BOLO DE BATATA conto de guilherme cantidio

Bolo de Batata
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
Guilherme Cantidio – AGOSTO/2008
– Galego, você gosta de bolo de batata? – dona Flor foi logo perguntando, ao mesmo tempo em que entrava abruptamente na sala, interrompendo o namoro de Norminha.
– O que é isso, mamãe? – reclamou Norminha, desconcertada com o flagra.
– Adoro, dona Flor – disse Dilson, mais para desfazer o constrangimento do que por interesse no bolo – na verdade é o meu preferido. Vovó faz um bolo de batata…
– Espere só até você experimentar o meu. Já está no forno; só mais uns vinte ou trinta minutinhos…
Enquanto falava dona Flor voltou à cozinha tão rapidamente quanto entrara na sala. Era impossível disfarçar o orgulho que sentia em ver a filha solteira com um namorado tão bonito e educado como Dilson. “Um pão”, como se dizia naquela época. Louro, forte, bronzeado pelo sol das praias da Natal dos anos sessenta, Dilson mais parecia um surfista californiano. Calça Lee apertada, cinto tipo militar, camisa vermelha, sapato sem meia  – cada peça da indumentária (ou ausência dela) tinha um mesmo significado: rebeldia.
– Prontinho! acabei de tirar do forno – falou dona Flor com um prato na mão, com uma fatia enorme de bolo ainda fumegando – depois me diga se gostou.
A cada garfada  Dilson fingia descaradamente: “humm… hummm…”, e a cada “humm” dona Flor ficava mais envaidecida, mas, como ainda não tinha escutado um veredito, provocou:
– E então, galego, é bom ou não é?
– Uma delícia; o melhor que já comi, que minha vozinha não me escute. Parabéns.
Era tudo que ela queria escutar. O ego inflado, junto com a vontade de agradar o futuro genro foi a combinação perfeita para que não faltasse mais bolo de batata em casa. Farinha de trigo, leite, ovos, açúcar e, claro, batata doce. Era só misturar, bater tudo e pronto.
– Galego, adivinhe o que tem pra o lanche hoje!…
E assim foi durante semanas e mais semanas, muitas vezes na chegada e pouco antes da despedida: dose dupla de bolo de batata.
– Galego, faça-me o favor, não se acanhe de pedir bis. Pode repetir à vontade.
Dilson já não suportava nem o cheiro do malfadado bolo de batata. Arrependia-se amargamente de tê-lo elogiado tanto, mas não cogitava da possibilidade de falar a verdade pra dona Flor. A coitadinha não tinha estrutura emocional pra suportar a crueza da verdade: seu famoso bolo de batata não só não fazia mais nenhum sucesso, como, na verdade, causava enjôo. A última fatia que Dilson se viu obrigado a engolir por pouco não provocou vômito. Alguma coisa precisava ser feita, e logo. Chegou a pensar em faltar ao “expediente” na casa da namorada, não por causa dela, mas do bolo da mãe dela. Não. Não era por aí. Tinha que encarar a situação de frente. Quem sabe, com um pouco de sorte, ao chegar por lá, não iria escutar doces palavras, assim como: “faltou energia e não deu pra fazer bolo hoje”; ou então, com um pouco mais de sorte: “a batedeira quebrou e o técnico falou que o conserto vai demorar uma semana”.
De posse desses pensamentos positivos, lá se foi Dilson ao velho endereço de Norminha: avenida Tertuliano de Almeida 830.Tocou a campainha.
– Quem é? – perguntou lá de dentro dona Flor.
– Sou eu, Dilson.
– Entre, meu filho. Infelizmente… 
“Opa”, pensou logo Dilson. “esse negócio de pensamento positivo funciona mesmo. Alguma coisa saiu errado”. 
– Infelizmente – emendou dona Flor – Norminha está tomando banho. Acabou de entrar no banheiro. Mas sente aí e ligue a TV enquanto eu vou pegar seu bolinho preferido.
“É hoje. tem que ser hoje. Na verdade vai ser agora”, determinou Dilson.
– Prontinho, galego. Bolo de batata e água geladinha.
– Dona Flor, será que a senhora me faz um favor? É que estou com a garganta irritada…a senhora troca por água natural?
– Claro, meu filho. É pra já.
Foi só o tempo exato de dona Flor entrar de volta na cozinha para Dilson pegar o bolo e sair em disparada até a varanda. Recuou uns dois ou três passos e arremessou o bolo no telhado, bem numa reentrância formada entre o telhado da sala e o da varanda. Voltou correndo e ainda teve tempo de mudar o canal da TV e simular uma mastigação inexistente. Foi tão cara de pau que ainda pediu um palito. Ficou de tal maneira satisfeito com o resultado da empreitada, que se deu ao luxo de brincar com fogo:
– Seu bolo continua uma delícia, Dona Flor.
Por onde passa um boi, passa uma boiada, diz o ditado. Daí em diante, cada vez que Dilson recebia o bolo de batata, empenhava-se em conseguir trinta segundinhos de  privacidade. Era o suficiente; disfarçava daqui e dali e pronto: corria até além da varanda e…vupt – arremesso de bolo ao telhado. E que satisfação isso lhe trazia; vibrava; não conseguia disfarçar o sorriso no rosto.
Dois meses e algumas dezenas de arremessos depois, o namoro terminou. Norminha arranjou outro namorado. Não demorou muito e casou. Contra a vontade de dona Flor, que ainda tinha esperança de que ela voltasse a se entender com Dilson que, por sua vez, também casou algum tempo depois.
Sabe-se ou, pelo menos, sente-se que o tempo, célere, voa. A provinciana Natal de meados dos anos anos sessenta, cuja juventude era embalada por Beatles, Rolling Stones e a trupe da Jovem Guarda, cedeu lugar à cosmopolita Natal do século XXI. A cidade transformou-se em um “canteiro de obras” como adoram dizer os políticos. Uma dessas obras, a restauração de um casarão antigo, ganhou espaço na mídia. O matutino Diário da Cidade, em sua edição de vinte de novembro de 2005, publicou uma matéria com a seguinte manchete : “Mistério no bairro do Alecrim”.
Dilson, já desfrutando da merecida aposentadoria, lia tranqüilamente o jornal, acompanhado da mulher, filhos e netos. Ao deparar-se com a manchete interessou-se pelo assunto, pois julgava tratar-se de um caso de investigação policial, assunto pelo qual tinha especial interesse, desde garoto. Ajeitou-se melhor na poltrona e, repentinamente, franziu a testa e arregalou os olhos, numa expressão de espanto; segundos depois esboçou um sorriso descontraído que, ato contínuo, transformou-se em uma sonora gargalhada que lhe fugia ao controle e, em um crescendo, contagiou a todos na sala. Dilson sentia espasmos e implorava  aos netos que parassem de rir para que ele próprio conseguisse se controlar. Debalde. Eis o texto da matéria:
“Um fato inusitado, ainda sem explicação, ocorreu na semana passada  na  avenida Tertuliano de Almeida, no Alecrim. Operários que trabalhavam na restauração da casa 830, na mencionada avenida, encontraram dezenas de ratos mortos, já fossilizados, no telhado. Intrigado, o proprietário informou o ocorrido à Vigilância Sanitária que, de pronto,  encaminhou seus técnicos ao local para verificação.
– Nunca vimos nada parecido – declarou o chefe da equipe da Vigilância Sanitária. – rato morto em casa velha é coisa normal, mesmo no telhado. O intrigante é a concentração. Em um espaço de oito, no máximo dez metros quadrados encontramos cerca de quarenta.
Alguns exemplares foram encaminhados para análise detalhada nos laboratórios da UFRN que acabou de divulgar o resultado, embora inconclusivo. Em entrevista exclusiva ao Diário da Cidade o Dr. Mousinho, chefe do Departamento de Farmácia e Bioquímica, que analisou as amostras, declarou:
– A verdade é que estamos intrigados e contamos com vocês, da imprensa, para tentarmos elucidar o caso. O que temos de concreto é que, em cem por cento das amostras, encontramos elementos como amido, fósforo, enxofre, etc. que nos permitem afirmar que houve ingestão de batata doce por todos os animais. Como sabemos que batata doce não é letal para humanos nem, muito menos, para ratos, permanecemos num impasse. Conclamamos a vizinhança a nos fornecer qualquer informação que disponha sobre o local para nos ajudar a esclarecer o caso”.
 AGOSTO/2008

2 Respostas

  1. Evaldo, o fato que você narrou tem tudo a ver. O interessante é que conheci Ocihc Onov, só que refletido num espelho, em uma versão bem tupiniquim. Uma ocasião, no Planalto Central, aí por volta de 1975, o presepeiro me acordou de madrugada, contando com a cumplicidade de seu leal parceiro Odlave…
    (continua no próximo capítulo)

  2. Guilherme, este CONTO levanta várias hipóteses em nossas mentes. Cada pessoa vai pensar em algo diferente. Um amigo meu ia para um casamento com a esposa. Na véspera, tinha safadeado com uma secretária, e estava com a consciencia pesada. Quando estava no meio do caminho, rumo à igreja, ao passar a mão no assoalho atrás do seu banco, encontrou um sapato. Ato contínuo, jogou-o fora; mexeu um pouco e encontrou o outro, e o atirou fora, sempre com o cuidado de mostrar algo à esposa, para despistar. Ao chegar próximo à igreja, a mulher começou a procurar pelos seus sapatos, e jurava que os havia colocado atrás do banco. Até hoje Ocihc Onov, um iuguslavo bom de papo, jura para a esposa que ela veio para o casamento de pés descalços.

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