Um dia, não sei de que ano / poema de cleto de assis

Um dia, não sei ao certo de que ano,

passei o dorso de minha mão em um rosto ferido

e meu gesto foi recebido como um imenso ato de ternura.

Assim foram muitos dos outros dias seguintes

até que o dia se tornou noite,

a ternura transmutou-se

em atos de extrema rudeza, quase morte.

 

O dorso de minha mão, minha mão inteira

e meu espírito todo

receberam a capa do tempo e incontáveis calos e cicatrizes.

De quando em quando, o consolo de um sonho melífluo, mas fugaz,

a reproduzir a ternura e os sabores e os perfumes

da intensa alegria dos encontros furtivos

com direito a cantiga de roda.

 

            Nesta rua, nesta rua mora um anjo

            que não veio, que não veio iluminar

            a janela, a janela da esperança

            e impediu, e impediu o amor de amar.

 

Quem dissecará comigo as sensações pessoanas

e olhará o mar com a certeza de que, além do horizonte,

há milhões de outros horizontes mais belos?

Quem aceitará voar comigo no céu sem fim

e catar estrelas, uma a uma,

para montar um grandioso colar de esperanças?

Quem conseguirá fazer-me companhia

para deslizar na suavimensa curva do infinito?

 

            Tinha um anjo, tinha um anjo nessa casa

            que eu deixei, que eu deixei esvoaçar.

            Foi-se a casa, a ternura e mais o anjo

            Só restou uma história pra contar.

 

E no fim da história

uma ternura tão suave e imensa

como o dorso de minha mão antiga.

 

 

Curitiba/setembro/2008

Uma resposta

  1. Muito bom! Solidão, amores e companheirismos acabados, muito bem.

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