Arquivos Diários: 19 maio, 2009

BALDE DE SIRI GAÚCHO NÃO PRECISA DE TAMPA por paulo tiaraju

Se é um lugar tão desejado por todos e tão bom, porque as pessoas bebem tanto quando estão na praia? Ora, bebemos para nos livrar da camisa de força riograndense que tanto orgulho nos dá. Bebe-se para ser livre outra vez, bebe-se para dizer tudo o que vem na cabeça, para rir, para brincar. E sem trago não dá? Pois é, sem trago não dá. Todo mundo continua careta, respeitavelmente adequados e comportados, como são na cidade.

Gaúcho não está acostumado a ficar sem roupa uns na frente dos outros. Carioca está tão acostumado que inventou o Fio Dental para reduzir o Biquini, aquela peça que esconde tudo. Esta é a imensa diferença entre quem vive na praia e quem vai à praia uma vez por ano. Quem vai à praia uma vez por ano tem sede de fazer loucuras, quer descontar um ano inteiro de rotinas engessadas. E vamos que vamos, ninguém segura mais a demanda reprimida. E aí, meu camarada, sai de baixo que a chapa vai esquentar, tirem as crianças de perto.

Rola de tudo. São 15 dias tomando caipirinha adoidado, comendo churrasco adoidado, conversando com as mesmas pessoas de sempre (adoidado), lendo jornal na areia adoidado, cortando a grama do jardim adoidado, dormindo depois do almoço, assistindo TV de noite adoidada, ou se jogando de cabeça num emocionante jogo de cartas. Que tal?

Gaúcho quando vai para praia, continua sendo um gaúcho cercado de gaúchos por todos os lados. Balde de siri gaúcho não precisa de tampa, a patrulha comportamental vai junto. O desinfeliz que ralou o ano todo não vai se espraiar como se fosse lógico, dançar e gargalhar como se fosse livre, adulto, com a agenda zerada e de férias. Os amigos vão estranhar, a família não vai entender, os clientes, ou os pacientes, estão por toda parte, onde é que já se viu?

Se numa roda surgem as lembranças das loucuras que faziam na Praia do Rosa há 20 anos ou 30 anos, aí a emoção toma conta de todos. Saudades do luau na areia, roda de viola, do frisson, da azaração (palavra da época), quando e se amanhecia nos barzinhos.

Não sei qual é a sua praia, mas a minha é a mesma que vivo em Porto Alegre o ano todo. Quero dizer que em boa parte do tempo tento flertar com a alegria, dou duro, mas também sei ficar à deriva, ao sabor das emoções aleatórias. E nunca descarto a hipótese de que o inesperado me faça uma surpresa. Me ocorreu agora que os cemitérios estão lotados de gente comportada; gente que em vida nunca fez o que gostaria. Esqueleto frustrado sabe que the game is over, deu pra bola, que triste destino. Mas ali também tem muita gente que viveu pra valer. Acho que entre eles ainda tem alguns que dão uma escapada de vez em quando. Nunca falta uma terreira para baixar, tomar uma marafa, fumar um charuto e dançar ao som do batuque puxado no capricho. Sei não, tem gente que não se entrega nunca. Eta nóis.

 

Paulo Tiaraju é publicitário e atualmente é diretor de Criação contratado da agência Match Point.

SALVADOR DALÍ e seus pensares – editoria

Olé! porque os críticos da velha arte moderna — vindos das Europas mais ou menos centrais, e portanto de parte nenhuma — se ocupam em cozinhar lentamente no cassoulet cartesiano seus equívocos mais saborosamente rabelaisianos e seus erros de situação mais truculentamente cornelianos de cozinha especulativa.SALVADOR DALI - 2841165895_d454c29615
Os cornudos1 ideológicos menos magníficos — excetuados os cornudos stalinistas — são em número de dois:

Primeiro: o velho cornudo dadaísta de cabeleira esbranquiçada que recebe um diploma de honra ou uma medalha de ouro por ter querido assassinar a pintura.
Segundo: o cornudo quase congênito, crítico ditirâmbico da velha arte moderna, que se auto-recorneia desde o início pelo corneamento dadaísta. Desde que o crítico ditirâmbico se casou com a velha pintura moderna, esta última não cessou de enganá-lo. Posso citar pelo menos quatro exemplos desse corneamento:

1) Ele foi enganado pela feiúra.
2) Ele foi enganado pelo moderno.
3) Ele foi enganado pela técnica.
4) Ele foi enganado pelo abstrato.

A introdução da feiúra na arte moderna começou com a adolescente ingenuidade romântica de Arthur Rimbaud, quando disse: ” A beleza sentou-se em meus joelhos e estou fatigado dela”. Foi por essas palavras cifradas que os críticos ditirâmbicos — exageradamente negativistas, e odiando o classicismo como todo rato de esgoto que se respeita — descobriram as agitações biológicas da feiúra e seus inconfessáveis atrativos. Começaram por se maravilhar com uma nova beleza , que diziam “não-convencional”, e ao lado da qual a beleza clássica tornava-se de repente sinônimo de frivolidade.
Todos os equívocos eram possíveis, inclusive o dos objetos selvagens, feios como os pecados mortais (que eles são, em realidade). Para ficarem em uníssono com os críticos ditirâmbicos, os pintores passaram a fazer o feio. Quando mais o faziam, mais eram modernos. Picasso, que tem medo de tudo, fabricava o feio por medo de Bouguereau2.
Mas ele, diferentemente dos outros, fabricava o feio de propósito, corneando assim os críticos ditirâmbicos que pretendiam reencontrar a verdadeira beleza. Como Picasso é um anarquista, ele haveria de dar a puntilla3 depois de ter apunhalado Bouguereau pela metade, e de um golpe acabar com a arte moderna, fazendo só ele, num dia, mais feiúra que todos os outros reunidos em vários anos.
Pois o grande Pablo, juntamente com o angélico Rafarel, o divino Marquês de Sade e eu — o rinocerontesco Salvador Dalí —, têm a mesma idéia do que pode representar um ser arcangelicamente belo. Aliás, essa idéia em nada difere da que possui por instinto qualquer multidão de rua — herdeira da civilização greco-romana — quando se volta petrificada de admiração, à passagem de um corpo — chamemos as coisas por seu nome —, de um corpo pitagórico.

 

1. Em francês, cocus. O termo deriva de coucou, o cuco, cuja fêmea tem o hábito de pôr seus ovos no ninho de outras aves. (N.T.)
2. Adolphe-William Bouguerau (1825 — 1905), diz o Larousse du XXe Siècle. Coberto de diplomas e medalhas de ouro, é tido como um general do estilo pompier, um general desacreditado mas que ainda causa medo. Um dia Picasso fazia um de seus amigos admirar sua última obra, uma colagem de pedaços de jornal; como esse amigo permacesses calado, o mestre, não podendo mais se conter, encontrou a palavra decisiva: “Talvez não seja sublime, mas em todo caso não é um Bouguereau.
3. A estocada final que o toureiro, “na ponta dos pés”, aplica ao touro. Depos da dança, é à tauromaquia que Dalí recorre para suas imagens. Trata-se realmente de um espanhol (N.T.)

 

O trecho acima, como vocês podem ver pleno de um espírito sarcástico e provocador, é de Libelo contra a Arte Moderna, de Salvador Dali. Ao longo do tempo, apesar de sua importância para o movimento surrealista e da sua ampla gama de interesses, que o fizeram transitar por cinema, escultura, pintura e até pelos desenhos animados de Walt Disney, foi colando-se a Dalí a reputação de grande marqueteiro de si mesmo. É uma imagem que não deixa de voltar à mente na leitura deste provocador panfleto no qual apresenta as diatribes que os senhores vêem aí, ataca indiscriminadamente Rimbaud, a crítica, a arte moderna de feiúra disseminada, as vanguardas, o abstracionismo, Cézanne, Miró, ao mesmo tempo que faz o elogio de um retratista profundamente acadêmico como o francês Ingres, para ele “o último pintor a saber pintar”.

 

Dentre os artistas de seu tempo, Dalí só poupa o próprio Dalí, considerado por Dalí, ele próprio,  o “salvador da pintura”, em um exemplo claro da completa ausência de modéstia do artista. Opiniões fortes de um artista ainda provocador. Não deixam de ainda falarem aos espíritos inquietos de todo mundo.

SE me quiseres conhecer – poema de noémia de souza / Moçambique

Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto 
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura…
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
– Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou
Seu grito inchado de esperança.

In notícias, 07.03.1958, página “Moçambique 58”

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