amuradas
a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!
a que distância estás da tua pátria?!
há quanto tempo não beijas tua amada?!
Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!
olhando os navios que chegam e os navios que saem;
os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;
os que vêm chegando com as manhãs de sol 
e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem 
                                                          /iluminados
                                                                                                            /nados.
Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!
enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias
e pelo dorso dos planaltos!
e hoje,
depois de tanto andar
sem bússola
sem cansaço
e quase comovido com minha vida vagabunda
eu, com vinte e sete anos de idade,
conhecendo dezessete estados do meu país imenso
e mais três nações do continente americano
trago ainda meu sonho imaculado
e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.
De tantas cidades percorridas,
de tantos rios atravessados,
trago apenas
a nostalgia de terras que não vi
e a saudade do marinheiro que não fui!
Quantos anos vividos
ao lado e na distância do homem que me deixei num cais
sem barco e sem destino!
Ah, meu sonho!
minha vida naufragada.
Eu contemplo a mim mesmo
o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.
Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!
e eu fiquei ausente
sempre algemado ao momento da partida
com um nó atravessado na garganta do meu sonho!
E agora
meu canto marítimo
chega ainda com a brisa dos oceanos
e na maré alta
banha meu sonho primeiro
e quem sabe, o derradeiro.
Nesse tempo de embarque
tudo esteve pronto e ainda está:
meu passaporte, meu diário em branco,
o violão e o poeta;
meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo
e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho
e o traje para descer nos portos escalados:
camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho
e a calça acinzentada;
a pele bronze, a barba bem crescida
e no peito tatuado qualquer nome de mulher
que eu diria ser o nome da mulher amada.
Vivendo deste sonho
eu fui partindo…
embarcava com os tripulantes
e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar
e desaparecia na curva do horizonte.
eu também acenei para os que ficavam
eu acenei a mim mesmo.
Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,
transatlânticos, escunas, veleiros…
fiz amigos e inimigos entre marinheiros,
aprendi a língua deles
trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.
desci em portos de países longínquos e misteriosos,
conheci outros continentes,
salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos
e dos mares interiores,
senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,
golfos e estreitos,
e tudo que eu vi…
ah, perdão!
tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!
eu nunca fui além do cais!
são estórias que ouvi de marinheiros!
de livros que li há muito tempo.
Mas ai de mim!
vivendo deste sonho
eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.
e assim, o que de bom esteve ao meu alcance
e que poderia encher meu coração em terra firme
foi sempre provisório e desbotável.
O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…
os anos cresceram pesados e exigentes
e a única herança recebida
foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.
Ah, meus dias foram outros!
e tudo o que de mim restou de belo,
está distante
está no mar
e nesta ânsia de cantar.
                       Curitiba, setembro – 1968
Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS

Que saldo trago da vida?!

da existência escassa e vadia que vivi?!

que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro

e desviar meus passos do caminho do cais?!

eu, que tornei meu corpo ambulante

a vagar de porto em porto em busca de um navio!

em busca de um destino qualquer que flutuasse

e me levasse pra bem longe e sem destino,

fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!

 

Ah, minha vida…

imenso cais deserto!

e eu a perambular pelas cidades portuárias

em busca de um capitão!

minha vida sem sal e sem sol!

sempre à sombra dos grandes cascos,

aspirando as emanações das coisas marítimas,

derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!

 

Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!

a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de mercadorias!

                                                                                                         

e depois, cansado e com os pés doídos

sentar-me na calçada dos armazéns 

para ver os estivadores e os guindastes em movimento

e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.

 

Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!

e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!

ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!

gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!

gente de terra que entra e sai das docas, 

vigias, conferentes, administradores do porto,  despachantes,  funcionários das capitanias,

homens dos rebocadores, dragas, barcaças,

dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras

oficiais de bordo, embarcadiços,

tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas dos navios 

                                                                                                    

 

Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!

ah, marinheiros debruçados nas amuradas

a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!

a que distância estás da tua pátria?!

há quanto tempo não beijas tua amada?!

 

Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!

olhando os navios que chegam e os navios que saem;

os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;

os que vêm chegando com as manhãs de sol 

e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem  iluminados

                                                                        

Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!

enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias

e pelo dorso dos planaltos!

e hoje,

depois de tanto andar

sem bússola

sem cansaço

e quase comovido com minha vida vagabunda

eu, com vinte e sete anos de idade,

conhecendo dezessete estados do meu país imenso

e mais três nações do continente americano

trago ainda meu sonho imaculado

e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.

 

De tantas cidades percorridas,

de tantos rios atravessados,

trago apenas

a nostalgia de terras que não vi

e a saudade do marinheiro que não fui!

Quantos anos vividos

ao lado e na distância do homem que me deixei num cais

sem barco e sem destino!

Ah, meu sonho!

minha vida naufragada.

Eu contemplo a mim mesmo

o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.

 

Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!

e eu fiquei ausente

sempre algemado ao momento da partida

com um nó atravessado na garganta do meu sonho!

 

E agora

meu canto marítimo

chega ainda com a brisa dos oceanos

e na maré alta

banha meu sonho primeiro

e quem sabe, o derradeiro.

 

Nesse tempo de embarque

tudo esteve pronto e ainda está:

meu passaporte, meu diário em branco,

o violão e o poeta;

meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo

e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho

e o traje para descer nos portos escalados:

camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho

e a calça acinzentada;

a pele bronze, a barba bem crescida

e no peito tatuado qualquer nome de mulher

que eu diria ser o nome da mulher amada.

 

Vivendo deste sonho

eu fui partindo…

embarcava com os tripulantes

e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar

e desaparecia na curva do horizonte.

eu também acenei para os que ficavam

eu acenei a mim mesmo.

Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,

transatlânticos, escunas, veleiros…

fiz amigos e inimigos entre marinheiros,

aprendi a língua deles

trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.

desci em portos de países longínquos e misteriosos,

conheci outros continentes,

salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos

e dos mares interiores,

senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,

golfos e estreitos,

e tudo que eu vi…

ah, perdão!

tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!

eu nunca fui além do cais!

são estórias que ouvi de marinheiros!

de livros que li há muito tempo.

 

Mas ai de mim!

vivendo deste sonho

eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.

e assim, o que de bom esteve ao meu alcance

e que poderia encher meu coração em terra firme

foi sempre provisório e desbotável.

O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…

os anos cresceram pesados e exigentes

e a única herança recebida

foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.

 

Ah, meus dias foram outros!

e tudo o que de mim restou de belo,

está distante

está no mar

e nesta ânsia de cantar.

 

                       Curitiba, setembro – 1968

 

Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS.

AULA poema de zuleika dos reis

         Naquela tarde

         a aula foi diferente

         não porque a professora

         sentou-se na última carteira

         da fileira ao lado da janela.

 

         O aluno da sétima série

         fez a chamada     

         e anunciou o tema do dia:

         O SENTIDO DA VIDA.

 

         A classe dividiu-se

         nos subgrupos de sempre

         em discussões profundas

         contundentes.

 

         O grupo da professora

         brilhou na exposição dos painéis

         brilhou tanto que o trabalho

         mereceu conceito A.

 

         Quanto às notas individuais

         a professora

         resignou-se a um D

         por falta de participação.

INÓSPITO poema de joanna andrade

 

O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF with a room.
O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF in a room.

PARAÍSO poema de sara vanegas/Ecuador

 

 

la arena que cubre tu cuerpo magro

te muestra oasis inefables

y atrapa tu lucidez

la arena que vomitas camino al antiguo edén

la que acribilla tu mirada y tu memoria

y te conduce duna tras duna

al otro lado del mar

la arena que sepulta tu corazón ardiente

y te ofrece al fin en un instante imposible

azul e inalcanzable el paraíso

 

y cierra piadosamente tus ojos

A CURA DO CÂNCER pela ALOE VERA (babosa) indicada pelo Frei Romano Zago

não é da linha editorial doPALAVRAS, TODAS PALAVRASeste tipo de publicação, entretanto, como postamos um convite, em abril de 2008, da revista BEM PÚBLICO para uma palestra do frei romano zago em curitiba, desde então são milhares de emails de pessoas solicitando como entrar em contato com o frei e a sua receita. como se trata de uma doença, até então, incurável e que traz muito sofrimento físico e psíquico para quem a porta, estamos em nome de uma colaboração sem fins lucrativos e com o intuito de levar a esperança a todos que nos enviaram email e aos portadores, publicando a receita, alertando que não nos responsabilizamos com o fármaco e seus resultados. é nosso desejo, sincero, que as esperanças se realizem.

O EDITOR.

A receita do Frei Romano Zago

Ingredientes:
– Folhas grandes de babosa com pelo menos 5 anos de idade As folhas devem medir um metro se colocadas em fila indiana. Este é o ingrediente ativo da receita.
– 50 ml de bebida destilada (cachaça, vodka, whisky, conhaque, etc)
– 1 / 2 quilo de puro mel de abelhas
– 1 garrafa de vidro escuro com capacidade para um litro (para armazenar)

Antes de Preparar
Colher a babosa no escuro, após 5 dias sem chuva. Não colher com orvalho. Preparar no escuro e logo depois de colhida. Depois de feito o remédio, guardar em vidro escuro na geladeira. Tomar o remédio no escuro. O motivo de se evitar a claridade é que na babosa a substância que age contra o câncer perde seu efeito ao entrar em contato com a luz.

Como Preparar:
Tire os espinhos das folhas de babosa e limpe-as com um pano úmido em álcool. Corte-as e coloque no liqüidificador juntamente com a bebida destilada e o mel.

Como tomar:
Para curar o câncer – tomar duas colheres de sopa três vezes ao dia, durante 10 dias; parar por 10 dias e tomar mais 10 dias, assim sucessivamente até se obter a cura total.
Observação: a cura do câncer será obtida com êxito quando ele estiver na fase inicial, pois quanto mais velho, mais difícil será a cura.

Contra-indicações:
O Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, obra do botânico Pio Corrêa, editado pelo Ministério da Agricultura, diz que a babosa é contra-indicada durante a gravidez, para pessoas com propensão a hemorragias, para aquelas com menstruação excessiva ou com debilidades da bexiga. Tais limitações são decorrentes da grande ativação renal resultante do amplo espectro depurativo do remédio, ao filtrar milimetricamente o sangue. (Fonte – Frei Romano Zago)

ONDE ENCONTRAR O PRODUTO PRONTO:

EM PORTUGAL:

Colégio dos Franciscanos, Largo da Luz, nº 11, Lisboa.
9h/13h – 15h/17h
e sabados também.

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NO BRASIL:

Av. Presidente Franklin Roosevelt, 1241 loja 3

Porto Alegre/RS – CEP: 90230-002

BRASIL

Fone/Fax:  xx 51 3395.3569

Email: proaloe@proaloe.com.br

S.A.C: xx.51. 3395.1978

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O primeiro caso de cura registrado por frei Romano Zago foi o de um homem com câncer de próstata, já em fase terminal, segundo os médicos. “Tão desesperador era seu caso que os filhos já haviam providenciado os papéis assinados para evitar o inventário dos bens”, conta o frei.

O cidadão freqüentava a paróquia dos franciscanos, razão pela qual frei Zago foi chamado para ministrar os sacramentos da igreja para quem está à beira da morte.

Além dos sacramentos, o frei deu-lhe também o remédio. “Hoje o homem está com mais de 80 anos de idade, completamente curado”, conta emocionado o frei. Geraldito, um garoto argentino de cinco anos, chegou à Espanha acompanhado dos pais e do irmão na esperança de encontrar no transplante de medula a cura para o seu mal: a leucemia. A cirurgia não funcionou; a doença voltou. Desenganados pelos médicos espanhóis e abandonados ao destino, acabaram na Terra Santa, em busca de um milagre. Em Belém, na Gruta da Natividade, enquanto derramavam lágrimas, encontraram um padre que os aconselhou a procurar o “frade brasileiro”, no Convento da Natividade, ali mesmo em Belém. O frade era frei Romano Zago, a serviço da Congregação Franciscana na terra de Jesus Cristo.

O BEIJO pela jorn. niara de oliveira

 

 

foto de alfred eisenstaedt.

foto de alfred eisenstaedt.

 

A fotografia intitulada “O Beijo” foi tirada na Times Square, no dia 14 de agosto de 1945, por Alfred Eisenstaedt. Nesse dia, os americanos saíram às ruas para comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial. “No Dia da Vitória, eu vi um marinheiro que vinha agarrando todas as moças que encontrava. Eu saí correndo junto a ele com minha Leica, olhando para trás por cima de meu ombro. Então, de repente, vi alguma coisa branca sendo agarrada. Girei em torno e cliquei o momento em que o marinheiro beijava a enfermeira”, declarou Alfred Eisenstaedt.

A enfermeira foi identificada como Edith Shain. Em 1980, com 62 anos, ela enviou uma carta ao Eisenstaedt, dizendo: “Nunca assumi publicamente porque podia colocar-me numa posição pouco digna. Mas agora os tempos mudaram”, escreveu Edith.

A revista Life tentou identificar o marinheiro, mas não foi possível, já que se apresentaram 11 candidatos e todos poderiam estar falando a verdade, pois naquele dia vários marinheiros festejaram beijando garotas que encontravam pela frente. Recentemente um teste de biometria realizado por Lois Gibson, especialista forense que desvendou mais de cem crimes, revelou que o homem da foto é Glenn McDuffie. Glenn, que tinha medo de morrer antes de ter sua identidade confirmada, conta que esperava o metrô quando ouviu a notícia do fim da guerra: “Fiquei tão feliz que saí para a rua, quando vi a enfermeira, corri para ela e beijei-a”, declarou. Eles não trocaram palavra. Existe outra foto, do mesmo beijo, feita pelo fotógrafo Victor Jorgensen, de ângulo diferente, e identificada pelo mesmo título.

O FOTÓGRAFO
Alfred Eisenstaedt, natural da Prússia e naturalizado norte-americano, sobreviveu a um ataque na Primeira Guerra que lhe afetou as pernas. Foi freelancer da Associated Press, registrou em 1933 o encontro de Hitler e Mussolini na Itália, participou da formação inicial da revista americana Life, registrou os efeitos da bomba atômica no Japão e fotografou personalidades como Winston Churchill, Marlene Dietrich, Ernest Hemingway, JFK e Sophia Loren. Faleceu em Nova Iorque em 1995, aos 96 anos.

A EMPRESA IGREJA por josé dagostim

Homologo os vence(dores), mas as dores reprimidas acordarão os vencidos…

 

O capitalismo e sua criatividade. Impressiona como alguns empresários se utilizam da arte de dominar usando da religião e até mesmo dos textos bíblicos como forma de propaganda. Mas isto no mundo do capital não é novidade, todas as armas são válidas, inclusive as falaciosas analogias. O que realmente inquieta é a fachada ética que permeia está categoria de empresários, usam e abusam do discurso piedoso, mas no âmago um espiral arenoso sombreia o espectro. Será que ainda estão presos no deserto atormentados por demônios?…

 

Assédio moral, demissões arbitrárias, intimidações e acidentes de trabalho correm soltos. Uma pequena caminhada pela trilha dos tribunais trabalhistas bastaria para destronar a realeza empresarial. As mídias empresariais, com suas colunas sociais estampam o disfarce, cenário de um teatro marcado por vítimas de uma sociedade ilusória.

 

A verborragia religiosa utilizada é a manigância do ego para manter “adormecida” a sombra da anomalia. Duvido que estas corporaturas durmam bem, desconfio de seus assessores espirituais e dos cientistas do comportamento, pois são co-réus de atos bárbaros da “nova civilização” empreendedora.

 

O progresso caminha no mesmo estilo das instituições religiosas, principalmente quando o pragmatismo religioso fundamentou a primeira pedra e distendeu nas sombras o coração. Uma trilha de isenções facilita a vida tributária do templo, enquanto isso, os trabalhadores, a qualquer custo, são impelidos a doarem o corpo e a alma ao progresso empresarial.

EL SUEÑO AMERICANO, SIESTA O PESADILLA por eduardo gonzalez viaña/Espanha

Lo llamaban el sueño americano. En medio de la crisis, tiene otros nombres. Unos dicen que  sólo se trata de una siesta. Otros creen que es una pesadilla y que será permanente.

 

A través de los tiempos,  ese sueño ha sido la creencia de que en Estados Unidos todo es posible para quien se atreva a soñar y a trabajar con empeño.

 

Creer que la riqueza y la felicidad son inagotables es la primera característica del sueño americano, y acaso la más peligrosa.

 

En los años recientes, esa suposición hizo que los estadounidenses se endeudaran por encima de sus niveles de riesgo y que los bancos reventaran la burbuja de la especulación. Los resultados son conocidos por todos.

 

Es importante, eso sí entender, que no sólo los bancos se propusieron hacer que la gente se empeñara hasta la camisa sino que la propia gente estaba loca por empeñarla.

 

Pagar con la chequera, y no con la tarjeta, era condenarse a no ser considerado sujeto de crédito. Tratar de cancelar cuanto antes la hipoteca era visto por algunos como una actividad idiota, si no sospechosa y, presumiblemente, “antiamericana” 

 

Empujados por el sentimiento de seguridad inagotable y por la creencia en el pleno empleo, los más han ignorado en este país el ahorro. La gente compraba a plazos sin averiguar cuál era el interés efectivo sino más bien el número de plazos, que las más de las veces excedía los meses y años de su propia vida.

 

Ahora, se comprueba que la superabundancia nunca existió, y que sólo se estaba pagando a plazos el desastre. El mito, sin embargo, se expresaba en gigantescos vehículos militares para algún solitario pretencioso, colosales dispendios de energía para una familia mínima, la compra cada cierto tiempo de una laptop, un teléfono móvil o un i-pod diferente, el consumo de raciones de comida para gigantes y la fábrica de niños obesos. En Londres, Madrid o Roma, todavía la gente seca su ropa al calor del sol. En los Estados Unidos, el apartamento más económico se vende o se arrienda equipado con cocina, dishwasher, refrigeradora, microondas, cable, lavadora y secadora.

 

Lo terrible es que todo ese dispendio llegó acompañado por el olvido absoluto de los valores que hicieron el sueño americano de los pioneros, la renuncia a  la filosofía de los fundadores de la libertad y el desprecio cínico por las creencias de las parejas que conducían un buey, una carreta y cuatro chiquillos hacia el Lejano Oeste. La tierra de la ingenuidad, de la integridad y de la ética no lo fue más. Esos bienes fueron suplidos por la avidez, el egoísmo, el capitalismo feroz, el insaciable hedonismo y la ignorancia más insoportable.

 

En un país, donde todo está en venta, hasta la cultura fue “marqueteada”. En las universidades se inventaron los créditos para objetivar el conocimiento, parcelarlo y venderlo en las raciones absolutamente necesarias para entrar cuanto antes al carnicero mercado del trabajo. Los jóvenes que llegan a la universidad suelen ignorar cuándo se independizó este país y qué potencias pelearon en la Segunda Guerra Mundial, y continúan sin saberlo al salir si no les son imprescindibles algunos créditos de historia.

 

La bandera de libertad empuñada en los combates del Pacífico o en las playas de Normandía fue abandonada en todas las guerras posteriores. Ese principio constitucional sólo sirve ahora para defender con ardor frenético a los que venden armas y para canonizar como buenos americanos a quienes las compran y salen el fin de semana a mutilar venados. Sirve también para olvidar a los paranoicos que compran miras telescópicas y apuntan con cuidado a sus futuros blancos en la escuela de la esquina.

 

Una información de la Pfizer dice que las compras de Lipitor se han reducido muy significativamente en los Estados Unidos. Si consideramos que abandonar el reductor de colesterol puede tener consecuencias fatales, eso significa que hemos tocado fondo.

 

Por fortuna, en las últimas elecciones no se ha producido solamente una alternancia de administradores. El nuevo gobierno proclama que un cambio radical es imprescindible, y a pocos meses de iniciar su trabajo, tanto el presidente Obama como una mayoría abrumadora de la población proclaman que el único camino a tomar es el camino de vuelta a los principios que sustentaron  siempre el sueño americano.

 

Quienes defendemos a los inmigrantes creemos que el cambio pasa por darles legalidad. Eso no es tan sólo rentable para el fisco e indispensable para el exhausto Seguro Social, sino que las comunidades hispanas serán un ejemplo de los principios que aquí se olvidaron cuando se convirtió la familia en una sociedad mercantil.

El cambio pasa por la gratuidad de la educación, la generalización de los servicios de salud y la extirpación de la miseria.  .

Para que el sueño americano no sea ya una pesadilla, hay que gobernar desde la política y la filosofía, y no desde la economía. Hay que denunciar la deificación del capital, un becerro de oro ante el cual se ha vuelto a los sacrificios humanos. Hay que mundializar la utopía dentro de un proyecto global. Hay que recuperar la dimensión ética de la aventura humana. Hay que dejar de leer los índices del mercado y volver a las páginas del viejo Aristóteles, quien sostenía que no tiene sentido ningún invento humano ni acto alguno de gobierno, si no viene ligado al objetivo imprescindible del bien común. Y todo eso significa que habrá que volver a soñar.

POEMÁTICA – poema de josé luiz gaspar

Ao inventor do quadrado de quatro pontas

José Luiz Gaspar

Xamãs tupiniquins alvoroçados

‑ cada qual com seu fado ‑

vão denotando como que se faz

‑ um pouco na frente, outro atrás ‑

espetar pelo ramos as rosas

‑ galhofando-as nas glosas ‑

de raspar seu lápis na lousa

‑ para extrair enfim outra coisa.

 

Apenas um som não faz sentido

seu sentido é que procura o som.

como criança brinca de bandido

enquanto o ególatra tasca seu tom.

 

Todas palavras gozam à ideofrenia

arritimando-se pelos batecuns,

sempre desiguais como um +um.

O coração despulsa nessa sangria

ensandecido numa feroz dislalia

em que coaxaria refaz sua cultura.

Aí, a bilurribina exsuda acumputura;

a pele triscada, um calor à mente

e no verbo um som intermitente:

Batecum! Batecum, mais um.

ENQUANTO ISSO…NUM PAÍS DA AMÉRICA DO SUL BANHADO PELO ATLÂNTICO…

“Um dia decidi sair do trabalho mais cedo e fui jogar golfe!
Quando estava escolhendo o taco, notei que havia uma rã perto dele.

A rã disse:

– ‘Croc-croc! Taco de ferro, número nove!

Eu achei graça e resolvi provar que a rã estava errada. Peguei o taco que ela sugeriu e bati na bola.
Para a minha surpresa a bola parou a um metro do buraco!
– Uau!!! – gritei eu, me virando para a rã – Será que você é minha rã da sorte?
Então resolvi levá-la comigo até o buraco.
– O que você acha, rã da sorte?
– Croc-croc! Taco de madeira, número três!
Peguei o taco 3 e bati. Bum! Direto no buraco!
Dali em diante acertei todas as tacadas e acabei fazendo a maior pontuação da minha vida!
Resolvi levar a rã pra casa e, no caminho, ela falou:
– Croc-croc! Las Vegas!
Mudei o caminho e fui direto para o aeroporto! Nem avisei minha mulher!
Chegando em Las Vegas a rã disse:
– Croc-croc! Cassino, roleta!
Evidentemente, obedeci a rã, que logo sugeriu:
– Croc-croc! 10 mil dólares, preto 21, três vezes seguidas.
Era loucura fazer aquela aposta, mas não hesitei.
A rã já tinha credibilidade.
Coloquei todas as minhas fichas e deu na cabeça! Ganhei milhões! Peguei toda a grana e fui para a recepção do hotel, onde exigi uma suíte imperial. Tirei a rã do bolso, coloquei-a sobre os lençóis de cetim e disse:
– Rãzinha querida! Não sei como lhe pagar todos esses favores! Você me fez ganhar tanto dinheiro que lhe serei grato para sempre!
E a rã replicou:
– Croc-croc! Me dê um beijo! Mas tem que ser na boca!
Tive um pouco de nojo, mas pensei em tudo que ela me fez e mandei ver!
No momento que eu beijei a rã, ela se transformou numa linda ninfeta de 17 anos, completamente nua, sentada sobre mim. Ela foi me empurrando bem devagarzinho para a banheira de espuma…

“Juro por Deus”, – disse o Senador ao Presidente da Comissão de Ética!
“Foi assim que consegui minha fortuna e essa menina foi parar no meu quarto”.

MILLÔR por hamilton alves

Quem sou eu para meter o pau em Millôr Fernandes ou lhe negar  talento para fazer humor, embora ultimamente deva-se reconhecer que anda meio por baixo, o que bem revela sua página na revista “Veja”, que segue dentro de um ritmo mais ou menos chato. Mas ele tem espírito de humor. Há poucas e boas dele. Uma vez inaugurou uma página inteira do Estadão. O que é que, afinal, se julgava que o homem fosse? Algum super-homem? Evidentemente que, por mais talento que lhe sobre, uma página de jornal é um peso demasiado grande. Mas foi numa dessas páginas que disse uma coisa genial: “andar de taxi é o melhor manual de sociologia aloprada existente”. Por isso, lhe passei um recado de cumprimentos. Em resposta, agradeceu-me com um desenho exatamente de um taxi com um motorista e um passageiro vistos no banco da frente.

                                   Millôr, não sei por que cargas d,água, não acerta com entrevistas. Talvez seja por causa dos maus entrevistadores, que lhe fazem perguntas imbecis e ele responde.

                                   Numa das últimas (para a revista “Bravo!”) proferiu essa lantejoula:

                                   “Machado de Assis não me diz nada”.

                                   A mesma coisa diz de Joyce. Claro, Ulisses é uma pedreira para qualquer um. Só quem gostou do livro e adquiriu uma primeira edição foi Anthony Burguess, que elogia essa obra num livro que denominou “Homem Comum Enfim”, que contém exatamente as iniciais do principal personagem de Finnegans Wake, ou Humphrey Chimpden Earwicker. O titulo original é Here Comes Everybody.

                                   Millôr pelo menos tem a ousadia de confessar a própria burrice, diferente de outros tantos, considerados geniais como ele, e que a escondem. Ou a escamoteiam.

                                   Escritor, segundo ele, é o Veríssimo (não menciona se é o pai ou  o filho), considerando-o consagrado. Nada contra. Nem a favor. Muito pelo contrário.

                                   Gênio, mesmo nacional, tem dessas incongruências desculpáveis. Afinal de contas, ninguém é perfeito. Não gosta de Machado de Assis, mas Veríssimo  coloca no pedestal. A pergunta é: o que Millôr leu de Machado para chegar a essa conclusão? Leu, ao menos, os contos “Missa do Galo”, “A igreja do diabo” ou “Teoria do Medalhão”? Só para citar três dos melhores. Não se fala de “Don Casmurro” ou de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que tem um capítulo – Delírio – que Eça de Queiroz declarou que sabia de cor.

                                   Redimiu-se, em parte, dessas naturais mancadas, destacando o fato de ter lido Proust em português, francês, inglês e espanhol. Méritos para ele. Há quem não o leu em língua alguma.  Para que também exagerar de lê-lo em quatro idiomas?

                                   Ele aborda um tema sério: o aumento vertiginoso do número de escritores e, principalmente, de poetas, a partir do momento em que se inventou o computador. O que tem pintado de blog e blogueiros na internet é incontável. Todo o dia aparece um poeta novo, supondo-se de cara um gênio. “Toda senhora de 50 anos, que não sabe mais o que fazer, vira poeta” – diz Millôr. Mas revela uma limitação própria de quem não é muito familiarizado com o assunto. Pelo que se deduz, só considera poeta quem sabe armar uns versos com rima e metro. Fora daí não há poema que possa ser considerado como tal.

                                   Lembro-me que certa vez Paulo Francis disse de Millôr que, se fosse americano ou inglês, estaria consagrado mundialmente. Mesmo que fosse apenas na arte de fazer humor.            

                                   Bem, nisso, na verdade, ele está entre os melhores, quem sabe, do mundo.

 

CASLA – CASA LATINO-AMERICANA (Curitiba) CONVIDA:

primo CASLA

SOCIOLOGIA NA SALA DE AULA por walmor marcellino

Quando se tentou explicar e justificar o estudo do pensamento organizado e das ciências sociais nas escolas de segundo grau, na verdade se estava falando da enorme lacuna política na vida estudantil, como um vestibular à efetiva cidadania. Do uso precário da língua, do escasso domínio das ciências, dessa algaravia comunicativa de informações imprecisas, inúteis, e desde tempos em obsolescência pelo menos em seus métodos de investigação e modos aplicativos, todos estamos conscientes, embora desconhecendo-lhes a cura. A escola preencherá a experiência do social na construção de realidades; oferecerá um cidadão pronto para uso e consumo? Ou precisaremos de uma verdadeira reforma da educação que não serão apenas melhorias ou adições curriculares enganosas?

E essas adições e especulações sob novas expectativas de maturar os jovens numa sociedade que não se deixa decifrar sequer pelos políticos que dominam as instituições públicas? Se ninguém é contra a substituição de parte do currículo por sociologia e filosofia, quais serão essas outras matérias descartáveis; ou quase tudo não convence ser prioridade no sistema educacional, que necessita ser afrontado e radicalmente mudado?

Se é verdade que nem a sociologia nem a filosofia estão no centro das carências estudantis e servem apenas como adição para “formar atitude racional” e método de pensamento e trabalho — além da necessária ampliação daquelas informações positivas que não encontram no agente social a persistência e a flexibilidade para uma ação proveitosa –; se é verdade que não são suficientes “para a ocasião e a reflexão”; de que política como prática e entendimento social, de que efetiva cidadania enquanto ação objetiva e reflexão racional e lógica estaremos falando?

Política e cidadania serão o começo de qualquer ação ou uma finalidade na busca de aperfeiçoamento dos indivíduos? A dialética nos ensina que nesse entrecruzamento de princípios e fins não estamos discernindo a gênese e o sentido de um problema em causa. Estaremos a divagar.

O homem pensa para viver — quer dizer que no geral o pensamento é uma resposta orgânica a um estímulo. Porém essa forma unilateral dá uma primeira resposta a devaneios e paranóias, à alienação que nos constringe à mitologia e aos deuses para obter resposta ao não-saber, ao duvidar da justiça na sociedade, à angústia do existir. E serão esses os temas-objeto dos estudos ou os silogismos da lógica formal seguidos dos grandes e imorredouros enigmas da história? e a tipificação das sociedades em seus modos de produção, organização social e cultura preencherá nossa ignorância? Estou, de qualquer maneira, pensando em voltar para a escola.

COMO QUALQUER VORAZ BESTA por alceu sperança

Ao assumir o papel de xerife do mundo e dar a errônea impressão de que isso dá certo, os EUA doutrinaram as pessoas a ter medo do outro, do diferente, do moreninho do terceiro Mundo. O Estado policial tem sido um instrumento de dominação da ideologia. Basicamente, ele cria o crime e o estimula, na medida em que concentra as riquezas em poucas mãos e produz uma revolta que é sufocada pela violência do Estado. Nesse caso, o Estado policial é um Estado da direita, que no seu rancor ao povo defende os muros e o extermínio dos pobres em massa.

Como o crime é criado? Pode-se ver com clareza através da realidade evidenciada nas grandes e médias cidades brasileiras. O povo é oprimido pela falta de emprego, a precariedade da situação laboral, a ameaça de perder a vaga, a insegurança da atividade informal – e o namoro desta com a contravenção e o crime. Ao mesmo tempo, ilude-se com programas sociais cujo alcance limita-se ao nome bonitinho, do tipo “Minha Casa, Minha Vida”: se a vida dependesse de ter casa, 30 milhões de pessoas que vivem no que não é seu estariam mortos.

Com isso, temos uma classe média empurrada para a proletarização e com medo até da sombra, espoliada pelos ricos e agredida pelos miseráveis, engrossando o coro dos fascistóides que querem mais polícia descendo o pau no lombo dos pobres e protegendo os ricos que, ao fim e ao cabo, são os causadores dos dramas tanto dos miseráveis quanto das classes médias.

Felizes com a situação armada, os ricos usam sua mídia para demonizar e criminalizar os movimentos sociais, como MST, que é o maior movimento popular organizado no Brasil e agora descobriu a pólvora: que a ação precisa ter um caráter continental, pois o Brasil não terá futuro dependendo eternamente dos EUA e da Europa: só a unidade latino-americana criará um polo de força no hemisfério Sul, pois hoje tudo aqui é pautado pela vontade e pelas regras do hemisfério Norte. Chegou a hora de Bolívar!

Há um novo tipo de escravidão, que é deixar os preços das coisas altíssimos, em comparação com salários arrochados. É monstruosidade o que se faz com o transporte coletivo: a tarifa é estratosférica, sobrecarregando principalmente as donas de casa com atividade apenas no lar, os trabalhadores informais e os desempregados. Exigir de um pai que pague meia passagem para um filho ir à escola aprender a trabalhar para sustentar uma Nação é uma atitude vergonhosa.

Os impostos elevados sobrecarregam ainda mais os preços para os setores mais pobres, e nada haveria contra impostos se eles servissem para resolver os problemas da população e não para pagar os juros de uma dívida trilionária imoral.

Que o dinheiro dos impostos é mal empregado se nota pela estrutura de saúde em frangalhos e a educação fragilizada. Piora tudo a insegurança pública decorrente de um conjunto de mazelas criadas e sustentadas pelos ricos, propositalmente, no afã de acumular em poucas, pouquíssimas mãos, a riqueza gerada por todos os que trabalham.

Isso dá numa síntese: o caos urbano, que endoidece, adoece, agride, polui e mata. Criam-se artificialmente o medo e a violência, retomando aquela velha agenda hidrófoba da questão social ser caso de polícia. Falta prestar um pouco de atenção ao conselho de Locke: “Abandonando a razão, que é a regra dada entre homem e homem, e usando a força, à maneira das bestas, ele se torna sujeito a ser destruído por aquele contra quem ele usa força, como qualquer voraz besta selvagem que é perigosa à sua pessoa”. Resumindo, violência gera violência.

FERNANDO PESSOA I

sou o intervalo entre o que sou e o que não sou

Fernando Pessoa - por Biratan.

Fernando Pessoa - por Biratan.

entre o que sonho e o que a vida fez de mim,

a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo

eu nada também.

 

O CICLISTA – de nelson padrella

 

Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     
Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     

UM PÉ DE POEMA/NO JARDIM DE SOFIA (zocha) – poema de lilian reinhardt

Vou plantar  um  pé de poema
já esterquei a cova
fiz desova com minha pena
 já arregacei os baldes da manga
fiz descarrego das veias
assim planto esse pé de poema no canteiro do agora
crivo nos cravos dos olhos meus
Bordarei sem palavras esses teus umbigos
adejarei  borboletas
além da  barriga desta  aldeia
Já reguei das bilhas 
borrifei as  calhas com  água benta
nas asas do verso o ácido da placenta
 a terra te bebe o córrego 
fio d’água escorre eternidade!

SUOR poema de jorge barbosa filho

 

eu fiquei com teu nome

no meu corpo

e com todas as coisas

que você me dizia!

sejam elas minhas feridas,

as minhas tintas,

e as tuas juntas.

 

articulei um quadro

com tamanha engenharia,

por onde escorria um gato

no canto do teu olho,

uma lágrima miava

e eu não sabia.

 

a arquitetura da tua fome

é a mesma da minha.

o tamanho que nós somos

num olhar, não caberia,

na galeria de um sorriso

depois de tanta poesia.

 

pois é, fizemos picassos

sem nenhuma perspectiva.

melhor estarmos aqui

e trabalharmos o amor!

e sermos, sem formas

um imenso kambé.

 

é que as coisas bacanas  

você apontou…eu, as tuas 

na ponta dos dedos

nascem berrugas.

somos estrelas ou

somos pinturas?

 

o nome, é que se é

e se pretende constante

nos poros, na boca e na fé,

você é em mim inteira…

por isso eu não tive coragem

de tomar banho.

 

pra que me lavar reticente

se quero fazer as coisas durar?

sentir o teu cheiro,

saber que você está por perto,

e isto me alivia

sempre! sempre!

 

 

 

 

saber que você existe

é uma dádiva!

ainda não acredito!

sonho comigo e tigo,

sem nenhuma tática.

é deus o que sinto 

num corpo de fumaça.

 

quando fecho os olhos,

cheiro você em mim,

todos os incêndios

no teu colo implorando

como um bombeiro:

me faça feliz.

 

por todo fogo e suor

quero dividir,

multiplicar o que possamos

e somar o infinito

sem diminuir meu ser, teu ser…

e ficarmos juntos por inteiros. 

 

assim como estrelas

e a arte de um pulsar,    
o universo espalha

a alegria no olhar da gente.

que tudo dure, então

num beijo, pra sempre!

 

 

Jorge Barbosa Filho

 

DIA ASSINALADO poema de otto nul


Na folhinha do calendário

Com destaque

Ficou marcado o dia

Para sempre

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

O tempo rolará sobre esse dia

E nem eu nem tu

Dentro de alguns anos

Nos lembraremos mais

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

A folhinha do calendário

Ficará, no entanto,

Suspensa no tempo

Celebrando o fato

x x x

(abril/09 – Otto Nul)

A CAPELA SISTINA – editoria

CAPELA SISTINA - O JUÍZO FINAL

 

 

                     CAPELA SISTINA.

Se existem lugares em que a arte se aproxima de Deus, um deles é a Capela Sistina. Esta dependência do Palácio do Vaticano, em Roma, atinge o absoluto graças aos magníficos afrescos pintados por Michelangelo, Perugino, Ghirlandaio e Botticelli, entre outros artistas do Renascimento.

 

Temas do Antigo e do Novo Testamento são o ponto de partida das imagens imortais da Capela. Seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV, que ordenou a sua construção em 1475. Os trabalhos se prolongaram até 1483 e, atualmente, a Capela é usada para as reuniões do Colégio dos Cardeais destinadas a eleger os novos Papas e também para cerimônias da Semana Santa

O projeto da Capela Sistina, segundo o arquiteto e teórico italiano Giorgio Vasari, foi de Baccio Ponteli; porém, nas notas de pagamento, figura o nome do florentino Giovannini de Dolci. Polêmica à parte, o importante é que externamente o edifício parece uma fortaleza, deixando evidente que a função da Capela seria apenas a de uso interno dos moradores do Palácio do Vaticano, principalmente do Papa.

Ao que tudo indica, as dimensões parecem ter sido inspiradas nas do templo de Salomão, descrito na Bíblia, e o teto abobadado era originariamente desprovido de qualquer adorno pictórico. Ainda sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes. Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.

Entretanto, em maio de 1508, o Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, encomendou a Michelangelo o afresco que hoje decora o teto da Capela. O artista florentino aceitou o desafio pleno de dúvidas, pois considerava-se mais um escultor do que pintor, preferindo os blocos de mármore de Carrara aos pincéis.

A obra foi terminada em outubro de 1512, sendo o resultado de um processo muito doloroso. No plano físico, a posição incômoda em que o artista tinha que pintar, sobre andaimes, todo retorcido e com gotas de tinta prejudicando-lhe a visão, causava cansaço. Além disso, segundo alguns historiadores e críticos de arte, Michelangelo sofria veladas ameaças de que seria substituído pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão, se o seu trabalho não agradasse ou não correspondesse aos desejos do Papa.

Mas o resultado foi magnífico, superando qualquer expectativa. Michelangelo representou, seguindo uma ordenação teológica, desde a Criação do Universo até a Embriaguez de Noé, incluindo mais sete episódios do Gênesis, além de sete profetas, cinco sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e quatro cenas nos cantos representando façanhas de heróis do povo de Israel: Davi vencendo Golias, Judite matando Holofernes, Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus e o episódio em que, picados por serpentes venenosas, aqueles que tivessem fé poderiam se curar olhando para uma serpente de bronze, colocada no alto de um poste por Moisés.

TETO DA CAPELA SISITINA

                      Teto da Capela Sistina.

BASHÔ – QUATRO HAICAIS

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

 

-.-

 

A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra

 

-.-

 

 

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

 

-.-

 

 

Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

 

 

 

Tradução: Jorge de Sousa Braga

ANTONIO GRAMSCI por sandra vaz de lima

Pelas mãos de Gramsci é recuperado um outro Marx (e não sem tensões como, por exemplo, na permanência do uso das altamente questionáveis dicotomias de “infra-estrutura/superestrutura” e “classe em si/classe para si”), que não é aquele claramente influenciado pelo evolucionismo

ANTONIO GRAMSCI

ANTONIO GRAMSCI

 cientificista do século XIX; é trazido de novo à vida o Marx que viu e defendeu a razão da liberdade perante a força da necessidade, o Marx que edificou uma teoria da sociedade humana baseado em três pilares fundamentais, a saber, as noções de totalidade, contradição e historicidade. 
Entretanto, Gramsci não apenas recuperou o “Marx da liberdade da ação política e cultural”, diferentemente daqueles que preferiram mergulhar na herança do “Marx da necessidade da determinação econômica”, como, além disso, superou dialeticamente o autor de O capital, ampliando, na formulação de conceitos novos, o entendimento das três noções que embasam a dialética materialista e direcionando-as no sentido de uma “história ético-política” [3]. 
O conceito de hegemonia em Gramsci nasce como corolário da nova significação por ele dada à realidade estatal. Ao definir o Estado como uma instituição formada por dois “grandes planos superestruturais” (a “sociedade civil”, onde se constrói o “consenso”, e a “sociedade política”, onde se exerce a “coerção”), ele constatou que o poder estatal não mais se legitimava puramente através da “dominação”, mas também por meio da “hegemonia” – o Estado transformara-se em “hegemonia revestida de coerção” [22]. 
O marxismo, para Gramsci, reivindica a história ético-política, o momento da hegemonia, como algo essencial, que constitui condição sine qua non da sua concepção de Estado. Este fato está fecundamente enraizado, por sua vez, na percepção historicamente localizada de que as chamadas superestruturas, as ideologias “são uma realidade objetiva e operante”, “são fatos históricos reais”, e não “pura aparência”, que se desenvolvem intimamente relacionadas, sob um nexo de reciprocidade vital, com as ditas estruturas, dando vida a um “bloco histórico”. A distinção entre conteúdo (forças materiais) e forma (ideologias) seria apenas de caráter didático, pois, de acordo com Marx, “os homens tomam conhecimento dos conflitos de estrutura no terreno das ideologias”. 
O pensamento gramsciano sintetiza um estudo sobre as configurações históricas do Estado Capitalista Contemporâneo, remete a um amplo dialogo com os dilemas que emergem neste final de século.

 

ILUSTRAÇÃO DO SITE. FOTO LIVRE.

PONTE DA AMIZADE (Brasil-Paraguai) poema de solivan brugnara

 

                 

                  O concreto da ponte flutua

                        tem algo de voar, de lento voar

                            algo que me deixa gasoso

                             ao andar sobre ela.

                      Porém parece só acontecer comigo,

                         os outros pedestres estão mais pedra.

                       Vejo engarrafamento, suor e contrabando,

                           mas a ponte se mantém tranqüila

                             com uma docilidade cetácea. 

                    Embala os que mijam, roubam, buzinam e xingam

                               sobre suas costas.

                        É das coisas que conheço

                           a mais próxima da santidade.

ALGUÉM SABE O QUE SIGNIFICA?

Vi vet

Vill ni veta

SPIELBERG e o futuro da revista impressa – por bruno rodrigues

Se os jornais diários de papel só fazem balançar na corda bamba, as revistas parecem estar se saindo bem; aliás, as revistas já se reinventam com dignidade há dez anos. A explosão do conteúdo na web, por exemplo, ao oferecer textos mais enxutos e um visual de maior impacto, serviu mais com estímulo à adaptação aos novos tempos do que uma visão do apocalipse. Do estilo de linguagem à programação visual, não houve publicação semanal, quinzenal ou mensal que não tivesse mimetizado a mídia digital – na maioria das vezes, com sucesso. Folhear uma revista de 1999 e compará-la com uma de 2009 faz uma imensa diferença.

 

E as revistas continuam se reinventando. Veja só as surpresas que duas das principais publicações desta década nos apresentam em suas edições mais recentes, prenúncio de que ainda há muito por vir:

 

. Steven Spielberg, editor da ‘Empire’
Colocar a tarefa de editar uma revista nas mãos de um diretor de cinema é uma daquelas ideias que nos fazem perguntar ‘por que alguém não pensou nisso antes?’. E se o diretor em questão é Steven Spielberg; a publicação, a inglesa ‘Empire’; e a edição, a comemorativa de vinte anos da revista, a ideia beira a genialidade. Spielberg pôs o dedo em tudo: da pauta às entrevistas, dos textos às fotos, da diagramação à capa. Algum problema nisso? Nenhum para os leitores, que estão fazendo os exemplares sumirem das bancas e das livrarias. Para os jornalistas é que vale uma pergunta: é fácil assim editar uma revista, sem nunca ter lidado com jornalismo, ou o trabalho de edição de um filme – tarefa a que Spielberg está habituado há mais de trinta anos – é semelhante ao de uma publicação impressa?

 

. J. J. Abrams, editor da ‘Wired’
Para quem não conhece, Abrams é visto como o novo Spielberg – ele é o criador de ‘Lost’ e da revitalização da série ‘Jornada nas Estrelas ‘ (aquela de Spock & cia.) para o cinema, e mais que isso não é preciso dizer. Abrams pegou a ‘Wired’, principal revista sobre tecnologia do mundo, e a virou do avesso. Criou uma temática subliminar para a edição – ‘mistério’, que ele conhece bastante, vide ‘Lost’ – e transformou a revista em uma questão a ser resolvida, em que o leitor precisa coletar pistas aqui e ali para checar à resolução sabe-se lá do quê. Afinal, é J.J. Abrams! O que sobra disso? Uma pergunta que insiste em martelar na minha cabeça: é preciso contar com um criador de séries para tornar uma revista mais interessante? Sei não, tudo me parece muito estranho…

 

E você, o que acha desta nova ‘tendência’? Se já há gritaria por conta de economistas que escrevem colunas para jornais, o que dizer de revistas editadas por diretores de cinema?

Morre Fani Lerner, ex-primeira-dama do Paraná

Morreu, vítima de câncer, na madrugada desta quinta-feira (21), a ex-primeira-dama do Paraná Fani Lerner, mulher do ex-governador Jaime Lerner.

 

FANI LERNER

FANI LERNER

O corpo da ex-primeira-dama será velado no Salão Nobre da prefeitura de Curitiba a partir das 10 horas. O enterro está programado para as 16h30 desta quinta-feira no Cemitério Israelitado bairro de Santa Cândida. Por motivos religiosos, a família pede que não sejam enviadas flores.

 

Fani tinha 63 anos e lutava contra o câncer desde fevereiro de 1995, quando precisou ser submetida a uma cirurgia de emergência. Passou os últimos dias em seu apartamento, no bairro Cabral, em Curitiba, onde era atendida por médicos e enfermeiras.

Durante suas gestões como secretária de estado da Criança, criou 16 programas para crianças e adolescentes carentes. Foi presidente da organização não-governamental Provopar(programa de trabalho voluntário), que trabalha em parceria com o governo do estado e a sociedade civil.

Em sua gestão, construiu cerca de 500 creches, que atenderam 485 mil crianças, de 0 a 6 anos de idade. Outro programa de destaque criado por Fani foi o Da Rua para a Escolavoltado a promover o retorno à escola das crianças de rua, com o fornecimento de uma cesta básica de alimentos para suas famílias. O programa tirou da rua mais de 80 mil crianças.

Em 2003, foi vencedora do Prêmio Kellogg’s para o Desenvolvimento da Criança, oferecido pela organização americana World of Children, em parceria com a instituição Hannah Neil.
Nos três mandatos de prefeito e nos dois de governador do marido, Fani comandou a área de assistência à criança das gestões. Casada com o arquiteto Lerner desde 1964, deixa as filhas Andrea e Ilana e os netos Ben, Liana, Tobias e Sophie.

Luto

Em razão do falecimento de Fani Lerner, o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), e o prefeito Beto Richa (PSDB) decretaram luto oficial de três dias. “É uma perda muito grande para os curitibanos. Todos nós aprendemos a admirar dona Fani, tanto pela pessoa gentil, otimista e vibrante, como pelo grande trabalho profissional que desempenhou nas funções públicas que ocupou”, disse Richa, em nota.

A presidente da Fundação de Ação Social (FAS)Fernanda Richa, ressaltou que o trabalho de Fani no desenvolvimento social tornou-se referência para todos aqueles que trabalham no setor. “Dona Fani fixou modelos, não apenas pelo trabalho que realizou na prefeitura de Curitiba e no Estado, onde realizou inúmeros programas e projetos de governo, mas também por sua atitude e seu comportamento na vida pública”, declarou Fernanda, também em nota.

O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Nelson Justus (DEM), também decretou luto oficial na Casa. “A Fani era uma mulher extraordinária, um ser humano especial, que se recusou a cumprir o papel tradicionalmente reservado às primeiras-damas e fez da sua participação nas administrações do Jaime um espaço para atuar, de forma incansável, em favor da criança. Ela mudou para melhor e de forma definitiva a vida de milhares de pequenos curitibanos e paranaenses com os programas sociais que criou. A sua falta, a partir de agora, só não é maior que a referência que ela deixa de amor e carinho pela gente do Paraná”, disse o presidente da Assembleia, em nota.

Por conta do luto, Justus determinou a suspensão de cerimônias públicas agendadas para esta quinta-feira no Legislativo estadual.

GP

O POETA e COMPOSITOR JORGE BARBOSA FILHO CONVIDA

SALVE JORGE!! os PALAVREIROS DA HORA desejam muita saúde e zilhões de alegrias para você meu mano! é lamentável, para mim, não poder estar aí para abraça-lo e encontrar toda essa turma linha de frente! das bandas aos poetas passando pelo grande maestro WALTEL BRANCO! feliz festa!

jb vidal seu mano de sempre.


psycho1

UM OLHAR NO ESPELHO poema de leonardo meimes

Não suporto um olhar no espelho.

Me aterroriza a expressão

Plácida e ao mesmo tempo mórbida

Que me acomete

 

Como mantenho esta face angelical

Sendo que, pouca fama

Têm minhas ações mais perversas,

Minha intro-perversidade?

Sois vil, vil, vil!

 

Refletindo agora percebo

O quanto sou vil.

Percebo a malícia perene,

A cadência intrigante

De meus pensamentos mais

ridículos

 

Brincas com sentimentos?

Brincas com as dificuldades?

Brincas com a ignorância?

SIM, sim, sim

 

Quase me quebro no espelho

Por não querer beijá-lo.

Eis uma aversão a mim mesmo

Aversão mais perigosa

 

Abre-se a notória realidade

Cai em meu colo como um fado

Não aquele que soa lindo e triste

E sim o que pronuncia o oráculo

Que sela o destino

E termina em fatalidade.

POEMA para DALÍ – de bárbara carvalho

BÁRBARA CARVALHO - dali1parte

BÁRBARA CARVALHO - dali2parte

ORAÇÃO AO OUTRO poema de joão batista do lago

Vejo-te, Outro,

amor da minha conduta.

Tudo o mais, além de ti,

é ilusório;

Representação falsa dos românticos,

Naturalistas dum tempo de sonhos.

 

Vejo-te, Outro,

símbolo máximo da razão.

Tudo o mais, além de ti,

é desprezível;

Devaneios de encantos de seres diacrônicos,

Vidas que se arrastam sem o deus-mercado.

 

Vejo-te, Outro,

mercadoria do meu consumo.

Se nele não te encontras:

não és nada…

Vê-se, pois, não tens a alma dum cifrão.

 

Vejo-te, Outro,

com minha visão de lucro.

Se nela não te sonho:

nada vales…

És mercadoria podre – espírito sem capital!

Gerson Camata protesta contra cartilha que ensina usuário a drogar-se.

NO SENADO BRASILEIRO:

 

O SR. GERSON CAMATA (PMDB – ES. Para uma comunicação inadiável. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, antes de entrar no objetivo da minha fala, queria solidarizar-me, primeiro, com o Senador Alvaro Dias, depois com o Prefeito de Vitória, João Carlos Coser, do PT, excelente Prefeito, que luta pelo metrô de Vitória, coitado! Vem aqui, conversa com o Presidente, com a Ministra Dilma, vai à Comissão de Orçamentos e não consegue. Se ele fosse Prefeito de Santiago do Chile, já teria pego uns 500 milhões do BNDES, para fazer o metrô de Santiago do Chile. E, com o nosso querido colega Geraldo Mesquita, que, dia e noite, vejo aqui brigando pelas emendas, para os Prefeitos do Acre. E não liberam. Um milhão e pouco, dois milhões, mas quatro bilhões para os prefeitos de Angola, Moçambique, República Dominicana não faltam.
Sr. Presidente, no sábado, peguei o jornal O Globo – às vezes lemos uma notícia e não acreditamos naquilo que estamos lendo –: li uma vez, duas, tomei um cafezinho, bebi um copo d’água, li de novo, para ver se aquilo era verdade, e era. Hoje li de novo.
O Ministério da Saúde editou uma cartilha, e não acredito que aquilo foi pago com dinheiro público. Estou falando aqui, porque estou requerendo ao Ministério exemplares da cartilha e ao Tribunal de Contas se é lícito usar dinheiro do contribuinte, para fazer uma cartilha como essa.
A cartilha é dirigida aos viciados em craque, cocaína e êxtase. Mas, em lugar de dizer que aquilo faz mal, para não se usar, não, estimula, porque o título já é assim: “O álcool e outras drogas não afetam seus direitos”. Quer dizer, o álcool e outras drogas… tudo igual, tudo igual. E aí diz o seguinte a cartilha: Maconha. Se você é usuário de maconha, é bom andar com um vidrinho de colírio, porque ela costuma deixar o olho meio vermelho; para tirar o bafo, beba bastante água ou, senão, uma vodca. 

É! A Cartilha do Ministério da Saúde! Mas tem mais: se você é usuário de cocaína, não use nota de dinheiro para cheirar cocaína, use um canudinho, que é mais higiênico, desses que têm nos bares. E não manipule a cocaína com a sua mão, que pode estar com algum micróbio, com alguma bactéria.
É, o Ministério da Saúde! Não diz, em nenhum momento: não use cocaína, ela faz mal, ela vicia. A cocaína financia os crimes, financia as armas que matam os inocentes nos morros do Rio, de Vitória, do Brasil, de Porto Alegre! Em nenhum momento, ela diz isso.

Mas, aí há o crack: ah! se você é usuário do crack, você tem de beber muita água após consumir o crack, bastante água mesmo, e também se alimentar bem antes e depois do crack. Ensina como se faz.
E depois tem o êxtase: beber bastante bebida isotônica se você vai consumir êxtase; antes e depois.

Disseram lá no Ministério que isso é a maneira de evitar um dano maior. A maneira de evitar um dano maior é combater o traficante, colocar o traficante na cadeia, prender a cocaína que roda, tomar as armas dos traficantes, colocar na cadeia esse monte de gente que está destruindo a juventude brasileira. Essa é a maneira.
Agora, fazer uma Cartilha ensinando como se usa! O Ministério da Saúde! Eu não acredito!
Quero que o Tribunal de Contas informe se é lícito usar dinheiro do contribuinte, dinheiro público, sagrado, para ensinar as pessoas a usarem cocaína, crack, êxtase, essas coisas que estão acabando com o Brasil.
Erramos aqui quando consideramos que o viciado não pode ser preso, porque está carregando para o consumo próprio. Mas é o viciado que financia as armas, financia os crimes, financia as mortes. 
Tanto que está tramitando um projeto de lei, de minha autoria, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, no sentido de que sempre que um drogado matar alguém ou roubar alguém, quem vendeu a cocaína, se for localizado, também vai para a cadeia junto com ele. Porque se, por exemplo, eu entrego uma arma para alguém assassinar uma pessoa e eu sou co-autor, se eu vendo a droga para alguém matar outro eu sou co-autor também. Então tem que prender o traficante, toda hora, todo momento, e persegui-lo.
Pelo Regimento eu não posso, mas eu gostaria de ouvi-lo.
O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – Só para contribuir com o seu pronunciamento, Senador Gerson. Eu admitiria uma cartilha dessa se ela fosse dirigida a toda a população brasileira, orientando-a a perceber os sintomas daqueles que usam entorpecentes, para identificar e levá-lo a algum local onde ele possa ser tratado etc. Mas o senhor leu três vezes e não acreditou. Eu teria lido vinte vezes e continuaria não acreditando nessa cartilha.
O SR. GERSON CAMATA (PMDB – ES) – Pois é, eu tive que ler de novo, hoje cedo, e agora estou pedindo para mandar uns exemplares aqui para o Senado e, junto, vou entrar com um requerimento. Quero que haja uma análise por parte do Tribunal de Contas se é lícito, com dinheiro público, publicar-se uma cartilha dessa, ensinando as pessoas a consumirem drogas pesadas. E o pior, dando a entender que não é problema, não; pode consumir, desde que você beba bastante isotônico; pode encher a cara de maconha, desde que você ponha colírio no olho; pode chupar cocaína à vontade, desde que não use nota de dinheiro para isso, tem que ser canudinho. Eu não estou entendendo mais as coisas que estão acontecendo. Perdoem-nos, mas o Tribunal de Contas vai ter que explicar ao povo brasileiro se isso é lícito, se isso é correto, se isso é direito, se isso é moral, o que é isso.
Muito obrigado.

NA DITADURA, UM INSTANTE – por philomena gebran

 

Rio de Janeiro 13 de dezembro de 1968. Festa de alguns amigos; grupo pequeno. Mas em época de ditadura qualquer reunião é uma festa. Ou como queriam os militares à época uma reunião subversiva.Os amigos sempre se reuniam para espantar os males daqueles tempos; e porque não se divertir um pouco. Que ninguém é de ferro.Na ocasião comemorávamos aniversário de um amigo.A festa corria solta. Muita música, muita alegria. Parabéns pra você, etc. Também à época dançava-se muito para não dançar nas mãos da repressão. E depois quem dançar os males espanta! Nos intervalos ,o sempre papo político, pois estávamos todos com os boatos que corriam soltos. Mas pensávamos eram apenas boatos e conjeturávamos hipóteses, nada mais. Tinha sido um ano complicado. Assassinato do Estudante  Edson Luiz  no restaurante do Calabouço, gerou inflamados protestos e discursos relâmpagos. Protestos sucediam-se. A gloriosa passeata dos Cem Mil da Avenida Rio Branco, foi um dos mais importantes. Merecíamos uma certa descontração. Enfim era uma festa e procurávamos afastar os maus pensamentos. Nosso pequeno grupo composto de intelectuais, jornalistas, artistas; todos da resistência da esquerda pacífica. Entre os presentes, a filha do lendário sociólogo e historiador, já perseguido pelo golpe de 64. “Dito comunista”, Josué de Castro autor  de uma obra de referencia e definitiva para a História do Brasil  “Geopolítica da Fome”. E fazia o maior sucesso entre todos nós. A festa rolava; a certa altura lembramos que iria ser transmitido, pela televisão, o pronunciamento do presidente da república, Gal. Costa e Silva. Paramos tudo.Sentamos no chão  e de olhos na televisão, o pronunciamento caiu entre não e  como uma bomba no meio da sala. escurecendo tudo. Acabando com a música. Calando toda nossa alegria.Embargando nossa voz. Emudecendo tudo. Perplexos não queríamos acreditar no que ouvíamos:
“O presidente Costa e Silva impetra neste 13 de dezembro de 1968 o Ato Institucional número 5″ que lhe outorga plenos poderes”; E seguia a voz do locutor; a partir dessa data, ficam proibidas reuniões políticas; passeatas; pronunciamentos contra o regime, etc., etc.., ética.. saímos para nossas casas mudos e cabisbaixos, cada um carregando o peso daquela bomba. Nos dias seguintes a Imprensa foi divulgando as conseqüências do sinistro Ato que autorizava o presidente, em caráter excepcional o “recesso do Parlamento” – analogia para seu fechamento; cassar mandatos parlamentares; suspender por dez anos todos os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens de quem o governo bem entendesse; e golpe fatal: suspender a garantia do habeas corpus.
Nos terríveis dias que se seguiram as noticias iam caindo entre nós de conta gotas e mergulhando o país na mais terrível repressão de todos os tempos. Prisões e mais prisões se sucediam, desaparecimentos de pessoas conhecidas. A resistência armada organizou-se e a clandestinidade tomou conta do país, ou  pelo menos de parte dele.
Com o tempo ficamos sabendo o que nossas hipóteses de confirmavam. Os Militares não agiram sozinhos. Contaram com o apoio de segmentos de grande parte da sociedade civil; dos empresários; dos americanos; da OAB e seu presidente da época. Um dos signatários do A. I. 5 foi o hoje deputado, quase petista, Delfim Neto e depois por muito tempo ministro dos vários governos da ditadura.Restava um foco de resistência onde de vez em quando nos reuníamos a ABI, sempre contra a ditadura e sempre nos apoiando.
Há muito a contar; mas vou ficando por aqui , pois não poderia deixar passar em branco essas lembranças dos quarenta anos do A.I. 5. Nada a comemorar. Tudo a lamentar.
Rio de Janeiro 13 de dezembro de 1968. Festa de alguns amigos; grupo pequeno. Mas em época de ditadura qualquer reunião é uma festa. Ou como queriam os militares à época uma reunião subversiva.Os amigos sempre se reuniam para espantar os males daqueles tempos; e porque não se divertir um pouco. Que ninguém é de ferro.Na ocasião comemorávamos aniversário de um amigo.A festa corria solta. Muita música, muita alegria. Parabéns pra você, etc. Também à época dançava-se muito para não dançar nas mãos da repressão. E depois quem dançar os males espanta! Nos intervalos ,o sempre papo político, pois estávamos todos com os boatos que corriam soltos. Mas pensávamos eram apenas boatos e conjeturávamos hipóteses, nada mais. Tinha sido um ano complicado. Assassinato do Estudante  Edson Luiz  no restaurante do Calabouço, gerou inflamados protestos e discursos relâmpagos. Protestos sucediam-se. A gloriosa passeata dos Cem Mil da Avenida Rio Branco, foi um dos mais importantes. Merecíamos uma certa descontração. Enfim era uma festa e procurávamos afastar os maus pensamentos. Nosso pequeno grupo composto de intelectuais, jornalistas, artistas; todos da resistência da esquerda pacífica. Entre os presentes, a filha do lendário sociólogo e historiador, já perseguido pelo golpe de 64. “Dito comunista”, Josué de Castro autor  de uma obra de referencia e definitiva para a História do Brasil  “Geopolítica da Fome”. E fazia o maior sucesso entre todos nós. A festa rolava; a certa altura lembramos que iria ser transmitido, pela televisão, o pronunciamento do presidente da república, Gal. Costa e Silva. Paramos tudo.Sentamos no chão  e de olhos na televisão, o pronunciamento caiu entre não e  como uma bomba no meio da sala. escurecendo tudo. Acabando com a música. Calando toda nossa alegria.Embargando nossa voz. Emudecendo tudo. Perplexos não queríamos acreditar no que ouvíamos:
“O presidente Costa e Silva impetra neste 13 de dezembro de 1968 o Ato Institucional número 5″ que lhe outorga plenos poderes”; E seguia a voz do locutor; a partir dessa data, ficam proibidas reuniões políticas; passeatas; pronunciamentos contra o regime, etc., etc.., ética.. saímos para nossas casas mudos e cabisbaixos, cada um carregando o peso daquela bomba. Nos dias seguintes a Imprensa foi divulgando as conseqüências do sinistro Ato que autorizava o presidente, em caráter excepcional o “recesso do Parlamento” – analogia para seu fechamento; cassar mandatos parlamentares; suspender por dez anos todos os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens de quem o governo bem entendesse; e golpe fatal: suspender a garantia do habeas corpus.
Nos terríveis dias que se seguiram as noticias iam caindo entre nós de conta gotas e mergulhando o país na mais terrível repressão de todos os tempos. Prisões e mais prisões se sucediam, desaparecimentos de pessoas conhecidas. A resistência armada organizou-se e a clandestinidade tomou conta do país, ou  pelo menos de parte dele.
Com o tempo ficamos sabendo o que nossas hipóteses de confirmavam. Os Militares não agiram sozinhos. Contaram com o apoio de segmentos de grande parte da sociedade civil; dos empresários; dos americanos; da OAB e seu presidente da época. Um dos signatários do A. I. 5 foi o hoje deputado, quase petista, Delfim Neto e depois por muito tempo ministro dos vários governos da ditadura.Restava um foco de resistência onde de vez em quando nos reuníamos a ABI, sempre contra a ditadura e sempre nos apoiando.
Há muito a contar; mas vou ficando por aqui , pois não poderia deixar passar em branco essas lembranças dos quarenta anos do A.I. 5. Nada a comemorar. Tudo a lamentar.
(2008).
MEMORIAL DA LIBERDADE - PHILÔ E OUTROS 2009 293
PHILOMENA GEBRAN e amigos no encontro para o MEMORIAL DA LIBERDADE (em Curitiba) décadas depois do fato narrado. ilustração do site. foto livre.

CRUZ MACHADO, A RUA BOÊMIA DE CURITIBA NA CINEMATECA

BaladaFlyerestreia

BALDE DE SIRI GAÚCHO NÃO PRECISA DE TAMPA por paulo tiaraju

Se é um lugar tão desejado por todos e tão bom, porque as pessoas bebem tanto quando estão na praia? Ora, bebemos para nos livrar da camisa de força riograndense que tanto orgulho nos dá. Bebe-se para ser livre outra vez, bebe-se para dizer tudo o que vem na cabeça, para rir, para brincar. E sem trago não dá? Pois é, sem trago não dá. Todo mundo continua careta, respeitavelmente adequados e comportados, como são na cidade.

Gaúcho não está acostumado a ficar sem roupa uns na frente dos outros. Carioca está tão acostumado que inventou o Fio Dental para reduzir o Biquini, aquela peça que esconde tudo. Esta é a imensa diferença entre quem vive na praia e quem vai à praia uma vez por ano. Quem vai à praia uma vez por ano tem sede de fazer loucuras, quer descontar um ano inteiro de rotinas engessadas. E vamos que vamos, ninguém segura mais a demanda reprimida. E aí, meu camarada, sai de baixo que a chapa vai esquentar, tirem as crianças de perto.

Rola de tudo. São 15 dias tomando caipirinha adoidado, comendo churrasco adoidado, conversando com as mesmas pessoas de sempre (adoidado), lendo jornal na areia adoidado, cortando a grama do jardim adoidado, dormindo depois do almoço, assistindo TV de noite adoidada, ou se jogando de cabeça num emocionante jogo de cartas. Que tal?

Gaúcho quando vai para praia, continua sendo um gaúcho cercado de gaúchos por todos os lados. Balde de siri gaúcho não precisa de tampa, a patrulha comportamental vai junto. O desinfeliz que ralou o ano todo não vai se espraiar como se fosse lógico, dançar e gargalhar como se fosse livre, adulto, com a agenda zerada e de férias. Os amigos vão estranhar, a família não vai entender, os clientes, ou os pacientes, estão por toda parte, onde é que já se viu?

Se numa roda surgem as lembranças das loucuras que faziam na Praia do Rosa há 20 anos ou 30 anos, aí a emoção toma conta de todos. Saudades do luau na areia, roda de viola, do frisson, da azaração (palavra da época), quando e se amanhecia nos barzinhos.

Não sei qual é a sua praia, mas a minha é a mesma que vivo em Porto Alegre o ano todo. Quero dizer que em boa parte do tempo tento flertar com a alegria, dou duro, mas também sei ficar à deriva, ao sabor das emoções aleatórias. E nunca descarto a hipótese de que o inesperado me faça uma surpresa. Me ocorreu agora que os cemitérios estão lotados de gente comportada; gente que em vida nunca fez o que gostaria. Esqueleto frustrado sabe que the game is over, deu pra bola, que triste destino. Mas ali também tem muita gente que viveu pra valer. Acho que entre eles ainda tem alguns que dão uma escapada de vez em quando. Nunca falta uma terreira para baixar, tomar uma marafa, fumar um charuto e dançar ao som do batuque puxado no capricho. Sei não, tem gente que não se entrega nunca. Eta nóis.

 

Paulo Tiaraju é publicitário e atualmente é diretor de Criação contratado da agência Match Point.

SALVADOR DALÍ e seus pensares – editoria

Olé! porque os críticos da velha arte moderna — vindos das Europas mais ou menos centrais, e portanto de parte nenhuma — se ocupam em cozinhar lentamente no cassoulet cartesiano seus equívocos mais saborosamente rabelaisianos e seus erros de situação mais truculentamente cornelianos de cozinha especulativa.SALVADOR DALI - 2841165895_d454c29615
Os cornudos1 ideológicos menos magníficos — excetuados os cornudos stalinistas — são em número de dois:

Primeiro: o velho cornudo dadaísta de cabeleira esbranquiçada que recebe um diploma de honra ou uma medalha de ouro por ter querido assassinar a pintura.
Segundo: o cornudo quase congênito, crítico ditirâmbico da velha arte moderna, que se auto-recorneia desde o início pelo corneamento dadaísta. Desde que o crítico ditirâmbico se casou com a velha pintura moderna, esta última não cessou de enganá-lo. Posso citar pelo menos quatro exemplos desse corneamento:

1) Ele foi enganado pela feiúra.
2) Ele foi enganado pelo moderno.
3) Ele foi enganado pela técnica.
4) Ele foi enganado pelo abstrato.

A introdução da feiúra na arte moderna começou com a adolescente ingenuidade romântica de Arthur Rimbaud, quando disse: ” A beleza sentou-se em meus joelhos e estou fatigado dela”. Foi por essas palavras cifradas que os críticos ditirâmbicos — exageradamente negativistas, e odiando o classicismo como todo rato de esgoto que se respeita — descobriram as agitações biológicas da feiúra e seus inconfessáveis atrativos. Começaram por se maravilhar com uma nova beleza , que diziam “não-convencional”, e ao lado da qual a beleza clássica tornava-se de repente sinônimo de frivolidade.
Todos os equívocos eram possíveis, inclusive o dos objetos selvagens, feios como os pecados mortais (que eles são, em realidade). Para ficarem em uníssono com os críticos ditirâmbicos, os pintores passaram a fazer o feio. Quando mais o faziam, mais eram modernos. Picasso, que tem medo de tudo, fabricava o feio por medo de Bouguereau2.
Mas ele, diferentemente dos outros, fabricava o feio de propósito, corneando assim os críticos ditirâmbicos que pretendiam reencontrar a verdadeira beleza. Como Picasso é um anarquista, ele haveria de dar a puntilla3 depois de ter apunhalado Bouguereau pela metade, e de um golpe acabar com a arte moderna, fazendo só ele, num dia, mais feiúra que todos os outros reunidos em vários anos.
Pois o grande Pablo, juntamente com o angélico Rafarel, o divino Marquês de Sade e eu — o rinocerontesco Salvador Dalí —, têm a mesma idéia do que pode representar um ser arcangelicamente belo. Aliás, essa idéia em nada difere da que possui por instinto qualquer multidão de rua — herdeira da civilização greco-romana — quando se volta petrificada de admiração, à passagem de um corpo — chamemos as coisas por seu nome —, de um corpo pitagórico.

 

1. Em francês, cocus. O termo deriva de coucou, o cuco, cuja fêmea tem o hábito de pôr seus ovos no ninho de outras aves. (N.T.)
2. Adolphe-William Bouguerau (1825 — 1905), diz o Larousse du XXe Siècle. Coberto de diplomas e medalhas de ouro, é tido como um general do estilo pompier, um general desacreditado mas que ainda causa medo. Um dia Picasso fazia um de seus amigos admirar sua última obra, uma colagem de pedaços de jornal; como esse amigo permacesses calado, o mestre, não podendo mais se conter, encontrou a palavra decisiva: “Talvez não seja sublime, mas em todo caso não é um Bouguereau.
3. A estocada final que o toureiro, “na ponta dos pés”, aplica ao touro. Depos da dança, é à tauromaquia que Dalí recorre para suas imagens. Trata-se realmente de um espanhol (N.T.)

 

O trecho acima, como vocês podem ver pleno de um espírito sarcástico e provocador, é de Libelo contra a Arte Moderna, de Salvador Dali. Ao longo do tempo, apesar de sua importância para o movimento surrealista e da sua ampla gama de interesses, que o fizeram transitar por cinema, escultura, pintura e até pelos desenhos animados de Walt Disney, foi colando-se a Dalí a reputação de grande marqueteiro de si mesmo. É uma imagem que não deixa de voltar à mente na leitura deste provocador panfleto no qual apresenta as diatribes que os senhores vêem aí, ataca indiscriminadamente Rimbaud, a crítica, a arte moderna de feiúra disseminada, as vanguardas, o abstracionismo, Cézanne, Miró, ao mesmo tempo que faz o elogio de um retratista profundamente acadêmico como o francês Ingres, para ele “o último pintor a saber pintar”.

 

Dentre os artistas de seu tempo, Dalí só poupa o próprio Dalí, considerado por Dalí, ele próprio,  o “salvador da pintura”, em um exemplo claro da completa ausência de modéstia do artista. Opiniões fortes de um artista ainda provocador. Não deixam de ainda falarem aos espíritos inquietos de todo mundo.

SE me quiseres conhecer – poema de noémia de souza / Moçambique

Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto 
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura…
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
– Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou
Seu grito inchado de esperança.

In notícias, 07.03.1958, página “Moçambique 58”

AMOR ANIMAL - GIRAFAS 54886

MÁRIO BENEDETTI MORRE e URUGUAI SE CALA – pela editoria

os PALAVREIROS DA HORA e o site PALAVRAS, TODAS PALAVRAS lamentam a morte do escritor e poeta uruguaio MÁRIO BENEDETTI ocorrida ontem (17/05/09)   . em 20/03/08 MÁRIO  BENEDETTIo site publicou o poema PORQUE CANTAMOS de autoria do grande poeta. escritor engajado nas lutas populares de seu povo, foi em suas escrituras um defensor ferrenho do amor e da solidariedade. vejamos a repercussão desta grande perda para a literatura mundial:

Escritora Mercedes Vigil lamenta perda de Mario Benedetti

Montevidéu, 17 mai (EFE) – A escritora uruguaia Mercedes Vigil disse hoje em Montevidéu que a morte do poeta Mario Benedetti representa a perda de “uma pluma reveladora e valente” e deixa “um vazio irrecuperável”.

Em declarações à Agência Efe, Mercedes elogiou a obra “monstruosa e monumental” que deixa o autor uruguaio, falecido hoje em sua casa de Montevidéu aos 88 anos de idade.

“As musas nunca o abandonaram”, acrescentou Mercedes, destacando que o escritor desenvolveu “todos os gêneros e estilos através de uma inspiração fantástica”.


“Não se pode esquecer que os poetas vivem do coração e para ele essa perda foi terrível, não pôde superá-la”, disse a escritora, que considerou que graças à qualidade e à quantidade de sua obra “Benedetti não vai morrer nunca”.

 

 

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MONTEVIDÉU -17 de maio- O governo uruguaio decretou luto nacional pela morte do poeta Mario Benedetti, que faleceu neste domingo, em sua casa em Montevidéu, aos 88 anos. Seu velório foi iniciado na manhã de hoje no Palácio Legislativo, sede do Congresso do país. O enterro será realizado nesta terça-feira, no Cemitério Central da capital uruguaia.

Para o funeral, espera-se o comparecimento do presidente Tabaré Vázquez e de figuras do mundo da cultura e política local.

Autor de uma obra com mais de 80 títulos, entre poesia, contos, novelas, ensaios e peças teatrais, Benedetti foi reconhecido ao longo de sua trajetória por diversas distinções, como o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo, em 2005, o Prêmio Iberoamericano José Martí, em 2001, e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, em 1999.

Sua última publicação, o poemário “Testigo de uno mismo”, foi lançado em agosto do ano passado sem sua presença, pois Benedetti já apresentava um delicado estado de saúde. Atualmente, ele trabalhava em uma nova obra, intitulada provisoriamente de “Biografía para encontrarme”.

A morte de Benedetti foi sentida por diversas personalidades da cultura local e internacional. “Bendito sejam os homens e as mulheres honestos e generosos como ele”, disse Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina”, ao tomar conhecimento do falecimento.

Ao lado de Galeano, Juan Carlos Onetti e Idea Vilariño, Benedetti se tornou um dos mais MÁRIO BENEDETTI - benedettiimportantes nomes da literatura uruguaia do século XX.

Para o secretário de Cultura de Montevidéu, Mauricio Rosencof, sua morte representa “uma perda para a literatura latino-americana”. Benedetti foi “um ser humano absolutamente excepcional e um amigo querido”, afirmou Rosencof, que foi companheiro de militância de esquerda do escritor uruguaio.

O secretário de Cultura argentino José Nun, por sua parte, afirmou que Benedetti “era um grande escritor, multifacetário, e um defensor incansável dos direitos humanos e das causas nobres”.

“Sentimos um vazio tão grande com sua partida, mas ainda que estou certo de que [Benedetti] ficará para sempre entre nós”, completou.

Segundo afirmou Raúl, irmão do autor de “La Tregua” (1960) e “Gracias por el fuego” (1965), a morte do autor uruguaio não era esperada. Embora ele estivesse com a saúde debilitada, “aparentemente estava melhorando, estava consciente, respondia quando lhe faziam perguntas”.

 

As informações são da ANSA.

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um poema de mário benedetti:

VIAJO

 

Viajo como los nómades

pero con una diferencia

carezco totalmente de vocación viajera

 

sé que el mundo es esplêndio

y brutal

 

viajo como las naves migratorias

pero con una diferencia

nunca puedo arrancarme

del invierno

 

sé que el mundo es benévolo

y feroz

 

viajo como las dóciles cometas

pero con una diferencia

nunca llego a encontrarme

con el cielo

 

sé que el mundo es eterno

y agoniza

O Rei e “o Cara” por sérgio costa ramos

No começo, bem que Lúcifer tentou estragar os dois espetáculos que a Ilha providenciou para rivalizar com os seus poentes sanguíneos, emoldurados pela Serra do Mar.

O fim de semana – cujo palco assistiria o 9º Congresso do Conselho Mundial de Viagem e Turismo e o indizível show do Rei Roberto Carlos, comemorando os 30 anos do Grupo RBS em Santa Catarina – nasceu entre as nuvens carrancudas de uma tempestuosa quinta-feira: uma lestada se instalou sobre a Ilha – com o seu “carnegão” sombrio e a velha promessa:

– Tempo de lestada, mar de rebojo, três dias de luto e nojo…

Como anjo decaído e magnífico “espírito de porco”, Lúcifer começou a sua grande conspiração. Já imaginaram um congresso de turismo numa ilha paradisíaca, sem um único momento de sol? Pior: três dias de chuva incessante, “regador” que transformaria o WTTC numa sinistra reunião de sapos e pererecas?

Lúcifer não pensou só neste prejuízo: o Rei Roberto Carlos, ainda jovem aos 68 anos, poderia pegar uma erisipela ou um reumatismo se o vento sul soprasse ali nas esquinas da Via Expressa Sul, onde se instalara um palco “Hi-Tech” para 80 mil pessoas encantadas com aquele “momento lindo”.

Como o Senhor não se rende aos seus anjos demitidos, a justiça divina restabeleceu a ordem natural das coisas e da natureza: um sol das Ilhas Gregas se dependurou no firmamento e a alta pressão atmosférica “ariou” a panela da abóbada celestial, deixando-a limpinha e brilhante. O pessoal do WTTC pode, afinal, ser apresentado à verdadeira Ilha, aquela que foi modelada com extremo capricho no último dia da “Criação”, antes que o Todo-Poderoso descansasse.

O tocante Roberto Carlos in Concert – com dupla celebração, o meio século de sua carreira e os 30 

O REI na Ilha.

O REI na Ilha.

anos do Grupo RBS na terra de Anita Garibaldi – foi o maior sucesso de um show ao ar livre em Santa Catarina: intensas emoções, vividas em detalhes cintilantes.

Foi tamanho o calor humano, que o vento sul de Cruz e Sousa – “a gemente sentinela, que a tudo desgrenha e gela” – concedeu uma trégua providencial. Milagre. De repente, a noite estrelada do 16 de maio de 2009 se transformou num aquecido útero de mãe: o céu firme, a temperatura em torno dos 18ºC, sem vento. No entorno do palco, enquanto o Rei Roberto relembrava “As Jovens Tardes de Domingo”, instalou-se uma espécie de sauna emocional: a água que não caiu com a suspensa lestada, boiou nos olhos da plateia e de seu Rei.

O fim de semana, graças ao “Cara”, foi tão azul que o Avaí voltou invicto do Maracanã. E a retina de cada membro do WTTC recebeu o “download” de uma paisagem inesquecível.

O que nos autoriza dizer: se, com tanta beleza e tantas emoções para dar, a Ilha acabar excluída da Copa do Mundo de 2014, pior para a Copa…

 

DC. – ilustração do site.

VINHA AO TEU ENCONTRO prosa poética de vera lúcia kalaari / Portugal

VERA LÚCIA KALAARI - VIANHA AO TEU ENCONTRO

 

 

Vinha vindo ao longo da vida e vinha ao teu encontro.

Por isso é que a vida sempre me pareceu bela e generosa.

Mas quando às vezes, sopravam os ventos adversos, havia qualquer coisa que, em meio da tormenta, falava ao meu coração. Era como a luz de um farol rasgando o nevoeiro, a noite, o temporal.

Vinha ao teu encontro.

Eras tu que eu sentia, como um encanto obscuro, uma fascinação misteriosa, além do horizonte.

E era a tua sombra que, às vezes, me fazia parar um pouco, junto do homem que passava.

E porque era a tua sombra fugaz apenas que me detivera, junto do homem que passava, logo o deixava passar.

E seguia a minha estrada, em busca do teu amor: o outro era apenas um caminho para o teu amor.

Vinha ao teu encontro… Como se seguisse na rota duma estrela, como se fosse no rumo do sol. Vinha ao teu encontro na certeza de encontrar-te, porque eras a promessa do meu destino. Sabia que existias e vinha vindo ao teu encontro, embora ignorasse se eras uma flor ou uma fonte, um raio de luar, uma nota de música, uma paisagem, um silêncio, um sonho.

Sabia que existias e vinha ao teu encontro, ao longo da vida. Assim, agora que te encontrei, tenho a certeza de que sempre estiveste em minha vida, de que sempre caminhámos juntos, pois vivias dentro do meu sonho. Agora tenho a certeza que vinha 

vindo ao longo da vida, caminhando ao teu encontro, como se seguisse na rota duma estrela – iluminada por sua luz distante.

ESQUECER AO CONTAR AS GOTAS poema de joanna andrade

Momentos que sufocam,

dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer à conta gotas.

 

Cada  gota  é como chumbo,

 tão pesada é a dor.

 

Novo método contra cena  amortecida,

 sensação, sem paladar e insonsa.

 

O coração ao chão desenhado,

 para nunca ser esquecido ao ser pisado.

 

A  sola do sapato trilha a fama da vida,

 vermelho carmim ululante.

 

Rastros cirurgicos perseguem a sombra das sombras,

criando as cicatrizes históricas.

 

As lágrimas alvejam o caminho,

acionam todos os fantasmas para a super ação.

 

São esses os momentos que sufocam,

quando a chuva lava as almas deixando-as novinhas em folha.

 

Os momentos que sufocam o velho coração,

povoam as aortas com o sódio caustificante dos pensamentos residuais.

 

……… dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer ao contar as gotas.

CARTA PARA ZULEIKA de sérgio oliveira

Cara Musgo
Espero que esteja tudo azul ( e musgo ou pedra ).
Pois é,aqui te encontro depois de tanto tempo.Pedra continua levando as ondas que insistem em bater sempre fortes.Fortes como ele ( Pedra ) parênteses para que os incautos não venham a confundir nada.Continuas macia Musgo? Com tua voz suave que confunde a Medusa?
Continuamos musgo e pedra,mas em lados diferentes da praia.Em comum apenas a agua que quebra e o sol forte que as vezes nos abrasa.Musgo-sereia pedra-sentinela que continuam a espera sem saber do que. Ou será que apenas Pedra espera ? Diga musgo, ainda esperas ? Ainda sonhas com meus campos floridos? As vezes ainda os vejo em sonhos pálidos,em elaborações laboriosas num lampejo de fechar e abrir os olhos  sem nada daquilo enxergar.
Quanto a sermos velhos, ” quem será mais velho ? meu musgo ou tua pedra ?” Somos todos velhos agora.Ou melhor sempre o fomos,so não sabiamos.
Sorria musgo,que verei teu brilho do meu lado da praia e acenarei como faço agora com esta carta.
Desculpe me pelos questionamentos mas os terei enquanto vivo.
mande uma palavra no vento que ele entrega sempre,enquanto isso vou fazer o que sei fazer de melhor,esperar em meu cansaço.
um longo abraço que esta carta carece de rimas
 
P(ha)edra

II FEIRA CATARINENSE DO LIVRO por donato ramos*

Os Escritores da Ilha tentam mais uma vez ocupar o seu espaço, participando da II Feira Catarinense do Livro, promoção da Câmara Catarinense do Livro. Juntam o dinheiro entre os seus associados – porque nada é de graça neste mundo, fora o que Deus nos dá – e pagam o seu stand, na ordem de quinhentos reais. Eu juro que no início pensei que fosse de graça para os escritores da terra!

A abertura oficial já começa atrasada, porque a representante do Governador e do Secretário da Cultura, já incorporou o sistema de ação pública dos políticos e chega com mais de uma hora de atraso.

Lembrou-me Obama quando disse ao Lula e este repetiu à Dilma: “Você é o cara”!

Por que, você pergunta? Porque ela teve a coragem de dizer:

FEIRALIVRO4                                          foto de donato ramos.

“Sei que vocês estão decepcionados, porque esperavam a presença do Governador e do Secretário, mas eles estão ocupados com outras coisas. Não gosto de representar os outros, gosto de ser eu mesma, porque sei da decepção que as pessoas sentem quando esperam uma pessoa e é outra que vem”.

Deu, pelo menos, uma informação importante: O governo vai voltar a comprar livros de autores da Ilha. Não disse quantos de cada escritor, como isso será feito, nem quais os critérios, mas disse o que o dinheiro já existe. Mas não disse onde o dinheiro está e nem como vão comprar os meus livros.  Duvido.

 FEIRALIVRO1                                  foto de donato ramos.

 

Muita gente falou. O Vice-Prefeito de São Pedro de Alcântara disse da importância da sua cidade como berço dos primeiros alemães em Santa Catarina.

 

Falou até o proprietário das Livrarias Catarinenses sobre a epopéia vivida pelo seu pai, hoje já velhinho, mas muito interessado pelos livros. Vender livros, claro!

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                                    foto de donato ramos.

Falou sobre a importância dos livros de auto-ajuda que eles vendem muito. Mas não falou que vai dar destaque aos livros dos autores da Ilha nas suas inúmeras livrarias, inclusive a Livraria Curitiba que também foi fundada pelo seu pai.

Até se disse ali que o governo vai dar uma atenção maior para a Literatura trazendo grandes nomes – disseram assim mesmo -, grandes nomes de outras cidades para fazerem palestras aqui nos próximos eventos. Os autores da terra ficaram muito felizes com essa informação! Quase choraram de emoção!

Que bom, para nós escritores da Ilha: conhecer os“grandes nomes” porque serão úteis para nós, escritores com mais de setenta anos muitos deles, inclusive eu, que vou aprender com eles como se escreve uma crônica ou um romance. Assim, no futuro, também serei “um grande nome” e o governo de Santa Catarina poderá até comprar meus livros e me contratar para uma palestra…

Se apegue no Santo, minha Senhora! Se apegue no Santo meu Senhor!

 

donato ramos é jornalista, músico e escritor. mora na ilha de santa catarina.

“VIAS PARALELAS”, MARCO DA LITERATURA CATARINENSE por hamilton alves

(editado pela Academia Catarinense de Letras, o novo livro de Silveira de Souza é um repertório de seus bons poemas, traduções e memórias)

 

                                                                       (Hamilton Alves)

 

 

                                               Há pouco, Silveira de Souza me mandou um recado eletrônico me pedindo a opinião sobre seu novo livro, ”Vias Paralelas”, sobre o qual (dito por ele) alimentava algumas dúvidas.

                                               Disse-lhe de saída que um escritor de sua marca e experiência não precisaria auscultar a opinião de ninguém para saber da validade sobre o que produziu ou escreveu.

                                               Li o livro, que contém nas primeiras páginas um punhado de vinte e cinco poemas de sua lavra, alguns dos quais considero verdadeiras jóias da poesia brasileira, podendo rivalizar, em qualidade, com os melhores poetas que hoje pululam por aí, destacando-se principalmente o poema “Psique no bar do mercado”, sobre o qual já tinha me manifestado numa resenha que publiquei não faz muito em jornal. Referi-me a uma dúzia dentre os vinte e cinco, que me parecem de alto teor poético.

                                               O livro, de 158 páginas, termina com traduções de alguns poetas consagrados mundialmente, como Emily Dickson, com “Há um certo desvio da luz”, e outro de  Goethe, “Achado”, destacando-se dois outros, de Gottfried Benn, “Cocaína”, e Dante Gabriel Rossetti, “Luz Súbita”; a meus ver, esses dois últimos inferiores, em peso poético, aos dois primeiros. À guisa de amostragem do bom  nível da poesia de Silveira, segue um desses poemas a que me refiro como possuidores de alta voltagem poética:

 

                                               O médico e o monstro

 

                                               “   O eu-um caminha por alamedas

                                                    e ruas bem comportadas. Dele

                                                    os vizinhos e amigos, bzz, bzz,

                                                    comentam as ações previsíveis,

                                                    sérias, profissionais.

 

                                                    Eis que em certas noites do ano

                                                    ou do mês ou da semana, por vezes

                                                    emerge um eu-dois, freudiano, sor-

                                                    rateiro inquilino. Ah, a bebida! Ah,

                                                    as   mulheres e a música

                                                    das boates suburbanas! Ah,

                                                    o cheiro e o sabor de corpos jovens

                                                    em dormitórios e motéis!

 

                                                    Então não esconde o eu-dois

                                                    certa tristeza ao acordar 

                                                    nesse ano, mês ou semana. E

                                                    das janelas ver o nascer das manhãs

                                                     na cidade enevoada.

                                                     LÁ (na bruma, na bruma)

                                                     inflexível, monstro em seu papel,

                                                     o eu-um o espera”.

                                                                                                                                                                                

                                               Além de seus próprios poemas e desses outros poetas traduzidos, Silveira faz a tradução de um conto de muito boa feitura de Nathaniel Hawthorne, com o título “Wakefield”, de “O Corvo – Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe, e, ainda, de “Aforismas”, de Kafka. Brinda-nos também com alguns artigos memorialísticos, em que se reporta a vários temas que tiveram destaque em sua passagem pelo jornalismo, especialmente no desaparecido e inesquecível “Diário da Tarde”, quando o dirigia Tito Carvalho, um dos grandes nomes à época do jornalismo brasileiro, reportando-se ainda a sua vida profissional fora das letras.

                                               Trata-se de uma obra bem realizada, como no recado aludido lhe ressaltei. Não vai nesse comentário qualquer propósito de bajulação fácil. É a realidade dos fatos que se recolhe à leitura de “Vias Paralelas”.  Ainda tive oportunidade de lhe dizer que, a meu ver, a parte que mais se destaca é a inicial, que contém seus vinte e cinco poemas. Nem o poema de Goethe nem o de Emily Dickson, formulado com a categoria de sempre, nem os dois outros fazem a menor sombra aos poemas excelentes de Silveira, com destaque, como dito já, para “Psique…”.

                                               O livro tem o prefácio de Lauro Junkes, vazado em seis páginas, que reflete bem a qualidade do livro e do autor.

                                               Como depois disse ao Silveira, afora os poemas, em torno de uma dúzia (mencionei todos os que gostei e, mais tarde, acrescentei mais um ou dois ao rol dos que têm mais teor poético), se não valesse por isso ou pelas excelentes traduções do trabalho dos autores referidos, do alemão e do inglês, (aliás, diga-se de passagem, Silveira é um excelente tradutor nesses dois idiomas), o levantamento da memória de fatos culturais ou simplesmente de registro pessoal de certos eventos, vividos por ele em tantas circunstâncias, seria já, sem dúvida, um documento de real valor  quanto à referência a figuras que marcaram essa época, notadamente na imprensa ilhoa.

                                               Por tudo isso, “Vias Paralelas” é uma obra bem-vinda que, enriquecendo a fortuna literária já considerável de seu autor, um dos nossos escritores mais renomados, por outro lado, dá uma contribuição importante à literatura catarinense.

                                                   

                                              
(abril/09)                                                             x x x

 

 

AOS BENDITOS por alceu sperança

“E ainda assim há os insatisfeitos”, dizia o ex-secretário municipal da Saúde de Cascavel, Nadir Wille, ao prestar contas de suas atividades em um ato promovido na Câmara municipal, achando que estava fazendo grande coisa pela saúde popular. Benditos insatisfeitos! Sem eles o mundo não evoluiria. E a saúde, que não anda nada bem em lugar nenhum, estaria muito pior.

John Stuart Mill (1806–1873) nos socorre, bendito seja: “É incontestável que todos os melhoramentos nas questões humanas são obra apenas de caracteres insatisfeitos”. O grande professor angolano Manuel Cruz Malpique, autor de Introdução Sentimental às Bibliotecas, chutava as canelas dos conformistas sustentando a idéia de que a civilização, todinha ela, é obra dos insatisfeitos: “Todas as grandes transformações sociais e materiais de que a História nos dá conta as devemos à rebeldia de alguns loucos contra os homens de bom-senso”.

Talvez não fosse preciso chamar outros testemunhos geniais para reforçar a idéia de que a insatisfação é um dos motores principais de qualquer desenvolvimento, mas não resisto a apelar para um depoimento conclusivo: Walter Savage Landor (1775–1864), o bendito autor britânico de Conversações Imaginárias, sentenciava que “os insatisfeitos são os únicos benfeitores da humanidade”.

Benditos os estudantes, que são, dentre os insatisfeitos, os que mais têm chances de vencer e transformar seu mundo. São eles que hoje, em todo o Brasil, puxam o movimento admirável que exige o passe-livre no lotação. O ônibus é a grande resposta para o caos do trânsito, com ruas entulhadas de veículos poluentes, conduzidos por gente estressada a um passo do assassinato ou do suicídio, como se viu no caso tenebroso do deputado Carli Filho.

É inconcebível, um crime contra a cidadania, que a tarifa esteja tão alta – ao redor de um dólar, contra alguns poucos centavos em Cuba e muitos outros países. É também inconcebível que justamente o direito de ir e vir, o deslocamento no espaço urbano, seja uma prova cabal da imensa desigualdade que existe neste País. Uma revelação clara de que estamos muito longe da democracia. Votar é só um grão de areia no universo da democracia, ao contrário do que julgam os banqueiros e outros riquinhos em geral, para os quais democracia é um curral inerme e abobalhado que os elege.

É antidemocrático e injusto alguém deixar de poluir a cidade com um automóvel e ao embarcar num lotação tenha que pagar não só a sua passagem, mas também a dos isentos. Os malandros que instituíram a isenção pensaram algo assim: “Vou fazer moral com deficientes, velhinhos e algumas categorias especiais de meus eleitores. O trouxa do usuário que continue pagando ou faça como aqueles que migraram para o transporte individual!”

O Movimento Passe-Livre faz manifestações por todo o País, encantando todos aqueles que sabem estar na bendita juventude e nos estudantes a energia que nos falta para obter uma conquista essencial na atualidade: que as melhorias nos serviços públicos sejam fruto da vontade das pessoas e não das trucagens dos técnicos oficiais e dos políticos boquirrotos. É preciso exigir a participação da sociedade na gestão da coisa pública.

A rigor, não há de fato democracia real neste País. Em pleno 2006, duas décadas depois que a ditadura fez o favor de se suicidar, estudantes de Florianópolis que pediam o passe-livre foram espancados por um bando paramilitar. Quando a polícia chegou, deu cobertura aos bandidos agressores e prendeu os estudantes, exigindo que o fotógrafo Cláudio Silva, do jornal Diário Catarinense, destruísse as imagens das agressões. Como se recusou, também foi preso.

Eu estou insatisfeito, sim. Exijo imediatamente a bendita bolsa-democracia!

CAOS poema de joão batista do lago

(dedicado ao poeta J.B. Vidal)


entre a tensão de mudanças e de origens
cobra-se a mudança da origem.
como mudar o caos da virgem?
nela não há céu, tampouco inferno;
não há terra, tampouco mar!
Ela é simplesmente caos:
abismo nebuloso que me faz vagar
como força misteriosa
moldada entre vazios diásporos.
e assim, filho do caos da virgem
vou-me originando em cada verbo
sem pressentir que em cada verso
pretendo transgredir a virgem
num poema feito de versos noviços
pensando rasgar o abismo
da virgem em palavra que me pariu poeta
poeta sem terra, nem céu!
poeta sem inferno, nem mar!

[…]

poeta do caos!

PARÁBOLAS E OXÍMOROS por walmor marcellino

MUITAS DISCREPÂNCIAS

O mesmo processo de aculturação por dependência econômica, cultural e ideológica se reflete como desculturação por perda da faculdade própria da política. A escola histórico-cultural (Herskovits, 1952) mostrava que não se trataria apenas de um “empréstimo dos modos de vida e seus fatores materiais” e sim de trocas, nem sempre perceptíveis por suas características essenciais. Todavia medidas fixamente sociométricas nunca puderam ser suficientemente usadas na mensuração do objeto de desejo ou das nuances dessas trocas, que mais nos parecem miméticas; e, ademais, elas não se dão apenas no alargamento das relações nacionais e de grupos sociais definidos, pois afetam a todos, porém especialmente às culturas subordinadas ou dominadas; havendo também maior ou menor interesse material e estético, ou para algum evidente proveito social.

Entretanto, o próprio dinamismo social provoca os indivíduos e os estimula a assimilação de práticas de imediata vantagem, que se vão acomodando como fossem aquisições aculturadas. Assim, não é de estranhar que a política seja um proveito e uma satisfação, além de ser um ideário mítico.

Esopo, Fedro e depois Iriarte como Samaniego percorreram o filão das fábulas. Os modernos, no entanto, lembram apenas La Fontaine por fazer com donaire a metagogia do agrado preceitual em suas evidências. Mas todos sabemos quão exemplares podem ser esses feitos que se entranham em nosso cotidiano de classe.

A sua vez, Jules de Levère afirmou que a fisiognomonia esforçou-se em ser uma caracteriologia, isto é, pela aparência, logo suposição, e nelas pela fábula, procurava discernir as condutas e suas motivações. Porém acabou por enredar-se na própria aparência das pessoas e dos bichos dos quais extraíam alguns traços. De qualquer modo, os preceitos morais, as parábolas, as fábulas e os oxímoros sintetizam contradições, conflitos de interesses e preâmbulos éticos, impondo-se na forma de pequenos enigmas à moralidade e à cidadania. Essas foram as conclusões de Norman Malaídes (Essays of Fortunes), que emprestamos para salvaguardar nossa inteligência sem decair nas imprecações.

ECOS DA BIBLIOTECA por jorge lescano

No fluxo de eventos que denominamos História, muitas foram as peripécias acontecidas em torno dA Biblioteca (do grego Byblos: casca de árvore sobre a qual se escrevia e Oykos: casa) e não poucos os textos a ela dedicados.

            A mais conhecida é, sem dúvidas, o célebre incêndio da igualmente célebre Biblioteca de Alexandria. Fundada por Ptolomeu I no interior do Museion, ou Palácio das Musas, albergava todas as obras da literatura grega, catalogadas por excelentes bibliotecários, entre os quais exerciam o famoso poeta Calímaco e o cronista bizantino Jota Perucho. Esta Biblioteca possuia um acervo de 700.000 rolos (rotoli).

            Meus fascículos da História Universal da Crítica informam que o incêndio foi provocado por hostes romanas quando da conquista da cidade. O que não esclarecem é o motivo.

            Eis aqui, de modo suscinto, a resenha do infausto caso, colhida por mão anônima em Os Sete Livros das Cinzas e do Vento, obra desconhecida deste articulista.

 

“Um soldado de J.C. (I) – abreviava os nomes, dava por pressupostos alguns detalhes, como se estivesse farto de repeti-los – teve uma troca de impropérios com um colega de armas por causa de um tira-me-lá-essa-palha filológica (um tópico de somenos, dir-se-ia). A questão foi preterida de comum acordo, até a chegada das tropas à famigerada cidade de Alexandria, onde os contendores pretendiam dirimir o atrito consultando os textos consagrados pela Tradição. Assim que penetraram no âmbito da polis, enveredaram céleres rumo ao local supracitado. Afoitos (não os culpo por isso), escalaram degraus de mármore entre colunas polidas não mais de tempo que de sapiência. Com passos incertos perambularam por claustros e corredores penumbrosos. Atravessaram ante-salas de tetos altíssimos e abobadados e se surpreenderam em recâmaras desertas e hexagonais. Sufocaram em cubículos tórridos e escuros. Extraviaram-se em galerias úmidas e frias, vagamente iluminadas por clarabóias elípticas e inalcançáveis. Nesse universo piranesiano e simétrico, em mais de uma ocasião  lhes pareceu  que retornavam ao ponto de partida. Torceram à destra e sinistra com tal assiduidade que não mais estavam aptos a repetir a divisa de Phillips Morris: Vini, Vidi, Vici, sequer onde se encontravam o norte ou o sul, no caso destes não terem sumido do mapa. Finalmente teriam encontrado,  na posição de Flor de Loto, o rosto voltado para um

 

previsível canto escuro, Aquele que procuravam, sem lhe conhecer a identidade. Jota, o bibliotecário do burgo, seria, se dermos crédito ao depoimento posterior de Vallet, que dizia que Mabillon dissera que Adso disse, um cidadão provecto, de voz acatarrada, e cuja pele apresentaria um aspecto apergaminhado (charta pergamen), em todo semelhante às folhas  de um volume de alfarrabista (a História Oficial não costuma fornecer pormenores. O depoimento precedente está resumido num opúsculo sobre uma imagineria cinemática de sucesso assinado por um tal Ueco, ou Vico), sua dicção era defeituosa, como já vos informei, pois o idoso, além de banguela era  estrangeiro (II). Apesar desta afirmação, arriscamos inferir, sem, contudo, cometer a temeridade de expor nossas mãos ao lume, que o colóquio deu-se em grego, pois este era o Hyngrêyz de antigamente. O que nunca conheceremos são os termos utilizados no mesmo. É fato que o ancião comunicou aos ilustres visitantes a realidade que qualificou de melancólica. A famosa Biblioteca, por um decreto das autoridades competentes – generoso, segundo uns, demagógico, na concepção de outros, imprevidente na opinião dos mais -, non era più, come un tempo, il privato possesso della casa regnante, ma una instituzione pubblica della provincia romana, segundo o cronista Luciano Canfora. Como é fácil coligir, oh, romanos!, os livros – se o termo não for prematuro – os livros emprestados, digo!, disse Jota franzindo o cenho -, nunca voltaram ao redil (III). O ponderado funcionário municipal pede desculpas e me penitencio, motu próprio, subtraindo-me à luz do sol (Febo), o que lhe afetou a visão, diga-se de passagem, e fez com que no início confundisse os legionários com o truculento Yu Tsun e um deplorável escocês vendedor de biblias, se não com acólitos do atroz doutor Goebbels. Ambos soldados, solidários na frustração e no repúdio à desonestidade dos pretensos leitores, entreolharam-se de esguelha. Como em outras ocasiões durante a campanha, decidiram aplicar, ipso facto, para evitar a reincidência previsível no crime inumerável (Não eram 700 mil volumes? Caluda!, bradou Jota fechando o sobrolho.) de criar um novo acervo, uma cláusula do Direito Romano muito em voga. Sem espaventos, os lingüistas, prontamente auxiliados pelos lictores, fizeram acúmulo de feixes (fascios) de pápyros (IV) e outros materiais combustíveis. Com eles circundaram o prédio. Após terem friccionado numa pedra (cálculo) a extremidade fosforosa de um engenhoso invento sueco,” (V).      

 

 (I) Trata-se de Jota César, Imperador até tu, Brutus?!, não do xará Jota Cristo, cuja Vida, Paixão e Morte, ainda deveriam esperar 47 anos, a contar do incêndio, para começar a ser escrita. Aliás, seus adeptos não deixaram por menos  e no ano 39 depois dEle, repetiram o feito carbonizando a Biblioteca de Serapion, vizinha da de Alexandria e assim denominada por estar adstrita ao Templo de Serapis, e que na ocasião contava  com aproximadamente 45 mil volumes. Apenas para lembrar mais uma façanha dos cristãos (não falaremos dos sacerdotes espanhóis, que pelo fogo livraram a humanidade dos diabólicos códices mexicanos, como já fizera um século antes Tlacaélel, o Asteca, para impor Huitzilopotchli como deus tutelar): no ano de 1204, os cruzados saquearam Constantinopla e depredaram sua Biblioteca, fundada por Constantino em 330 A.D. Desta ninguém sabe ao certo o número de volumes que continha. Os registros também entraram na Dança do Fogo, e ninguém  teve vontade, nem oportunidade, de contá-los em meio à fumaça e a costumeira desordem promovida pela chusma em tais efemérides. Diz-se que restaram sete livros, chamados das Cinzas e do Vento. Estes teriam se multiplicado, dando origem  a uma nova Biblioteca, hoje localizada em Kopan, na trevosa cidade de São Paulo – 700 mil volumes, 7 Livros das Cinzas e do Vento, Jota Cristo, Kopan, sede dos maias, São Paulo, hum, isto está me cheirando a gato por Coelho, que a Crítica Internacional me perdõe! (Nota do Compilador).

 

 (II) Assim que o Ghost-Wraiting terminar de redigi-la, esta editora lançará no Mercado Mundial a  versão integral de The Genuine Story of de Inominables Georgie. Não percam esta Big Promotion & concorra a uma Pink Bike! (Folder of de Gerent of Marketings  R  ).

 

    (III) Explica-se esta expressão se nos lembrarmos de que na Idade  Média havia primorosas encadernações em pele de cabra manufaturada (a pele, não a cabra). Ao mesmo tempo, este dado técnico dá a certeza de que o presente texto é bastante porterior ao fato que narra (Nota do Restaurador).

 

     (IV) Palavra grega de significado ignoto. Planta da família das ciperáceas, bastante rara atualmente,  com cujo caule os antigos egípcios fabricavam o papiro (Nota do Tradutor).

 

    (V) Aqui se interrompe o manuscrito. As conjecturas que a seu respeito  possa suscitar, fogem a nossa alçada. Sem embargo, vale a pena citar a opinião de um especialista: “Se é certo que o incêndio do Templo de Artemis conferiu imortalidade ao nome de Eróstrato, não é menos verdadeiro que o gesto deste bravo militar romano fez a fama da Biblioteca de Alexandria, que, pelo visto, de Biblioteca conservava apenas o nome (1). Também nos permite supor que os volumes teriam iniciado uma circulação não oficial, por assim dizer, cujo périplo poderia não ter se escoado ainda. Ao que nos consta, o mercenário permanece anônimo. Explica-se: segundo a praxe castrense, nos atos heroicos é o Chefão quem leva os loiros”. J.L. (Nota do Editor).

 

(1) As reforma com Design Pôs-Modern que ganhou faz pouco tempo, é uma jogada de   Marketing. Na Disneyworld por exemplo os fiorde da Norway estão em loco. Na França porém,  idem com o Asterix conquanto no Egito é as pirâmide ibidem, se bem que já está muito detonado, e os camêlo de uma corcunda infelizmente. A Alexantur não podia ficar de fora do Mercado Cult. A Holding está de Parabêns pelo New Look Light do Shopping de reciclâvel e as franquia (Mais dica no Durismos Book (2).  Recado do Estagiário).

 

(2) Durismo’s Book (CD-ROM, 3D, interativo) é uma bromoção bioneira da BaulufTur, cruzeiro Virtual destinado à bobulação de Cingapura e seus debendentes. Nossos adversários não ousam  admitir que a construção de Viadutos é a solução definitiva bara o broblema da habitação e do homossexualismo masculino, bor assim dizer, enfatizou o Bublic Relation do Titular, hoje aqui – Resumo de um Bress-Release do Bromotor do Candidato a Sultão dos Jardins de Calcutá (Gardens, bara os íntimos). (3)      

 

(3) “Livro”, “comunicado”, “escriba”, “porta-voz”, “testa-de-ferro” , “eminência parda”, são archaismes indesejáveis num script light. Hier, porém, localizam a textuality in your time. (Note of de Ombusdman of Hamburglish).

 

FOTOPOEMA de sören kierkegaard e rudi bodanese

RUDI poema&foto17

INVASÃO DO INTERIOR E MUITAS SAUDADES poema de tonicato miranda

vieram de longe

Cabrobó, Seridó

Erechim

Bauru, Bangu

Feira de Santana

Cajazeiras

Patos de Minas

do Araguaia

dos matos dentro

dos matos afora

do mato nenhum

ficaram aqui

secura só

secura de dar dó

pau de arara

2 dias

3 dias

10 dias

pau de arara

duas saudades

três saudades

mil saudades

quanta distância

     quanta querência

     Eh, trem triste

alojamentos

feijão com farinha

comida na latinha

feijão tropeiro

feijão com paçoca

feijoada carioca

rapadura

charque de primeira

tutu à mineira

babel de alimentos

babel de expressões

tudo Português

língua igual

língua que não se entende

língua diferente

língua lingual, uau, au, au

cachorro sem dono

cachorro perdido

cachorro perdido, não

cabra macho

homem valente

homem tenente

homem temente

     a Deus somente

     Eh, trem triste

concreto e fôrma

concreto e forma

concreto edifício

edifício de concreto

concreto reto

concreto curvo

concreto em cima

concreto embaixo

concreto nos dedos

concreto nos olhos

bonito de ver

anjos pendurados

alguns de concreto

     outros carne de irmão

a cidade se espalha

cidade de palha

cidade de sobra

cama de madeira

cama de esteira

rede rede rede rede

Cidade Livre

Vila Planalto

Invasão do IAPI

Um trem corria aqui

Bem Aqqquuuuuííííííííííí!!!

     Bem Aqqquuuuuííííííííííí!!!

     TUDO É CANDANGO

TODOS SÃO

TUDO É LOUCO

CANDANGO

CANDANGO

CANDANGO

     CUIDADO CALANGO!

     Rodoviária

     Caxambu, Cambuquira,

     Rio do Sul, Rio do Norte, Rio Araguaia

     gente que vai, gente que vem

     Interior de Goiás, Minas Gerais,

     Interior da Bahia, lembrança à titia!

     Rodoviária

Paracatu, Paraopeba, Goiás Velho,

Goiás de novo, São Paulo, Zum Paulo

gente que vai, gente que vem

Interior de tantos ais, saudades do filho, saudades da filha

     Imensa saudade, que quadrilha

     Rodoviária

de frente para duas calotas

lá no fim da Esplanada

um prato virado

um prato elevado

dentro deles os temporários

do sul, do norte

muito mais das capitais

do que dos interiores

não ficavam aqui

viajavam até aqui

geraram fama ruim

não eram daqui

nossa fama cresceu

não sobrou nem pequi

apenas as mangas

     que nos obrigaram a chupar

     muitos ficaram

ficaram no seco ar

ficaram com os lobos

com o lobo guará

e até para lá foram morar

     burocracia

esplanada grande

ministeriada

latas de ferro pra lá e pra cá

     Eixão Rodoviário

o interior de Brasília são suas satélites

que ficaram maiores que a capital

quem virá mais?

em 67 menos de 200 mil habitantes

     e um milhão de visitantes.

Saudades tenho

de Erechim, de Realeza

de Pau dos Ferros, de Juazeiro

da campanha nos matos

da luta na estiva de todo cais

saudades da caatinga, dos pampas

     do cerrado e das minas gerais

     Saudades

de todas os bodes e jegues

e dos bois de caras pretas e de todos os tons

dos bois malhados de caras marrons

do zebu e da andorinha na sua corcova

pastando lá longe onde a curva dobra

Saudades da Brasília que não foi-se embora

da nossa memória do tempo atrás

quando da cidade se lançava ao empréstimo sem mora

como base sideral o planalto era a grande plataforma

lançando foguetes ao rumo futuro

     o rumo que eu ainda procuro

 

 

 

 

 

Tonicato Miranda

     Brasília, Set/2008

BURROUGHS poema de joanna andrade

Você é imbatível!

Foge do ponto.

Ingredientes Variados, Comum, Medidas Erradas.

Un mise-en-scène!

Type -A -behavior personality!

Lo Specchio retrovisore di angolo cieco!

Meu lado “Burroughs”.

 

 

JA/2009

Um dia, não sei de que ano / poema de cleto de assis

Um dia, não sei ao certo de que ano,

passei o dorso de minha mão em um rosto ferido

e meu gesto foi recebido como um imenso ato de ternura.

Assim foram muitos dos outros dias seguintes

até que o dia se tornou noite,

a ternura transmutou-se

em atos de extrema rudeza, quase morte.

 

O dorso de minha mão, minha mão inteira

e meu espírito todo

receberam a capa do tempo e incontáveis calos e cicatrizes.

De quando em quando, o consolo de um sonho melífluo, mas fugaz,

a reproduzir a ternura e os sabores e os perfumes

da intensa alegria dos encontros furtivos

com direito a cantiga de roda.

 

            Nesta rua, nesta rua mora um anjo

            que não veio, que não veio iluminar

            a janela, a janela da esperança

            e impediu, e impediu o amor de amar.

 

Quem dissecará comigo as sensações pessoanas

e olhará o mar com a certeza de que, além do horizonte,

há milhões de outros horizontes mais belos?

Quem aceitará voar comigo no céu sem fim

e catar estrelas, uma a uma,

para montar um grandioso colar de esperanças?

Quem conseguirá fazer-me companhia

para deslizar na suavimensa curva do infinito?

 

            Tinha um anjo, tinha um anjo nessa casa

            que eu deixei, que eu deixei esvoaçar.

            Foi-se a casa, a ternura e mais o anjo

            Só restou uma história pra contar.

 

E no fim da história

uma ternura tão suave e imensa

como o dorso de minha mão antiga.

 

 

Curitiba/setembro/2008

LAMPEJO DE ADAGA poema de j. l. gaspar

Quando fiquei doentinho, bem assumido

abandonei o ponto de fuga, monologando:

“Ó meu Jesus! Relumbrei no que vou mesmando.”

Eu que nada tenho contra os deuses

e seus filhos extraviados .

Não sabia que fazer com meu duplo,

pois que um só já me enchia a pélvis

Desde então temo morrer quantas

mortes sejam necessárias até o fim da definitiva.

Entrementes, devemos evitar duplicações

tanto como terceirizações se não pudermos

mais estar presentes.


ARQUIVOS DA DITADURA (1964 A 1985) COMEÇARÃO A SER DISPONIBILIZADOS AO PÚBLICO – pela editoria

a ministra chefe da casa civil dilma rousseff anunciou a abertura dos arquivos pertencentes aos órgãos  de repressão (sni, dops, doi-codi, ani) referentes ao período da ditadura no país. já era tempo. dilma criou uma comissão para preparar a organização da disponibilização dos documentos e das publicações, na internet, para acesso público através de um endereço eletrônico. a ministra demonstra, com tal atitude, seu espírito democrático e corajoso diante das pressões contrarias dos militares, principalmente dos envolvidos diretamente nos assassinatos e torturas ocorridos durante aquela noite nacional. é, sem dúvida, uma iniciativa que deverá ilustrar as gerações sobre o que aconteceu no país quando os interesses econômicos e políticos são contrariados pelo seu povo que deseja outro destino que não seja o de permanecer na ignorância e na miséria. 

jb vidal

editor

publicamos abaixo algumas, leves, ilustrações dos arquivos:

“O SNI recrutava seus funcionários nos quadros do serviço público civil ou militar, e ainda podia contratar pessoal para realizar atividades de caráter temporário. Em 1972, foi criada a Escola Nacional de Informações (EsNI) que oferecia aos quadros do SNI e aos agentes de toda a comunidade de informações 25 tipos de estágio específicos para funcionários de nível médio e superior: analista, contra-espionagem, contra-informação, operações, análise da propaganda, segurança das comunicações, retrato falado etc.

A EsNI editava um periódico intitulado Coleção L, de circulação restrita, responsável por divulgar na comunidade de informações a doutrina brasileira de inteligência. Estima-se que a EsNI tenha formado cerca de dois mil agentes até sua extinção em 1990. Resumo de aula feito por professor da EsNI. Brasília, 1987. Serviço Nacional de Informações.

SNI AULA PARA AGENTES 1

SNI - AULA PARA AGENTES

 

 

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Livreto produzido pelo SNI intitulado Regulamento para salvaguarda de assuntos sigilosos (decreto nº 79.099, de 6 de janeiro de 1977)”, que relaciona as posturas a serem seguidas pelos agentes do SNI. Serviço Nacional de Informaçõe.

SNI DECÁLOGO DE SEGURANÇA

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Atentado a bomba à sucursal do jornal Em Tempo, realizado pelo Movimento Anticomunista (MAC) e Grupo Anticomunista. Belo Horizonte, 18 de agosto de 1978. Serviço Nacional de Informações.

SNI ATENTADO A BOMBA JORNAL EM TEMPO

 

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Cartaz de militantes de organizações de esquerda procurados pelos órgãos de segurança nacional. S. l., 1971. Serviço Nacional de Informações.

SNI - PROCURADOS

 

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a decisão do governo federal de tornar públicas informações relacionadas ao período da ditadura militar (1964-1985) não representa um “revanchismo’’ de ex-militantes contrários ao regime.”

o endereço:

http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=83&sid=41

EM DEZ MINUTOS poema de otto nul

Em um minuto

Abriu a janela

 

Em dois minutos

Que lhe pareceriam dois minutos?

 

Em três minutos

Fechou os olhos e refletiu

 

Em quatro minutos

Bocejou longamente

 

Em cinco minutos

Saiu à chuva

 

Em seis minutos

Estava num café em frente

 

Em sete minutos

Tudo lhe parecia enganoso

 

Em oito minutos

A loucura subiu-lhe à cabeça

 

Em nove minutos

Fez o sinal da Cruz

 

Em dez minutos

Sucumbiu à morte

 

         x x x

 

(maio/09 – Otto Nul)

POEMA DO MENINO DEUS de vera lúcia kalaari

ÊLE
ÊLE

Nasceste.
Chegaste num dia frio
De sol cadente.
Dormiras sobre estrelas
E trazias no cabelo
O ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro:
O peso assustador,
Esmagador,
Do mundo.
Trazes nos olhos
A pureza duma  açucena,
O brilhar de prantos
Que jamais choraste.
Nasceste.
Não vieste para reinar
Entre prata, ouro ou pedras.
Chegaste só
Com a neve que tombava
E a chuva que tamborilava
No telhado em ruina.
Agora, dormes num monte de feno quente
Cheirando a campo. Perto,tua mãe vela docemente,
Com o peso desse filho que é seu
E salvador do mundo.
Ninguém sabe que vieste.
Nasceste menino, Homem-Deus, para reinar.
Mas não ficaste.
Encontraste em cada esquina,
Um Judas p’ra te trair
Uma coroa d’espinhos p’ra te ferir,
E o peso de pecados a curvar-te,
A enterrar-se
Até ao fundo do teu coração.
Estás em tudo, Menino Deus…
Pena teres partido…
Não teres mantido teu reinado,
Tua humildade imensa de cordeiro
Entre os homens.
Porque entao, Menino Deus,
Esta não seria a terra
De rios entumescidos
De prantos e gemidos,
E nós não seríamos
Estes vermes rastejantes
De olhos suplicantes
Virados para Ti,
Numa ansia agónica de Te tocar
Sem termos forças 
Para Te alcançar.

DIÁLOGO POÉTICO VIRTUAL por marilda confortin

MARILDA & CORA

 

 – Não tenha medo do mar, não! Tormenta é renovação.

– Aé é? E o amor, há que temer?

– Ah… Esse eu não garanto. Tem sempre uma grande ressaca

e muito pranto. As vezes até mata.

– Não sei quando parar. Não delimito meus limites… não sei onde termina o mar e onde começa o céu.

– Ao léu, querida, ao léu….

– Espumas e nuvens me confundem.

– É que os horizontes se fundem.

– Pois é… Essa vida de alma fora do corpo faz a poesia achar pegadas onde não se pode mergulhar.

– Pois é…  nem todos os caminhos levam ao mar. Essa vida de veia exposta não mostra o tamanho da entrega.

– Mas vale a tinta da pena.

– Vale. Pena ela ser louca e breve feito horizonte tênue.

– É porque tua alma é maior que o peito.Vaza.

  1. – Pode ser… mas,  o fardo é pesado. Preciso manter os pés fincados no chão e as asas em constante ebulição.

– Talvez esse seja o preço dos que fazem diferença nessa existência.

– Talvez a gente sinta muito.

– Talvez a gente minta muito….

FRAGMENTAÇÃO DAS FLORESTAS por bento dias da costa neto

Com o desenvolvimento (desordenado e inconseqüente) humano vieram várias conseqüências para o meio e ambiente de uma forma geral, uma delas é a fragmentação das florestas. A fragmentação das florestas traz um inversão no lugar de termos grandes florestas temos várias florestas pequenas e com isso vêm as conseqüências. 
Para FLEURY(2003) “O processo de fragmentação florestal, além do isolamento e da redução de hábitat, produz um aumento do microhábitat de borda.” Isso significa dizer que o processo de fragmentação traz inúmeras conseqüências a fauna e a flora. A flora observamos as conseqüências com maior facilidade devido a extinção da mesma, já as conseqüências da fauna só é observada com uma análise critica e com um período de observação tendo em vista que o processo de extinção dos animais e a própria mutação do mesmo ocorrem no decorrer de um período e não de imediato como um desmatamento por exemplo.
A redução do habitat traz como conseqüência a falta de recursos alimentícios em uma quantidade que satisfaça a demanda, ou seja a quantidade de espécies que ainda estão no local – gerando com isso a redução ou até meso a extinção da espécie. Com relação as aves existe o problema que algumas se adaptam a toda uma floresta mas não conseguem se adaptar ao fragmento da mesma devido ao próprio espaço necessário ao seu desenvolvimento e a outras condições como o clima e a intervenção humana.
Diversidade biológica ” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica).

Os principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são:

  • ü Perda e fragmentação dos hábitats;
  • ü Introdução de espécies e doenças exóticas;
  • ü Exploração excessiva de espécies de plantas e animais;
  • ü Uso de híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de reflorestamento;
  • ü Contaminação do solo, água, e atmosfera por poluentes; e
  • ü Mudanças Climáticas.

Além dos motivos expostos, podemos acrescentar o empobrecimento genético como mais um causador da perda da biodiversidade nas florestas fragmentadas, devido ao isolamento das espécies elas passam a se inter-relacionarem gerando assim apenas um ciclo de reprodução.
Efeito de borda: 
“Bordas são áreas onde a intensidade dos fluxos biológicos entre as unidades de paisagem se modifica de forma abrupta, devido à mudança abiótica repentina das matrizes para os fragmentos e vice-versa” (Metzger 1999)
A estruturação da floresta é um importante aliado ou adversário das aves ou outras espécies, quanto mais estruturado for o fragmento mais proteção o mesmo dará as espécies, é importante também que o local seja circular e compactado para o seu interior resistir mais aos efeitos de borda. Já os fragmentos estreitos sofrem mais com o efeito de borda devido a falta de proteção ao seu interior. Mas existem espécies que se adaptam e vivem tranqüilamente nas bordas, da mesma forma que existem espécies que se isolam em fragmentos diferentes e devido as condições e os recursos diferentes aquela mesma espécie se transforma em duas espécies diferentes.
Algumas espécies aumentam sua densidade populacional em florestas fragmentadas, é o que denomina-se densidade compensatória. Uma das hipóteses levantadas para essa ocorrência é a diminuição da competitividade, tendo em vista que muitas espécies vão se extinguindo com o processo sendo assim diminuindo o número de predadores de outras. Outra hipótese é que em ambientes menores há- em alguns casos- a possibilidade de se explorar um gradiente maior de habitat’s do que em ambientes extensos( BLONDEL et al.1988). Para Anjos e Boçon (1999) as causas da densidade compensatória não estão claras mas elas podem ser diferentes de acordo com a auto-ecologia de cada espécie.
De uma forma geral é vista como negativa a fragmentação das florestas em relação a uma floresta completa. Devido as razões já expostas anteriormente, pode-se observar que os fragmentos não têm perspectivas a longo prazo sendo uma tendência o fim das espécies vivas contidas neles. Existe a possibilidade da criação de corredores que liguem os fragmentos próximos o que ainda gera bastante discussão por não se saber ao certo a eficiência dos mesmos. O certo é que os fragmentos tem suas vantagens por serem espaços verdes que servem de abrigo para muitas espécies, mas o ideal é a manutenção das grandes florestas e a recuperação de muitas outras, tendo em vista que no estado em que estamos não adianta apenas manter temos também que recuperar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLEURY, Marina. Efeito da fragmentação florestal na predação de sementes da palmeira jerivá (Syagrus romanzoffiana) em florestas semidecíduas do estado de São Paulo. 2003

METZGER, J.P.. Estrutura da paisagem e fragmentação: análise bibliográfica. Anais da Academia Brasileira de Ciências 71:445-463. 1999

BLONDEL, J. et al.. Birds impoverishment, niche expansion, and density inflation in mediterranean island habitats. Ecology, Washington, D.C., v. 69, p. 1899-1917,
1988.

ANJOS, L. dos; BOÇON, R. Bird communities in natural forest patches in southern Brazil. Wilson Bull., Lawrence, v. 111, n. 3, p. 397-414, 1999.

MARILDA CONFORTIN, a poeta, CONVIDA

Nesta sexta-feira, 15 de maio de 2009 depois das 19 horas, esqueça a casa e o trabalho e venha dar o seu grito de liberdade no bar “Do mato”      http://www.domato.com.br/

          Entre músicos, poetas, contadores de histórias e causos, estaremos celebrando (bebericando) nossa Lei Áurea Inconfidente: Prazer, Poesia e Liberdade.

          Em anexo, estamos enviando  o convite, endereço e a bandeira de nossa causa mui justa.

          Sua presença será comemorada com um Grito.

         Pre-requisito: Cantar nosso samba- manifesto, etnicamente correto: o samba do afro-descendente doido:

 

                     Samba do Afro-descendente doido

                          (Samba do Crioulo Doido)

                            

                             Composição: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

               Foi em Diamantina
               Onde nasceu JK
               Que a Princesa Leopoldina
               Arresolveu se casá
               Mas Chica da Silva
               Tinha outros pretendentes
               E obrigou a princesa
               A se casar com Tiradentes

               Lá iá lá iá lá ia
               O bode que deu vou te contar
               Lá iá lá iá lá iá
               O bode que deu vou te contar

              Joaquim José
              Que também é
              Da Silva Xavier
              Queria ser dono do mundo
              E se elegeu Pedro II
              Das estradas de Minas
              Seguiu pra São Paulo
              E falou com Anchieta
              O vigário dos índios
              Aliou-se a Dom Pedro
              E acabou com a falseta

              Da união deles dois
              Ficou resolvida a questão
              E foi proclamada a escravidão
              E foi proclamada a escravidão
              Assim se conta essa história
              Que é dos dois a maior glória
              Da. Leopoldina virou trem
              E D. Pedro é uma estação também

             O, ô , ô, ô, ô, ô
             O trem tá atrasado ou já passou

 

CONVITE DO MATO jpg

HAICAI de edu hoffmann

(da série haicai mas levanta)

 

 

 

 

 

          ah minha vizinha

 

 como é bom ouvir um blusão

 

        tirando sua blusinha

 

=

 

 

                                 simplicidade havia

 

                               bastava um cotonet

 

                              pra se ouvir a cotovia

 

 

 

           estudo para sol maior

 

 

 

 

 

                       um frio de dar dó

 

                 você lá, longe, meu violão

 

                    quando nosso sol  ?

SONHO poema de melinda gutierrez santiago

 

 

Telescópio imaculado,

Meu pensamento profundo,

Como num sonho encantado

Transporta-me a outro mundo.

 

Nasço de um mar transparente                     

Entre dragões de marfim

Em meio a estrelas cadentes

Com anjos e querubins.

 

Um fogo de verdes claros

Aquece meu ninho alvo.

Caminho por entre flores.

 

Tem na testa uma esmeralda

Com o brilho da esperança

Protege-me e acalma

Como se eu fosse criança.

OTTO RENÉ CASTILLO, o poeta revolucionário – por manoel de andrade


O sonho e o martírio de um poeta

Em meados de 1969, um exilado político guatemalteco me contou, em Santiago do Chile, a incrível história de um poeta queimado vivo em seu país. Em fins de 1970, quando de minha passagem pela Nicarágua, alguns intelectuais de esquerda e militantes sandinistas também

o poeta Otto René Castillo

o poeta Otto René Castillo

comentaram sobre o poeta-guerrilheiro Otto René Castillo, supliciado até a morte pela ditadura da Guatemala, em 1967.  Mas foi com os relatos dos poetas salvadorenhos que passei a construir a imagem heroica desse grande revolucionário.

A geração comprometida

Cheguei em San Salvador em janeiro de 1971 e, pelas referências que levava, de pronto fiz contato com alguns poetas salvadorenhos. A poesia borbulhava na Capital e uma jovem geração de excelentes poetas comandava a vida intelectual do país. Conheci alguns deles, e partilhei bons momentos de literatura, política e debate ideológico com Manlio Argueta,  José Roberto Cea,  Roberto Armijo, o veterano Tirso Canales e, o mais jovem deles, Alfonso Quijada Urias.  Todos, na época, na média dos 30 anos e quase todos, com várias premiações em diversos certames literários centro-americanos. Esses poetas, — integrantes de um grupo de brilhantes poetas, que ficou conhecido como a “Geração Comprometida”— alistaram seus versos nas trincheiras das lutas sociais e muitos deles foram perseguidos, encarcerados, torturados e exilados por empunhar a bandeira de um dos povos mais oprimidos e massacrados da América. Guardo há quarenta anos as palavras fraternas que Tirso Canales escreveu ao me presentear a coletânea poética De aqui em adelante, onde partilha suas 200 páginas com Argueta, Armijo, Cea e Quijada Urias.  Foram ele e Manlio Argueta que me falaram da solidária relação ideológica e literária que os ligou a Otto René Castillo em San Salvador, onde chegou exilado, em 1954, após o golpe do coronel Carlos Castillo Armas contra o governo democrático de Jacobo Arbenz, na Guatemala.

1º Exílio: El Salvador

Filho de uma família de classe média, Otto René Castillo nasceu em 1936 em Quetzaltenango, a segunda cidade do país. Sua precoce militância estudantil e revolucionária o obriga, com apenas 18 anos, a fugir da Guatemala e asilar-se em El Salvador, onde sobrevive trabalhando como vigia, pintor de parede e vendedor de livros. Apesar das dificuldades, ingressa na Universidade e entra numa fecunda fase de organização política e produção poética, despertando a atenção dos círculos de cultura salvadorenha ao ganhar, com apenas 19 anos, o Prêmio Centro-Americano de Poesia o qual lhe abre as portas da imprensa para a publicação de seus poemas. Sua poesia dessa época traz a marca de uma profunda nostalgia da pátria, cantando a dor de seu povo oprimido e a condição em que sobreviviam as comunidades indígenas, secularmente exploradas pelas oligarquias agrárias e as grandes empresas bananeiras norte-americanas. Seus poemas a Atanásio Tzul cantam a saga histórica desse grande líder indígena contra o colonialismo espanhol na região.  Apesar da sua juventude, revela-se um intelectual influente, enfatizando a necessidade de engajamento da arte e da literatura com as circunstâncias político-sociais por que passava o cenário centro-americano da época, governado pelos títeres do imperialismo norte-americano como os Somosas, Duvaliers, Trujillos etc. Com esse espírito, desfralda a bandeira da poesia com as cores das lutas sociais, seguindo os sulcos das primeiras trincheiras poéticas abertas no Continente, por César Vallejo, Miguel Hernandez, Nicolas Guillén e Pablo Neruda.

Seus três anos de exílio em El Salvador foram assinalados por uma intensa atividade política e literária. Nesse período, por várias vezes cruzou clandestinamente as fronteiras da pátria para manter-se informado dos planos revolucionários, cujas sementes de justiça social e liberdade germinariam alguns anos depois, nos embates da longa Guerra Civil, que por 36 anos mergulharia o país nas águas sangrentas de um imenso massacre social.  Com uma marcante personalidade, aberto, envolvente e apaixonado pela vida, sua figura humana deixou um rastro indelével entre a juventude salvadorenha da época, onde fundou, em 1956, com Manlio Argueta, Roberto Armijo e o lendário poeta-guerrilheiro Roque Dalton, seu íntimo amigo, o Círculo Literário Universitário. Esse grupo tinha como lema a frase “No hay estética sin ética” e contava, segundo Argueta, entre seus conselheiros, com Miguel Angel Astúrias, na época embaixador da Guatemala em El Salvador,  cuja obra, galardoada com o Nobel de Literatura em 1967, circulava naqueles anos, combinando a grandeza da cultura maia com o protesto e a denúncia das atrocidades cometidas pelo ditador guatemalteco Manuel Estrada Carrera.

Alemanha: Estudos de Letras e Cinema

Com o assassinato do ditador Castillo Armas em 1957, Otto regressa no ano seguinte à Guatemala, onde inicia o curso de Direito na Universidade de São Carlos, que o distingue com o prêmio “Filadelfo Salazar” de melhor estudante, recebendo uma bolsa para estudar na República Democrática Alemã. Dois anos depois, inicia seus estudos de Letras em Leipzig, mas em 1962 interrompe a vida acadêmica para estudar cinema na Brigada Joris Ivens – cineasta holandês que comanda um grupo de filmagens para divulgar as lutas de liberação latino-americana.[1]

Na época, era grande o interesse dos jovens intelectuais europeus em testemunhar e documentar um fenômeno histórico com tanta riqueza social e política como o que estava acontecendo na América Latina. Encontrei muitos deles ao longo dos caminhos da América e, dentre tantos, recordo minha bela amizade, em La Paz, com o cineasta italiano Franco Lazaretti, da RAI – Rádio e Televisão Italiana, quando filmava, em maio de 1970, um documentário sobre o indígena boliviano.[2]

A América revolucionária na década de 60

Na década de 60, ao longo das Américas, as vanguardas revolucionárias começaram a cavar as primeiras trincheiras de luta herdadas da Revolução Cubana que ao sul foram abertas pelos tupamaros uruguaios e  atravessaram a Cordilheira para unir comunistas e socialistas nos quadros chilenos do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária). Subindo o Continente pela floresta boliviana, onde, em 1967, transitava a coluna de Che Guevara, essas trincheiras, quatro anos antes, já haviam cortado o Peru pelo vale do Cuzco, onde a guerrilha trotskista do agrônomo Hugo Blanco — e onde morreu, aos 21 anos, o grande poeta Javier Heraud  —  levantava  a bandeira dos camponeses secularmente oprimidos pelos grandes latifúndios. Foi também essa bandeira que motivou o padre colombiano Camilo Torres a trocar a batina pelo fuzil e levou Douglas Bravo a tantas façanhas nos estados venezuelanos de Falcón e Mérida. Com esse mesmo grito de combate em 1967, os sandinistas declararam guerra aberta ao somozismo, na Nicarágua, e seus ecos continentais eram ouvidos além das fronteiras da Guatemala, ressoando até a guerrilha de Genaro Vasquez, no estado mexicano de Guerrero.

2º Exílio: Europa e missão cultural internacional

Atraído por esse contagiante espírito de luta continental, Otto René Castilho, ao terminar seus estudos na Alemanha, regressa em 1964 a seu país, reiniciando sua apaixonada militância política e cultural ao partilhar as atividades clandestinas da luta armada com a direção do Teatro Municipal da Cidade de Guatemala. Contudo, no ano seguinte, quando se preparava para filmar, nas montanhas, as atividades guerrilheiras das Forças Armadas Rebeldes (FAR), é preso e novamente enviado para o exílio. Pela sua capacidade e coerência ideológica, as organizações revolucionárias da Guatemala o nomeiam representante do país no Comitê Organizador do Festival Mundial da Juventude a realizar-se na Argélia e, com essa missão, percorre a Alemanha, Áustria, Hungria, Chipre, Argélia e Cuba, onde se detém por alguns meses a fim de vivenciar toda a rica experiência social e política com que a Revolução Cubana instalava o socialismo no país.

O retorno – o problema agrário – a Guerra Civil

Em 1966, ao se iniciar a Guerra Civil, Otto René Castillo retorna clandestinamente à Guatemala para integrar-se na luta patriótica contra a oligarquia agrária e a cobiça estrangeira instalada em seu país. Identificado com o passado glorioso de seu povo  — cuja feição cultural fora despedaçada pelo colonialismo espanhol e humilhada pela sociedade  criolla — seu sonho era ver uma Guatemala livre do domínio interno e externo e a maioria indígena integrada às suas raízes e à cidadania nacional. Mas encontra a soberania da pátria hipotecada pelos interesses comerciais das grandes companhias norte-americanas.

Quando passei pela Guatemala em janeiro de 1971, qualquer análise que se fizesse sobre os conflitos sociais que assoberbavam a região levava diretamente ao problema agrário, e nesse “território”, o trust bananeiro United Fruit, era visto como um estado dentro do estado. Enquanto 266.000 pequenas propriedades cultivavam tão somente 9% da área agrícola do país, mais de 40% da superfície agrária era ocupada pelos latifúndios de apenas 158 grandes proprietários e, neste contexto, o império territorial da United Fruit Company ocupava 25% de toda a terra produtiva da nação.[3] Esses dados, por si só, falam com eloquência das causas que levaram o país a uma Guerra Civil tão cruel. A repressão política interna e o domínio econômico externo eram as faces de uma mesma moeda com que se pagava a extrema miséria do povo. Foi esse poder “invisível” que derrubou o governo de Jacobo Arbenz em 1954.  Com o apoio da oligarquia agrária, a expedição mercenária de Castillo Armas planejada pela Companhia United Fruit, a CIA e o Secretário de Estado americano John Foster Dulles, – que, anos antes, fora um dos advogados da Companhia – não tinha outro objetivo militar senão impedir que Arbenz fizesse a reforma agrária como se propunha. Como se sabe, a Guerra Civil que daí surgiu foi um conflito longo e sangrento que se arrastou de 1960 a 1996, quando os governos militares e os movimentos guerrilheiros se envolveram numa luta onde os mortos e desaparecidos somaram cerca de 300 mil pessoas.

O engajamento revolucionário

Assim, ao chegar à Guatemala em 1966, Otto René Castillo retoma a bandeira pela dignidade do seu povo. De uma pátria onde 90% da população não tinha terra para  semear sua própria sobrevivência. Uma pátria de excluídos, socialmente abandonados à própria sorte e onde 70% de seus irmãos não aprendera a ler. Ele sabia que sem a guerra ninguém iria repartir a terra e é nesse impasse na história de seu povo que  incorpora-se às Forças Armadas Rebeldes (FAR) comandadas por César Montes, ocupando-se do setor de Propaganda e Educação da Frente Edgar Ibarra. Cerca de um ano depois, em março de 1967, quando parte da Frente deslocava-se pelo relevo selvagem, no leste montanhoso do país, confrontou-se com inimigos fortemente armados e, nesse combate, caiu Otto René Castillo e sua companheira, a guerrilheira Nora Páiz. O enfrentamento se deu em Sierra de las Minas, entre a coluna guerrilheira e as tropas mercenárias do governo de Julio César Méndez Montenegro. Conta-se que, nesse embate, somente teria sobrevivido Pablo Monsanto que, cerca de 40 anos depois, disputou, pelas forças de esquerda, a presidência do país.

O suplício e a morte

Otto René Castillo foi levado para uma base militar na cidade de Zacapa e ali barbaramente torturado e mutilado. Como manteve heroicamente o silêncio sem entregar qualquer informação sobre os quadros da organização, um capitão do exército, enquanto recitava debochadamente os versos do seu poema Vámonos pátria a caminar, ia cortando seu rosto com uma lâmina de barbear. Diante de seu silêncio, passaram a queimá-los vivos – o poeta e Nora, seu amor – entre os dias 19 a 23 de março, martirizados num lento suplício, inenarrável na expressão humana. O poeta e ensaísta salvadorenho Roque Dalton descreveu com as seguintes palavras os últimos momentos de seu camarada: “Seus próprios verdugos testemunharam sua coerência e sua coragem ante o inimigo, à tortura e à morte: morreu como um inquebrantável lutador revolucionário, sem ceder um milímetro no interrogatório, reafirmando seus princípios embasados no marxismo-leninismo, em seu fervente patriotismo guatemalteco e internacional, em seu convencimento de estar seguindo – por sobre todos os riscos e derrotas temporais – o único caminho verdadeiramente libertário para nossos povos, o caminho da luta armada popular.”

O poeta

Assim, aos 31 anos, foi silenciada uma das mais belas vozes da poesia latino-americana, muito antes que seu potencial poético pudesse amadurecer ainda mais seu lirismo e seu imenso compromisso político com a história de sua amada Guatemala. Um sonho libertário, regado com o rocio da esperança, comandou sua curta existência. Vivia somente para esse sonho. Guardado como um tesouro no sacrário da alma, sua força misteriosa inundou seus versos com o amor pela pátria e por seu povo:

Pequeña patria mía, dulce tormenta,

un litoral de amor elevan mis pupilas

y la garganta se me llena de silvestre alegría

cuando digo patria, obrero, golondrina.

Es que tengo mil años de amanecer agonizando

y acostarme cadáver sobre tu nombre inmenso,

flotante sobre todos los alientos libertarios,

Guatemala, diciendo patria mía, pequeña campesina.

(…)Pequeña patria, dulce tormenta mía,

canto ubicado en mi garganta

desde los siglos del maíz rebelde:

tengo mil años de llevar tu nombre

como un pequeño corazón futuro

cuyas alas comienzan a abrirse a la mañana.(…)

Distante de tu rostro (fragmento)[4]

Sua obra poética é reconhecida e celebrada em seu país e se projeta atualmente para o exterior.  No ano de 1964 publicou o livro Tecún Umán. Seu grande poema Vámonos Pátria a caminar, deu título, em 1965, a uma coletânea de poemas, muitos deles escritos na prisão, e que em 1968 foram editados no México, com prólogo de seu antigo comandante César Montes. Alguns catálogos editoriais apresentam o poemário Informe de uma injusticia, publicado em 1975 e que dá título a um dos poemas publicados no livro Vámonos Pátria a caminar.  Depois de sua morte, um familiar seu, residente na Alemanha, encaminhou a Roque Dalton uma grande quantidade de poemas escritos nos anos que precederam sua morte.

Além dos vários prêmios recebidos em concursos centro-americanos, sua poesia recebeu em 1957 o prêmio Internacional de Poesia de Budapeste; em 1958 lhe outorgaram o prêmio Filadelfo Salazar, da Universidade de São Carlos da Guatemala e posteriormente uma antologia de sua obra, chamada Poemas, recebe o importante prêmio Casa de las Américas, em Havana. Seus versos bebem, com o sabor das metáforas, a seiva das raízes culturais do seu povo, indígena e explorado. Canta para não deixá-lo morrer; canta para que seu nome se enrede no mar e nas estrelas e sobreviva palpitante no seu grito.

(…)Para que nadie diga: ¡tierra mía!,

con toda la decisión de la nostalgia:

canto.

Por lo que no debe morir, tu pueblo:

canto

Me lanzo a caminar sobre mi voz para decirte:

tú, interrogación de frutas y mariposas silvestres,

no perderás el paso en los andamios de mi grito,

porque hay un maya alfarero en tu corazón,

que bajo el mar, adentro de la estrella,

humeando en las raíces, palpitando mundo,

enreda tu nombre en mis palabras (…)

Nuestra voz (fragmento)[5]

Toda a sua poesia é, por vezes, um radical ato de denúncia, como no poema “O Túmulo de Deus”, onde ele canta a sorte desigual das criaturas e a ironia com que a justiça humana julga o oprimido e o opressor.  Mas sua poesia é também um comovente gesto de amor pela vida. Cantam o amor, mas o amor sublimado por um sonho libertário, o amor despojado pelo engajamento.  O amor pela mulher amada que se desfralda empunhando com ela a mesma bandeira da justiça e da liberdade.

(…)Pero a tí te quiero.

No por bella que eres.

Ni por lo fluvial de tus ojos,

cuando ven que voy y vengo,

buscando, como un ciego, el color

que se me ha perdido en la memoria.

Ni por lo salvaje de tu cuerpo indomable.

Ni por la rosa de fuego, que se entrega

cuando la levanto del fondo de la sangre

con las manos jardineras de mis besos.

A tí te quiero, porque eres la mía.

La compañera que la vida me dió,

para ir luchando por el mundo.(…)

Respuesta (fragmento)[6]

Em meados de 1971, num encontro com o escritor equatoriano Miguel Donoso Pareja, na Cidade do México, onde se exilara desde 1964, recebi um exemplar de seu último livro, “Poesia Rebelde de América”, um adensado volume de 400 páginas, lançado naqueles dias na capital mexicana.[7] Ao longo do índice, 24 paises do Continente perfilavam-se, alfabeticamente, nos cantos de mais de uma centena de poetas. Ali estava o Brasil, honrado com os versos de Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Vinícius de Moraes, Thiago de Mello, Affonso Romano de Sant’Anna, Ferreira Gullar, entre outros. Nesse elenco de tantos nomes, alguns dos quais eu conhecera ao longo dos caminhos da América, três grandes poetas representavam a heroica Guatemala: Otto-Raúl Gonzalez, Marco António Flores e Otto René Castillo. Que surpresa! Apesar da sua juventude e dos quatro anos de sua morte a poesia de René Castillo já cruzava as fronteiras da pátria  para alinhar-se a dos maiores poetas da América. Donoso escolhera o poema “Viudo del mundo”, escrito por Otto ante a patética certeza de sua morte iminente  e por declinar, em cada verso, sua inalterável coragem e a imensa esperança com que lhe “hubiera gustado llegar hasta el final”:

Compañeros mios

yo cumplo mi papel

luchando

con lo mejor que tengo.

Que lástima que tuviera
vida tan pequeña,
para tragedia tan grande
y para tanto trabajo.

No me apena dejaros.

Con vosotros queda mi esperanza.

Sabeis,

me hubiera gustado

llegar hasta el final

de todos estos ajetreos

con vosotros,

en médio de júbilo

tan alto. Lo imagino

y no quisiera marcharme.
Pero lo sé, oscuramente
me lo dice la sangre
con su tímida voz,
que muy pronto
quedaré viudo del mundo.

Viudo del mundo [8]

O Herói nacional

Sua saga como combatente e a entrega de sua vida como aval de um postulado teórico, fizeram deste grande poeta um herói nacional. Seu nome hoje é uma referência histórica na Guatemala, quer pela beleza de sua poesia, quer pela imagem do seu comprometimento político aureolado com a coroa do martírio. E foi pelo mistério da poesia que ele, de certa forma, predisse o seu próprio destino:

Vámonos patria a caminar, yo te acompaño

Yo bajare los abismos que me digas.

Yo beberé tus cálices amargos.

Yo me quedare ciego para que tengas ojos.

Yo me quedare sin voz para que tú cantes.

Yo he de morir para que tú no mueras,

para que emerja tu rostro flameando al horizonte

de cada flor que nazca de mis huesos.(…)

(fragmento) [9]

Este seu poema, Vámonos patria a caminar,  é hoje uma legenda na memória do povo guatemalteco. Conta-se que, durante os horrores da Guerra Civil, seus versos iluminados pelo sonho libertário foram como um farol naquela imensa noite de tempestade e que era cantado pelo povo como hino de luta contra a opressão das ditaduras militares.[10]

Sua bravura como combatente, foi reconhecida já na década de 80, quando o Exército Revolucionário dos Pobres, – organização guerrilheira surgida na década de 70 como uma dissidência das FAR – dirigido pelo Comandante Rolando Morán  e que, na época, contava com cerca de 250.000 combatentes, deu a uma de suas frentes guerrilheiras urbanas o nome de Otto René Castillo, a par de outros nomes como Che Guevara, Sandino e Ho Chi Mihn.

Tributo do autor

Em outubro de 1969 escrevi em Cochabamba um longo poema chamado “O sonho do semeador” onde tributo, em meu livro Poemas para a Liberdade, uma solidária homenagem a este grande poeta:

Poetas da América…

nós que herdamos a canção continental de Whitman,

e o homem sincero nos versos  de Martí.

(…)Nós que escutamos ainda próximo

o eco colombiano de Gaitán,

e a sinfonia altiplânica  no verso maior de Vallejo.

Nós que hoje cantamos com Guillén, com Neruda e Benedetti

e que daqui evocamos a Otto René Castilho,

poeta e combatente,

martirizado na fogueira acesa por Méndez Montenegro.

Salve hermano, memória heróica na massacrada Guatemala,

eu te saúdo hasta siempre com o lirismo dos meus versos

e digo  contigo: Vámonos, todos con la  patria a caminar.(…)

(fragmento)

Otto René Castillo e Che Guevara: Juntos???

Finalmente vale a pena fazer aqui uma curiosa conjetura. Em 1954 o médico argentino Ernesto Guevara de la Serna estava na Capital da Guatemala participando do governo revolucionário de Arbenz, no Instituto Nacional de Reforma Agrária. Naquele ano, ele e o Comandante guerrilheiro Rolando Morán fizeram uma amizade que duraria até a morte do “Che” na Bolívia. Sabemos que, neste mesmo período, Otto René Castillo também transitava na Cidade de Guatemala como militante do Partido Guatemalteco do Trabalho (nome do Partido Comunista) e que, em 1953, um ano antes do golpe contra Arbenz, participava ativamente da vida estudantil na Capital do país. Naquele ano, foi nomeado presidente da Associação dos Estudantes Secundários. Em face das afinidades ideológicas, já que tanto Ernesto como Otto tiveram que deixar o país depois do golpe, perguntamos se, naquela época, ambos defensores do governo revolucionário de Arbenz, não tenham  partilhado algum relacionamento pessoal, ainda que Otto tivesse 18 anos e Ernesto 26.  Quem sabe os futuros biógrafos do poeta possam levantar esta mesma hipótese.

O que, com certeza, se pode afirmar é que o golpe militar contra o governo democrático de Arbenz deixou em ambos uma mesma opção, expressa na militância armada que marcaria o resto de suas vidas até que fossem assassinados no ano de 1967: a convicção  de que as transformações revolucionárias nas estruturais sociais dos países latino-americanos   não seriam possíveis pelas vias pacíficas.[11]

____________________________________________________________

Notas, referências e traduções:

1. Era uma honra para poucos fazer parte das Brigadas de Joris Ivens, naquela época já celebrizado por uma série de filmes e documentários, considerados verdadeiras obras primas do cinema. Uma delas, o clássico “Terra de Espanha”, foi rodado em 1937  – escrito e narrado por Ernest Hemingway e  com o apoio de grandes intelectuais de esquerda, como John dos Passos e  Luis Buñuel – para financiar as Brigadas Internacionais, formadas, sobretudo, por voluntários franceses, alemães e norte-americanos, que lutavam contra o franquismo na Guerra Civil Espanhola. Comunista sem partido e considerado um dos mais importantes documentaristas da história do cinema, Joris Ivens sempre direcionou sua câmera para valorizar a condição humana, a importância da Natureza e, sobretudo, o significado das lutas sociais contra a opressão e as injustiças.

2. Nesse sentido, o exemplo mais marcante foi deixado pelo filósofo e jornalista francês Regis Debray  – pai da teoria do foco guerrilheiro –, que ainda muito jovem conheceu, no início dos anos sessenta, a guerrilha venezuelana de Douglas Bravo, acompanhou o processo de instauração da Revolução Cubana e se tornou amigo de Fidel Castro e de Che Guevara, com quem esteve em Nancahuazú em 1967 e, ao sair, foi preso, “julgado” e condenado à prisão na cidade boliviana de Camiri, onde o autor deste texto tentou entrevistá-lo em abril de 1970.

3. Enrique Ruiz García, América Latina Hoy, Ediciones Guadarrama, Madrid, 1971

4. A tradução deste e dos demais fragmentos poéticos foi feita pelo autor do texto.

Pequena pátria minha, doce tormenta, / um litoral de amor elevam minhas pupilas/ e a garganta me enche de silvestre alegria/ quando digo pátria, operário, andorinha. /  É que tenho mil anos de amanhecer agonizando / e adormeço como um cadáver sobre teu corpo imenso, / flutuando sobre todos os alentos libertários, / Guatemala, dizendo pátria minha, pequena camponesa. / (…) Pequena pátria, doce tormenta minha, / canto situado em minha garganta/ desde os séculos do milho rebelde: / tenho mil anos em carregar teu nome / como um pequeno coração futuro / cujas asas começam a abrir-se ao amanhecer.

5. Para que ninguém diga: terra minha!, / com toda a força da saudade:/ canto. / Por que não deve morrer, teu povo: / canto / Lanço-me a caminhar sobre minha voz para dizer-te: / tu, interrogação de frutas e mariposas silvestres, / não perderás o passo nos andaimes do meu grito, / porque existe um oleiro maia no teu coração, / que sob o mar e no seio das estrelas,  / fumegando nas raízes, palpitando pelo mundo, / enreda teu nome em minhas palavras.

6. Mas a ti eu quero. / Não por bela que és. / Nem pelo fluvial dos teus olhos, / quando vêem que vou e venho, / buscando, como um cego, a cor / que se tenha perdido na memória. / Nem por teu corpo selvagem e indomável. / Nem pela rosa de fogo, que se entrega / quando a levanto do fundo do seu sangue / com as mãos jardineiras dos meus beijos. / A ti eu quero, porque és a minha/ A companheira que a vida me deu, /para ir lutando pelo mundo.

7. Miguel Donoso Pareja, Poesia Rebelde de América, Editorial Extemponáneos, México, 1971

8. Companheiros/ cumpro meu papel/ lutando/ com o melhor que tenho./ Que lástima eu ter/ uma vida tão pequena,/ para tragédia tão grande/ e para tanto trabalho. Não sinto pena em deixá-los./ Com vocês fica minha esperança./ Sabeis,/ me houvera gostado/ chegar até o final/ de todos estes encontros/ com vocês/ em meio a júbilo/ tão alto. Eu o imagino/ e não quisera partir./ Mas eu sei, sombriamente/ me revela o sangue/ com sua tímida voz,/ que em breve/ ficarei viúvo do mundo.

9. Vamos pátria a caminhar, eu te acompanho / Eu descerei aos abismos que me digas. /Eu beberei teus cálices amargos./ Eu ficarei cego para que tenhas olhos./ Ficarei sem voz para que tu cantes. / Hei de morrer para que tu não morras, / para que surja teu rosto flamejante no horizonte / de cada flor que nasça dos meus ossos.

10. Talvez algo semelhante ao significado de protesto e símbolo de luta que teve, aqui no Brasil, a canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré.

11.Enrique Ruiz García, op.cit.

BOLO DE BATATA conto de guilherme cantidio

Bolo de Batata
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
Guilherme Cantidio – AGOSTO/2008
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
 AGOSTO/2008

MÁRIO QUINTANA EM CASA – editoria


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

mário quintana em frente da sua residência na rua demétrio ribeiro em Porto Alegre. na esquina da mesma rua residia o jovem poeta jb vidal. calçadas onde tiveram vários encontros sob o sol dos invernos.   e

mário quintana em frente da sua residência na rua demétrio ribeiro em Porto Alegre. na esquina da mesma rua e na mesma época residia o jovem poeta jb vidal. calçadas onde tiveram vários encontros sob o sol dos invernos.

LEITURAS DAS VERSÕES PORTUGUESAS DUM POEMA DE LI SHANGYIN por yao feng

Han Yu, poeta e prosador da dinastia Tang diz: “O mais perfeito dos sons humanos é a palavra. A poesia é a forma mais perfeita da palavra”. A poesia é uma arte alquímica que não só se limita à mera função designativa, como também se empenha em atribuir à palavra ritmo, rima, figuração, ambiguidade, semântica, silêncio, vazio etc. Estes aspectos específicos, muitas vezes são impossíveis de transportar automaticamente de uma língua para outra, uma vez que “qualquer domínio cultural, qualquer cultura-língua, tem a sua historicidade, sem contemporalidade (total) com as outras”1. Daí que o tradutor de poesia está confrontado com um permanente quebra-cabeça. Por um lado, se o tradutor insiste em manter as particularidades do poema original, arrisca fazer com que a tradução seja distorcida; por outro, caso o tradutor se desligue dessas particularidades, limitando-se à transposição do sentido, poderá banalizar o efeito poético do poema original. Eis uma dificuldade que se coloca ao tradutor, mas constitui, ao mesmo tempo, o encanto que o leva a descobrir as potencialidades da sua língua na enunciação do poema original em sua própria voz.
A tradução é um produto feito pelo tradutor de acordo com a sua leitura e com o meio que considera mais adequado, o que sempre implica a competência e situação subjetiva do tradutor. Na realidade, tal como Henri Meschonnic adianta: “Se a tradução de um texto é estruturalmente concebida como um texto, logo desempenha o papel de um texto, é a escrita de uma leitura-escrita, aventura histórica de um sujeito”. Nesta perspectiva, o tradutor também é um autor que deve assumir a responsabilidade em relação aos dois sistemas linguístico-culturais, pois a tradução, nomeadamente de poesia, é uma re-escrita que se mestiça sempre com o sangue do tradutor. Partindo do seu ponto de vista linguístico, Roman Jakobson adverte: “Em poesia as equações verbais são promovidas à posição de princípio construtivo do texto”, donde só ser possível traduzir poesia através de “transposição criativa”2. Parece ser provada que a tradução poética não pode ser meramente uma transposição de sentidos, mas sim uma nova escrita ou re-escrita que implica inevitavelmente a criação, fato esse que justifica que não há critérios inalteráveis que iluminem toda a atividade traslatória. Qualquer tradução é uma “aventura histórica” e não definitiva, sobrevive em função das convenções culturais da sua época.
Tendo em conta algumas considerações acerca da tradução, este artigo pretende fazer uma breve análise comparativa sobre as três versões portuguesas de um poema clássico chinês, a fim de observar alguns aspectos implicados pela tradução de poesia.
Trata-se de um poema amoroso de Li Shangyin, um poeta da di¬nastia Tang tardia, conhecido pela obscuridade de semântica dos seus poemas. No poema em questão, o poeta explora ao máximo os meios linguísticos na expressão poeticamente do seu estado de sentimento em relação à sua amada:

                           [相见时难别亦难]

encontrar-se difícil separar também difícil

                           [东风无力百花残]

vento leste fraco cem flores murchar

                           [春蚕到死丝方尽]

primavera bicho-da-seda até morrer fio findar

                           [蜡烛成灰泪始干]

cera vela tornar-se cinza lágrimas secar

                           [晓镜但愁云鬓改]

madrugada espelho triste nuvens cabelos mudar

                           [夜吟应觉月光寒]

noite recitar deve sentir raios lua frio

                           [蓬山此去无多路]

Peng Monte daqui ir não muito caminho

                           [青鸟殷勤为探看]

Azul pássaro frequentemente para visitar

(Li Shangyin, Sem título. Tradução palavra por palavra)

Como muitos poemas clássicos chineses escritos no estilo clássico, este poema está sujeito às rigorosas regras de prosódia, que jogam os vocabulários ou caracteres a todos os níveis (fônico, lexical, simbólico etc.). Carregado das imagens curiosas e referências mitológicas, o poema tece uma rede complexa de virtualidades fônicas, metafóricas ou metonímicas, desenvolvendo, de uma forma plena, o seu conteúdo conotativo. Deste poema, temos aqui três traduções portuguesas em confronto:

Sempre difícil encontrarmo-nos, difícil também separarmo-nos,
O vento de leste está sem força e todas as flores murcham.
Findo o fio, morre na primavera o bicho-da-seda,
Transformada em cinza a tocha de cera, começam a secar as lágrimas.
De madrugada, o espelho faz-nos triste, o meu cabelo mudou de cor,
                                                  [tornou-se grisalho.

O canto na noite faz sentir o frio do raio da lua…
Daqui para Pengshan, o caminho não é longo,
Pássaro azul, depressa, dá-lhe uma espreitadela.3

(Trad. Li Ching)

SEMPRE DIFÍCIL, encontrarmo-nos, difícil, sempre separarmo-nos.
E murcha cada flor no vento que declina.
Terminado que é o fio, morre na Primavera o bicho-da-seda.
A vela seca as lágrimas – quando já é cinza.
De madrugada, o espelho faz-me triste, mudos nele os meus cabelos.
A voz que canta na noite, acorda o frio sentido do luar.
Daqui não é longe… daqui à Ilha dos Imortais,
Pássaro azul, de pressa, gostava de lhe dar uma espreitada.4

(Trad. Gil de Carvalho)

 

Vê-la difícil. Não vê-la, mais difícil,
Que pode o vento contra as flores cadentes?
Bicho-da-seda se obsedam até a morte com o seu fio.
A lâmpada se extingue em lágrimas: coração e cinzas.
No espelho, seu temor: o toucado de nuvem.
À noite, seu tremor: os friúmes da lua.
Não é longe, daqui ao Monte P’eng,
Ave azul, olho azougue, fala-lhe de mim.5

(Trad. Haroldo de Campos) 

Tirando partido do que lhe oferece um sistema significante aberto e plástico que é a língua chinesa, o poeta conferiu à linguagem um caráter dinâmico que permite criar uma atmosfera evocadora onde se projeta a sua tensão e densidade sentimental. No entanto, uma série de fatores, tais como a ambiguidade provocada pela elipse dos pronomes pessoais, o jogo das palavras no sentido fônico e metonímico, bem como o paralelismo perfeitamente construído, tornam quase impossível a tradução deste poema, ou melhor, uma tradução satisfatória.
No 1º verso o poeta descreve a situação em que ele e a sua amada se encontram: o difícil encontro torna mais difícil a separação. Neste verso, foram utilizadas intencionalmente duas vezes a palavra [难] (difícil), o que não é frequente na poesia clássica chinesa, que costuma evitar a repetição da mesma palavra no mesmo verso. Gil de Carvalho, para salientar a forte emoção sentida pelo poeta, recorreu a uma medida gráfica: as palavras SEMPRE DIFÍCIL em maiúsculas. A repetição das mesmas palavras, mas trocadas e acrescidas com uma pausa, conseguiram imprimir uma força semântica e rítmica ao verso, enquanto que a versão de Li Ching optou pela estrutura sintática vulgar, que parece um pouco prosaica, embora seja fiel ao original na expressão do sentido. Segundo uma análise de James Y. Liu, no poema original, o sentido da segunda palavra difícil, em função da primeira difícil, fica mais condensado em relação à primeira, fazendo subentender que a despedida, mais do que difícil, é insuportável , sentido esse que não se enuncia explicitamente no original e, portanto, não mereceu atenção especial tanto de Li Ching como de Gil de Carvalho. Por sua vez, Haroldo de Campos mostrou-se consciente desta diferença através do recurso à palavra mais. Abandonada a tradução literal, a versão de Haroldo de Campos deste verso (e de todo o poema) é muito livre, acentuando o estado de alma do poeta para o qual difícil vê-la. Não vê-la, mais difícil. Esta proposta, em vez de descrever simplesmente o ato de separação, concentra-se na consequência psicológica desta tragédia, ao mesmo tempo que introduz certa musicalidade com o recurso à aliteração. Contra a eliminação dos pronomes pessoais no poema original, as três versões mostram o sujeito na primeira pessoa ou o complemento direto, uma solução inevitável e orientada pelo sistema de chegada.
No 2o verso o poeta salta subitamente da experiência subjetiva para a descrição da paisagem, apelando para as imagens a falarem por si. O vento leste, que significa o vento primaveril e símbolo da força renovadora, já perdeu o fôlego e as flores ficaram definhadas, prestes a cair. Gil de Carvalho eliminou a palavra leste ou o sentido primaveril, palavra carregada do valor conotativo: as flores a murchar ao débil vento da Primavera, estação que as devia fazer florescer. Apesar disso, a versão de Gil de Carvalho funciona bem no plano poético, nomeadamente ao colocar adequadamente a palavra declinar no sentido de evidenciar a figura retórica do original. Por sua vez, Li Ching optou por uma frase coordenada, mas palavrosa na transpo¬sição do sentido de cada palavra, o que justifica o fato de que a mera transposição de sentido quase sempre deixa de ser interessante na tradução de poesia. Utilizando uma frase interrogativa, divergente do original e das outras duas traduções, Haroldo de Campos optou pela assimilação do verso, exprimindo, à sua maneira, a incapacidade do poeta de “deter o curso dos acontecimentos”.
O 3o e o 4o versos constituem um dístico rigorosamente paralelo onde os elementos se apoiam ou se implicam mutuamente em duplos sentidos a fim de afirmar um amor leal, inflexível e profundamente sentido. O poeta conseguiu sutilmente captar as imagens muito interessantes: o bicho-da-seda e a vela de cera, de modo a transmitir esta sugestão: o fio (da vida e da nostalgia) não finda até o bicho-da-seda morrer; as lágrimas da vela não se esgotam enquanto o seu pavio não ficar transformado em cinza. O poeta tira partido das duas homofonias [丝] (o fio) e [思] (nostalgia), ambas pronunciadas em si com idênticas tonalidades, exprimindo um sentido duplo. Além disso, como em chinês a justaposição das duas palavras [灰] (cinza) e [心] (coração) forma uma nova palavra [灰心] (coração em cinza, isto é, o desespero ou coração destroçado), o poeta aproveita esta combinação para insinuar uma associação entre a cinza e o coração do poeta (em chinês o pavio é chamado por coração de lâmpada ou de vela). Com este jogo engenhoso, o poeta criou uma série de imagens metafóricas e metonímicas tendo inventado as asas para imaginação do leitor. No entanto, infelizmente, é verificável que estes dois versos lindíssimos em chinês, memorizados e recitados de geração em geração, sofrem perdas a níveis fônico, estilístico, metafórico, após vertidos para o português, devido às limitações linguísticas, particularmente a impossibilidade de reconstruir uma série de associações. Naturalmente, as três versões portuguesas à nossa disposição deixaram de funcionar com os mesmos efeitos que no original, apesar de não podermos dizer que as versões de Gil de Carvalho e Haroldo de Campos sejam banais no valor poético.
O terceiro dístico, que continua em rigoroso paralelo, mostra uma certa ambiguidade na determinação do sujeito, omitido quase sempre na poesia clássica chinesa. Nos versos anteriores o poeta faz-nos entender que ele fala do seu sentimento sôfrego e amor de ferro, mas neste dístico o poeta quebrou este discurso linear e passou a falar da sua amada. O poeta não põe em claro esta mudança, mas sim é possível decifrá-la segundo o contexto do discurso. Imagina o poeta que a sua amada, ao ver-se ao espelho de madrugada, deve estar angustiada com a mudança dos cabelos; ao recitar sozinha poemas na noite, deve sentir o frio do luar. Mas a ambiguidade causada pela falta do sujeito possibilita outra interpretação: na madrugada, ao ver-me no espelho, estou (o poeta) preocupado com o branquear dos seus cabelos; na noite, deve sentir o frio quando eu recito poemas ao luar.  Apesar da ambiguidade que autoriza diferentes interpretações, parece custoso aceitar as traduções de Gil de Carvalho e de Li Ching, os quais não entenderam corretamente a palavra-chave [云鬓]. Esta palavra, que descreve os cabelos volumosos e lindos como nuvens, é exclusivamente para a mulher. Por isso, não é que os meus cabelos, ou seja, do poeta, mudem de cor, como os dois tradutores entenderam, mas sim da minha amada. Eis um erro decorrente da negligência ou do conhecimento menos sólido da cultura-literatura de partida. Na ver¬são matizada pelo imagismo de Haroldo de Campos, apesar da linda imagem de toucado de nuvem, que é correspondente ao original, verifica-se uma leitura bastante subjetiva que conduz à amputação injustificável de alguns significados.
O último dístico não apresenta dificuldades aos tradutores. As versões de Gil de Carvalho e de Li Ching são bastante próximas, com exceção da diferença relativa à tradução do nome do sítio: um optou pela manutenção da estranheza do original, o que também sucede com a versão de Haroldo de Campos, e outro decidiu recorrer à adaptação conforme a convenção da língua-cultura de chegada. Com o devido cuidado, Gil de Carvalho colocou uma nota para explicar o pássaro azul que é mensageiro, segundo a tradição lendária chinesa, e Haroldo de Campos, para além desta alusão, esclareceu a origem do Monte Peng, igualmente exótico na língua de chegada. Essas medidas são importantes e necessárias para tornar o poema mais acessível ao novo destinatário.
Um poema só acorda ao ser lido. E em cada leitura, acorda diferente. E exatamente por isso que do mesmo poema temos três versões diferentes – em alguns casos divergentes. Daí que um poema, seja bem ou mal traduzido, pertence ao autor, mas também pertence ao tradutor, que nele projeta os seus ecos interiores. Na altura em que não há remédio santo, o tradutor depara sempre com dificuldades para as desafiar e vencer. Além da teoria necessária, o tradutor não pode fazer nada senão aprender com o tempo. Para tal, Chuang Tse, filósofo chinês que viveu há mais de dois mil anos, contou uma história interessante: O cozinheiro do príncipe Wen Hui estava a preparar um boi. Cada toque de sua mão, cada oscilação do seu ombro, cada movimento do seu joelho, cada golpe da sua faca, cortando a carne em fatias e separando-a, e o ondear da faca – tudo era um ritmo perfeito, tal como a dança da Alameda das Amoreiras ou uma cena da sinfonia de Ching Shou. O príncipe Wen Hui notou: “Como dominas a tua arte maravilhosamente!”. O cozinheiro pousou a faca e disse: “O que interessa ao teu servo é o Tão, que está para além de qualquer simples arte. Quando eu comecei a cortar a carne de boi, não via nada senão o boi. Depois de três anos de prática, deixei de ver o boi como um todo. Trabalho agora com o meu espírito, não com os meus olhos. Os meus sentidos deixam de funcionar e o meu espírito toma o comando. Sigo a textura natural, deixando a faca encontrar o seu caminho através das muitas aberturas ocultas, aproveitando o que ali está, nunca tocando num ligamento, muito menos numa articulação principal…”. “Parabéns”, disse o príncipe, “através das palavras do meu cozinheiro, aprendi o segredo do crescimento.”

 


1. Henri Meschonnic, Propostas para poética da tradução e os seus problemas, org. Jean René Ladmiral, Lisboa, Edições 70, p. 86.

2. Cf. Haroldo de Campos, A arte no horizonte do provável, São Paulo, Perspectiva, 1977, p. 142.

3. Li Ching, “Antologia da poesia chinesa”, Revista de Cultura, n. 25, série II, Instituto Cultural de Macau, 1995, p. 107.

4. Gil de Carvalho, Uma antologia da poesia chinesa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, p. 99.

5. Haroldo de Campos, A operação do texto, São Paulo, Perspectiva, 1976, p. 147.

LOUCO DE LUZ poema de altair de oliveira

  

 

Que o sol tirasse o sal da face doce

E o céu em semi –  círculos se mostrasse

Que a noite de seu ser se repetisse

E os astros de seu sonho orientassem.

Um dia a grande graça aparecesse

Da pedra, um fino fio lhe acontecesse

E o brilho breve quase lhe cegasse.

 

Altair de Oliveira – In: O Lento Alento

BERNÚNCIA, a EDITORA, CONVIDA para a FEIRA DO LIVRO de FLORIANÓPOLIS

CONVITE FEIRA DO LIVRO

ÉRICO’S – MÚSICA & BAR na Lagoa da Conceição em Florianópolis

ERICO'S BAR e-flyer__jornal

O Bar do Érico está de volta, agora em novo endereço com a maravilhosa vista da Lagoa da Conceição… 
Conhecido reduto da música nos anos 80 em Florianópolis, antes instalado nos altos da Praia Mole, reabre agora num local amplo, linda vista, climatizado  e com palco preparado para receber grandes músicos e bandas.
A abertura foi dia 27 de dezembro de 2008  prometendo muita diversão, música e gastronomia de primeira…

 

 

 Av das Rendeiras… 470 na Lagoa da Conceição,  Florianópolis-SC

TANKTOTENS poema de lilian reinhardt

   (líricas de um evangelho insano)

Debruço-me entre os recortes…
jornais, papéis, picotes,
a mídia confeitada,
tanktotens,
alma espolcada, amordaçada,
incisiva talha,
a escultura-figura,
ogiva de arcos, navalha de Smith,
ainda ergue sua cabeça
a este insustentável recorte
de céu, de papel…
Dá-me um novo torso,
um novo disco solar
de escorso, uma nova
cabeça totêmica,
além do fenômeno.
O amor é uma lâmina,
linha recortada contra
o pano de fundo do Totem!

A PAELLA de LUCÍA poema de tonicato miranda


                                                                    para JB Vidal

 

Quando doces pomares

encantam os olhos mais que o paladar

Quando anjos imaginários quase

pisam nos tentáculos moles de um calamar

sem se importar com suas não-pegadas na areia

que em parceria com a água tece desenhos na beira-mar

O sorriso foge de mim para cair no colo de uma sereia

 

Quando os ossos da perna e do andar

movimentam mais o caminho do que meu corpo

Quando o céu se enche de aves a migrar

e um ganso voando baixo voa com elas mesmo torto

sinto todos fugindo na retirada com o tem e o não tem

pois nada pode ser definitivo antes de estar morto

mesmo faltando o ar, a voz e estando ausente um bem

 

Quando um Concerto de Aranjuez lhe parte em dois

deixando os movimentos parados e a mente muito além

um Paco de Lucía pode lhe trazer a tristeza dos bois

enforcando-lhe na cordoalha da viola com dedos mais de cem

mesmo assim agora entendo na paella qual o sabor do arroz

também como homens e mulheres podem se tornar tristes

quando vivem a luta, deixando a vida pra depois

 

TM

Curitiba, 1/5/2009