Arquivos Diários: 2 maio, 2009

MANOEL DE ANDRADE PARTICIPA DO ENCONTRO PARA O “MEMORIAL DA LIBERDADE” PROMOVIDO PELO “GRUPO TORTURA NUNCA MAIS”

 

o poeta declama

o poeta declama

 

 LIBERDADE

 

Bandeira mutilada 

onde enrolaste um coração de pássaro.

Se foi para abafar o canto

e a voz de um povo,

pois que se faça amiga da revolta.

 

Liberdade 

é o teu nome

e toada dos companheiros em marcha.

 

Primeiro tu foste a  inocência

correndo pelas areias ensolaradas do meu mar,

correndo no pátio dos recreios

no bairro operário onde vivi

e na praça principal da minha infância.

 

Depois  foste minha rebelde bandeira

e a mágica certeza na adolescência do meu ser.

Tu me trouxeste a paixão e a fantasia

e aquele sonho imenso de ser marinheiro um dia.

 

Mais tarde

a história me mostrou que era ainda maior tua beleza,

e me ensinou a escrever teu nome

na saga gloriosa de Espártaco,

no martírio heróico de Tupac Amaru e de Caupolican

e no exemplo imperecível dos Inconfidentes.

 

E assim… de busca em busca,

na biografia dos heróis, 

pelas páginas da poesia

e pela verve da eloqüência,

tu te abriste, dia a dia, como uma rosa no meu peito…

e depois, quando a pátria cavou suas trincheiras,

como um corcel de luz,

ressurgiste na aldeia de minh’alma,

com teu galope indomável

tua resistência

teu rastro clandestino

e me trouxeste tuas cicatrizes

tuas amarras rompidas

e o teu sonho inabalável.

 

E desde então marcho nos teus passos…

e éramos dez, éramos cem, éramos mil…

e eras então o ar com que respiravam os ideais de um povo inteiro…

e no coração do nordestino eras a esperança do pão,

da água e da terra repartida.

Eras tu que no sul comandavas a greve,

o comício e a passeata…

cantávamos contigo a canção popular…

eras tu que inspiravas a arte, o teatro e a poesia…

tu eras em toda a nação a véspera de um amanhecer inadiável.

 

Subitamente…

te atiraram ao chão…

e te pisaram…

te torturaram e te baniram.

E como Prometeu,

foste acorrentada a estes anos de martírio,

onde uma hierarquia de abutres  se sucede e te devora;

e sentimos em nossas entranhas

a tua própria  entranha devorada.

 

Um murmúrio apenas é hoje o teu nome na solidão da pátria…

uma legião de sombras te observa

segue teus passos

te vigia nas ruas, nas casas, nas escolas, nas fábricas…

mil línguas mercenárias delatam os que te pronunciam

teus lábios de rocio… há sete anos amordaçados

tua boca bebendo a taça do tormento

teus punhos algemados

teu corpo flagelado

teu nome silenciado com o grito dos caídos.

 

Liberdade, liberdade…

um pedaço de ti sobrevive aqui,

na intimidade e no lirismo do meu canto.

Em alguma parte da América,

por essas terras e montes,

apesar dos meus pesares,

cantam os rios  e cantam as fontes…

mas eu canto a negra angústia

por teu sangue…liberdade

na minha pátria ferida.

.

Liberdade, liberdade…

suprema promessa da esperança…

tu  serás ainda a terra por inteira repartida,

os campos finalmente semeados

e o nosso sonho a dançar nas espigas onduladas pelo vento.

 

 

Na imorredoura certeza do amanhã

renascerás como raiz ardente;

e no seio de uma primavera palpitante 

tu crescerás como uma árvore de beijos

para seduzir os homens, as aves e as estrelas…

e,  flor da insurreição

irás desabrochar no retalhado coração dos oprimidos.

 

Liberdade, liberdade…

lâmpada do abismo, estandarte de luz,

melodia do vento na rota das aves peregrinas,

barca misteriosa do destino

a singrar… sempre a singrar

formosa e impassível em busca do amanhecer.

 

Liberdade, liberdade…

Tu és o tribunal na consciência dos tiranos

dos oprimidos és o baluarte e a véspera da vitória

O sonho americano de Bolívar foi escrito com teu nome,

 porque tu és a fonte, o cântaro, a água que embriaga,

sede perene da alma, da vida tu és a dádiva suprema.

Foste a tribuna dos abolicionistas

e assinaste a glória da pátria com  a mão de uma princesa

és o hino dos militantes, o cântico triunfal, delírio

bandeira dos Inconfidentes, ainda que tardia

liberdade, ó liberdade

meu único amor

meu peito de viola te entoa enamorado.

 

Liberdade… ó liberdade…

hoje somos apenas os guardiões de um sonho

os que sustentamos em tantas pátrias a bandeira da bravura

hoje somos os guerreiros do silêncio

para que teu hino possa  ser entoado com alegria pelos filhos do amanhã.

 

                                                         Cidade do México, fevereiro de 1971

 

Manoel de Andrade

POEMA de sara vanegas / Ecuador

se balancea el velamen aturdido de tus ojos

sobre mi mar oculto

ángeles gaviotas destejen tu corona                                   

soledad y espuma  

el cielo es la campana de plata que guarda                                                                       

(nuestros sueños)

mientras se alejan las barcas  

y el mar desaparece

FOTOPOEMA 59 – de rudi bodanese e paulo bonavides

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