KYRIE ELEISON poema de zuleika dos reis

A hora do não ser na espera por um Deus

ainda o nunca expresso desde o sempre

loucos gritos petrificados

unicamente âncoras lívidas

vagas naus por nenhum céu

incessante eco nas cavernas

voando sobre o mar asas sem bússola

luas de sonho a gemer nas manhãs

lento coração no galope dos mundos

recados do Silêncio nas grutas do sangue

entregues ao vento ausências rodopiando

apenas este pássaro estrangeiro

infinito olhar onde as naus se recolhem

folhas a agonizar sem testemunha

Kyrie eleison! No nada o deus se queda

em vão já, o tudo a vir a ser

a calmaria do crer por um segundo

de tudo somente o não que se preserva

do cais o olhar buscando o vento imóvel

sempre a do nada persistência inútil

sempre a do nada sapiência inútil

os planetas que se esquecem de girar

esboços em que se debatem os eus supostos

só, gritando, a nau de estar perdida

visões espessas no mar invisível

restos de brilho no que foi universo

líquidos sussurros

eretos pesadelos

assim este aglomerado em seus vãos próprios

infinita tarde a calar o casco dos segredos

os dias-pássaro migrantes paralíticos

sem voz o tempo inexistente

roçando a alma inverossímeis pedras

antepassada espera entre os escombros

insulado oceano

zarpar do único preciso tempo sem saída

a espera por um Deus na hora do não ser.

 

 

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