O INCONFESSÁVEL por sérgio da costa ramos

Entrei no Céu no ano de 1961, ao concluir a Sacra-Via das Nove Sextas-Feiras, com missa e comunhão às seis e meia da manhã, numa série mensal e contínua insuscetível de rupturas. Se uma sexta fosse esquecida vupt! a porta do Céu haveria de se fechar bem na minha cara de pecador.

Frio, sono, madrugada – a tudo venci para chegar diante do Altíssimo. Frequentei os confessionários, recebi o pão eucarístico e conquistei a indulgência plena: uma “entrada” para o Céu, com o aval do Espírito Santo.

Missa longa, rezada em Latim, os aspirantes ao Céu seguindo a solenidade litúrgica do cantochão:

– Dominus vobiscum!…

– Et cum spiritu tu…

Depois da consagração e da transubstanciação do vinho e do pão em sangue e corpo do Redentor, o disco branco da hóstia adentrava o tabernáculo entre a língua e o “outro” céu – o da boca.

Nessa hora, todos saberiam distinguir os que comungariam absolvidos de suas faltas – e assim redimidos – daqueles que se atreveriam a receber o sacramento “em pecado”.

Sobre estes, recairia o anátema do Senhor: ao morder a eucaristia, sentiriam a boca cheia de sangue…

Essa era a Santa Madre fundada na implacabilidade do “Santo Ofício”, a igreja da tradição, da missa em Latim – rezada de costas para os fiéis. A igreja do monsenhor tradicionalista, Lebfévre, era a mesma de Torquemada e de Bernardo de Gui, os procuradores do Santo Ofício, cujo principal “ofício” era impor a fé pela dissuasão e pelo medo.

O medo do inferno. Muito sonhei com o medo de “morrer em pecado”. E de descer aos pélagos profundos dos despenhadeiros de Dante, entre fogo e enxofre. Tremi ante a perspectiva de pecar, principalmente “contra a castidade”, e assim ser apanhado pela Besta do Apocalipse, sem tempo para a absolvição.

Meu destino seria o mesmo daquelas almas que ardiam em carne viva na treva do inferno, castelo de anjos caídos, de chifre, cavanhaque e pé de bode.

Foi desse medo que extrai forças para adquirir minha cadeirinha no Céu, submetendo-me ao ritual das sextas-feiras, em busca de uma “permanente” para um lugar de paz e refrigério.

Pois é a igreja que deve aos meninos atemorizados de ontem um “mea culpa”. Vemos dignitários de batina, como os prelados da Diocese de Boston, EUA, ou o bispo procriador do Paraguai, distribuindo o mau exemplo e descumprindo os seus votos, perante Deus e a humanidade

Fé, afinal, não se impõe pelo medo, mas pelo perdão. Não pela “guerra” aos seguidores de Saladino, mas pela compreensão do ecumenismo. Não pela espada das “Cruzadas”, mas pela mão estendida aos que sofrem.

E há que respeitar o homem justo, que não se confessa. Há coisas – dizia o apóstata Nelson Rodrigues – “que não se confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médico e nem ao médium, depois de morto…

 

DC

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