Arquivos Diários: 15 maio, 2009

INVASÃO DO INTERIOR E MUITAS SAUDADES poema de tonicato miranda

vieram de longe

Cabrobó, Seridó

Erechim

Bauru, Bangu

Feira de Santana

Cajazeiras

Patos de Minas

do Araguaia

dos matos dentro

dos matos afora

do mato nenhum

ficaram aqui

secura só

secura de dar dó

pau de arara

2 dias

3 dias

10 dias

pau de arara

duas saudades

três saudades

mil saudades

quanta distância

     quanta querência

     Eh, trem triste

alojamentos

feijão com farinha

comida na latinha

feijão tropeiro

feijão com paçoca

feijoada carioca

rapadura

charque de primeira

tutu à mineira

babel de alimentos

babel de expressões

tudo Português

língua igual

língua que não se entende

língua diferente

língua lingual, uau, au, au

cachorro sem dono

cachorro perdido

cachorro perdido, não

cabra macho

homem valente

homem tenente

homem temente

     a Deus somente

     Eh, trem triste

concreto e fôrma

concreto e forma

concreto edifício

edifício de concreto

concreto reto

concreto curvo

concreto em cima

concreto embaixo

concreto nos dedos

concreto nos olhos

bonito de ver

anjos pendurados

alguns de concreto

     outros carne de irmão

a cidade se espalha

cidade de palha

cidade de sobra

cama de madeira

cama de esteira

rede rede rede rede

Cidade Livre

Vila Planalto

Invasão do IAPI

Um trem corria aqui

Bem Aqqquuuuuííííííííííí!!!

     Bem Aqqquuuuuííííííííííí!!!

     TUDO É CANDANGO

TODOS SÃO

TUDO É LOUCO

CANDANGO

CANDANGO

CANDANGO

     CUIDADO CALANGO!

     Rodoviária

     Caxambu, Cambuquira,

     Rio do Sul, Rio do Norte, Rio Araguaia

     gente que vai, gente que vem

     Interior de Goiás, Minas Gerais,

     Interior da Bahia, lembrança à titia!

     Rodoviária

Paracatu, Paraopeba, Goiás Velho,

Goiás de novo, São Paulo, Zum Paulo

gente que vai, gente que vem

Interior de tantos ais, saudades do filho, saudades da filha

     Imensa saudade, que quadrilha

     Rodoviária

de frente para duas calotas

lá no fim da Esplanada

um prato virado

um prato elevado

dentro deles os temporários

do sul, do norte

muito mais das capitais

do que dos interiores

não ficavam aqui

viajavam até aqui

geraram fama ruim

não eram daqui

nossa fama cresceu

não sobrou nem pequi

apenas as mangas

     que nos obrigaram a chupar

     muitos ficaram

ficaram no seco ar

ficaram com os lobos

com o lobo guará

e até para lá foram morar

     burocracia

esplanada grande

ministeriada

latas de ferro pra lá e pra cá

     Eixão Rodoviário

o interior de Brasília são suas satélites

que ficaram maiores que a capital

quem virá mais?

em 67 menos de 200 mil habitantes

     e um milhão de visitantes.

Saudades tenho

de Erechim, de Realeza

de Pau dos Ferros, de Juazeiro

da campanha nos matos

da luta na estiva de todo cais

saudades da caatinga, dos pampas

     do cerrado e das minas gerais

     Saudades

de todas os bodes e jegues

e dos bois de caras pretas e de todos os tons

dos bois malhados de caras marrons

do zebu e da andorinha na sua corcova

pastando lá longe onde a curva dobra

Saudades da Brasília que não foi-se embora

da nossa memória do tempo atrás

quando da cidade se lançava ao empréstimo sem mora

como base sideral o planalto era a grande plataforma

lançando foguetes ao rumo futuro

     o rumo que eu ainda procuro

 

 

 

 

 

Tonicato Miranda

     Brasília, Set/2008

BURROUGHS poema de joanna andrade

Você é imbatível!

Foge do ponto.

Ingredientes Variados, Comum, Medidas Erradas.

Un mise-en-scène!

Type -A -behavior personality!

Lo Specchio retrovisore di angolo cieco!

Meu lado “Burroughs”.

 

 

JA/2009

Um dia, não sei de que ano / poema de cleto de assis

Um dia, não sei ao certo de que ano,

passei o dorso de minha mão em um rosto ferido

e meu gesto foi recebido como um imenso ato de ternura.

Assim foram muitos dos outros dias seguintes

até que o dia se tornou noite,

a ternura transmutou-se

em atos de extrema rudeza, quase morte.

 

O dorso de minha mão, minha mão inteira

e meu espírito todo

receberam a capa do tempo e incontáveis calos e cicatrizes.

De quando em quando, o consolo de um sonho melífluo, mas fugaz,

a reproduzir a ternura e os sabores e os perfumes

da intensa alegria dos encontros furtivos

com direito a cantiga de roda.

 

            Nesta rua, nesta rua mora um anjo

            que não veio, que não veio iluminar

            a janela, a janela da esperança

            e impediu, e impediu o amor de amar.

 

Quem dissecará comigo as sensações pessoanas

e olhará o mar com a certeza de que, além do horizonte,

há milhões de outros horizontes mais belos?

Quem aceitará voar comigo no céu sem fim

e catar estrelas, uma a uma,

para montar um grandioso colar de esperanças?

Quem conseguirá fazer-me companhia

para deslizar na suavimensa curva do infinito?

 

            Tinha um anjo, tinha um anjo nessa casa

            que eu deixei, que eu deixei esvoaçar.

            Foi-se a casa, a ternura e mais o anjo

            Só restou uma história pra contar.

 

E no fim da história

uma ternura tão suave e imensa

como o dorso de minha mão antiga.

 

 

Curitiba/setembro/2008

LAMPEJO DE ADAGA poema de j. l. gaspar

Quando fiquei doentinho, bem assumido

abandonei o ponto de fuga, monologando:

“Ó meu Jesus! Relumbrei no que vou mesmando.”

Eu que nada tenho contra os deuses

e seus filhos extraviados .

Não sabia que fazer com meu duplo,

pois que um só já me enchia a pélvis

Desde então temo morrer quantas

mortes sejam necessárias até o fim da definitiva.

Entrementes, devemos evitar duplicações

tanto como terceirizações se não pudermos

mais estar presentes.