A CARTA por hamilton alves

Quando abriu a carta (antes já identificara a remetente pela letra no envelope) notou que seu teor marcaria um desenlace. Uma letra pequena, pouco bem desenhada, como quem escreve às pressas, com pontuação irregular, uma infinidade de vírgulas, com algumas palavras mal grafadas, com pouco cuidado também pela correção gramatical – tudo isso saltava aos olhos desde o início.

                                   Leu muito interessado tudo que nela se continha. Não só interessado mas de forma até, pode-se dizer, apaixonada.

                                   Ansiava por ter notícias dela, que não lhe dera nenhuma desde que partira, a ponto de achar que murchara a relação que há tempos mantinham.

                                   Foi à Europa numa viagem de passeio. Disse-lhe que não demoraria muito. Seu intuito principal era espairecer. Há longos anos não fazia uma viagem.

                                   Ele era mais velho do que ela uns vinte e poucos anos, mas fisicamente não dava muito para notar. Era bem conservado, tipo atlético, sem gorduras. Conheceram-se numa viagem curta. Desde então começara o idílio. Tudo ia bem. Dir-se-ía que um descobrira a metade que lhe faltava no outro.       

                                   Ela era dada a escrever contos e poemas. Dera-lhe alguns para os ler. Achou-os não muito bons. Poesia muito ruim e contos na mesma linha. Não revelava talento literário. Mas nunca manifestou sua opinião. Procurava escamoteá-la falando de outra coisa. Quando abordava a questão procurava uma fórmula escapista qualquer.

                                   Não era uma mulher bonita, mas tinha um quê agradável, uma conversa boa, um ar distinto, um corpo ainda bem conservado. Ele próprio não sabia definir o que, na verdade, o atraía nela.

                                   Era uma criatura animada , que achava interesse em tudo, meio travessa.

                                   Gostava de sexo mais do que o admissível. A todo o momento o provocava. Mesmo em momentos que nem lhe passavam pela cabeça.

                                   Leu a carta até o fim. No último parágrafo dizia:

                                   “Estou em Paris. Como você sabe, minha irmã mora aqui. Convidou-me para morar com ela. Não tenho muito a perder aí no Brasil.

Achei um viúvo aqui também muito interessante, que está caído por mim.Tem além do mais uma boa situação. Escreve para jornais especialmente sobre arte. Nosso relacionamento esfriou nos últimos tempos. Pelo que entendo que devemos lhe por um fim”.

                                   Em seguida, saiu à rua desesperado, andando cabisbaixo sob uma garoa, sem atinar com nada.

                                   Sentou-se longamente num bar a refletir sobre o que lera. Pediu uma bebida. Sorveu-a como quem fazia a última coisa no mundo. Como quem ingere uma droga mortal.

                                   Ficou olhando um ponto qualquer sem maior interesse.

                                   Sem poder imaginar o que seria a vida daí por diante.

                                   Mas ergueu-se a custo.

                                   Um gato passou por ele sem que o notasse.

                                   A chuva despencou lá fora, mas não a percebeu. Sentia-se mais ou menos indiferente a tudo. Naquele mesmo momento, pegaria um avião para ir ao encontro dela.

Faria qualquer coisa louca ou desvairada.

 

Saiu a passos como um fantasma sem direção.

 

 

 

(maio/09)

 

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