Arquivos Diários: 13 maio, 2009

POEMA DO MENINO DEUS de vera lúcia kalaari

ÊLE
ÊLE

Nasceste.
Chegaste num dia frio
De sol cadente.
Dormiras sobre estrelas
E trazias no cabelo
O ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro:
O peso assustador,
Esmagador,
Do mundo.
Trazes nos olhos
A pureza duma  açucena,
O brilhar de prantos
Que jamais choraste.
Nasceste.
Não vieste para reinar
Entre prata, ouro ou pedras.
Chegaste só
Com a neve que tombava
E a chuva que tamborilava
No telhado em ruina.
Agora, dormes num monte de feno quente
Cheirando a campo. Perto,tua mãe vela docemente,
Com o peso desse filho que é seu
E salvador do mundo.
Ninguém sabe que vieste.
Nasceste menino, Homem-Deus, para reinar.
Mas não ficaste.
Encontraste em cada esquina,
Um Judas p’ra te trair
Uma coroa d’espinhos p’ra te ferir,
E o peso de pecados a curvar-te,
A enterrar-se
Até ao fundo do teu coração.
Estás em tudo, Menino Deus…
Pena teres partido…
Não teres mantido teu reinado,
Tua humildade imensa de cordeiro
Entre os homens.
Porque entao, Menino Deus,
Esta não seria a terra
De rios entumescidos
De prantos e gemidos,
E nós não seríamos
Estes vermes rastejantes
De olhos suplicantes
Virados para Ti,
Numa ansia agónica de Te tocar
Sem termos forças 
Para Te alcançar.

DIÁLOGO POÉTICO VIRTUAL por marilda confortin

MARILDA & CORA

 

 – Não tenha medo do mar, não! Tormenta é renovação.

– Aé é? E o amor, há que temer?

– Ah… Esse eu não garanto. Tem sempre uma grande ressaca

e muito pranto. As vezes até mata.

– Não sei quando parar. Não delimito meus limites… não sei onde termina o mar e onde começa o céu.

– Ao léu, querida, ao léu….

– Espumas e nuvens me confundem.

– É que os horizontes se fundem.

– Pois é… Essa vida de alma fora do corpo faz a poesia achar pegadas onde não se pode mergulhar.

– Pois é…  nem todos os caminhos levam ao mar. Essa vida de veia exposta não mostra o tamanho da entrega.

– Mas vale a tinta da pena.

– Vale. Pena ela ser louca e breve feito horizonte tênue.

– É porque tua alma é maior que o peito.Vaza.

  1. – Pode ser… mas,  o fardo é pesado. Preciso manter os pés fincados no chão e as asas em constante ebulição.

– Talvez esse seja o preço dos que fazem diferença nessa existência.

– Talvez a gente sinta muito.

– Talvez a gente minta muito….

FRAGMENTAÇÃO DAS FLORESTAS por bento dias da costa neto

Com o desenvolvimento (desordenado e inconseqüente) humano vieram várias conseqüências para o meio e ambiente de uma forma geral, uma delas é a fragmentação das florestas. A fragmentação das florestas traz um inversão no lugar de termos grandes florestas temos várias florestas pequenas e com isso vêm as conseqüências. 
Para FLEURY(2003) “O processo de fragmentação florestal, além do isolamento e da redução de hábitat, produz um aumento do microhábitat de borda.” Isso significa dizer que o processo de fragmentação traz inúmeras conseqüências a fauna e a flora. A flora observamos as conseqüências com maior facilidade devido a extinção da mesma, já as conseqüências da fauna só é observada com uma análise critica e com um período de observação tendo em vista que o processo de extinção dos animais e a própria mutação do mesmo ocorrem no decorrer de um período e não de imediato como um desmatamento por exemplo.
A redução do habitat traz como conseqüência a falta de recursos alimentícios em uma quantidade que satisfaça a demanda, ou seja a quantidade de espécies que ainda estão no local – gerando com isso a redução ou até meso a extinção da espécie. Com relação as aves existe o problema que algumas se adaptam a toda uma floresta mas não conseguem se adaptar ao fragmento da mesma devido ao próprio espaço necessário ao seu desenvolvimento e a outras condições como o clima e a intervenção humana.
Diversidade biológica ” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica).

Os principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são:

  • ü Perda e fragmentação dos hábitats;
  • ü Introdução de espécies e doenças exóticas;
  • ü Exploração excessiva de espécies de plantas e animais;
  • ü Uso de híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de reflorestamento;
  • ü Contaminação do solo, água, e atmosfera por poluentes; e
  • ü Mudanças Climáticas.

Além dos motivos expostos, podemos acrescentar o empobrecimento genético como mais um causador da perda da biodiversidade nas florestas fragmentadas, devido ao isolamento das espécies elas passam a se inter-relacionarem gerando assim apenas um ciclo de reprodução.
Efeito de borda: 
“Bordas são áreas onde a intensidade dos fluxos biológicos entre as unidades de paisagem se modifica de forma abrupta, devido à mudança abiótica repentina das matrizes para os fragmentos e vice-versa” (Metzger 1999)
A estruturação da floresta é um importante aliado ou adversário das aves ou outras espécies, quanto mais estruturado for o fragmento mais proteção o mesmo dará as espécies, é importante também que o local seja circular e compactado para o seu interior resistir mais aos efeitos de borda. Já os fragmentos estreitos sofrem mais com o efeito de borda devido a falta de proteção ao seu interior. Mas existem espécies que se adaptam e vivem tranqüilamente nas bordas, da mesma forma que existem espécies que se isolam em fragmentos diferentes e devido as condições e os recursos diferentes aquela mesma espécie se transforma em duas espécies diferentes.
Algumas espécies aumentam sua densidade populacional em florestas fragmentadas, é o que denomina-se densidade compensatória. Uma das hipóteses levantadas para essa ocorrência é a diminuição da competitividade, tendo em vista que muitas espécies vão se extinguindo com o processo sendo assim diminuindo o número de predadores de outras. Outra hipótese é que em ambientes menores há- em alguns casos- a possibilidade de se explorar um gradiente maior de habitat’s do que em ambientes extensos( BLONDEL et al.1988). Para Anjos e Boçon (1999) as causas da densidade compensatória não estão claras mas elas podem ser diferentes de acordo com a auto-ecologia de cada espécie.
De uma forma geral é vista como negativa a fragmentação das florestas em relação a uma floresta completa. Devido as razões já expostas anteriormente, pode-se observar que os fragmentos não têm perspectivas a longo prazo sendo uma tendência o fim das espécies vivas contidas neles. Existe a possibilidade da criação de corredores que liguem os fragmentos próximos o que ainda gera bastante discussão por não se saber ao certo a eficiência dos mesmos. O certo é que os fragmentos tem suas vantagens por serem espaços verdes que servem de abrigo para muitas espécies, mas o ideal é a manutenção das grandes florestas e a recuperação de muitas outras, tendo em vista que no estado em que estamos não adianta apenas manter temos também que recuperar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLEURY, Marina. Efeito da fragmentação florestal na predação de sementes da palmeira jerivá (Syagrus romanzoffiana) em florestas semidecíduas do estado de São Paulo. 2003

METZGER, J.P.. Estrutura da paisagem e fragmentação: análise bibliográfica. Anais da Academia Brasileira de Ciências 71:445-463. 1999

BLONDEL, J. et al.. Birds impoverishment, niche expansion, and density inflation in mediterranean island habitats. Ecology, Washington, D.C., v. 69, p. 1899-1917,
1988.

ANJOS, L. dos; BOÇON, R. Bird communities in natural forest patches in southern Brazil. Wilson Bull., Lawrence, v. 111, n. 3, p. 397-414, 1999.

MARILDA CONFORTIN, a poeta, CONVIDA

Nesta sexta-feira, 15 de maio de 2009 depois das 19 horas, esqueça a casa e o trabalho e venha dar o seu grito de liberdade no bar “Do mato”      http://www.domato.com.br/

          Entre músicos, poetas, contadores de histórias e causos, estaremos celebrando (bebericando) nossa Lei Áurea Inconfidente: Prazer, Poesia e Liberdade.

          Em anexo, estamos enviando  o convite, endereço e a bandeira de nossa causa mui justa.

          Sua presença será comemorada com um Grito.

         Pre-requisito: Cantar nosso samba- manifesto, etnicamente correto: o samba do afro-descendente doido:

 

                     Samba do Afro-descendente doido

                          (Samba do Crioulo Doido)

                            

                             Composição: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

               Foi em Diamantina
               Onde nasceu JK
               Que a Princesa Leopoldina
               Arresolveu se casá
               Mas Chica da Silva
               Tinha outros pretendentes
               E obrigou a princesa
               A se casar com Tiradentes

               Lá iá lá iá lá ia
               O bode que deu vou te contar
               Lá iá lá iá lá iá
               O bode que deu vou te contar

              Joaquim José
              Que também é
              Da Silva Xavier
              Queria ser dono do mundo
              E se elegeu Pedro II
              Das estradas de Minas
              Seguiu pra São Paulo
              E falou com Anchieta
              O vigário dos índios
              Aliou-se a Dom Pedro
              E acabou com a falseta

              Da união deles dois
              Ficou resolvida a questão
              E foi proclamada a escravidão
              E foi proclamada a escravidão
              Assim se conta essa história
              Que é dos dois a maior glória
              Da. Leopoldina virou trem
              E D. Pedro é uma estação também

             O, ô , ô, ô, ô, ô
             O trem tá atrasado ou já passou

 

CONVITE DO MATO jpg

HAICAI de edu hoffmann

(da série haicai mas levanta)

 

 

 

 

 

          ah minha vizinha

 

 como é bom ouvir um blusão

 

        tirando sua blusinha

 

=

 

 

                                 simplicidade havia

 

                               bastava um cotonet

 

                              pra se ouvir a cotovia

 

 

 

           estudo para sol maior

 

 

 

 

 

                       um frio de dar dó

 

                 você lá, longe, meu violão

 

                    quando nosso sol  ?

SONHO poema de melinda gutierrez santiago

 

 

Telescópio imaculado,

Meu pensamento profundo,

Como num sonho encantado

Transporta-me a outro mundo.

 

Nasço de um mar transparente                     

Entre dragões de marfim

Em meio a estrelas cadentes

Com anjos e querubins.

 

Um fogo de verdes claros

Aquece meu ninho alvo.

Caminho por entre flores.

 

Tem na testa uma esmeralda

Com o brilho da esperança

Protege-me e acalma

Como se eu fosse criança.

OTTO RENÉ CASTILLO, o poeta revolucionário – por manoel de andrade


O sonho e o martírio de um poeta

Em meados de 1969, um exilado político guatemalteco me contou, em Santiago do Chile, a incrível história de um poeta queimado vivo em seu país. Em fins de 1970, quando de minha passagem pela Nicarágua, alguns intelectuais de esquerda e militantes sandinistas também

o poeta Otto René Castillo

o poeta Otto René Castillo

comentaram sobre o poeta-guerrilheiro Otto René Castillo, supliciado até a morte pela ditadura da Guatemala, em 1967.  Mas foi com os relatos dos poetas salvadorenhos que passei a construir a imagem heroica desse grande revolucionário.

A geração comprometida

Cheguei em San Salvador em janeiro de 1971 e, pelas referências que levava, de pronto fiz contato com alguns poetas salvadorenhos. A poesia borbulhava na Capital e uma jovem geração de excelentes poetas comandava a vida intelectual do país. Conheci alguns deles, e partilhei bons momentos de literatura, política e debate ideológico com Manlio Argueta,  José Roberto Cea,  Roberto Armijo, o veterano Tirso Canales e, o mais jovem deles, Alfonso Quijada Urias.  Todos, na época, na média dos 30 anos e quase todos, com várias premiações em diversos certames literários centro-americanos. Esses poetas, — integrantes de um grupo de brilhantes poetas, que ficou conhecido como a “Geração Comprometida”— alistaram seus versos nas trincheiras das lutas sociais e muitos deles foram perseguidos, encarcerados, torturados e exilados por empunhar a bandeira de um dos povos mais oprimidos e massacrados da América. Guardo há quarenta anos as palavras fraternas que Tirso Canales escreveu ao me presentear a coletânea poética De aqui em adelante, onde partilha suas 200 páginas com Argueta, Armijo, Cea e Quijada Urias.  Foram ele e Manlio Argueta que me falaram da solidária relação ideológica e literária que os ligou a Otto René Castillo em San Salvador, onde chegou exilado, em 1954, após o golpe do coronel Carlos Castillo Armas contra o governo democrático de Jacobo Arbenz, na Guatemala.

1º Exílio: El Salvador

Filho de uma família de classe média, Otto René Castillo nasceu em 1936 em Quetzaltenango, a segunda cidade do país. Sua precoce militância estudantil e revolucionária o obriga, com apenas 18 anos, a fugir da Guatemala e asilar-se em El Salvador, onde sobrevive trabalhando como vigia, pintor de parede e vendedor de livros. Apesar das dificuldades, ingressa na Universidade e entra numa fecunda fase de organização política e produção poética, despertando a atenção dos círculos de cultura salvadorenha ao ganhar, com apenas 19 anos, o Prêmio Centro-Americano de Poesia o qual lhe abre as portas da imprensa para a publicação de seus poemas. Sua poesia dessa época traz a marca de uma profunda nostalgia da pátria, cantando a dor de seu povo oprimido e a condição em que sobreviviam as comunidades indígenas, secularmente exploradas pelas oligarquias agrárias e as grandes empresas bananeiras norte-americanas. Seus poemas a Atanásio Tzul cantam a saga histórica desse grande líder indígena contra o colonialismo espanhol na região.  Apesar da sua juventude, revela-se um intelectual influente, enfatizando a necessidade de engajamento da arte e da literatura com as circunstâncias político-sociais por que passava o cenário centro-americano da época, governado pelos títeres do imperialismo norte-americano como os Somosas, Duvaliers, Trujillos etc. Com esse espírito, desfralda a bandeira da poesia com as cores das lutas sociais, seguindo os sulcos das primeiras trincheiras poéticas abertas no Continente, por César Vallejo, Miguel Hernandez, Nicolas Guillén e Pablo Neruda.

Seus três anos de exílio em El Salvador foram assinalados por uma intensa atividade política e literária. Nesse período, por várias vezes cruzou clandestinamente as fronteiras da pátria para manter-se informado dos planos revolucionários, cujas sementes de justiça social e liberdade germinariam alguns anos depois, nos embates da longa Guerra Civil, que por 36 anos mergulharia o país nas águas sangrentas de um imenso massacre social.  Com uma marcante personalidade, aberto, envolvente e apaixonado pela vida, sua figura humana deixou um rastro indelével entre a juventude salvadorenha da época, onde fundou, em 1956, com Manlio Argueta, Roberto Armijo e o lendário poeta-guerrilheiro Roque Dalton, seu íntimo amigo, o Círculo Literário Universitário. Esse grupo tinha como lema a frase “No hay estética sin ética” e contava, segundo Argueta, entre seus conselheiros, com Miguel Angel Astúrias, na época embaixador da Guatemala em El Salvador,  cuja obra, galardoada com o Nobel de Literatura em 1967, circulava naqueles anos, combinando a grandeza da cultura maia com o protesto e a denúncia das atrocidades cometidas pelo ditador guatemalteco Manuel Estrada Carrera.

Alemanha: Estudos de Letras e Cinema

Com o assassinato do ditador Castillo Armas em 1957, Otto regressa no ano seguinte à Guatemala, onde inicia o curso de Direito na Universidade de São Carlos, que o distingue com o prêmio “Filadelfo Salazar” de melhor estudante, recebendo uma bolsa para estudar na República Democrática Alemã. Dois anos depois, inicia seus estudos de Letras em Leipzig, mas em 1962 interrompe a vida acadêmica para estudar cinema na Brigada Joris Ivens – cineasta holandês que comanda um grupo de filmagens para divulgar as lutas de liberação latino-americana.[1]

Na época, era grande o interesse dos jovens intelectuais europeus em testemunhar e documentar um fenômeno histórico com tanta riqueza social e política como o que estava acontecendo na América Latina. Encontrei muitos deles ao longo dos caminhos da América e, dentre tantos, recordo minha bela amizade, em La Paz, com o cineasta italiano Franco Lazaretti, da RAI – Rádio e Televisão Italiana, quando filmava, em maio de 1970, um documentário sobre o indígena boliviano.[2]

A América revolucionária na década de 60

Na década de 60, ao longo das Américas, as vanguardas revolucionárias começaram a cavar as primeiras trincheiras de luta herdadas da Revolução Cubana que ao sul foram abertas pelos tupamaros uruguaios e  atravessaram a Cordilheira para unir comunistas e socialistas nos quadros chilenos do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária). Subindo o Continente pela floresta boliviana, onde, em 1967, transitava a coluna de Che Guevara, essas trincheiras, quatro anos antes, já haviam cortado o Peru pelo vale do Cuzco, onde a guerrilha trotskista do agrônomo Hugo Blanco — e onde morreu, aos 21 anos, o grande poeta Javier Heraud  —  levantava  a bandeira dos camponeses secularmente oprimidos pelos grandes latifúndios. Foi também essa bandeira que motivou o padre colombiano Camilo Torres a trocar a batina pelo fuzil e levou Douglas Bravo a tantas façanhas nos estados venezuelanos de Falcón e Mérida. Com esse mesmo grito de combate em 1967, os sandinistas declararam guerra aberta ao somozismo, na Nicarágua, e seus ecos continentais eram ouvidos além das fronteiras da Guatemala, ressoando até a guerrilha de Genaro Vasquez, no estado mexicano de Guerrero.

2º Exílio: Europa e missão cultural internacional

Atraído por esse contagiante espírito de luta continental, Otto René Castilho, ao terminar seus estudos na Alemanha, regressa em 1964 a seu país, reiniciando sua apaixonada militância política e cultural ao partilhar as atividades clandestinas da luta armada com a direção do Teatro Municipal da Cidade de Guatemala. Contudo, no ano seguinte, quando se preparava para filmar, nas montanhas, as atividades guerrilheiras das Forças Armadas Rebeldes (FAR), é preso e novamente enviado para o exílio. Pela sua capacidade e coerência ideológica, as organizações revolucionárias da Guatemala o nomeiam representante do país no Comitê Organizador do Festival Mundial da Juventude a realizar-se na Argélia e, com essa missão, percorre a Alemanha, Áustria, Hungria, Chipre, Argélia e Cuba, onde se detém por alguns meses a fim de vivenciar toda a rica experiência social e política com que a Revolução Cubana instalava o socialismo no país.

O retorno – o problema agrário – a Guerra Civil

Em 1966, ao se iniciar a Guerra Civil, Otto René Castillo retorna clandestinamente à Guatemala para integrar-se na luta patriótica contra a oligarquia agrária e a cobiça estrangeira instalada em seu país. Identificado com o passado glorioso de seu povo  — cuja feição cultural fora despedaçada pelo colonialismo espanhol e humilhada pela sociedade  criolla — seu sonho era ver uma Guatemala livre do domínio interno e externo e a maioria indígena integrada às suas raízes e à cidadania nacional. Mas encontra a soberania da pátria hipotecada pelos interesses comerciais das grandes companhias norte-americanas.

Quando passei pela Guatemala em janeiro de 1971, qualquer análise que se fizesse sobre os conflitos sociais que assoberbavam a região levava diretamente ao problema agrário, e nesse “território”, o trust bananeiro United Fruit, era visto como um estado dentro do estado. Enquanto 266.000 pequenas propriedades cultivavam tão somente 9% da área agrícola do país, mais de 40% da superfície agrária era ocupada pelos latifúndios de apenas 158 grandes proprietários e, neste contexto, o império territorial da United Fruit Company ocupava 25% de toda a terra produtiva da nação.[3] Esses dados, por si só, falam com eloquência das causas que levaram o país a uma Guerra Civil tão cruel. A repressão política interna e o domínio econômico externo eram as faces de uma mesma moeda com que se pagava a extrema miséria do povo. Foi esse poder “invisível” que derrubou o governo de Jacobo Arbenz em 1954.  Com o apoio da oligarquia agrária, a expedição mercenária de Castillo Armas planejada pela Companhia United Fruit, a CIA e o Secretário de Estado americano John Foster Dulles, – que, anos antes, fora um dos advogados da Companhia – não tinha outro objetivo militar senão impedir que Arbenz fizesse a reforma agrária como se propunha. Como se sabe, a Guerra Civil que daí surgiu foi um conflito longo e sangrento que se arrastou de 1960 a 1996, quando os governos militares e os movimentos guerrilheiros se envolveram numa luta onde os mortos e desaparecidos somaram cerca de 300 mil pessoas.

O engajamento revolucionário

Assim, ao chegar à Guatemala em 1966, Otto René Castillo retoma a bandeira pela dignidade do seu povo. De uma pátria onde 90% da população não tinha terra para  semear sua própria sobrevivência. Uma pátria de excluídos, socialmente abandonados à própria sorte e onde 70% de seus irmãos não aprendera a ler. Ele sabia que sem a guerra ninguém iria repartir a terra e é nesse impasse na história de seu povo que  incorpora-se às Forças Armadas Rebeldes (FAR) comandadas por César Montes, ocupando-se do setor de Propaganda e Educação da Frente Edgar Ibarra. Cerca de um ano depois, em março de 1967, quando parte da Frente deslocava-se pelo relevo selvagem, no leste montanhoso do país, confrontou-se com inimigos fortemente armados e, nesse combate, caiu Otto René Castillo e sua companheira, a guerrilheira Nora Páiz. O enfrentamento se deu em Sierra de las Minas, entre a coluna guerrilheira e as tropas mercenárias do governo de Julio César Méndez Montenegro. Conta-se que, nesse embate, somente teria sobrevivido Pablo Monsanto que, cerca de 40 anos depois, disputou, pelas forças de esquerda, a presidência do país.

O suplício e a morte

Otto René Castillo foi levado para uma base militar na cidade de Zacapa e ali barbaramente torturado e mutilado. Como manteve heroicamente o silêncio sem entregar qualquer informação sobre os quadros da organização, um capitão do exército, enquanto recitava debochadamente os versos do seu poema Vámonos pátria a caminar, ia cortando seu rosto com uma lâmina de barbear. Diante de seu silêncio, passaram a queimá-los vivos – o poeta e Nora, seu amor – entre os dias 19 a 23 de março, martirizados num lento suplício, inenarrável na expressão humana. O poeta e ensaísta salvadorenho Roque Dalton descreveu com as seguintes palavras os últimos momentos de seu camarada: “Seus próprios verdugos testemunharam sua coerência e sua coragem ante o inimigo, à tortura e à morte: morreu como um inquebrantável lutador revolucionário, sem ceder um milímetro no interrogatório, reafirmando seus princípios embasados no marxismo-leninismo, em seu fervente patriotismo guatemalteco e internacional, em seu convencimento de estar seguindo – por sobre todos os riscos e derrotas temporais – o único caminho verdadeiramente libertário para nossos povos, o caminho da luta armada popular.”

O poeta

Assim, aos 31 anos, foi silenciada uma das mais belas vozes da poesia latino-americana, muito antes que seu potencial poético pudesse amadurecer ainda mais seu lirismo e seu imenso compromisso político com a história de sua amada Guatemala. Um sonho libertário, regado com o rocio da esperança, comandou sua curta existência. Vivia somente para esse sonho. Guardado como um tesouro no sacrário da alma, sua força misteriosa inundou seus versos com o amor pela pátria e por seu povo:

Pequeña patria mía, dulce tormenta,

un litoral de amor elevan mis pupilas

y la garganta se me llena de silvestre alegría

cuando digo patria, obrero, golondrina.

Es que tengo mil años de amanecer agonizando

y acostarme cadáver sobre tu nombre inmenso,

flotante sobre todos los alientos libertarios,

Guatemala, diciendo patria mía, pequeña campesina.

(…)Pequeña patria, dulce tormenta mía,

canto ubicado en mi garganta

desde los siglos del maíz rebelde:

tengo mil años de llevar tu nombre

como un pequeño corazón futuro

cuyas alas comienzan a abrirse a la mañana.(…)

Distante de tu rostro (fragmento)[4]

Sua obra poética é reconhecida e celebrada em seu país e se projeta atualmente para o exterior.  No ano de 1964 publicou o livro Tecún Umán. Seu grande poema Vámonos Pátria a caminar, deu título, em 1965, a uma coletânea de poemas, muitos deles escritos na prisão, e que em 1968 foram editados no México, com prólogo de seu antigo comandante César Montes. Alguns catálogos editoriais apresentam o poemário Informe de uma injusticia, publicado em 1975 e que dá título a um dos poemas publicados no livro Vámonos Pátria a caminar.  Depois de sua morte, um familiar seu, residente na Alemanha, encaminhou a Roque Dalton uma grande quantidade de poemas escritos nos anos que precederam sua morte.

Além dos vários prêmios recebidos em concursos centro-americanos, sua poesia recebeu em 1957 o prêmio Internacional de Poesia de Budapeste; em 1958 lhe outorgaram o prêmio Filadelfo Salazar, da Universidade de São Carlos da Guatemala e posteriormente uma antologia de sua obra, chamada Poemas, recebe o importante prêmio Casa de las Américas, em Havana. Seus versos bebem, com o sabor das metáforas, a seiva das raízes culturais do seu povo, indígena e explorado. Canta para não deixá-lo morrer; canta para que seu nome se enrede no mar e nas estrelas e sobreviva palpitante no seu grito.

(…)Para que nadie diga: ¡tierra mía!,

con toda la decisión de la nostalgia:

canto.

Por lo que no debe morir, tu pueblo:

canto

Me lanzo a caminar sobre mi voz para decirte:

tú, interrogación de frutas y mariposas silvestres,

no perderás el paso en los andamios de mi grito,

porque hay un maya alfarero en tu corazón,

que bajo el mar, adentro de la estrella,

humeando en las raíces, palpitando mundo,

enreda tu nombre en mis palabras (…)

Nuestra voz (fragmento)[5]

Toda a sua poesia é, por vezes, um radical ato de denúncia, como no poema “O Túmulo de Deus”, onde ele canta a sorte desigual das criaturas e a ironia com que a justiça humana julga o oprimido e o opressor.  Mas sua poesia é também um comovente gesto de amor pela vida. Cantam o amor, mas o amor sublimado por um sonho libertário, o amor despojado pelo engajamento.  O amor pela mulher amada que se desfralda empunhando com ela a mesma bandeira da justiça e da liberdade.

(…)Pero a tí te quiero.

No por bella que eres.

Ni por lo fluvial de tus ojos,

cuando ven que voy y vengo,

buscando, como un ciego, el color

que se me ha perdido en la memoria.

Ni por lo salvaje de tu cuerpo indomable.

Ni por la rosa de fuego, que se entrega

cuando la levanto del fondo de la sangre

con las manos jardineras de mis besos.

A tí te quiero, porque eres la mía.

La compañera que la vida me dió,

para ir luchando por el mundo.(…)

Respuesta (fragmento)[6]

Em meados de 1971, num encontro com o escritor equatoriano Miguel Donoso Pareja, na Cidade do México, onde se exilara desde 1964, recebi um exemplar de seu último livro, “Poesia Rebelde de América”, um adensado volume de 400 páginas, lançado naqueles dias na capital mexicana.[7] Ao longo do índice, 24 paises do Continente perfilavam-se, alfabeticamente, nos cantos de mais de uma centena de poetas. Ali estava o Brasil, honrado com os versos de Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Vinícius de Moraes, Thiago de Mello, Affonso Romano de Sant’Anna, Ferreira Gullar, entre outros. Nesse elenco de tantos nomes, alguns dos quais eu conhecera ao longo dos caminhos da América, três grandes poetas representavam a heroica Guatemala: Otto-Raúl Gonzalez, Marco António Flores e Otto René Castillo. Que surpresa! Apesar da sua juventude e dos quatro anos de sua morte a poesia de René Castillo já cruzava as fronteiras da pátria  para alinhar-se a dos maiores poetas da América. Donoso escolhera o poema “Viudo del mundo”, escrito por Otto ante a patética certeza de sua morte iminente  e por declinar, em cada verso, sua inalterável coragem e a imensa esperança com que lhe “hubiera gustado llegar hasta el final”:

Compañeros mios

yo cumplo mi papel

luchando

con lo mejor que tengo.

Que lástima que tuviera
vida tan pequeña,
para tragedia tan grande
y para tanto trabajo.

No me apena dejaros.

Con vosotros queda mi esperanza.

Sabeis,

me hubiera gustado

llegar hasta el final

de todos estos ajetreos

con vosotros,

en médio de júbilo

tan alto. Lo imagino

y no quisiera marcharme.
Pero lo sé, oscuramente
me lo dice la sangre
con su tímida voz,
que muy pronto
quedaré viudo del mundo.

Viudo del mundo [8]

O Herói nacional

Sua saga como combatente e a entrega de sua vida como aval de um postulado teórico, fizeram deste grande poeta um herói nacional. Seu nome hoje é uma referência histórica na Guatemala, quer pela beleza de sua poesia, quer pela imagem do seu comprometimento político aureolado com a coroa do martírio. E foi pelo mistério da poesia que ele, de certa forma, predisse o seu próprio destino:

Vámonos patria a caminar, yo te acompaño

Yo bajare los abismos que me digas.

Yo beberé tus cálices amargos.

Yo me quedare ciego para que tengas ojos.

Yo me quedare sin voz para que tú cantes.

Yo he de morir para que tú no mueras,

para que emerja tu rostro flameando al horizonte

de cada flor que nazca de mis huesos.(…)

(fragmento) [9]

Este seu poema, Vámonos patria a caminar,  é hoje uma legenda na memória do povo guatemalteco. Conta-se que, durante os horrores da Guerra Civil, seus versos iluminados pelo sonho libertário foram como um farol naquela imensa noite de tempestade e que era cantado pelo povo como hino de luta contra a opressão das ditaduras militares.[10]

Sua bravura como combatente, foi reconhecida já na década de 80, quando o Exército Revolucionário dos Pobres, – organização guerrilheira surgida na década de 70 como uma dissidência das FAR – dirigido pelo Comandante Rolando Morán  e que, na época, contava com cerca de 250.000 combatentes, deu a uma de suas frentes guerrilheiras urbanas o nome de Otto René Castillo, a par de outros nomes como Che Guevara, Sandino e Ho Chi Mihn.

Tributo do autor

Em outubro de 1969 escrevi em Cochabamba um longo poema chamado “O sonho do semeador” onde tributo, em meu livro Poemas para a Liberdade, uma solidária homenagem a este grande poeta:

Poetas da América…

nós que herdamos a canção continental de Whitman,

e o homem sincero nos versos  de Martí.

(…)Nós que escutamos ainda próximo

o eco colombiano de Gaitán,

e a sinfonia altiplânica  no verso maior de Vallejo.

Nós que hoje cantamos com Guillén, com Neruda e Benedetti

e que daqui evocamos a Otto René Castilho,

poeta e combatente,

martirizado na fogueira acesa por Méndez Montenegro.

Salve hermano, memória heróica na massacrada Guatemala,

eu te saúdo hasta siempre com o lirismo dos meus versos

e digo  contigo: Vámonos, todos con la  patria a caminar.(…)

(fragmento)

Otto René Castillo e Che Guevara: Juntos???

Finalmente vale a pena fazer aqui uma curiosa conjetura. Em 1954 o médico argentino Ernesto Guevara de la Serna estava na Capital da Guatemala participando do governo revolucionário de Arbenz, no Instituto Nacional de Reforma Agrária. Naquele ano, ele e o Comandante guerrilheiro Rolando Morán fizeram uma amizade que duraria até a morte do “Che” na Bolívia. Sabemos que, neste mesmo período, Otto René Castillo também transitava na Cidade de Guatemala como militante do Partido Guatemalteco do Trabalho (nome do Partido Comunista) e que, em 1953, um ano antes do golpe contra Arbenz, participava ativamente da vida estudantil na Capital do país. Naquele ano, foi nomeado presidente da Associação dos Estudantes Secundários. Em face das afinidades ideológicas, já que tanto Ernesto como Otto tiveram que deixar o país depois do golpe, perguntamos se, naquela época, ambos defensores do governo revolucionário de Arbenz, não tenham  partilhado algum relacionamento pessoal, ainda que Otto tivesse 18 anos e Ernesto 26.  Quem sabe os futuros biógrafos do poeta possam levantar esta mesma hipótese.

O que, com certeza, se pode afirmar é que o golpe militar contra o governo democrático de Arbenz deixou em ambos uma mesma opção, expressa na militância armada que marcaria o resto de suas vidas até que fossem assassinados no ano de 1967: a convicção  de que as transformações revolucionárias nas estruturais sociais dos países latino-americanos   não seriam possíveis pelas vias pacíficas.[11]

____________________________________________________________

Notas, referências e traduções:

1. Era uma honra para poucos fazer parte das Brigadas de Joris Ivens, naquela época já celebrizado por uma série de filmes e documentários, considerados verdadeiras obras primas do cinema. Uma delas, o clássico “Terra de Espanha”, foi rodado em 1937  – escrito e narrado por Ernest Hemingway e  com o apoio de grandes intelectuais de esquerda, como John dos Passos e  Luis Buñuel – para financiar as Brigadas Internacionais, formadas, sobretudo, por voluntários franceses, alemães e norte-americanos, que lutavam contra o franquismo na Guerra Civil Espanhola. Comunista sem partido e considerado um dos mais importantes documentaristas da história do cinema, Joris Ivens sempre direcionou sua câmera para valorizar a condição humana, a importância da Natureza e, sobretudo, o significado das lutas sociais contra a opressão e as injustiças.

2. Nesse sentido, o exemplo mais marcante foi deixado pelo filósofo e jornalista francês Regis Debray  – pai da teoria do foco guerrilheiro –, que ainda muito jovem conheceu, no início dos anos sessenta, a guerrilha venezuelana de Douglas Bravo, acompanhou o processo de instauração da Revolução Cubana e se tornou amigo de Fidel Castro e de Che Guevara, com quem esteve em Nancahuazú em 1967 e, ao sair, foi preso, “julgado” e condenado à prisão na cidade boliviana de Camiri, onde o autor deste texto tentou entrevistá-lo em abril de 1970.

3. Enrique Ruiz García, América Latina Hoy, Ediciones Guadarrama, Madrid, 1971

4. A tradução deste e dos demais fragmentos poéticos foi feita pelo autor do texto.

Pequena pátria minha, doce tormenta, / um litoral de amor elevam minhas pupilas/ e a garganta me enche de silvestre alegria/ quando digo pátria, operário, andorinha. /  É que tenho mil anos de amanhecer agonizando / e adormeço como um cadáver sobre teu corpo imenso, / flutuando sobre todos os alentos libertários, / Guatemala, dizendo pátria minha, pequena camponesa. / (…) Pequena pátria, doce tormenta minha, / canto situado em minha garganta/ desde os séculos do milho rebelde: / tenho mil anos em carregar teu nome / como um pequeno coração futuro / cujas asas começam a abrir-se ao amanhecer.

5. Para que ninguém diga: terra minha!, / com toda a força da saudade:/ canto. / Por que não deve morrer, teu povo: / canto / Lanço-me a caminhar sobre minha voz para dizer-te: / tu, interrogação de frutas e mariposas silvestres, / não perderás o passo nos andaimes do meu grito, / porque existe um oleiro maia no teu coração, / que sob o mar e no seio das estrelas,  / fumegando nas raízes, palpitando pelo mundo, / enreda teu nome em minhas palavras.

6. Mas a ti eu quero. / Não por bela que és. / Nem pelo fluvial dos teus olhos, / quando vêem que vou e venho, / buscando, como um cego, a cor / que se tenha perdido na memória. / Nem por teu corpo selvagem e indomável. / Nem pela rosa de fogo, que se entrega / quando a levanto do fundo do seu sangue / com as mãos jardineiras dos meus beijos. / A ti eu quero, porque és a minha/ A companheira que a vida me deu, /para ir lutando pelo mundo.

7. Miguel Donoso Pareja, Poesia Rebelde de América, Editorial Extemponáneos, México, 1971

8. Companheiros/ cumpro meu papel/ lutando/ com o melhor que tenho./ Que lástima eu ter/ uma vida tão pequena,/ para tragédia tão grande/ e para tanto trabalho. Não sinto pena em deixá-los./ Com vocês fica minha esperança./ Sabeis,/ me houvera gostado/ chegar até o final/ de todos estes encontros/ com vocês/ em meio a júbilo/ tão alto. Eu o imagino/ e não quisera partir./ Mas eu sei, sombriamente/ me revela o sangue/ com sua tímida voz,/ que em breve/ ficarei viúvo do mundo.

9. Vamos pátria a caminhar, eu te acompanho / Eu descerei aos abismos que me digas. /Eu beberei teus cálices amargos./ Eu ficarei cego para que tenhas olhos./ Ficarei sem voz para que tu cantes. / Hei de morrer para que tu não morras, / para que surja teu rosto flamejante no horizonte / de cada flor que nasça dos meus ossos.

10. Talvez algo semelhante ao significado de protesto e símbolo de luta que teve, aqui no Brasil, a canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré.

11.Enrique Ruiz García, op.cit.

BOLO DE BATATA conto de guilherme cantidio

Bolo de Batata
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
Guilherme Cantidio – AGOSTO/2008
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
 AGOSTO/2008