GAY TALESE por ele mesmo – jorn. natália rangel

Criador de um estilo de texto revolucionário e um dos principais repórteres dos EUA, o jornalista lança sua autobiografia e revela que nunca gostou de escrever.

Natália Rangel

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VIDA DE ESCRITOR  Gay Talese é o mais aguardado convidado da Festa Literária de Paraty

 

O jornalista americano Gay Talese, cuja autobiografia A vida de um escritor (Companhia das Letras, 509 págs, preço a definir) está sendo lançada no Brasil nesta semana, é o autor do mais famoso perfil do cantor Frank Sinatra (escrito para a revista Esquire, em 1966). Avesso a entrevistas, um mal-humorado Sinatra se negou a conversar com o repórter que o perseguiu por dias e dias.

Foi ele, o repórter Gay Talese, quem saiu ganhando: imortalizou-se construindo o perfil através de entrevistas com pessoas do entorno de Sinatra e apenas observando- o de longe. Intitulou assim o seu texto: “Frank Sinatra está resfriado.” Era tudo que o cantor queria esconder do público. Esse texto se tornou um modelo de uma nova tendência da imprensa escrita que ficou conhecida como Novo Jornalismo.

Consistia em reportagens que retratavam com riqueza de detalhes um personagem ou um fato sem se prender aos cânones da concisão e da objetividade. O primeiro emprego de Talese foi no jornal The New York Times, que ele criticava pela exigência de informações sempre curtas e objetivas – isso limitava o espaço à imaginação e à construção de um perfil mais detalhado e elaborado de determinada história ou personagem.

Gay Talese, o mais esperado convidado da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá em julho na cidade fluminense, não foi aceito nas melhores faculdades americanas e cursou jornalismo em uma universidade do Alabama. Pouco depois de formado, na década de 60, foi contratado pelo The New York Times. Os seus artigos bastante moderados e conservadores sobre as manifestações pelos direitos civis e a questão racial nos EUA agradaram ao seu chefe, que, segundo o autor, era “um homem branco e sulista”. Mas ainda assim, bem acolhido no jornal, não conseguia se adaptar.

Em sua autobiografia, Talese definitivamente não está preocupado em relatar linearmente umavida de triunfos e grandes ideias – ao contrário, parece privilegiar as suas dificuldades no

GAY TALESE

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cotidiano profissional. A primeira delas era juntar palavras. Numa passagem ele diz: “Escrever é frequentemente como dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco.”

 

A segunda frustração refere-se às reportagens recusadas por uma dezena de veículos (é o caso de Ali em Havana, sobre a visita do boxeador Muhammad Ali em Cuba, em 1996) e artigos feitos sob encomenda e depois estraçalhados pelos seus chefes (a exemplo do rumoroso episódio de Lorena Bobbit que amputou o pênis do marido enquanto ele dormia e o jogou num matagal em 1999). Boa parte da longa reportagem sobre a “saga peniana” feita por Talese está agora reproduzida no livro.

Na época, foi a sua editora na revista The New Yorker, Tina Brown, quem o autorizou a seguir com a reportagem: “Caro Gay, está bem, você fica com a cortadora de pênis. Fiz uma pesquisa de opinião aqui no escritório e você está absolutamente certo – os homens gemeram, se contorceram e resmungaram sobre seus medos atávicos.” Mas, depois de pronto o artigo, ela recusou-se a publicá-lo.

Aparecem poucos familiares em sua história. Mas numa passagem ele revela a sua obstinação de repórter ao relatar a apuração do caso de uma jogadora chinesa que perdeu um pênalti no jogo contra os EUA, definindo o placar favoravelmente às americanas. Ele achou que a jogadora chinesa renderia um excelente perfil. Então, interrompeu uma viagem que fazia com a esposa, Nan Talese, em comemoração aos 40 anos de casamento, e partiu para a China deixando apenas um bilhete na portaria do hotel. Foram cinco meses de pesquisa e uma longa viagem. Mais uma vez, a história nunca chegou a ser publicada.

A maioria dos veículos achava que o assunto não exercia grande apelo – para grande aborrecimento de Talese, que realmente se envolvera de corpo e alma naquele episódio. Num certo ponto de vista pode-se dizer que Talese construiu uma autobiografia da mesma forma como redigiu o perfil de Frank Sinatra: revelando o personagem, no caso ele mesmo, através dos detalhes, tangenciando a própria vida.

Ele raramente fala de si de forma direta, revela-se através de seus trabalhos, das decisões que toma e das angústias com as quais teve de lidar. Explica por que optou por estruturar o seu livro dessa forma: “Não ia querer que as pessoas pensassem que Gay Talese se acha tão importante. Nem eu ia querer ler tanto sobre Gay Talese.” E é tão relutante em se expor ao leitor que, em vez de se deter na redação de um perfil, ele optou por reproduzir uma pequena biografia de si mesmo que foi elaborada pela revista Vanity Fair, publicação para a qual colaborava. “A franqueza nunca foi o meu forte”, escreve o repórter, referindo-se à dificuldade que sente em falar de sua vida pessoal.

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