Arquivos Diários: 22 maio, 2009

O CICLISTA – de nelson padrella

 

Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     
Um campo de batalha o corpo do menino. Os desejos mais secretos ali se alojavam. A menina escondia, ávida, o seio alvo. No passeio de bicicleta, as coxas fortes, pedalando ao seu lado. Os mais secretos desejos.
          Na sombra de um descanso onde nunca permitida a audácia de um gesto, ela sorria dentes bons impondo distância. Ele sofria loucuras por ela, por todas as meninas, mulheres, criaturas. Ninguém completava o carinho que seu peito pedia. Na retomada do passeio, tristeza na tarde: roubada a menina, seguiria ele virgem e desesperado. Em seu campo de batalha.
          Mais possível que uma mulher madura, dessas ricas, que sustentam garoto bonito. Ele procurava nos vernissages, encarava, másculo, o olho das fêmeas cansadas. Impunha-se nos encontros, festinhas, oportunidades. Reinava um reboliço no rebanho, mas ele não sabia como dirigir a manada, separar uma de todas, possuí-la com tesão e esperança.
          O corpo adolescente clamava por carinho, grutas onde repousar a lança do guerreiro. As meninas passavam ao largo, escondendo na blusa fofa os rijos seios. As mulheres agarravam-se aos seus maridos como às suas jóias. Restava o medo das descobertas.
          Para a bicicleta se atirava, como quem se suicida. Pedalava até sentir doerem todos os músculos, até queimar o pulmão, virem lágrimas aos olhos. A bicicleta, seu cavalo; ele, o cavaleiro sem amada, o cruzado virgem, o não-amado.
 
          Eu sei que vou morrer um pouco quando chegar perto da tua casa, um nervosismo tolo se exibindo e eu não sabendo esconder o sorriso, vontade de fazer tanta coisa e não fazendo. Vou chegar com o rosto afogueado, as mãos não podendo segurar os dedos, tudo muito difícil, que engraçado! E você vai me receber com essa simplicidade que é bem como você é, o riso bom, aberto como as tardes de maio, a maneira sincera de falar comigo, e eu – pobre idiota – me sentindo sei lá! Noiva temerosa, tímida freirinha, logo eu, imagina! Eu sei que vou morrer quando você falar olá-como-vai, me oferecer a mão num gesto amigo, tão sem maldade, e eu pervertendo tudo, diabinhos loucos pulando num canto da cabeça. Talvez você não perceba o nervosismo e me convide a entrar, ver fotografias, essas coisas, talvez você me convide para morrer um pouco. Sei que vou morrer bastante quando acompanhar você pelo interior da casa. Vou namorar cada parede, folhinha com paisagens de vacas, troféus de atletismo, coisinhas miúdas de você, reflexo no espelho, gaiola, passarinho. Sei que vou morrer demais diante da tua cama, tudo posto como se fosse acontecer alguma coisa, a donzela imolada pelo efebo feroz, o sangue tão puro, ó deusas pagãs! Você abrirá a caixinha amarela, irá dispondo os retratos sobre a cama, você com dez anos, onze, doze… Meu mergulho dentro do teu passado, vampira sorvendo as melhores datas, noivados, festinhas, casamentos, mamãe com criança nos braços, eis que esta é vovó. Vou morrer, estou morrendo, mas isso é ótimo quando se tem você, ou pensa que se tem, que no fundo tudo são artes, você nem sabe das coisas, me recebe no portão, me permite entrar, não vê que te devoro com tudo que tenho de devoradora, te entrego descarnado para que te recomponhas, e eu volte outro dia e recomece tudo.
          No outro dia, quando estávamos no Parque Barigui, andando de bicicleta, bem que me ofereci toda, os seios empinados, mas você nem ligou. Viajava em competições e troféus, que você só gosta mesmo é de bicicleta, se gastar em cima da magrela, fazer sexo com ela, e eu – burra – me apaixonando por um atleta!  Na sombra daquela árvore tive a audácia de dizer tudo num sorriso, até deixei aberto um botão da blusa, você olhava para outro lado, caçando passarinho. Ainda mostrei um sinal na minha coxa, de uma batida que levei, e você examinou aquela marca com olho de médico, ou de veterinário, porque eu sou mesmo uma vaca para gostar de um animal como você.
     

UM PÉ DE POEMA/NO JARDIM DE SOFIA (zocha) – poema de lilian reinhardt

Vou plantar  um  pé de poema
já esterquei a cova
fiz desova com minha pena
 já arregacei os baldes da manga
fiz descarrego das veias
assim planto esse pé de poema no canteiro do agora
crivo nos cravos dos olhos meus
Bordarei sem palavras esses teus umbigos
adejarei  borboletas
além da  barriga desta  aldeia
Já reguei das bilhas 
borrifei as  calhas com  água benta
nas asas do verso o ácido da placenta
 a terra te bebe o córrego 
fio d’água escorre eternidade!

SUOR poema de jorge barbosa filho

 

eu fiquei com teu nome

no meu corpo

e com todas as coisas

que você me dizia!

sejam elas minhas feridas,

as minhas tintas,

e as tuas juntas.

 

articulei um quadro

com tamanha engenharia,

por onde escorria um gato

no canto do teu olho,

uma lágrima miava

e eu não sabia.

 

a arquitetura da tua fome

é a mesma da minha.

o tamanho que nós somos

num olhar, não caberia,

na galeria de um sorriso

depois de tanta poesia.

 

pois é, fizemos picassos

sem nenhuma perspectiva.

melhor estarmos aqui

e trabalharmos o amor!

e sermos, sem formas

um imenso kambé.

 

é que as coisas bacanas  

você apontou…eu, as tuas 

na ponta dos dedos

nascem berrugas.

somos estrelas ou

somos pinturas?

 

o nome, é que se é

e se pretende constante

nos poros, na boca e na fé,

você é em mim inteira…

por isso eu não tive coragem

de tomar banho.

 

pra que me lavar reticente

se quero fazer as coisas durar?

sentir o teu cheiro,

saber que você está por perto,

e isto me alivia

sempre! sempre!

 

 

 

 

saber que você existe

é uma dádiva!

ainda não acredito!

sonho comigo e tigo,

sem nenhuma tática.

é deus o que sinto 

num corpo de fumaça.

 

quando fecho os olhos,

cheiro você em mim,

todos os incêndios

no teu colo implorando

como um bombeiro:

me faça feliz.

 

por todo fogo e suor

quero dividir,

multiplicar o que possamos

e somar o infinito

sem diminuir meu ser, teu ser…

e ficarmos juntos por inteiros. 

 

assim como estrelas

e a arte de um pulsar,    
o universo espalha

a alegria no olhar da gente.

que tudo dure, então

num beijo, pra sempre!

 

 

Jorge Barbosa Filho

 

DIA ASSINALADO poema de otto nul


Na folhinha do calendário

Com destaque

Ficou marcado o dia

Para sempre

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

O tempo rolará sobre esse dia

E nem eu nem tu

Dentro de alguns anos

Nos lembraremos mais

De como tudo aconteceu

Porque aconteceu

Como decorreu

E todos os detalhes

A folhinha do calendário

Ficará, no entanto,

Suspensa no tempo

Celebrando o fato

x x x

(abril/09 – Otto Nul)

A CAPELA SISTINA – editoria

CAPELA SISTINA - O JUÍZO FINAL

 

 

                     CAPELA SISTINA.

Se existem lugares em que a arte se aproxima de Deus, um deles é a Capela Sistina. Esta dependência do Palácio do Vaticano, em Roma, atinge o absoluto graças aos magníficos afrescos pintados por Michelangelo, Perugino, Ghirlandaio e Botticelli, entre outros artistas do Renascimento.

 

Temas do Antigo e do Novo Testamento são o ponto de partida das imagens imortais da Capela. Seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV, que ordenou a sua construção em 1475. Os trabalhos se prolongaram até 1483 e, atualmente, a Capela é usada para as reuniões do Colégio dos Cardeais destinadas a eleger os novos Papas e também para cerimônias da Semana Santa

O projeto da Capela Sistina, segundo o arquiteto e teórico italiano Giorgio Vasari, foi de Baccio Ponteli; porém, nas notas de pagamento, figura o nome do florentino Giovannini de Dolci. Polêmica à parte, o importante é que externamente o edifício parece uma fortaleza, deixando evidente que a função da Capela seria apenas a de uso interno dos moradores do Palácio do Vaticano, principalmente do Papa.

Ao que tudo indica, as dimensões parecem ter sido inspiradas nas do templo de Salomão, descrito na Bíblia, e o teto abobadado era originariamente desprovido de qualquer adorno pictórico. Ainda sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes. Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.

Entretanto, em maio de 1508, o Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, encomendou a Michelangelo o afresco que hoje decora o teto da Capela. O artista florentino aceitou o desafio pleno de dúvidas, pois considerava-se mais um escultor do que pintor, preferindo os blocos de mármore de Carrara aos pincéis.

A obra foi terminada em outubro de 1512, sendo o resultado de um processo muito doloroso. No plano físico, a posição incômoda em que o artista tinha que pintar, sobre andaimes, todo retorcido e com gotas de tinta prejudicando-lhe a visão, causava cansaço. Além disso, segundo alguns historiadores e críticos de arte, Michelangelo sofria veladas ameaças de que seria substituído pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão, se o seu trabalho não agradasse ou não correspondesse aos desejos do Papa.

Mas o resultado foi magnífico, superando qualquer expectativa. Michelangelo representou, seguindo uma ordenação teológica, desde a Criação do Universo até a Embriaguez de Noé, incluindo mais sete episódios do Gênesis, além de sete profetas, cinco sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e quatro cenas nos cantos representando façanhas de heróis do povo de Israel: Davi vencendo Golias, Judite matando Holofernes, Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus e o episódio em que, picados por serpentes venenosas, aqueles que tivessem fé poderiam se curar olhando para uma serpente de bronze, colocada no alto de um poste por Moisés.

TETO DA CAPELA SISITINA

                      Teto da Capela Sistina.

BASHÔ – QUATRO HAICAIS

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

 

-.-

 

A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra

 

-.-

 

 

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

 

-.-

 

 

Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

 

 

 

Tradução: Jorge de Sousa Braga

ANTONIO GRAMSCI por sandra vaz de lima

Pelas mãos de Gramsci é recuperado um outro Marx (e não sem tensões como, por exemplo, na permanência do uso das altamente questionáveis dicotomias de “infra-estrutura/superestrutura” e “classe em si/classe para si”), que não é aquele claramente influenciado pelo evolucionismo

ANTONIO GRAMSCI

ANTONIO GRAMSCI

 cientificista do século XIX; é trazido de novo à vida o Marx que viu e defendeu a razão da liberdade perante a força da necessidade, o Marx que edificou uma teoria da sociedade humana baseado em três pilares fundamentais, a saber, as noções de totalidade, contradição e historicidade. 
Entretanto, Gramsci não apenas recuperou o “Marx da liberdade da ação política e cultural”, diferentemente daqueles que preferiram mergulhar na herança do “Marx da necessidade da determinação econômica”, como, além disso, superou dialeticamente o autor de O capital, ampliando, na formulação de conceitos novos, o entendimento das três noções que embasam a dialética materialista e direcionando-as no sentido de uma “história ético-política” [3]. 
O conceito de hegemonia em Gramsci nasce como corolário da nova significação por ele dada à realidade estatal. Ao definir o Estado como uma instituição formada por dois “grandes planos superestruturais” (a “sociedade civil”, onde se constrói o “consenso”, e a “sociedade política”, onde se exerce a “coerção”), ele constatou que o poder estatal não mais se legitimava puramente através da “dominação”, mas também por meio da “hegemonia” – o Estado transformara-se em “hegemonia revestida de coerção” [22]. 
O marxismo, para Gramsci, reivindica a história ético-política, o momento da hegemonia, como algo essencial, que constitui condição sine qua non da sua concepção de Estado. Este fato está fecundamente enraizado, por sua vez, na percepção historicamente localizada de que as chamadas superestruturas, as ideologias “são uma realidade objetiva e operante”, “são fatos históricos reais”, e não “pura aparência”, que se desenvolvem intimamente relacionadas, sob um nexo de reciprocidade vital, com as ditas estruturas, dando vida a um “bloco histórico”. A distinção entre conteúdo (forças materiais) e forma (ideologias) seria apenas de caráter didático, pois, de acordo com Marx, “os homens tomam conhecimento dos conflitos de estrutura no terreno das ideologias”. 
O pensamento gramsciano sintetiza um estudo sobre as configurações históricas do Estado Capitalista Contemporâneo, remete a um amplo dialogo com os dilemas que emergem neste final de século.

 

ILUSTRAÇÃO DO SITE. FOTO LIVRE.