Arquivos Diários: 31 maio, 2009

CALVERO por hamilton alves

 


 

Quando assistiu ao filme de Chaplin, Luzes da Ribalta, Carlos Drummond de Andrade contou a amigos (ou narrou numa crônica) que do cinema Metro, em Copacabana, até sua casa, na rua Conselheiro Lafayette, distante seis quilômetros, fez toda a caminhada para refletir sobre o tema desse grande filme, um dos maiores do cinema e destaque na filmografia do grande ator e cineasta.

                                       A história se resume no fato de, certo dia, quando se recolhe bêbado, como de rotina, a um quartinho modesto e despojado de uma modesta pensão, onde morava, cujos degraus sobe com dificuldade, eis que vê uma fumacinha sair debaixo da porta do  quarto vizinho. Empurrou-a, derrubou-a e o que constatou foi que, com isso, uma jovem queria por fim à vida. Depois revelou que essa era sua intenção porque estava privada de sua arte, a dança clássica (ballet), por paralisia das pernas.

                                        A partir de então, Calvero, que é um artista que passa por uma má fase, sem contratos com produtores de espetáculos, vivendo de coleta pública com outros artistas de rua, passou a se interessar pelo problema da moça, a incutir-lhe que o que estava fazendo era incompreensível. A vida não sugeria que deve se lhe por fim; era um dom de Deus, e, fosse o que fosse, deveria ser preservada

                                       Paralelamente a essa ajuda prestada, Calvero acaba se apaixonando por ela que, em relação a ele, tinha idade para ser sua filha. Nunca lhe revelou essa paixão. A moça é que a manifestou por ele. Tentou dissuadí-la de tal absurdo sentimento. Ela insistia por convencê-lo que não era fruto de gratidão de ter-lhe salvo a vida, mas, sim, de algo verdadeiro, nascido espontaneamente em seu coração.

                                       Calvero volta a tentar exibir-se em pequenos teatros, mas fracassa. Não é o mesmo artista aplaudido de outros tempos. Vê que não tem mais condições de revelar-se o grande Calvero de outros tempos. O desânimo o alcança. A moça, agora, revertendo-se os papéis, procura encorajá-lo. Mas parece que Calvero se sente irremediavelmente liquidado. Entrementes, ensaia passos com a jovem no quarto em que mora. Até que um dia têm uma forte discussão. Ela esquece-se, por momentos, de que tem um problema de imobilidade, dá passos em sua direção, de que se aproveita para comprovar-lhe que tudo de que padece é uma inibição psíquica, que pode dominar e voltar a dançar.

                                         Os dois voltam juntos, no fim, a um espetáculo teatral. Em certo momento ela dirige-se a Calvero atrás do palco para lhe agradecer por tudo, por seu êxito, por voltar à dança, quando nova crise de paralisia lhe acomete. Inibe-se de voltar ao palco. Ele responde à crise aplicando-lhe um tapa no rosto, pelo que retoma seus passos de dançarina. Calvero segue no espetáculo com seu número, no que é delirantemente aplaudido, retomando seus grandes dias de glória. Mas por um acidente ocorrido no palco, vem a cair dentro de uma bacia, e ali fica entalado e vem a morrer.

                                          O filme resume-se, mais ou menos, a esses dados.

                                          Também eu, a exemplo de Drummond, quando vi esse filme, não digo que, como ele, percorresse um trajeto de seis quilômetros, mas realizei, afortunadamente, uma viagem de carro de Tubarão, onde morava então, até a Ilha, ruminando os lances desse grande e inesquecível filme de Charles Chaplin, que passou à história do cinema como um dos seus maiores momentos.

                                            Valeria dizer, em resumo, que Chaplin, de certo modo, se retratou em Calvero. Mas este, a exemplo de tantos outros personagens, ganhou vida própria e passou, sem dúvida, à condição de ícone.

MACHINA conto de silvio barros

Ali estava o coliseum e eu o vislumbrava pela primeira vez. Estava em frente a sua ala incendiada. Mais uma marca para ele arrastar pelo tempo. As pedras naquele lado, calcinadas, tinham metal incrustado a um ponto que elas e o metal pareciam elementos híbridos. O homem ao meu lado suspira, naquele lugar com um cheiro nauseabundo. E embargado pela emoção, segurando as lágrimas, aponta para as pedras calcinadas.

– Aquilo foi um happening de um artista que trabalhava velocidades altas. Aceleradores de partículas deslocando fótons. Era bancado por um conglomerado industrial. Isso foi há noventa anos, ele morreu no happening . Overdose de energia nos reatores, que implodiram e volatilizaram toda a matéria que estava próxima. Não houve como reparar o Coliseu, sua estrutura ficou comprometida. E ali, naquela ala, vai ficar para sempre a marca, tingida de metal. Certas horas da manhã ele brilha. Um brilho escuro, estranho. O artista montou seu ciclotron, um anel de metal com tubos aceleradores de fótons azul metálico, que se encaixava ao ocre-tempo das pedras do coliseu. Um reator na junta do anel pegou fogo e houve uma grande fissura nos tubos. Principalmente os daquele lado. A imagem do artista e da máquina já estava sendo vinculada pelas mídias da época, meses antes. Sorte é que aconteceu no ensaio geral. Mesmo assim, foram dezenas de vítimas. Se fosse mesmo no happening, seria uma tragédia. Ele foi um dos primeiros artistas a trabalhar com máquinas pesadas, era muito famoso. Chamavam-no de “Number One”. Seu filho não teve o mesmo talento, até que forçaram a barra. Mas ele fracassou. Só treze anos depois um italiano, Benvenuto, tomou o seu lugar. Trabalhava com máquinas gigantescas, era apoiado por um consórcio europeu. Criou uma serpente verde com vários tubos, aceleradores enroscados. Circundavam o Vesúvio como um colar de jade. À noite, o acelerador operando, brilhava. Meu pai era criança, se emocionava só de contar. A obra era chamada de a décima terceira maravilha do mundo. Aí veio a decadência dessa grande arte. Hoje não há mais esses artistas, o tempo os levou. Não há mais dinheiro, água, nada . As máquinas fabulosas ficaram no passado.

– E como começou essa decadência?

– Alguns anos depois que a serpente foi erguida no Vesúvio, um grupo de americanos planejou várias máquinas , que acopladas, criariam uma super máquina no deserto da Califórnia em forma de serpente. Batizaram-na de snake em homenagem a um antigo artista, chamado Richard Serra. Seria vista até do espaço. Ainda na fase inicial, pesquisa de material e estudos, a operadora do projeto faliu. Foi um escândalo. Os americanos foram , por décadas, motivo de chacota por isso. Em sessenta e três, teve o terremoto que destruiu Nápoles e o Vesúvio foi sacudido. A serpente, desligada, ficou entortada como um trompete sob as patas de um touro. Meu pai contava que minha avó ficou uma semana de cama chorando, e meu avô sentado, calado, por quase um mês, olhando pela janela o Vesúvio. Sem a serpente verde como um colar de jade. Minha avó foi enterrada com um colar de pedra verde, que imitava a serpente. Foi moda durante anos. Logo depois disso, as corporações romperam suas alianças com os artistas. Não havia mais verba para as máquinas pesadas. A última foi feita por um artista japonês, radicado em Paris, há sessenta anos. Eram tubos azul-celestes pendurados por semi-arcos na vertical, na margem esquerda do Sena, da Ponte L’Alma a Ponte Invalides. Era uma máquina esguia, elegante. Vi imagens dela. Não durou muito, seus reatores produziam muito barulho. E aí houve uma guerra política entre a prefeitura de Paris e a corporação energética-industrial que dava suporte. A corporação foi derrotada judicialmente em um tribunal popular. Emissões sonoras acima do nível tolerado em uma urbe, foi o veredicto.

– E o italiano?

– Benvenuto enlouqueceu, não conseguiu se adaptar a época das máquinas menores. Foi internado em Nápoles, sob diagnóstico de profunda depressão. Do seu quarto via o cume do Vesúvio,e passou seus últimos momentos o desenhando. Um dia amanheceu morto.

– E as máquinas?

– A cada ano foram diminuindo, até a algumas décadas atrás acabarem. Com o estado de sítio por causa da falta d’água, a arte voltou as formas primárias. Hoje, só o mau cheiro, o calor, e esse sol que dói a pele…

O homem tira do bolso do casaco comprido, algo que deviam chamar de maço de cigarros. Já vi imagens. O maço era azul claro, com um elmo com asas. Os cigarros eram curtos. Ele tirou um e não me ofereceu, e a fumaça se misturou às lamúrias do inválido, que ao nosso lado se aconchegava para cagar.


CRONOLOGIA

· 1991 – Em 17 de fevereiro, nasce em Long Island (USA), Andrew Philip Woodcock, o Number One.

· 2001 – Começo da saturação da Arte Conceitual e da afirmação da Arte Virtual e dos Blogs.

· 2010 – Arte Conceitual entra em total declínio, e a Arte Virtual se esgota. Blogs tornam-se obsoletos.

· 2013 – Em 2 de agosto, nasce em Nápoles (ITA), Benvenuto.

· 2015 – Primeiras máquinas são usadas em happenings.

· 2040 – Number One, com o anel-máquina, explode no Coliseu, matando 45 assessores e 130 curiosos que observavam a montagem do lado de fora.

· 2045 – O romance se esgota como gênero. Últimos remanescentes.

· 2053 – Benvenuto instala a serpente verde no Vesúvio.

· 2058 – Artistas americanos planejam a super máquina snake no deserto da Califórnia.

· 2061 – Aberto processo de falência da operadora do projeto americano.

· 2063 -Terremoto destrói a obra de Benvenuto no Vesúvio.

· 2066 – Corporações cortam as verbas para as grandes máquinas.

· 2068 – É instalada na margem esquerda do Sena, a última máquina. Tinha 1,8km de extensão com tubos com circunferência de 12m.

· 2073 – Prefeitura de Paris vence batalha na justiça e retira a máquina, sepultando a magna arte.

· 2075 – Benvenuto morre em Nápoles.

· 2085 – Máquinas pequenas dão lugar à poesia feita na carne.

· 2101 – Estado de sítio pela falta de água e de matérias primas

MARTIN LUTHER KING

martin_luther_king_2“O QUE MAIS PREOCUPA NÃO É O GRITO DOS VIOLENTOS, NEM DOS CORRUPTOS, NEM DOS DESONESTOS, NEM DOS SEM ÉTICA. O QUE PREOCUPA É O SILÊNCIO DOS BONS ”
Martin Luther King

SOU FELIZ poema de ana carolina cons bacila

Sim, estou feliz.

Não sei o que me fez sentir assim,

só sei que é maravilhoso estar feliz.

 

Sim, sou feliz!

Algo parecia me impedir,

queria me destruir, mas sou feliz.

 

Não sei se era você,

não sei se era eu.

Não sei quem me queria ver sofrer,

se era alguém com ciúme que doeu.

 

Não sei se era você

não sei se era eu.

Não sei se era pra doer,

mas juro, não doeu.

 

Por isso digo pra você,

infeliz quem queria me ver sofrer,

haha, se fudeu!

Literatura dá grana? É, para alguns escolhidos – por alceu sperança

O escritor francês Émile Zola (1840–1902) via com preocupação o misto de temor com desprezo que os governantes têm tem das letras, as artes de ler e escrever, que são a base de todo conhecimento: “Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”.

Escapa, de fato, como vejo agora no livro “Lendas de um Coração (Poesia em Defesa da Igualdade)”, de Álef, obra que integra um pentateuco editado pelo Instituto Brasileiro de Projetos Comunitários (IBP).

Além de a obra ser primorosa, o IBP é uma das mais sensacionais novidades na praça. Algo como um farol de amor e cultura.

Lendo o esplêndido livro de Álef reforça-me ainda mais a convicção de que é preciso lutar por um mundo melhor. E lutar aqui, lutar agora. Não são os deuses que nos infelicitam: somos nós que fazemos as escolhas.

Política não é eleição, mas aquilo que você faz com sua vida. Não é algo, portanto, que deva deixar entregue a safados, bestas e corruptos.

Seria conveniente perguntar se não haveria nada mais a fazer por nossa comunidade além de pensar apenas em eleições e podres poderes. Uma leitura ao pentateuco de Álef e um contato com o IBP talvez transformassem um desencanto contraproducente em ação e luz.

Ação e luz foi o que se viu em um encontro promovido pela Academia Cultural Uso da Palavra (Acup), de Cascavel, em homenagem ao cinema nacional.

Dele brotou a sensação de que algo de efervescente está cozinhando no caldeirão cultural do Paraná. A saudável iguaria exibe nacos de cinema, teatro, música, artes plásticas e dança.

Todavia, nesse caldeirão ainda está faltando uma bela proteína: a escrita. É no ler e no escrever que se forjam os talentos digna e justamente premiados em todas as demais artes, mas isso tem sido ignorado.

O Concurso Literário Celso Formighieri Sperança vem sendo levado bravamente pela Biblioteca Sandálio dos Santos, em Cascavel, mas ainda é o primo-pobre das artes cascavelenses.

É descontínuo e tem uma premiação irrisória e divulgação precária. Nem nas escolas chega a ser conhecido. É como se a Biblioteca fosse um corpo estranho na estrutura cultural e educacional de Cascavel e a literatura fosse um elemento desprezível.

Um “pecado solitário” de gente teimosa que no silêncio e no isolamento, espécie de molusco fincado no interior de um caracol inacessível, desse trela a suas taras egoístas escondido num auto-hospício introspectivo, sem ligação com o mundo real.

Não se escreve num palco, afinal. Entretanto, é simplesmente impossível compreender porque o Município de Cascavel deu quinze troféus ao Festival de Teatro (merecia 30!) e deixou o Concurso Literário Celso Formighieri Sperança do mesmo jeito que estava há uma década, ou seja, promovido apenas a cada dois anos.

Agora que a Caixa Econômica Federal passou a apoiar, precisaria continuar a ser bianual? Foi esse concurso literário, diga-se, que deu a base para o magnífico espetáculo teatral A Encruzilhada, de Miguel Joaquim das Neves, a nossa “Via-Sacra” histórica, digna de ser reprisada anualmente.

O Concurso Paulo Leminski, de Toledo, aliás, é anual e dá grana aos vencedores. Grana… Cascavel nem sabe o que é isso!

Não é possível compreender o descaso com as artes de ler e escrever, porque sem o estímulo à leitura continuaremos a ter essa sociedade meio besta que aí está.

Vê-se isso pelas idéias de jerico dos líderes políticos locais, com seu egoísmo jactante e demófobo, seus atropelamentos, suas brigas pueris, seu absoluto desprezo pelos que sofrem.

Acham que o sem-terra e o sem-nada deve ter menos ainda do que não têm. É, estão certos: sem leitura o sujeito fica besta, mesmo.

O BOBO e CONTRA-CENA – mini contos de raymundo rolim

O bobo

 

Era isso o que pensavam então! Então era isso! Pensavam mas nunca falavam. Eram uns esquisitos aquela gente. De onde cargas-d’água tinham vindo? Ninguém sabia dizer nada que prestasse, só coisinhas assim, de nada, bobagenzinhas. Eram palavras tolas, coisa de gente que sabia falar sem saber o que falava. Riam-se. Pelo menos isto faziam, ih, e como riam!!! Pra piorar, as vozes que tinham eram guinchados horríveis, estridentes. Aquilo era nada. Parece que aquela gente tinha saído debaixo do chão. Rotos, sujos e não sabiam nada. Tinham fome, ih se tinham, e bebiam água. E diziam bobagem e riam. Um deles era o representante do resto, aquele que acreditavam ser o bobo-mór, que lhes era igual ou superior. Esse nem ria e nem falava. Observava calado toda aquela indolência hirta. Parecia estar plugado num’outra instância. Pelo menos mantinha os olhos bonitos e serenos abertos; como olhos de hindus. Esse era o bobo deles! Gestos graúdos como os de um ator e de repente, este bastante representante desta choldra, desabou, revirando os grandes olhos especulativos, para se pôr de pé em seguida e à guisa de oráculo, falou-lhes na linguagem das cavernas, ou antes, linguagem de magma. E eles se entreolharam e riram mais uma vez, um risinho bobo, de gente tola, que nem sabia rir de nada. Quando o bobo voltou à tona, isto, é, a si, fez um sinal único e rápido, simples e enérgico com a mão. E logo um raio saltou de banda e levou aquela gente que só ria, ria de nada, riam deles, era uma asneirazinha. Tinham visto numa telenovela uma vez e aprenderam depressa! Só isso! É que o bobo-mór era assim mesmo, às vezes meio temperamental e impunha-se a si a tarefa de limpar a terra de gente que ria, de nada, de bobagenzinhas, gente de grande inutilidade. Depois o bobo sumiu! Dizem que partiu para um certo planalto. Para um planalto central. Para prestar ajuda a muitos, pois reclamava a si o reino da Inglaterra. Ele era a rainha da Inglaterra. Havia visto sua majestade numa capa de revista, na banca da esquina, gostou do traje e a vaidade se lhe afeiçoou. Tomou-lhe o juízo. Passou-se a chamar Dom, Dom Fernando.

 ================

Contra-cena

 

O interesse pelo show era geral. Finalmente a estréia seria dali a duas horas e a imprensa noticiara. Noticiara não; fora bombardeado com exaustivos clichês o grande evento; o megaevento. Os batedores com suas motocicletas se aprontavam em frente ao hotel para abrir alas no trânsito perturbado, nervoso e engessado. Encontravam dificuldades de locomoção, rugiam seus motores e aceleravam, sem que saíssem do lugar. Alguns carros bateram, coisa leve, logo à frente e outros lá em cima no cruzamento e lá atrás também. O trânsito ameaçava transformar-se num caos previsível, aliás, completamente previsível. O astro dentro da limusine aguardava como podia e não deveria ceder em hipótese alguma aos impulsos de gritar e se descabelar. Afinal, já estava “aprontadinho para o show”. Meia horinha de camarim para relaxar e em seguida subir ao palco; seria este o roteiro suficiente. Era o que imaginava. Aproveitou o incidente para ficar ali quietinho e repassar mentalmente algumas letras das novas canções com os novos arranjos. Contava cada passagem, em que rufariam forte as baterias, ali e acolá entrariam os solos da guitarra; o contrabaixo que faria contraponto com o piano, o sax que duelaria furioso com o clarinetista. Os metais entrariam logo depois, na segunda música, e ficariam até a quinta, quando então seria o improviso e ele, o artista principal, poderia tomar um pouco de água e ar. Fazia de conta que não ouvia as sirenes que teimavam em desequilibrar o seu senso e sistema auditivo e nem as muitas buzinas dos bilhares de carros que, parados, aceleravam e aceleravam. Andar que era bom, nada! Ainda bem que o ar condicionado funcionava legal. Apertou um botão e saltaram da saliência à sua frente copos e gelo nos copos, e achou que poderia tomar um grande e bom trago do velho J.D. Não arriscaria um cow-boy pra não ficar troncho antes da hora, pois que o jantar seria servido apenas depois do espetáculo concluído, quando teria convivas especiais. O comandante do trânsito apareceu, de repente, singrando os céus, num helicóptero barulhento, numa última e desesperada tentativa de resgatá-lo e só não o fez por problemas com a seguradora, que informada da situação, alertou que nas cláusulas do contrato firmado entre a companhia e aquele senhor artista, não estava previsto esse tipo de resgate, de acrobacia aérea. Não foi possível e não houve show. Problemas com o trânsito. Foi o alegado. Mesmo porque, ele distraíra-se a esvaziar aquela garrafa e ainda outra que estava sob o banco e bem que poderia errar algumas notas, ou mesmo frases inteiras e já tinha dificuldades em balbuciar o próprio nome, quanto mais fazer o “bis”. Foi a última coisa que pensou antes de adormecer profundamente no banco traseiro da limusine que felizmente, tinha ar condicionado e uma garrafa vazia a lhe fazer companhia.

OH SÃO LUIZ .ma – poema de nauro machado

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.