Arquivos Diários: 9 maio, 2009

ELOGIO À JANELA por luciana cañete

Será sempre libertária, uma janela.
Esse espaço de fuga, em uma longuíssima reunião.
O céu, visível, como santuário daquilo que simples necessário se esquece cotidianamente.
O sagrado vão, lembrando que para além do confinamento existe vida.
Que para além da bronca materna, da explicação interminável e incompreensível, do discurso babado e hipócrita, há o mundo que não para.
Quem se permite essas pequenas fugas pelas paisagens através de vidros não perderá a alma.
Porque o escape pela janela quase nunca é físico , mas espiritual e silencioso.
Colocamos os olhos – como pontes – sobre as árvores, as nuvens, o canteiro, os carros que passam do outro lado, e por eles desliza a alma em fuga, seja lá do que for.
E há também as janelas moventes, de ônibus e automóveis. A dinâmica, as coisas sólidas que na velocidade se volatilizam: um lençol de algodão no quintal, o homem pintando de cor horrível uma parede, um muro que se ergue e outro que desmorona, um ramo de flores exóticas, cachorros desconhecidos latindo para o vácuo.
Aberta ou fechada, ela guarda uma fuga potencial, o anúncio de um vôo, o desenlace de
um desconforto.
São os memoriais do instinto de liberdade, o refúgio dos oprimidos que não têm coragem de num ímpeto arrombar uma porta e sair em disparada sem olhar para trás. Então pousam as púpilas sobre os vãos, a imaginar impraticáveis saídas .
Qualquer construção sem janelas é como uma mulher sem saboneteiras.
Uma janela será sempre uma liberdade.

CHOMSKI e a MÚSICA das ESFERAS – por márcia denser

O pensamento de Noam Chomsky costuma despertar em mim sentimentos contraditórios: nada é tão compensador  – porque, afinal de contas, ele nomeia e atesta, com lucidez cegante, a realidade geopolítica atual, aliás evidente a quem não aceita render-se ao fascínio discursivo da ideologia neoliberal, se quiser continuar olhando a mesma cara no espelho – e, ao mesmo tempo, nada é tão inquietante – porque, insidiosamente, nomear o evidente é navegar contra a corrente!(não acredito que um dia escreveria isto).
Contudo, Chomsky é considerado o intelectual mais importante do mundo pelo The New York Times e as revistas Foreign Policy (USA) e Prospect (Inglaterra), o que significa que os anglo-saxões podem ser tudo, do melhor ao pior do planeta, mas não são burros. O dominador não  pode se dar ao luxo de negar a realidade, sob pena de perder o domínio, razão pela qual ele produz o “discurso ideológico” para uso exclusivo do dominado, e isso inclui especialmente seus sócios menores – as elites canalhas do Terceiro Mundo. 
Na entrevista que deu recentemente à revista Isto É (a propósito do lançamento no Brasil de seu livro Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia, Rio, Bertrand, 349 págs. – ainda não li), ele faz declarações tão diretas e tão lúcidas( e tão óbvias) que relega as questões da infeliz repórter à categoria de imbecilidades subalternas & burras, confiram:
Pergunta: Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky: Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a exemplo da Bolívia, o processo é radicalmente diferente.
Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população.
Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais.A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia.
Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre nossas eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu a Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.

 
“P. Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky: Populista quer dizer alguém atento à opinião popular. 

 

P: Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky: Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras e pessoas que levaram o país e boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos. 
 

P:  O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky: Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra? O presidente Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
P: O sr. acha que o presidente Lula representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky: De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente. 
 

P: E qual o papel do Brasil?
Chomsky: O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
P:  Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky: Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel – foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
P:  Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky: Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso. 
 

P: O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky: O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.” 

 

Malgrado a precisão cirúrgica, a última frase ficou ressoando como música em meus ouvidos. 

 

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas – uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

NESTA MANHÃ DE CHUVA poema de otto nul


 

 

Nesta manhã de chuva

Manda-me uma mensagem,

Qualquer uma, não importa,

Nem que seja coisa à-toa;

 

Tão simples, tão banal,

Que pareça bilhete

De namorado para namorada

Ou coisa ainda mais vã;

 

Manda por qualquer via,

Pelo ar etéreo da manhã,

Que acolho de bom grado,

Recolhido do espaço;

 

Manda urgente, não esqueças,

Trata-se de caso sério

De solidão invencível,

Que parece me sufocar;

 

Manda qualquer palavra,

A mais tola e trivial,

Me fará tanto bem

Que nem podes imaginar;

 

Manda pelo ar, pelo mar,

Pelo vento, pela estrada,

Por qualquer forma alada

Coisa assim tão esperada.

 

 

(Otto Nul – março/09)