Arquivos Diários: 3 maio, 2009

NOSTALGIA prosa poética de vera lúcia kalaari / Portugal

 Escondida na minha choupana, nos caminhos que serpenteiam na verdura da minha

 

montanha/paraiso, onde a saudação dos pássaros me anunciava a hora de começar

 

o dia…

 

   Perdida na tranquilidade da natureza, onde o tocar do tambor consolava pelo exces-

 

so de paz, nesse sorridente, belo e doce vale, entre os companheiros meigos e mudos da

 

minha silenciosa solidão: o meu cão e as minhas filhas miudas.

 

   A realidade do quotidiano (a minha realidade) não conhecia nada, além do bom senso que me

 

era  legado por esse Deus, que eu alcançava, interpretando-o como fogo, chuva, trovão, ou

 

mesmo sol, mas com o Qual eu vivia em harmonia.

 

   Fosse esta uma interpretação bárbara, era esse o meu Credo, era essa a minha vida.

GAY TALESE por ele mesmo – jorn. natália rangel

Criador de um estilo de texto revolucionário e um dos principais repórteres dos EUA, o jornalista lança sua autobiografia e revela que nunca gostou de escrever.

Natália Rangel

gay-talese-capa-do-livro 
 

VIDA DE ESCRITOR  Gay Talese é o mais aguardado convidado da Festa Literária de Paraty

 

O jornalista americano Gay Talese, cuja autobiografia A vida de um escritor (Companhia das Letras, 509 págs, preço a definir) está sendo lançada no Brasil nesta semana, é o autor do mais famoso perfil do cantor Frank Sinatra (escrito para a revista Esquire, em 1966). Avesso a entrevistas, um mal-humorado Sinatra se negou a conversar com o repórter que o perseguiu por dias e dias.

Foi ele, o repórter Gay Talese, quem saiu ganhando: imortalizou-se construindo o perfil através de entrevistas com pessoas do entorno de Sinatra e apenas observando- o de longe. Intitulou assim o seu texto: “Frank Sinatra está resfriado.” Era tudo que o cantor queria esconder do público. Esse texto se tornou um modelo de uma nova tendência da imprensa escrita que ficou conhecida como Novo Jornalismo.

Consistia em reportagens que retratavam com riqueza de detalhes um personagem ou um fato sem se prender aos cânones da concisão e da objetividade. O primeiro emprego de Talese foi no jornal The New York Times, que ele criticava pela exigência de informações sempre curtas e objetivas – isso limitava o espaço à imaginação e à construção de um perfil mais detalhado e elaborado de determinada história ou personagem.

Gay Talese, o mais esperado convidado da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá em julho na cidade fluminense, não foi aceito nas melhores faculdades americanas e cursou jornalismo em uma universidade do Alabama. Pouco depois de formado, na década de 60, foi contratado pelo The New York Times. Os seus artigos bastante moderados e conservadores sobre as manifestações pelos direitos civis e a questão racial nos EUA agradaram ao seu chefe, que, segundo o autor, era “um homem branco e sulista”. Mas ainda assim, bem acolhido no jornal, não conseguia se adaptar.

Em sua autobiografia, Talese definitivamente não está preocupado em relatar linearmente umavida de triunfos e grandes ideias – ao contrário, parece privilegiar as suas dificuldades no

GAY TALESE

GAY TALESE

cotidiano profissional. A primeira delas era juntar palavras. Numa passagem ele diz: “Escrever é frequentemente como dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco.”

 

A segunda frustração refere-se às reportagens recusadas por uma dezena de veículos (é o caso de Ali em Havana, sobre a visita do boxeador Muhammad Ali em Cuba, em 1996) e artigos feitos sob encomenda e depois estraçalhados pelos seus chefes (a exemplo do rumoroso episódio de Lorena Bobbit que amputou o pênis do marido enquanto ele dormia e o jogou num matagal em 1999). Boa parte da longa reportagem sobre a “saga peniana” feita por Talese está agora reproduzida no livro.

Na época, foi a sua editora na revista The New Yorker, Tina Brown, quem o autorizou a seguir com a reportagem: “Caro Gay, está bem, você fica com a cortadora de pênis. Fiz uma pesquisa de opinião aqui no escritório e você está absolutamente certo – os homens gemeram, se contorceram e resmungaram sobre seus medos atávicos.” Mas, depois de pronto o artigo, ela recusou-se a publicá-lo.

Aparecem poucos familiares em sua história. Mas numa passagem ele revela a sua obstinação de repórter ao relatar a apuração do caso de uma jogadora chinesa que perdeu um pênalti no jogo contra os EUA, definindo o placar favoravelmente às americanas. Ele achou que a jogadora chinesa renderia um excelente perfil. Então, interrompeu uma viagem que fazia com a esposa, Nan Talese, em comemoração aos 40 anos de casamento, e partiu para a China deixando apenas um bilhete na portaria do hotel. Foram cinco meses de pesquisa e uma longa viagem. Mais uma vez, a história nunca chegou a ser publicada.

A maioria dos veículos achava que o assunto não exercia grande apelo – para grande aborrecimento de Talese, que realmente se envolvera de corpo e alma naquele episódio. Num certo ponto de vista pode-se dizer que Talese construiu uma autobiografia da mesma forma como redigiu o perfil de Frank Sinatra: revelando o personagem, no caso ele mesmo, através dos detalhes, tangenciando a própria vida.

Ele raramente fala de si de forma direta, revela-se através de seus trabalhos, das decisões que toma e das angústias com as quais teve de lidar. Explica por que optou por estruturar o seu livro dessa forma: “Não ia querer que as pessoas pensassem que Gay Talese se acha tão importante. Nem eu ia querer ler tanto sobre Gay Talese.” E é tão relutante em se expor ao leitor que, em vez de se deter na redação de um perfil, ele optou por reproduzir uma pequena biografia de si mesmo que foi elaborada pela revista Vanity Fair, publicação para a qual colaborava. “A franqueza nunca foi o meu forte”, escreve o repórter, referindo-se à dificuldade que sente em falar de sua vida pessoal.

CRONISTA SEM ASSUNTO por hamilton alves

Sobre esse tema (que, afinal não é verdadeiramente um tema) José Carlos Oliveira escreveu talvez uma de suas melhores crônicas num livro de sua autoria, que guardo com muito carinho, a atestar minha admiração por sua grande qualidade de cronista.

                                   Carlinhos conta que, sem assunto para a crônica diária, por várias vezes enfiou o papel na máquina de escrever. Chegou a compor três ou quatro frases e não conseguia ir adiante. Tirava o papel do rolo da máquina, amassava-o e o jogava pela janela.

                                   Resolveu sair    à rua, na direção dos bares, onde o esperavam as garrafas (no dizer dele).

                                   Saiu andando de espírito vazio pela orla do mar, a fim de espairecer ou, quem sabe, à procura de assunto.

                                   Encontrou amigos, viu as gaivotas em seu canto estridente, numerosas, flutuando no mar ou esvoaçando pelo ar, mas nada do assunto aflorar.

                                   Escrevia diariamente para o Jornal do Brasil nessa época. Nada pode ser mais terrível do que a necessidade de redigir uma lauda e meia e não encontrar um mísero tema.

                                   Quem, cronista profissional, não passou já por tal tipo de crise?

                                   Quando o assunto não quer dar presença de si não adianta persegui-lo. O jeito é fazer como Carlinhos. Sair à rua, tomar o ar fundo, deixar as coisas acontecerem, até que a luz se faça ou não se faça.

                                   A solução é voltar à redação ainda de espírito vazio, sem nenhuma possibilidade, a mais remota, de achar o tema para desenvolvê-lo.

                                   O jeito que há, em tal circunstância, é encher lingüiça, como certamente fez nessa crônica, conduzindo-a até com certa maestria, finalizando assim:

                                   “Fiz outra bolinha de papel, joguei pela janela, fechei a máquina… Fechei a porta, fechei a garganta, fui andando pela beira do mar, mais certo do que nunca de que nada sucede na beira do mar”.

                                   Essa crônica, que finda dessa maneira tão deplorável, narrada por  Carlinhos, tem o titulo de “A fera em liberdade”, colhida das paginas 37/38 de seu livro “A revolução das bonecas”.

                                   Não posso me queixar como o fez Carlinhos sobre falta de assunto. A última experiência vivida por mim como cronista diário foi num jornal local, substituindo seu titular, cronista de boa cepa, Flávio Cardozo. Aceitei o desafio que me foi proposto de substituí-lo por um período de tempo considerável. E, agora, em “Palavras, Todas Palavras”, eis-me aqui tentando conduzir estas mal traçadas palavras. Nada mais tenho feito que tentar abrir caminho em direção a algum tema interessante, quando interessante.

                                   Se tivesse que arrostar uma coluna num grande jornal (ou mesmo modesto), diariamente, talvez me afligisse o drama de Carlinhos, que se viu alcançado num belo dia pela falta de assunto.

                                   E, para um cronista, que se vê na obrigação de cumprir seu dever diário, não há, na verdade, suplício maior.

                                   Faria também, certamente, uma bolinha de papel, atiraria pela janela, fecharia a máquina, e seguiria pela beira do mar…

 

(agosto/08)

O BOI NA PLATÉIA poema de tonicato miranda


para Vera Lúcia Gonçalves da Silva

 

 

você Sol, invencível astro

nosso amo e senhor

aquele que governa a luz

o que dita para todos o sono

somente a ti invejo neste mundo

vejo os rabos dos bois na campina verde

e para quem eles balançam senão para ti

ouço passarinhos de manhã a chilrear

e para quem fazem essa grande algaravia

se não para ti

os verdes dos relvados junto à rodovia

e os matos vista afora

até o rendilhado dos picos no horizonte
estão mais verdes

e me pergunto por que e para quem

vestem-se assim, se não é somente para ti

até as nuvens cinzas deram lugar

às brancas cumulus nimbus

todas em sinfonia em retumbante Sagração da Primavera

cuja anfitriã é a Terra, mas o provedor és tu, oh Sol

por isto mesmo te desafio para o duelo do milênio

venha tu das alturas com espadas de fogo

e bolas de pedra incandescentes

que te receberei com meus escudos

de palavras, versos de gelo e abrigos de argentum

venhas tu na velocidade incrível da luz

que aqui encontrarás um manto negro para apagá-la

vejo um boi sentado sobre sua cauda

na sombra de uma árvore

cabeça e chifres erguidos e imponentes

e me pergunto

quais pensamentos insólitos voejam em seu crânio

o que pensa desta minha digladiação com o Sol

certamente o boi é o mais sábio entre os três

pois que apascentado no frescor do flamboyant

pode escolher o que focar com seu grande olho de boi

a luta do Sol com o poeta ou a elegância das abelhas

transportando mel nos seus baldinhos

 

 

TM

BR-101, 27/10/2008

CANÇÃO DA FACA prosa poética de nelson padrella

Teu rosto foi a faca de um só gume, que me marcou de amor. Teu rosto foi a faca mais navalha, que cortava fundo. Foi a faca mais punhal, que faiscava aos olhos. Teu rosto foi a faca mais espada, a planejar combates e feridas. Teu rosto foi a faca canivete, fechado à dolorosa carícia dos meus lábios. Sempre sempre fechado ao menor sinal de alarme. Sempre posto no alto, como um alarme. Foi a faca bisturi, perigosa sobre a pele, ameaçando a garganta exposta à sua fúria. (Da batalha facal, que não travamos).

        Independente de horóscopos, cartas e zodíacos, teu rosto se fechava feito ostra a qualquer bulício de mim peixe. Sim, que o mar do teu aquário se abria para distantes portos, horizontes de promessas. Mergulhar, sim, planejei, no aquário, mas tarde demais, trincado ele e com ausência de peixes e esperança.

        Feliz? Posso dizer que sim, toda vez que releio na memória as marcas que ficaram desse tempo que esqueceste de viver comigo. Feliz, mas de um amargo sem vitória, como uma tarde cheia de vazios preenchidos por sombras de mim mesmo. Como a festa bonita a que não fui por não me convidarem, e nem podiam, que a festa era eu quem estava dando. Sim, se tive teu sorriso em todos os momentos de nós dois. Mas precisei retê-lo em tantas fotos, slides e pinturas, antecipando este punhal no peito – o dia que teu riso se apagasse.

        Feliz? Talvez, se tenho teus retratos, as formas puras a que te dedicavas em nossos raros momentos de ternura. Se tenho tuas cartas malguardadas como dobro minha vida entregue à fúria de fomes e apetites, e relendo-as retenho o aroma antigo daquele amor que morreu, mas quando vivo correu de sol a sol a minha vida. Talvez, quando cartas e retratos sopram carinho dentro deste quarto onde me afogo junto aos meus espíritos. E são tantos, meu bem, e todos tu. Cada momento que eu fotografava já pulava um fantasma em minha trilha. Talvez, se penso que ainda existes nesta paisagem que banimos juntos, te lembras de mim como te lembro e também te amarguras como eu, agora.

        Feliz? Não, nunca, porque guardo da vida só vazios e promessas. Não, se passaste, navegante errado, singrando com tua quilha a calmaria do mar que segurava meu naufrágio. Não, se enganavas com teu riso – não por querer, decerto (mas doía!) – a promessa de um bem que não podias. Se foi tudo maldade ou brincadeira o que de jovem no teu corpo ardia. Se o aquário rachado me legaste de todo um oceano prometido.

        Que importa tudo, quando o sonho quebra, a vida passa a absurdo, retratos dizem mais do que lutar? Importa menos revirar no tempo saudade casamentos estradinhas, morder a fome das antigas fomes, rasgar o pão como rompia a blusa atrás da qual teu peito havia. Não cortá-lo com a convicção de uma faca, esta perdida entre risadas gracejos macaquices. Importa menos lembrar ausência à mesa em hora de fomes e de amigos, que essa faca perdeu-se, levou-a o rio, quebrou-se no meu sangue, enferrujou, soltou-se o cabo branco de marfim.

        Que vale agora trazer o corpo antigo transfigurado em retrato espiando sobre os móveis? Verdade que ainda grita, mas sou eu quem grita através desse retrato: Teu rosto onde vida havia. Tenho nas fotos teu rosto e tudo o que de faca ardia.

        Foi só por um momento que me deixei embalar. Já teu rosto foi embora levando faca e punhal, levando espada e navalha, tudo o que corta e perfura. Foi só por um momento que me deixei enganar. Fecho-me (ostra vazia) no teu aquário esquecido.

 

                        Toda faca que corta e que perfura

                        traz escrito no aço: cicatriz

                        Todo amor acaba. O que perdura

                        é a memória do bem que a gente quis.

SORRIA! você está sendo enganado! / por alceu sperança

A atual crise mundial é a maior sacanagem de todos os tempos. Somente se compara ao aparecimento da escravidão. É cada vez mais evidente a imensa contradição entre os efeitos da crise e a falsa “liberdade” e a “democracia” que os capitalistas tanto apregoam mas não praticam. Ao contrário, impõem cada vez mais barreiras, exclusões, políticas racistas e concentração de renda: grandes conglomerados liquidando as pequenas e médias empresas, atropelando os micros empreendedores.

Se houvesse por lá realmente liberdade e democracia, como alardeiam os estadunidenses e europeus, haveria oportunidades para todos os cidadãos e não apenas para quem nasceu em determinado lugar e tem como reserva de mercado o direito a viver no bem-bom enquanto outros sofrem os horrores da miséria e da ignorância. Querem que suas empresas atuem livremente nos países pobres, mas rejeitam que os pobres trabalhem livremente em seus “paraísos” falsamente democráticos.

Os imigrantes que vieram da Europa conseguiram prosperar no Brasil e outros países do hemisfério. Mas quando os moreninhos do Sul tentam procurar oportunidades – e não de enriquecer, mas de apenas trabalhar – encontram barreiras, ódio, discriminação e bordoadas. É por essa injustiça nada poética que o sistema capitalista está em frangalhos e à beira da ruína: essa monstruosidade que expulsa, vitima, escraviza, asfixia e explora não pode continuar fingindo que é “liberdade” e “democracia”.

No século XIX, a expansão capitalista expulsou os filhos da Europa para novas terras. Eles foram usados para extrair as riquezas dessas novas terras para dar prosperidade ao Velho Mundo. Foi o ouro daqui que deu glória, poder e fortuna aos potentados europeus. Agora, depois de criar a mãe de todas as crises, essa coisa odienta rejeita que os filhos das terras exploradas queiram repartir com eles os frutos daquela riqueza extraída aqui.

Isso é imoral, ilegítimo e inaceitável, porque as crises, a rapina e a injusta repartição dos frutos da riqueza levaram a uma grande mobilidade na esteira da “globalização”. Que, aliás, seria um mundo sem fronteiras e com os mercados plenamente livres. Isso também deveria significar a liberdade de disputar empregos em qualquer lugar, assim como as empresas transnacionais disputam os mercados nacionais em todos os países. Como que a empresa pode ser transnacional, mas a mão-de-obra não? O capital não precisa ter pátria, mas o trabalho é forçado a ter certidão de nascimento local…

Jamais houve tanta gente procurando oportunidades fora de seus países de nascimento. Calcula-se algo em torno de 160 milhões de migrantes – um Brasil ou um Bangladesh inteirinhos – estejam hoje vivendo e trabalhando fora de suas nações. Da mesma forma que no fim do século XIX e início do século XX havia uma revoada em busca de melhores horizontes no Novo Mundo, hoje há uma revoada dos novo-mundistas aos países da União Europeia.

Os EUA se pintaram de grande Pátria da democracia e da liberdade e essas luzes atrativas respondem pelo ingresso de um milhão de estrangeiros por ano ao seu mercado de trabalho e consumo. Essa gente, se fica no lugar para onde foi, aceita regras de trabalho que beiram a escravidão. Se volta para seu país de origem, idem.

Sorria, você está sendo (mais uma vez) enganado. Sem essa de que a crise é democrática e atingiu a todos. Ela só é boa para os ricos. Os muito ricos.