Arquivos Diários: 10 maio, 2009

A CARTA por hamilton alves

Quando abriu a carta (antes já identificara a remetente pela letra no envelope) notou que seu teor marcaria um desenlace. Uma letra pequena, pouco bem desenhada, como quem escreve às pressas, com pontuação irregular, uma infinidade de vírgulas, com algumas palavras mal grafadas, com pouco cuidado também pela correção gramatical – tudo isso saltava aos olhos desde o início.

                                   Leu muito interessado tudo que nela se continha. Não só interessado mas de forma até, pode-se dizer, apaixonada.

                                   Ansiava por ter notícias dela, que não lhe dera nenhuma desde que partira, a ponto de achar que murchara a relação que há tempos mantinham.

                                   Foi à Europa numa viagem de passeio. Disse-lhe que não demoraria muito. Seu intuito principal era espairecer. Há longos anos não fazia uma viagem.

                                   Ele era mais velho do que ela uns vinte e poucos anos, mas fisicamente não dava muito para notar. Era bem conservado, tipo atlético, sem gorduras. Conheceram-se numa viagem curta. Desde então começara o idílio. Tudo ia bem. Dir-se-ía que um descobrira a metade que lhe faltava no outro.       

                                   Ela era dada a escrever contos e poemas. Dera-lhe alguns para os ler. Achou-os não muito bons. Poesia muito ruim e contos na mesma linha. Não revelava talento literário. Mas nunca manifestou sua opinião. Procurava escamoteá-la falando de outra coisa. Quando abordava a questão procurava uma fórmula escapista qualquer.

                                   Não era uma mulher bonita, mas tinha um quê agradável, uma conversa boa, um ar distinto, um corpo ainda bem conservado. Ele próprio não sabia definir o que, na verdade, o atraía nela.

                                   Era uma criatura animada , que achava interesse em tudo, meio travessa.

                                   Gostava de sexo mais do que o admissível. A todo o momento o provocava. Mesmo em momentos que nem lhe passavam pela cabeça.

                                   Leu a carta até o fim. No último parágrafo dizia:

                                   “Estou em Paris. Como você sabe, minha irmã mora aqui. Convidou-me para morar com ela. Não tenho muito a perder aí no Brasil.

Achei um viúvo aqui também muito interessante, que está caído por mim.Tem além do mais uma boa situação. Escreve para jornais especialmente sobre arte. Nosso relacionamento esfriou nos últimos tempos. Pelo que entendo que devemos lhe por um fim”.

                                   Em seguida, saiu à rua desesperado, andando cabisbaixo sob uma garoa, sem atinar com nada.

                                   Sentou-se longamente num bar a refletir sobre o que lera. Pediu uma bebida. Sorveu-a como quem fazia a última coisa no mundo. Como quem ingere uma droga mortal.

                                   Ficou olhando um ponto qualquer sem maior interesse.

                                   Sem poder imaginar o que seria a vida daí por diante.

                                   Mas ergueu-se a custo.

                                   Um gato passou por ele sem que o notasse.

                                   A chuva despencou lá fora, mas não a percebeu. Sentia-se mais ou menos indiferente a tudo. Naquele mesmo momento, pegaria um avião para ir ao encontro dela.

Faria qualquer coisa louca ou desvairada.

 

Saiu a passos como um fantasma sem direção.

 

 

 

(maio/09)

 

SACRIPANTAS E ANÔNIMOS por walmor marcellino

Quem é o responsável pelas mortes nas estradas brasileiras, que, além de delegar o bem público rodovia ao empresário privado, se omite no controle jurídico-policial dessas vias assassinas? Nem rodovias nem veículos nem passageiros estão sob responsabilidade do Estado? O Poder Executivo se omite e alega que somente as parcerias público-privadas poderão privatizar as graças e desgraças públicas.

Quem ou o que indicou, facilitou e protegeu (a confraria do poder?) servidores do Senado nas operações fraudulentas, que vêm sendo executadas com inteira liberdade. Quem protege latifundiários e grileiros responsáveis por trabalho escravo, por roubo de bens naturais, por irregularidades de localização e funcionamento — os quais, flagrados em ilícitos e condenados à perda de propriedade, são mantidos pela desídia do governo Lula e seus comissionados –, enquanto jornais, procuradores e políticos desencadeiam campanhas de infâmias contra os postulantes da reforma agrária?

“Patifes ilustres” não são apenas os condôminos da família José Sarney, donos da Sesmaria Maranhão; nem o capo Ronaldo Caiado, médico consócio em grilos (ilegítimos de origem, confirmados na posse e legitimados pelo mando político) e protetor de terras legalizadas pela incúria oficial e pelo compadrio eleitoral. Nem Gilmar Mendes, essa mais abusiva e afrontosa figura institucional brasileira, que deve ser apontado como líder dos malfeitos, um exótico juiz-delinquente a pisotear o que restou de nossas virtudes cívicas.

O que chamamos “democratização” é um processo de aculturação desses privilégios e escândalos — que vão da apropriação de bens públicos, à posse e autoatribuição de serviços e funções públicas, ao nepotismo deslavado, à concussão associada à corrupção funcional –, e o processo político-eleitoral é a consolidação desses usos e costumes.

Agora mesmo, o Instituto Médico-Legal do Paraná diz que não lhe sobrou uma gota de sangue do deputado Carli para ver se álcool e cocaína o levaram a matar dois jovens com seu automóvel a 190 km/h. O “procedimento legal” foi fazer exame de dosagem nos rapazes mortos ao receberam o impacto. A justificativa estúpida é de que o exame de sangue de um deles (em coma), o deputado, não pode legalmente ser feito para instruir o processo, porém o dos rapazes, pobres e anônimos, a rotina e a lei mandam. O tempora, o mores.

Por último, “a solidariedade oficial ao causador”, por sua condição de deputado, é a demonstração da complacência com crimes e desrespeito aos mortos”.

Curitiba, 8/5/2009

EXPRESSÕES GAUCHESCAS – editoria

-Mais ligado que rádio de preso
-Mais curto que coice de porco
-Firme que nem prego em polenta
-Mais nojento que mocotó de ontem
-Saracoteando mais que bolacha em boca de véia
-Solto que nem peido em bombacha
-Mais curto que estribo de anão
-Mais pesado que sono de surdo
-Calmo que nem água de poço
-Mais amontoado que uva em cacho
-Mais perdido do que cusco em procissão
-Mais faceiro que guri de bombacha nova
-Mais assustado que véia em canoa
-Mais angustiado que barata de ponta-cabeça
-Mais por fora que quarto de empregada
-Mais por fora que surdo em bingo
-Mais sofrido que joelho de freira em semana Santa
-Feliz que nem lambari de sanga
-Mais ansioso que anão em comício
-Mais apertado que bombacha de fresco
-Mais apressado que cavalo de carteiro
-Mais arisca do que china que não quer dar
-Mais atirado que alpargata em cancha de bocha
-Mais baixo que vôo de marreca choca
-Mais bonita que laranja de amostra
-De boca aberta que nem burro que comeu urtiga
-Mais chato que gilete caída em chão de banheiro
-Mais caro que argentina nova na zona
-Mais cheio que corvo em carniça de vaca atolada
-Mais constrangido que padre em puteiro
-Mais conhecido que parteira de campanha
-Mais comprido que puteada de gago
-Mais comprido que cuspe de bêbado
-Mais coxuda que leitoa em engorde
-Devagarzito como enterro de viúva rica
-Mais difícil que nadar de poncho
-Mais duro que salame de colônia
-Mais encolhido que tripa na brasa
-Extraviado que nem chinelo de bêbado
-Mais faceiro que mosca em tampa de xarope
-Mais faceiro que ganso novo em taipa de açude
-Mais faceiro que pica-pau em tronqueira
-Mais feliz que puta em dia de pagamento de quartel
-Mais feio que briga de foice no escuro
-Mais feio que sapato de padre
-Mais feio que paraguaio baleado
-Mais feio que indigestão de torresmo
-Mais firme que palanque em banhado
-Mais por fora que cotovelo de caminhoneiro
-Mais gasto que fundilho de tropeiro
-Mais gostoso que beijo de prima
-Mais grosso que dedo destroncado
-Mais grosso que rolha de poço
-Mais grosso que parafuso de patrola
-Mais informado que gerente de funerária
-Mais medroso que cascudo atravessando galinheiro
-Mais nervoso que potro com mosca no ouvido
-Quente que nem frigideira sem cabo
-Mais sério que defunto
-Tranqüilo que nem cozinheiro de hospício
-Tranqüilo que nem água de poço
-Bobagem é espirrar na farofa
-Mais gorduroso que telefone de açougueiro
-Mais perdido que cebola em salada de frutas
-Mais feliz que gordo de camiseta
-Mais chato que chinelo de gordo

-Quieto no canto como guri cagado…

 

GAÚCHO A CAVALO

RESPEITO É BOM E TODOS MERECEM por alceu sperança

Cai a Lei de Imprensa. Cai, e já vai tarde, mais um resquício da ditadura sangrenta, enquanto outra ditadura é alimentada com uma campanha sistemática para acabar com o Congresso e desmoralizar o Poder Judiciário.

Vinícius dizia que “são demais os perigos desta vida”, mas não só pra quem ama. Os perigos rondam a todos, até e sobretudo para quem vive no desamor da família esfacelada, numa sociedade egoísta, rancorosa, desumana e “indignada” e do Estado incompetente.

E os jornalistas, como é que ficam nisso tudo?

É dever do jornalista defender os direitos humanos. É dever do jornalista respeitar o direito à privacidade do cidadão.

O jornalista não pode concordar com a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais, de sexo e de orientação sexual.

O jornalista não pode exercer cobertura jornalística, pelo órgão em que trabalha, em instituições públicas e privadas onde seja funcionário, assessor ou empregado.

Isso é lei para qualquer jornalista honrado, pois está configurado claramente no Código de Ética do Jornalista.

Não é preciso lei externa, advogado, promotor ou juiz lhe dizer que este é seu dever.

Mas jornalista algum tem o direito de contrariar os princípios de seu Código de Ética e acreditar que não pode receber uma merecida descompostura por trair sua própria lei, já que o Código de Ética deve ser a lei suprema, uma espécie de Constituição para o exercício dessa profissão.

O Código de Ética do Jornalista está em pleno (e necessário) vigor e quem se colocar contra ele – como os patrões de empresas jornalísticas e emissoras de rádio e TV que exigem de seus profissionais cometer crimes em nome da “audiência” – que o denuncie perante as autoridades e as entidades representativas da categoria.

Se está errado, que mude, uai! Como está certo, que se cumpra, ora!

Os jornalistas vivem pegando no pé dos médicos que não cumprem o Juramento de Hipócrates, e têm razão: estão defendendo a população.

De fato, não cumprir seu próprio Código de Ética é uma vergonha para um profissional.

Mais: os jornalistas estão sempre expondo à execração pública os advogados que sofrem a acusação de contrariar os princípios consignados em seu próprio estatuto.

Por isso não deveriam subir nas tamancas quando os advogados observam que eles mesmos, esses zelosos jornalistas, pisoteiam seu Código de Ética.

Cumprir o Código de Ética não é um favor à categoria, à sociedade e à própria família, mas um sinal de respeito a si mesmo e à opção profissional feita em um momento decisivo de sua existência.

Isso vale para todas as categorias profissionais. O policial também tem seu estatuto, cujo cumprimento pode lhe render tanto as homenagens devidas – será considerado da “banda limpa” da polícia – quanto às penas cabíveis, como a desmoralização e a expulsão do corpo funcional.

O advogado, até para exercer a profissão depois de se formar, precisa passar pelos crivos da OAB, a começar pelo teste da Ordem.

Quando tanto o policial quanto o advogado e o jornalista cumprirem dignamente seus próprios códigos de ética não será mais preciso haver conflitos:

  • Policial reclamando de jornalista que furou uma investigação e a prejudicou
  • Advogado reclamando que a polícia lesou os direitos de seus clientes e a imprensa expôs gente inocente à desmoralização pública
  • Advogado e jornalista denunciando policiais achacadores e torturadores
  • Policiais e advogados se queixando de que jornalistas, a serviço de maus patrões, atropelaram seu próprio Código de Ética, interessados mais em “audiência” que na dignidade profissional

Que cada profissional cumpra o seu próprio Código de Ética e se atenha ao estrito cumprimento do dever e da lei e não haverá mais desnecessários atritos entre profissionais extraordinariamente úteis para a comunidade:

  • O policial, tão necessário nesses tempos em que a bandidagem nos ataca até durante o dia
  • O advogado, que tem sido a consciência, o “Grilo Falante” da sociedade, tanto para protegê-la quanto para avisá-la de que há limites na busca pelo exercício das liberdades conquistadas
  • O jornalista, cujo exercício profissional é o melhor termômetro da democracia: quando ele tem liberdade de expressão, há democracia; quando não a tem, a democracia é uma farsa

Para concluir, o lembrete de um dos decanos do jornalismo brasileiro – Alberto Dines:

“A sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor”.

Exija um jornalismo melhor. Cobre de jornalistas, radialistas e homens de TV que honrem sua profissão em respeito ao público e a si próprios, conhecendo quais são as leis que regem o exercício desses profissionais acessando o Código de Ética do Jornalista em http://www.fenaj.org.br/Leis/Codigo_de_Etica.htm e o Código de Ética da Radiodifusão em http://www.fenaj.org.br/leis.php?id=11