MILLÔR por hamilton alves

Quem sou eu para meter o pau em Millôr Fernandes ou lhe negar  talento para fazer humor, embora ultimamente deva-se reconhecer que anda meio por baixo, o que bem revela sua página na revista “Veja”, que segue dentro de um ritmo mais ou menos chato. Mas ele tem espírito de humor. Há poucas e boas dele. Uma vez inaugurou uma página inteira do Estadão. O que é que, afinal, se julgava que o homem fosse? Algum super-homem? Evidentemente que, por mais talento que lhe sobre, uma página de jornal é um peso demasiado grande. Mas foi numa dessas páginas que disse uma coisa genial: “andar de taxi é o melhor manual de sociologia aloprada existente”. Por isso, lhe passei um recado de cumprimentos. Em resposta, agradeceu-me com um desenho exatamente de um taxi com um motorista e um passageiro vistos no banco da frente.

                                   Millôr, não sei por que cargas d,água, não acerta com entrevistas. Talvez seja por causa dos maus entrevistadores, que lhe fazem perguntas imbecis e ele responde.

                                   Numa das últimas (para a revista “Bravo!”) proferiu essa lantejoula:

                                   “Machado de Assis não me diz nada”.

                                   A mesma coisa diz de Joyce. Claro, Ulisses é uma pedreira para qualquer um. Só quem gostou do livro e adquiriu uma primeira edição foi Anthony Burguess, que elogia essa obra num livro que denominou “Homem Comum Enfim”, que contém exatamente as iniciais do principal personagem de Finnegans Wake, ou Humphrey Chimpden Earwicker. O titulo original é Here Comes Everybody.

                                   Millôr pelo menos tem a ousadia de confessar a própria burrice, diferente de outros tantos, considerados geniais como ele, e que a escondem. Ou a escamoteiam.

                                   Escritor, segundo ele, é o Veríssimo (não menciona se é o pai ou  o filho), considerando-o consagrado. Nada contra. Nem a favor. Muito pelo contrário.

                                   Gênio, mesmo nacional, tem dessas incongruências desculpáveis. Afinal de contas, ninguém é perfeito. Não gosta de Machado de Assis, mas Veríssimo  coloca no pedestal. A pergunta é: o que Millôr leu de Machado para chegar a essa conclusão? Leu, ao menos, os contos “Missa do Galo”, “A igreja do diabo” ou “Teoria do Medalhão”? Só para citar três dos melhores. Não se fala de “Don Casmurro” ou de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que tem um capítulo – Delírio – que Eça de Queiroz declarou que sabia de cor.

                                   Redimiu-se, em parte, dessas naturais mancadas, destacando o fato de ter lido Proust em português, francês, inglês e espanhol. Méritos para ele. Há quem não o leu em língua alguma.  Para que também exagerar de lê-lo em quatro idiomas?

                                   Ele aborda um tema sério: o aumento vertiginoso do número de escritores e, principalmente, de poetas, a partir do momento em que se inventou o computador. O que tem pintado de blog e blogueiros na internet é incontável. Todo o dia aparece um poeta novo, supondo-se de cara um gênio. “Toda senhora de 50 anos, que não sabe mais o que fazer, vira poeta” – diz Millôr. Mas revela uma limitação própria de quem não é muito familiarizado com o assunto. Pelo que se deduz, só considera poeta quem sabe armar uns versos com rima e metro. Fora daí não há poema que possa ser considerado como tal.

                                   Lembro-me que certa vez Paulo Francis disse de Millôr que, se fosse americano ou inglês, estaria consagrado mundialmente. Mesmo que fosse apenas na arte de fazer humor.            

                                   Bem, nisso, na verdade, ele está entre os melhores, quem sabe, do mundo.

 

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