CANÇÃO DA FACA prosa poética de nelson padrella

Teu rosto foi a faca de um só gume, que me marcou de amor. Teu rosto foi a faca mais navalha, que cortava fundo. Foi a faca mais punhal, que faiscava aos olhos. Teu rosto foi a faca mais espada, a planejar combates e feridas. Teu rosto foi a faca canivete, fechado à dolorosa carícia dos meus lábios. Sempre sempre fechado ao menor sinal de alarme. Sempre posto no alto, como um alarme. Foi a faca bisturi, perigosa sobre a pele, ameaçando a garganta exposta à sua fúria. (Da batalha facal, que não travamos).

        Independente de horóscopos, cartas e zodíacos, teu rosto se fechava feito ostra a qualquer bulício de mim peixe. Sim, que o mar do teu aquário se abria para distantes portos, horizontes de promessas. Mergulhar, sim, planejei, no aquário, mas tarde demais, trincado ele e com ausência de peixes e esperança.

        Feliz? Posso dizer que sim, toda vez que releio na memória as marcas que ficaram desse tempo que esqueceste de viver comigo. Feliz, mas de um amargo sem vitória, como uma tarde cheia de vazios preenchidos por sombras de mim mesmo. Como a festa bonita a que não fui por não me convidarem, e nem podiam, que a festa era eu quem estava dando. Sim, se tive teu sorriso em todos os momentos de nós dois. Mas precisei retê-lo em tantas fotos, slides e pinturas, antecipando este punhal no peito – o dia que teu riso se apagasse.

        Feliz? Talvez, se tenho teus retratos, as formas puras a que te dedicavas em nossos raros momentos de ternura. Se tenho tuas cartas malguardadas como dobro minha vida entregue à fúria de fomes e apetites, e relendo-as retenho o aroma antigo daquele amor que morreu, mas quando vivo correu de sol a sol a minha vida. Talvez, quando cartas e retratos sopram carinho dentro deste quarto onde me afogo junto aos meus espíritos. E são tantos, meu bem, e todos tu. Cada momento que eu fotografava já pulava um fantasma em minha trilha. Talvez, se penso que ainda existes nesta paisagem que banimos juntos, te lembras de mim como te lembro e também te amarguras como eu, agora.

        Feliz? Não, nunca, porque guardo da vida só vazios e promessas. Não, se passaste, navegante errado, singrando com tua quilha a calmaria do mar que segurava meu naufrágio. Não, se enganavas com teu riso – não por querer, decerto (mas doía!) – a promessa de um bem que não podias. Se foi tudo maldade ou brincadeira o que de jovem no teu corpo ardia. Se o aquário rachado me legaste de todo um oceano prometido.

        Que importa tudo, quando o sonho quebra, a vida passa a absurdo, retratos dizem mais do que lutar? Importa menos revirar no tempo saudade casamentos estradinhas, morder a fome das antigas fomes, rasgar o pão como rompia a blusa atrás da qual teu peito havia. Não cortá-lo com a convicção de uma faca, esta perdida entre risadas gracejos macaquices. Importa menos lembrar ausência à mesa em hora de fomes e de amigos, que essa faca perdeu-se, levou-a o rio, quebrou-se no meu sangue, enferrujou, soltou-se o cabo branco de marfim.

        Que vale agora trazer o corpo antigo transfigurado em retrato espiando sobre os móveis? Verdade que ainda grita, mas sou eu quem grita através desse retrato: Teu rosto onde vida havia. Tenho nas fotos teu rosto e tudo o que de faca ardia.

        Foi só por um momento que me deixei embalar. Já teu rosto foi embora levando faca e punhal, levando espada e navalha, tudo o que corta e perfura. Foi só por um momento que me deixei enganar. Fecho-me (ostra vazia) no teu aquário esquecido.

 

                        Toda faca que corta e que perfura

                        traz escrito no aço: cicatriz

                        Todo amor acaba. O que perdura

                        é a memória do bem que a gente quis.

2 Respostas

  1. Grande amigo carioca Ruy Lopes, morador da Freguezia de Jacarapaguá, juntos dividimos a adolescência naquela cidade sitiada – Palmeira. E na pracinha namorávamos celinhas, soninhas, deolindas, teresas, zuzus, dirces, maria amalias, carlotinhas, pensando que seríamos eternos na nossa juventude. Hoje namoramos esses pálidos fantasmas que foram as meninas sempre postas no alto, como um alarme. Os retratos sim, eternizam um momento qualquer, e nos apaixonamos pelo perfume do frasco vazio de perfume. Lembrar é como que amar.

  2. “Bão, seo” Nelson, teu belo escrito me trouxe à memória amores adolescentes que desde muito se perderam nas brumas que envolveram meus neurônios capengas. Quem sabe por ação de que hierbas? Deles (amores juventudinais) só restando como vc disse aí, “a memória do bem que a gente quis”. Me afloraram reminiscências — , talvez motivadas pelas celinhas que entrevi nas entrelinhas das tuas linhas —, de sônias, deolindas, therezas, zuzus…, hoje apenas etéreos fantasmas, mas que um dia ocuparam meu existir em tempos diferentes e de forma completa.
    Grande abraço,
    Corvo.

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