Arquivos Diários: 26 maio, 2009

RONALD MAGALHÃES músico e compositor CONVIDA:

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CANSEI e CANSAMOS por juliano schiavo

Não faço parte daquela campanha do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, “Cansei”, surgida em 2007 e liderada pela Ordem dos Advogados do Brasil – seccional São Paulo. Também não me incluo na campanha do “Cansamos”, criada pela Central Única do Trabalhador e outras entidades sindicais.

 

Porém, numa rápida análise, vejo que “cansei” e que muitos de nós “cansamos”. Até mesmo estes dois movimentos cansaram de se cansar e, dois anos depois, se fecharam num ostracismo típico dos cansados. Seria um ataque coletivo da mosca tsé-tsé, aquela que transmite a doença do sono?

 

Vejo que ainda se discute, por exemplo, a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Já estou satisfeito com este assunto. Depois de ouvir por anos a fio que a educação é a força motriz de uma nação – quem não se cansou de ouvir que a educação é tudo? –, há ainda discussões sobre a exigência de um diploma para atuar como jornalista.

 

É um tremendo contra-senso: ao invés de se estimular o estudo, a pesquisa, o entender científico da comunicação, apagam-se as luzes. Típico de um país, com p minúsculo mesmo, que está cansado e repleto de pessoas que dizem “Cansei”. Eu sou um deles, inclusive. Cansado de entender algumas lógicas ilógicas e algumas posições tão estranhas, fico me perguntando: será que não entendi porque estou cansado?

 

O país do pijama

 

E ainda usam como argumento que o diploma de jornalismo é contra a liberdade de expressão, uma vez que impede que qualquer um possa escrever uma matéria jornalística. Confunde-se, assim, liberdade com profissionalismo.

 

Não é nada estranho ao se tratar de um país em que deputados constroem castelos; quadrilhas operam de dentro das prisões; lojas de luxo sonegam milhões; a violência contabiliza 50 vezes mais mortos que na Faixa de Gaza; mais de 40 mil pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de trânsito e, tantas outras coisas estranhas, tão comuns aos que cansaram desse déjà vu.

 

Discutir a obrigatoriedade de um diploma só gera canseira, marasmo, embolação. Para que tentar empurrar o país para a frente? Não sei. Cansei de matutar. Mas nada mais me assusta, a não ser a nova reforma ortográfica – que me deixa cansado só de pensar que vou ter que rever meus conceitos na escrita.

 

Para não deixar este texto mais cansativo – eu sei, há milhares de artigos defendendo ou não a exigência do diploma de jornalista – termino-o por aqui. Cansei e acho que todos nós cansamos. Não interessa estimular a educação, não importa a capacitação profissional, pouco interessa saber que, por detrás de um texto jornalístico, há toda uma técnica que deve ser aprendida. Vivemos no país do pijama, por isso, a música de ninar deveria ser nosso hino. Fui… Descansar.

UM HOMEM NO CAIS poema de manoel de andrade

MANOEL DE ANDRADE - UM HOMEM NO CAISNo cais....Lisboa.preview

 

 

Que saldo trago da vida?!
da existência escassa e vadia que vivi?!
que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro
e desviar meus passos do caminho do cais?!
eu, que tornei meu corpo ambulante
a vagar de porto em porto em busca de um navio!
em busca de um destino qualquer que flutuasse
e me levasse pra bem longe e sem destino,
fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!
Ah, minha vida…
imenso cais deserto!
e eu a perambular pelas cidades portuárias
em busca de um capitão!
minha vida sem sal e sem sol!
sempre à sombra dos grandes cascos,
aspirando as emanações das coisas marítimas,
derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!
Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!
a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de 
                                                        /mercadorias
                                                                                                         /cadorias!
e depois, cansado e com os pés doídos
sentar-me na calçada dos armazéns 
para ver os estivadores e os guindastes em movimento
e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.
Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!
e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!
ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!
gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!
gente de terra que entra e sai das docas, 
vigias, conferentes, administradores do porto,                                                      despachantes, funcionários das capitanias,
homens dos rebocadores, dragas, barcaças,
dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras
oficiais de bordo, embarcadiços,
tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas
                                                          /dos navios 
                                                                                                            /navios.
Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!
ah, marinheiros debruçados nas amuradas
a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!
a que distância estás da tua pátria?!
há quanto tempo não beijas tua amada?!
Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!
olhando os navios que chegam e os navios que saem;
os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;
os que vêm chegando com as manhãs de sol 
e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem 
                                                          /iluminados
                                                                                                            /nados.
Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!
enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias
e pelo dorso dos planaltos!
e hoje,
depois de tanto andar
sem bússola
sem cansaço
e quase comovido com minha vida vagabunda
eu, com vinte e sete anos de idade,
conhecendo dezessete estados do meu país imenso
e mais três nações do continente americano
trago ainda meu sonho imaculado
e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.
De tantas cidades percorridas,
de tantos rios atravessados,
trago apenas
a nostalgia de terras que não vi
e a saudade do marinheiro que não fui!
Quantos anos vividos
ao lado e na distância do homem que me deixei num cais
sem barco e sem destino!
Ah, meu sonho!
minha vida naufragada.
Eu contemplo a mim mesmo
o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.
Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!
e eu fiquei ausente
sempre algemado ao momento da partida
com um nó atravessado na garganta do meu sonho!
E agora
meu canto marítimo
chega ainda com a brisa dos oceanos
e na maré alta
banha meu sonho primeiro
e quem sabe, o derradeiro.
Nesse tempo de embarque
tudo esteve pronto e ainda está:
meu passaporte, meu diário em branco,
o violão e o poeta;
meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo
e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho
e o traje para descer nos portos escalados:
camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho
e a calça acinzentada;
a pele bronze, a barba bem crescida
e no peito tatuado qualquer nome de mulher
que eu diria ser o nome da mulher amada.
Vivendo deste sonho
eu fui partindo…
embarcava com os tripulantes
e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar
e desaparecia na curva do horizonte.
eu também acenei para os que ficavam
eu acenei a mim mesmo.
Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,
transatlânticos, escunas, veleiros…
fiz amigos e inimigos entre marinheiros,
aprendi a língua deles
trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.
desci em portos de países longínquos e misteriosos,
conheci outros continentes,
salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos
e dos mares interiores,
senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,
golfos e estreitos,
e tudo que eu vi…
ah, perdão!
tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!
eu nunca fui além do cais!
são estórias que ouvi de marinheiros!
de livros que li há muito tempo.
Mas ai de mim!
vivendo deste sonho
eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.
e assim, o que de bom esteve ao meu alcance
e que poderia encher meu coração em terra firme
foi sempre provisório e desbotável.
O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…
os anos cresceram pesados e exigentes
e a única herança recebida
foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.
Ah, meus dias foram outros!
e tudo o que de mim restou de belo,
está distante
está no mar
e nesta ânsia de cantar.
                       Curitiba, setembro – 1968
Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS

Que saldo trago da vida?!

da existência escassa e vadia que vivi?!

que emoções puderam transfigurar meu coração de marinheiro

e desviar meus passos do caminho do cais?!

eu, que tornei meu corpo ambulante

a vagar de porto em porto em busca de um navio!

em busca de um destino qualquer que flutuasse

e me levasse pra bem longe e sem destino,

fazendo de mim um homem sem pátria e sem ninguém!

 

Ah, minha vida…

imenso cais deserto!

e eu a perambular pelas cidades portuárias

em busca de um capitão!

minha vida sem sal e sem sol!

sempre à sombra dos grandes cascos,

aspirando as emanações das coisas marítimas,

derivando pela atmosfera buliçosa dos portos!

 

Contemplo a mim mesmo caminhando ao longo do pavimento sujo do cais!

a vadiar entre vagonetes de madeira, caixotes empilhados e fardos de mercadorias!

                                                                                                         

e depois, cansado e com os pés doídos

sentar-me na calçada dos armazéns 

para ver os estivadores e os guindastes em movimento

e os pesados lotes de carga que são engolidos pelas bocas dos porões.

 

Ah, convívio com os que ficaram à beira de todas as rotas!

e com os que vivem para partir ao largo e ao distante!

ah, criaturas das margens e criaturas dos horizontes!

gente com quem falei e com tantas profissões entrelaçadas!

gente de terra que entra e sai das docas, 

vigias, conferentes, administradores do porto,  despachantes,  funcionários das capitanias,

homens dos rebocadores, dragas, barcaças,

dos pesqueiros e das pequenas embarcações costeiras

oficiais de bordo, embarcadiços,

tripulantes de muitas nacionalidades que sobem e descem pelas escadas dos navios 

                                                                                                    

 

Ah, essa vida misteriosa dos homens do mar!

ah, marinheiros debruçados nas amuradas

a olhar com impaciência a lida dos trabalhadores do cais!

a que distância estás da tua pátria?!

há quanto tempo não beijas tua amada?!

 

Contemplo a mim mesmo no alto do tombadilho dos cargueiros atracados!

olhando os navios que chegam e os navios que saem;

os que ancoram além da barra e os que são vistos ao largo das baías;

os que vêm chegando com as manhãs de sol 

e aqueles que começam a manobrar à tardinha e logo depois, partem  iluminados

                                                                        

Ah, meu barco que nunca chega e que nunca parte!

enquanto te aguardo,  caminho pela areia colorida das praias

e pelo dorso dos planaltos!

e hoje,

depois de tanto andar

sem bússola

sem cansaço

e quase comovido com minha vida vagabunda

eu, com vinte e sete anos de idade,

conhecendo dezessete estados do meu país imenso

e mais três nações do continente americano

trago ainda meu sonho imaculado

e minhas retinas dilatadas para visões mais amplas e azuis.

 

De tantas cidades percorridas,

de tantos rios atravessados,

trago apenas

a nostalgia de terras que não vi

e a saudade do marinheiro que não fui!

Quantos anos vividos

ao lado e na distância do homem que me deixei num cais

sem barco e sem destino!

Ah, meu sonho!

minha vida naufragada.

Eu contemplo a mim mesmo

o rapaz que foi a pique numa tarde de novembro.

 

Tudo, ah, tudo em mim partiu pro mar!

e eu fiquei ausente

sempre algemado ao momento da partida

com um nó atravessado na garganta do meu sonho!

 

E agora

meu canto marítimo

chega ainda com a brisa dos oceanos

e na maré alta

banha meu sonho primeiro

e quem sabe, o derradeiro.

 

Nesse tempo de embarque

tudo esteve pronto e ainda está:

meu passaporte, meu diário em branco,

o violão e o poeta;

meu corpo sadio e forte para as tarefas de bordo

e a imaginação que escolheu as roupas de trabalho

e o traje para descer nos portos escalados:

camisa e sapatos brancos, o paletó azul-marinho

e a calça acinzentada;

a pele bronze, a barba bem crescida

e no peito tatuado qualquer nome de mulher

que eu diria ser o nome da mulher amada.

 

Vivendo deste sonho

eu fui partindo…

embarcava com os tripulantes

e estava no convés de tudo o que se fazia ao mar

e desaparecia na curva do horizonte.

eu também acenei para os que ficavam

eu acenei a mim mesmo.

Parti com os navios mercantes, vasos de guerra,

transatlânticos, escunas, veleiros…

fiz amigos e inimigos entre marinheiros,

aprendi a língua deles

trabalhei, ri, cantei, me embriaguei com eles.

desci em portos de países longínquos e misteriosos,

conheci outros continentes,

salguei meus olhos nas águas de todos os oceanos

e dos mares interiores,

senti meu coração seduzido pela beleza das baías e enseadas,

golfos e estreitos,

e tudo que eu vi…

ah, perdão!

tudo o que eu vi foi com a imaginação apenas!

eu nunca fui além do cais!

são estórias que ouvi de marinheiros!

de livros que li há muito tempo.

 

Mas ai de mim!

vivendo deste sonho

eu fui morrendo em tudo mais na minha vida.

e assim, o que de bom esteve ao meu alcance

e que poderia encher meu coração em terra firme

foi sempre provisório e desbotável.

O amor, o grande amor, não sei quem foi, não percebi…

os anos cresceram pesados e exigentes

e a única herança recebida

foi o imenso mar que se espraiou na minha infância.

 

Ah, meus dias foram outros!

e tudo o que de mim restou de belo,

está distante

está no mar

e nesta ânsia de cantar.

 

                       Curitiba, setembro – 1968

 

Este poema consta do livro “CANTARES” editado por ESCRITURAS.

AULA poema de zuleika dos reis

         Naquela tarde

         a aula foi diferente

         não porque a professora

         sentou-se na última carteira

         da fileira ao lado da janela.

 

         O aluno da sétima série

         fez a chamada     

         e anunciou o tema do dia:

         O SENTIDO DA VIDA.

 

         A classe dividiu-se

         nos subgrupos de sempre

         em discussões profundas

         contundentes.

 

         O grupo da professora

         brilhou na exposição dos painéis

         brilhou tanto que o trabalho

         mereceu conceito A.

 

         Quanto às notas individuais

         a professora

         resignou-se a um D

         por falta de participação.

INÓSPITO poema de joanna andrade

 

O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF with a room.
O que compõe o quarto quase vazio 
sao pedaços de furniture
Uma lampada sem dimmer
Uma cama box –primavera
Uma colcha quilt amarela
E uma personagem deep purple.
Ambilingua venenosa 
Entre bars 
Buscando suas presas .
O que compõe o quarto quase vazio
Sao pensamentos de uma corte surrogated
Sem judgment 
Sem representative
Inóspitos
Meu lado WOLF in a room.

PARAÍSO poema de sara vanegas/Ecuador

 

 

la arena que cubre tu cuerpo magro

te muestra oasis inefables

y atrapa tu lucidez

la arena que vomitas camino al antiguo edén

la que acribilla tu mirada y tu memoria

y te conduce duna tras duna

al otro lado del mar

la arena que sepulta tu corazón ardiente

y te ofrece al fin en un instante imposible

azul e inalcanzable el paraíso

 

y cierra piadosamente tus ojos