Arquivos Diários: 4 maio, 2009

O INCONFESSÁVEL por sérgio da costa ramos

Entrei no Céu no ano de 1961, ao concluir a Sacra-Via das Nove Sextas-Feiras, com missa e comunhão às seis e meia da manhã, numa série mensal e contínua insuscetível de rupturas. Se uma sexta fosse esquecida vupt! a porta do Céu haveria de se fechar bem na minha cara de pecador.

Frio, sono, madrugada – a tudo venci para chegar diante do Altíssimo. Frequentei os confessionários, recebi o pão eucarístico e conquistei a indulgência plena: uma “entrada” para o Céu, com o aval do Espírito Santo.

Missa longa, rezada em Latim, os aspirantes ao Céu seguindo a solenidade litúrgica do cantochão:

– Dominus vobiscum!…

– Et cum spiritu tu…

Depois da consagração e da transubstanciação do vinho e do pão em sangue e corpo do Redentor, o disco branco da hóstia adentrava o tabernáculo entre a língua e o “outro” céu – o da boca.

Nessa hora, todos saberiam distinguir os que comungariam absolvidos de suas faltas – e assim redimidos – daqueles que se atreveriam a receber o sacramento “em pecado”.

Sobre estes, recairia o anátema do Senhor: ao morder a eucaristia, sentiriam a boca cheia de sangue…

Essa era a Santa Madre fundada na implacabilidade do “Santo Ofício”, a igreja da tradição, da missa em Latim – rezada de costas para os fiéis. A igreja do monsenhor tradicionalista, Lebfévre, era a mesma de Torquemada e de Bernardo de Gui, os procuradores do Santo Ofício, cujo principal “ofício” era impor a fé pela dissuasão e pelo medo.

O medo do inferno. Muito sonhei com o medo de “morrer em pecado”. E de descer aos pélagos profundos dos despenhadeiros de Dante, entre fogo e enxofre. Tremi ante a perspectiva de pecar, principalmente “contra a castidade”, e assim ser apanhado pela Besta do Apocalipse, sem tempo para a absolvição.

Meu destino seria o mesmo daquelas almas que ardiam em carne viva na treva do inferno, castelo de anjos caídos, de chifre, cavanhaque e pé de bode.

Foi desse medo que extrai forças para adquirir minha cadeirinha no Céu, submetendo-me ao ritual das sextas-feiras, em busca de uma “permanente” para um lugar de paz e refrigério.

Pois é a igreja que deve aos meninos atemorizados de ontem um “mea culpa”. Vemos dignitários de batina, como os prelados da Diocese de Boston, EUA, ou o bispo procriador do Paraguai, distribuindo o mau exemplo e descumprindo os seus votos, perante Deus e a humanidade

Fé, afinal, não se impõe pelo medo, mas pelo perdão. Não pela “guerra” aos seguidores de Saladino, mas pela compreensão do ecumenismo. Não pela espada das “Cruzadas”, mas pela mão estendida aos que sofrem.

E há que respeitar o homem justo, que não se confessa. Há coisas – dizia o apóstata Nelson Rodrigues – “que não se confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médico e nem ao médium, depois de morto…

 

DC

ISRAEL X IRÃ: COLONIALISMO X INDEPENDÊNCIA – por walmor marcellino

 

ESTARRECIMENTOS

 

 

Dois Estados teocráticos: Israel e Irã ‑ o primeiro, capitalista-desenvolvido, mas dependente na condição de Estado-enclave norte-americano; o segundo, pré-capitalista no geral, mas com áreas progressistas e avançadas já coordenadas pelo capitalismo de Estado.

A autodeterminação popular-democrática em sua expressão mais nítida não existe em ambos, embora a formalidade eleitoral. Nos dois, as pessoas independentes e/ou laicas (pelo menos como ativistas da liberdade pessoal) constituem minorias subordinadas à realpolityk de seus governos teocráticos, que se apresentam ameaçados por um inimigo “mais ideológico” (com base no ódio étnico-racial, colonialista-anexacionista e com suporte de forças militares supraterritoriais) do que “político” no sentido de clareza quanto a ações, forças e definição com domínio de fronteiras.

As condições de existência são diferentes: o Estado teocrático em Israel, aceito por todos os judeus como fundamento do colonialismo e expansionismo sionista, é base militar-imperialista dos Estados Unidos para o controle político do Oriente Médio e para apropriação das reservas minerais estratégicas da região. O Estado teocrático do Irã foi reinstaurado ideológica e politicamente para alcançar a independência nacional e liquidar o regime aristocrático-colonialista de Rehza Pahlevi imposto pelos Estados Unidos e Inglaterra para a “sua colônia petrolífera”; daí o apoio nacional com que conta.

Nova diferença: a “Grande Israel” apoiada por Washington e por seus asseclas da OTAN é um projeto estatal colonialista-racista que já ocupou territórios além do que lhe fora concedido pela ONU em 1947-48 e transformou os remanescentes histórico-proprietários árabes em mão-de-obra oprimida e semiescrava (como “deveriam ser os árabes” para o “Ocidente”?); ademais, tudo assim se vai apresentando como consolidação de uma política e sua cultura ocidental-cristã no Levante. O Estado teocrático do Irã sustenta persuasão ideológica muçulmana para atingir a exemplar conduta civil, não confia em não-religiosos para as funções de Estado, porém não confisca terras de não-crentes ou de alheios ao impressionismo maometano, que gozam de toda liberdade civil.

Os Estados Unidos e seus comandados na ONU conseguiram há 10 anos anular a caracterização político-ideológica do sionismo como doutrina colonialista-militarista e racial para a formação de um Estado no Levante. E conseguiram porque lhes “é vital” um Estado-enclave, contra as evidências fascistas do governo judaico sobre os povos e nações do Oriente Médio.

Estamos assim, quando aqui no Brasil centenas de judeus sionistas se movimentam, com apoio comprado na imprensa servil aos Estados Unidos, contra os discursos claros e objetivos do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a respeito do sionismo, de Israel e da política colonialista norte-americana. As mistificações ideológico-políticas do sionismo vão chegando em forma de pressão ao governo Lula. Esperemos: ou mais uma rendição do petismo eleitoral ou a reafirmação de princípios filosófico-políticos.

Curitiba, 3/5/2009

MARIA LÚCIA MASCELANI MOURÃO abre exposição individual e lança livro

Maria Lúcia Mascelani Mourão

 

Voltando idéias e olhar para as circunstâncias contextuais que lhes são mais próximas e que por isso fornecem uma atmosfera peculiar ao desenvolvimento de sua obra, Maria Lúcia Mascelani Mourão nos últimos anos criou uma sugestiva série de calendários, inspirados sempre em elementos naturais ou arquitetônicos locais. Esse saber olhar foi aos poucos se direcionando para a natureza existente nos arredores da sua casa-ateliê. Na continuidade de suas pesquisas, focalizou os coqueiros de seu jardim registrando detalhes de todo o seu ciclo vital. Dessa minuciosa e silenciosa pesquisa surgiu a inspiração para os trabalhos que compõem esta mostra.

Estabelecendo relações formais entre cores, texturas, ritmos e movimentos, criou dinâmicas e expressivas composições de forte impacto visual. Mergulhando fundo na observação, apreendeu a essência estrutural destas formas, transformando-as em signos espaciais que nos revelam a misteriosa conexão entre essas estruturas naturais e as do próprio homem. A primeira vista estas composições poderiam parecer abstratas.  Observadas com mais atenção perceberemos que não se trata do antinaturalismo fundador da abstração.

Plasticamente autônomas, as composições de Maria Lúcia não recorrem, de forma explícita, ao tema do qual partiram. Há, no entanto, uma instigante ambiguidade no tratamento formal, quer seja nas formas geométricas ou orgânicas; cada traço do desenho  é ao mesmo tempo signo espacial e objeto, imagem e natureza.

Investigando a partir dos sentidos os fenômenos pelos quais a força telúrica da natureza rege-se e norteia-se, Maria Lúcia captou a medida exata com que tudo tem que ser recriado e transposto, resultando deste processo uma linguagem coerente com a definição de uma poética.

Para reforçar o caráter orgânico da série a artista utilizou cores obtidas com a mistura de terras a aglutinantes conferindo a pintura uma materialidade que corresponde plenamente as suas intenções expressivas. O desenho é sempre o elemento básico da obra dessa artista que nesta série utiliza-se de uma gama de cores sóbrias e comedidas. A palheta baixa com predomínio dos tons terrosos ganha expressão e clareza de legibilidade  através dos matizes contrastantes que surgem destacando um ou outro plano ou detalhe compositivo.

As tramas gráfico cromáticas deste trabalho realizam-se a partir dos limites do desenho de onde surgem oportunidades para a artista criar cores e formas a medida que os conhecimentos da natureza e do métier vão armando sua experiência neste domínio.

Vivenciando uma profunda relação ecológica com a natureza e o meio ambiente, Maria Lúcia, com sua capacidade de observação calcada na experiência comum de um olhar prescrutador, decifra e revela signos, mistérios e significados contidos numa raiz, numa folha, numa semente.

Sua série de pinturas sobre cartão, objetos e montagens mostra como através da arte é possível devolvermos ao olhar corriqueiro a possibilidade de perceber e revelar os valores poéticos da natureza e do ambiente que nos envolve.

 

João Otávio Neves Filho – JANGA

 

Ilha de Santa Catarina – Brasil – Abril 2009

 

O que: Exposição individual de Maria Lúcia Mascelani Mourão com lançamento do livro de sua autoria MIM.

Onde: Museu histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa

Quando: Dia 07 de Maio de 2009, às 19:00 horas.

Em visitação até 07 de junho de 2009.

 

Maria Lúcia Mascelani Mourão

                                                por Maria Lúcia

 

 

Falar da própria trajetória, do caminho que se percorre a cada dia dentro da solidão do atelier, refletindo o mundo interno e o externo do pretenso fazer arte não é usual mas é legitimo.

Inegavelmente somos bombardeados com interferências visuais e intelectuais tão aceleradas que se nos imprime algo superficial ou profundo não conseguimos deglutir  e o atônito nos induz a estagnar, parar e não agir.

No meu caso é preciso que haja um distanciamento desse bombardeio para que se crie um nicho vazio e único onde possa defrontar minhas questões, refletir e depois devolver um desenho, uma pintura, uma escultura, uma escrita.

Assim componho esta mostra, onde tento agregar a obra ao espaço expositivo – o Museu Histórico de Santa Catarina reverenciando Cruz e Sousa através do objeto Coração Confiante para seu soneto de mesmo nome; cujo foco pretendido é um chamamento à afloração do sentimento que transpõe o tempo. O tempo de todas as coisas se aprontarem num existir de coqueiro ou de humano. São mostradas 15 obras onde a trama , a rede e as intercecções e fugas constituem sua contrução e seu embate.

Será também lançado o livro MIM, que nasceu com o propósito de sintetizar a trajetória humana tão rápida e mirabolantemente assediada do acaso ou do propósito que necessitamos entender que somos sós, únicos e, felizmente, compartilhados.

Trata-se de uma poética sobre o individuo onde quem o legitima é o outro que o lê. O MIM é uma tentativa de foco na emoção do existir; no “anima” que todo o ser carrega.

Um livro de poucas páginas, feito a mão e editado pela editora Bernúncia. Sai com selo Infanto – juvenil muito embora não tenha restrição de idade.

Seu custo: R$15,00.

Ainda no período da mostra será promovida uma ação arte educativa no dia 21 de maio a partir das 14:00 horas para arte-educadores através de uma parceria com o núcleo de arte educadores do MASC e Museu Histórico Santa Catarina.