Arquivos Mensais: junho \30\UTC 2009

MAURICIO MARQUES em turnê pelo Brasil

MAURICIO MARQUES - mauricio-marques_04-

MAURÍCIO MARQUES

Violonista gaúcho de grande expressão e com sólida carreira dentro da música regional do Rio Grande do Sul, Maurício Marques desenvolve um amplo trabalho, voltado à composição e orquestração dentro do regionalismo. “Resolvi fazer um disco mostrando minha visão da nossa música e suas várias vertentes. Aqui temos a influência das raízes rurais, em que a milonga é o principal elo de ligação, assim como o chamamé, a vaneira, e uma infinidade de ritmos. Mas também temos a influência do choro, do samba e do maxixe, ritmos que há muito tempo são praticados por aqui”, afirma o músico. Ritmos como choro, tango, milonga, chamamé, chacarera, candomblé, valsa, baião, zamba e chamarra, dão seqüência ao trabalho de pesquisa de ritmos e aplicação deste material em novas composições.

Maurício Marques é um violonista de mão cheia. Gravou Astor Piazzolla, participou da Orquestra Brasileira de Cinema, dividiu o palco com Toquinho, Kleiton e Kledir, Plauto Cruz, Dominguinhos,Luiz Carlos Borges, Renato Borghetti e muitos outros grandes músicos brasileiros. Seu primeiro disco, Cordas ao Sul, obteve três indicações ao Prêmio Açorianos de Porto Alegre, em 2004, e foi premiado como melhor instrumentista regional. Desde 2005 integra oQuarteto Maogani, ao lado dos violonistas Paulo Aragão, Carlos Chaves e Marcos Alves. Com esse grupo, excursionou pela Europa e fez a abertura do show de Sérgio Mendes, em Los Angeles. Teve um livro com suas composições editado na França pela Editora Henry Lemoine, dentro da coleção Sergio Assad.

Participam do show Milongaço os músicos Maurício Marques no violão de oito cordas, Felipe Alvares no baixo, Luciano Maia no acordeon,Marco Michelon na percussão e Celau Moreyra no violoncelo.

Sobre o disco – por Maurício Marques

Resolvi fazer um disco mostrando minha visão a respeito da música regional do Rio Grande do Sul. Aqui temos a influência das raízes rurais, onde a milonga é o principal elo de ligação, o chamamé, a vaneira, enfim, uma infinidade de ritmos. Mas também temos a influência do choro, do samba e do maxixe que há muito tempo são praticados por aqui. O gaúcho Octávio Dutra, um grande compositor nascido em 1884,passou sua vida praticando o choro junto com centenas de músicos que também tocavam este gênero. Depois veio Jessé Silva, Túlio Piva, Lupicínio Rodrigues. Quanto à música clássica, base de meu estudo em violão, foi trazida pelos primeiros colonizadores portugueses e espanhóis, e depois pelos imigrantes italianos e alemães, dentre muitas outras etnias que aqui aportaram e formaram a cultura do povo gaúcho. Todas estas informações e influências resultaram em um disco bastante camerístico que mistura elementos da música gaúcha, do choro e da música clássica.

Serviço:

Datas da turnê:

Teatro Regina Vogue – Curitiba. 30 de junho – Theatro São Pedro – Porto Alegre. 01 de julho – Teatro do Sesi – Rio de Janeiro. 03 de julho – Espaço Cultural Cachuera – São Paulo.

Informações para a imprensa:
Anaterra Viana
Verdura Produções Artísticas
(41) 3324 8446 e 99065906

verduraproducoes@gmail.com

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Ivo Rodrigues se recupera bem do transplante de fígado e deixa a UTI – editoria

Há três anos o músico passava por tratamento médico e esperava pela cirurgia.

IVO RODRIGUES no KAPELLE PUB

IVO RODRIGUES no KAPELLE PUB

O vocalista da banda curitibana BlindagemIvo Rodrigues, passou por um transplante de fígado noHospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na quinta-feira (25). A cirurgia começou às 17 horas e terminou às 23h50. A operação foi bem-sucedida e Ivo se recupera na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.

De acordo com o médico Júlio Coelho, professor titular e chefe do Serviço de Cirurgia do Aparelho Digestivo e Transplante Hepático do HC, apesar de ser uma cirurgia grande e complexa, a operação do vocalista ocorreu de forma tranquila.

“Ele recebeu um órgão de um doador jovem, de 24 anos, que sofreu um acidente de moto em Telêmaco Borba (Campos Gerais”, disse o médico. Segundo Coelho, Ivo ainda continua na UTI, mas já foi retirado da respiração artificial. “O fígado já está funcionando normalmente, com uma evolução boa da função hepática. Se continuar assim, em dois ou três dias ele deve sair da UTI”, explicou.

Segundo o médico, o transplante de fígado é um procedimento cirúrgico de elevado risco. “A porcentagem maior de risco já passou, mas ainda é preciso ter muito cuidado nestes primeiros dias de recuperação, pois o fígado tem uma função muito importante”, disse Coelho. O médico acredita numa rápida recuperação do vocalista.

“Prevemos que, se continuar bem a recuperação, em torno de um mês e meio a dois meses ele já possa voltar às atividades normais”, definiu Coelho, inclusive com shows, para alegria dos fãs da banda.

Mudança de vida

Há três anos Ivo esperava na fila do transplante por um fígado. Durante esse tempo ele tomou remédios e fez tratamento, com acompanhamento médico feito pela equipe de transplantes do HC, contra a insuficiência hepática, causada pelo consumo de bebidas alcoólicas. O baterista da banda Blindagem, Rubén “Pato” Romero, afirmou que o grupo vai esperar a recuperação do cantor, mas continua cumprindo os compromissos assumidos.

“Vamos continuar trabalhando. Enquanto o Ivo se recupera, vamos contar com outro vocalista. Ele (Ivo) vai se recuperar bem e vai voltar com tudo para a banda”, afirmou Pato Romero. O baterista disse que Ivo precisou mudar o estilo de vida durante o período do tratamento.

“Quem acompanha a banda de perto sabe como ele estava esses últimos anos. O Ivo mudou o estilo de vida para não morrer e continuar com a banda. Ele estava doente, tomando remédios e não podia continuar bebendo como uma pessoa normal”, definiu o baterista.

A banda

A Blindagem é uma das bandas pioneiras da cena do rock paranaense. Formado no final dos anos 70, o grupo alcançou projeção nacional nos anos 80. O poeta curitibano Paulo Leminski teve grande influência na história do grupo. A parceria Leminski/Blindagem rendeu 11 músicas para a banda.

A Blindagem conta com a seguinte formação: Ivo Rodrigues (vocalista), Paulo Teixeira (guitarra),Alberto Rodriguez (guitarra), Paulo Juk (baixo) e Rubén “Pato” Romero (bateria). Confira o som da Blindagem no myspace da banda.

Doação de sangue

Amigos e familiares do vocalista Ivo Rodrigues pedem a ajuda de doadores de sangue, para repor o Banco de Sangue do Hospital de Clínicas. Pode ser sangue de qualquer tipo.

Endereço:  Banco de Sangue do Hospital de Clínicas de Curitiba. Av. General Carneiro, 181 Centro. Fone: 41 3360-1800

Fazer a doação em nome de Ivo Rodrigues Junior.

foto do arquivo do site.

texto GP.

A MORTE E AS LETRAS por jorge lescano / são paulo

Para Raul Longo


Um grego deplorou a invenção da escrita, julgava que ela deveria enfraquecer o exercício da memória. Diz-se que com a morte de cada homem o mundo fica mais pobre, tal verdade foi escrita por alguém que dedicou a vida a esta atividade. Outro afirmou que o ofício de escrever é uma luta contra a morte. O necrológio é um gênero literário, nenhum texto recupera a vida, no máximo poderá sintetizar escorços do que foi um corpo e uma mente. Estranha leitura a do noticiário fúnebre.

Nesta madrugada insone, navegando na internet – navegador esporádico e inconstante – dei com a notícia de um amigo a quem não vejo há mais de vinte anos. Publicava ele uma crônica de lembranças de um desenhista que circulou pelo centro de São Paulo nas três últimas décadas do século passado. Nesse texto dedicado a outro, surgia o meu nome, e entre parênteses, de forma lateral pode-se dizer, a notícia do meu falecimento. Surpresa de ver estampada em letras de imprensa esta informação. Antes, em duas ocasiões, já haviam me dado por morto. Nunca soube como surgiram estas versões infundadas. Das vezes anteriores, talvez por apenas tê-la ouvido, a “informação” provocou meu bom humor. Não me escapa que também era mais jovem e a morte parecia um fato distante, quase alheio; agora, pelo registro impresso, o boato adquire categoria de verdade, tal a superstição cultivada pelos leitores compulsivos. Passado o momento da surpresa, a reflexão, povoada de leituras sobre o tema, aponta outro rumo, o do vácuo deixado pela morte.  Sempre testemunhamos a morte dos outros. Se os mortos são próximos, a ausência se instala no cotidiano, vemos o mundo e pensamos em como eles o veriam, também lamentamos que não estejam presentes para desfrutar daquilo que nos agrada. Sinto a ausência dos meus mortos como um enorme vão na realidade, algo que sem deixar de ser verdade não corresponde, não é coerente com a tessitura do universo. O absurdo da vida se torna patente: nascer para morrer. Para os meus conterrâneos eu devo ter morrido há mais de quatro décadas, tantos anos faz que saí da minha terra. Para eles, nos primeiros tempos, isto deveria ser apenas uma suspeita, e acredito que alguém ainda me considera vivo. Gosto de imaginar qual seria a reação deles se reaparecesse de repente. Este tipo de morte se parece com o sonho e é assim que por vezes me visitam. Sei de alguns que já se foram, deduzo a partida dos outros pela idade dos mais velhos.

Quando aquela notícia na internet se tornar realidade, quem imaginará o mundo com os meus olhos?

Sempre vivi à margem dos mercados da arte, acredito que as dúzias de textos que escrevi há muito amarelaram na memória dos meus raros leitores. Sou avesso às fotografias porque elas fixam o passageiro. Penso que a obra dos escritores só se completa com a morte deles, mas, como saber o que ainda tinham em mente? Conhecemos os projetos de algumas pessoas pelo que elas nos contam, ignoramos o que por esquecimento ou qualquer outra razão deixaram de dizer. Agora, ao ler sobre a minha pretensa morte, me pergunto o quê as pessoas que me conheciam pensaram. Não pretendo interrogar ninguém nem comunicar “oficialmente” a minha ressurreição. O núcleo dos meus antigos amigos fica cada vez menor e mais distante, contudo, me pergunto: o quê de mim terá ficado neles enquanto me pensam morto?

Será que estou pronto para enfrentar a responsabilidade da morte? Quando ela chegue, quantos e quais textos deixarei de ler? Sempre me recusei a contemplar cadáveres. Se a exposição do corpo é inevitável, desejo que um livro aberto cubra o meu rosto, que meus afetos e desafetos lembrem de mim nos afazeres cotidianos, é assim que lembro os meus mortos. Ainda não decidi qual livro me acompanhará na sepultura, são tantos os que não li!

Quero uma morte definitiva para mim enquanto me recuso a aceitar a ausência total daqueles que partiram. Creio que pensar profundamente na morte nos faz viver com mais intensidade o momento fazendo de cada instante algo único.

Agradeço ao meu amigo seu engano (há três anos me pensa morto), ele me permitiu fixar estas noções tantas vezes adiadas. Creio que o grego estava enganado: as letras enriquecem a memória, prolongam a vida.

CARTA A NELSON RODRIGUES por sérgio da costa ramos / florianópolis.sc

Meu caro Anjo Pornográfico: Estava escrito há 10 milhões de anos, quarenta minutos antes do Nada, que o Fluminense perderia para o Avaí na Ressacada, aos 48 minutos do segundo tempo, numa intervenção direta do Senhor dos Passos, inconformado com a grave, a cava injustiça que se desenhava em campo: mais um empate sensaborão, mais uma iniquidade do destino. O azurra jogava como nunca e empatava como sempre.SERGIO DA COSTA RAMOS

Junto com um maço de “Caporal Amarelinho”, pito da tua predileção, mando-te o VT do jogo, para que vejas com os teus próprios olhos o “passeio” que o tricolor tomava no primeiro tempo – e os gols que o meu Avaí perdia no segundo, depois de um empate injusto, estimulado por Sua Senhoria. Sim, tens razão: a arbitragem normal e honesta confere a uma partida um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio, dá ao futebol uma dimensão nova e – como dizias – “shakespeariana”.

Pois o Avaí jogava como a Seleção Húngara do Armando Nogueira, deslizando em campo como um cisne de Tchaikovsky. O primeiro gol, de Muriqui, resultou de uma sinfonia bem acabada, uma Nona de Beethoven, uma Sinfonia número 3, de Chopin – sem querer “inticar” com um dos seus virtuoses, o nosso emérito tricolor Arthur Moreira Lima.

Não chorem, caros Nelson e Arthur, lágrimas de esguicho: aquele gol espírita, emanado da canhota de um Gago, não tinha nada a ver com o “Sobrenatural de Almeida”. Era a pura materialização da espada da justiça sobre a Terra. O Avaí jogava futebol – e bem – o tricolor, fazia cera. Acreditem: até o técnico tetracampeão do mundo, Parreira, foi flagrado retendo a bola à beira do campo, tentando fazer o relógio andar.

E se a justiça quisesse impor sua verdade sobre o jogo, os ventos da Ressacada teriam testemunhado um massacre. O placar moral da partida não ficaria por menos de 5 a 2 – tivessem William e Lima consumado gols fáceis, gols que até a “grã-fina de nariz de cadáver” faria, mesmo sem saber “quem é a bola”.

Agora sabes, meu caro Anjo, aí das alturas onde cometes o teu voyeurismo: só há uma “Squadra Azurra” no mundo – e não é a esquadra de Buffon, Gatuso, Cannavaro e Pirlo. A verdadeira “azurra”, a que faz “cosi e tutti quantti”, é a azurra de Martini, Muriqui, Marquinhos e Leo Gago.

Dirão os idiotas da objetividade, os torcedores anticelestiais: comemoram o quê, esses azuis? O primeiro lugar da zona do rebaixamento?

Pois em verdade vos digo, caro Nelson e “amicci” rivais: este campeonato brasileiro ainda ouvirá falar de novas epopeias azurras, de novos “allegros” avaianos, de novos finais intensos e dramáticos, como um “Macbeth”, um “Coriolano”, um “Julio César”, um “Otelo”, um “Hamlet”, um “Rei Lear” – que eu rapidamente adaptaria para “Rei Leão”. Modificando todos os desfechos, é claro.

Daqui para a frente, o Avaí só conhecerá “happy-ends”.

HOMENAGEM AO AMARELO de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sol e a mãe amarela

com seu úbere de raios mornos

amamenta a vida.

.

Plantações de girassóis

bebem grandes quantidades de amarelo.

.

Amarelo não se perde

se uma flor de ipê morre

seu amarelo evapora

e é sugado pelos canários.

.

Todo o pássaro vem do amarelo

tem sua gênese na gema

portanto todo o voo tem sua iniciação no

amarelo.

MERCADO CENTRAL (1) por darlan cunha / belo horizonte.mg

No Mercado Central, em BH, ouvi que as letras miudinhas dos contratos socias e das bulas ninguém as lê, pelo que nos consome de paciência, de paz e ciência. É bom ir lá para, entre mil cheiros e formas, cores e timbres, sorver o diário de queixas e gozações em sua mais exata tradução, flores, espinhos e raízes do populacho em sua sanha feraz, sim, isto é para dirimir dúvida qualquer a respeito do torso ferrenho da plebe ignara, bem como par, talvez, esbarrar ali em distintas luvas e colares, e nos mais vistosos seios e septos nasais, refeitos de algum bisturi. Até porque mercado é mercado, mercancia, mercadoria, mercadologia, marketing, open market, bolsa de retalhos, de mercadorias (café decidido em london city, cacau decidido em chicago city), ou seja, lá está em tom sustenido maior a pífia servologia social e sua sinonímia infinita, desde imemoriais tempos, e ainda antes da invenção de deus, sim, já antes dele nós nos vendíamos e nos comprávamos a granel e por atacado, entre algum usucapião, um empréstimo ou um aluguel e outro a módicos preços.

NO MEIO DO CAMINHO por hamilton alves / florianópolis.sc



Drummond tem um poema que, para alguns críticos e outras pessoas, que de crítico não têm nada, como o psiquiatra Hélio Pellegrino, inaugurou a poesia moderna ou ingressou, de certo modo, no espírito moderno que guiou a arte brasileira a partir de 22. Ei-lo:

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”.


O psiquiatra referido, amigo de Paulo Mendes Campos, de Otto Lara Resende e de Fernando Sabino, quando, freqüentando à época os bancos do ginásio, ouviu o professor de português dizê-lo, em aula, ficou profundamente impressionado, a ponto de perceber que ali nascia a poesia moderna brasileira. De certo modo mudava tudo na poética que vinha desde então se praticando.

Acredito que esse deva ter sido um dos primeiros poemas de Drummond. Foi escrito (referido no livro de Geneton de Moraes Neto – uma biografia sobre o poeta) em 1927.

O poema tornou Drummond, da noite para o dia, uma espécie de mago. Suscitou um verdadeiro choque na opinião pública e, especialmente, nas pessoas que lidavam ou estudavam poesia, uns estranhando-o, outros entendendo, como Hélio Pellegrino, que era uma janela ampla que se abria ou um vento renovador que soprava na poesia tupiniquim.

Ainda hoje suscita narizes torcidos, palavras de menoscabo ao poeta, e, claro, comentários de toda a natureza, pois tornou-se uma espécie de revolução no modo de formular ou conceber a poesia.

Na biografia de Drummond referida, o poeta numa resposta dada a uma pergunta formulada por esse jornalista, envolvendo a feitura desse poema, diz muito francamente:

“Minha intenção era fazer um poema monótono, sobretudo monótono”.

Assim, sendo uma novidade boa para uns e algo atroz para os ouvidos ou a sensibilidade para outros, esse poema atravessa já 81 anos de existência.

Devemos-lhe muito, pois arejou a mesmice até então vigente na poesia brasileira, feita de métrica e rima (nada contra), dentro de cânones já mais ou menos superados, tendo a Semana da Arte Moderna, de 1922, formulado tal

rompimento por via de um grupo paulista conhecido, tendo Oswald de Andrade à frente.

“No meio do caminho” foi a senha de liberdade que ecoou na tribo lá se vão tantos anos.

SOB O CAOS de otto nul / palma sola.sc

SOB O CAOS
Imerso no caos
Que o tumultua
E também o situa
Na incerteza dos
Conflitos da alma
Ante o dilema
De ser ou não ser
Que é o tema
Que ora aflora
Para todo ele
Que cultua e adora
A percepção nua
Sempre amarga
Sob a clara lua
x x x
(junho/09 – Outro Nul)
Imerso no caos
Que o tumultua
E também o situa
Na incerteza dos
.
Conflitos da alma
Ante o dilema
De ser ou não ser
Que é o tema
.
Que ora aflora
Para todo ele
Que cultua e adora
.
A percepção nua
Sempre amarga
Sob a clara lua
.
x x x
(junho/09 – Outro Nul)

JÁ DOEU DEMAIS por alceu sperança / cascavel.pr

Quem lê o relato denso e emocionado de Frei Betto em seu livro “Batismo de Sangue” e o texto leve e bem documentado de Aluízio Palmar no livro-questão “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” talvez não consiga debelar todas as incertezas e dúvidas que ainda cercam os anos de chumbo da ditadura.

Mas desses dois livros uma coisa salta à vista: o Partido Comunista Brasileiro (PCB) apanhou duro sem dever nada, pois quem fez a luta armada contra os lutadores armados foram os grupos dissidentes, que saíram ou foram expulsos do Partidão. Agora cabe apenas à história julgá-los, desde que a anistia veio e passou uma borracha geral em tudo aquilo.

Frei Betto conta de maneira pormenorizada como Carlos Marighella saiu do PCB para formar sua ALN. Contrariado com a decisão do PCB de pugnar pacificamente pela democracia, Marighella escreveu, segundo Frei Betto, que a saída para os brasileiros “só pode ser a luta armada (…) com todas as consequências e implicações que daí resultam”.

Já Palmar narra com extrema precisão a teia dos acontecimentos que conduziram bravos jovens à sua dramática opção de enfrentar a ditadura e a CIA. O pai de Aquiles Reis (MPB-4), velho militante do PCB, pediu calma ao filho e a Palmar, que estavam se preparando para resistir pelas armas: ele supunha que aquela “quartelada” não iria durar muito tempo. Por aí vemos que o PCB também errou: confiou demais no espírito democrático da classe dirigente.

O general Raymundo Negrão Torres, autor do livro “O fascínio dos anos de chumbo”, foi honesto e preciso ao responder a uma pergunta sobre qual era o grau de “infiltração” nas Forças Armadas em 1964: “Mais esquerdistas do que comunistas e um grande número dos que se intitulavam nacionalistas”. Ele, glória!, sabe distinguir entre esquerdistas e comunistas, coisa que alguns ainda confundem por ignorância ou má-fé.

Quando as guerrilhas estouraram, a repressão naturalmente as golpeou com dureza, mas aproveitou, covardemente, para levar de roldão os comunistas brasileiros, que se opunham a aventuras armadas. Sofreram comunistas que só queriam democracia, religiosos, cientistas, professores, sindicalistas, jornalistas, advogados, estudantes e muitos militares – bastava pensar em democracia e vinha a censura, a perseguição, a repressão, a tortura.

Aluízio Palmar um dia se tornou paranaense ao vir para organizar uma guerrilha no Parque Nacional do Iguaçu, mas a tarefa acabou de vez quando foi preso em Cascavel. Apesar do título questionador, quem lê a obra de Palmar não encontra nela nenhum rancor ou mágoa. Descobre a serenidade de seu raciocínio, a clara evidência de seu amor ao povo mesclada a análises rápidas, diretas, firmes, sobre as situações enfrentadas.

Palmar fez opções e elas foram derrotadas em combate, muitas vezes desleal. O supra-sumo da deslealdade foi cometido no Parque Nacional do Iguaçu, quando o famigerado sargento Alberi, egresso do grupo brizolista, atraiçoou guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que já estavam amplamente vencidos, levando-os a uma armadilha fatal.

O livro de Aluízio Palmar mostra um espírito desarmado, a quem interessa agora apenas a verdade. E não mais para doer a quem possa doer, pois já doeu muito. Demais.

RASCUNHO DE UM SUICIDA de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - RASCUNHO DE UM SUICIDA - O Suicídio de Antoine Wiertz

Ou a alma mostrada

.

para João do Lago e Bia de Luna

Muitas vezes me pergunto

__ Por que ainda estou aqui?

__ Por que ainda estou na cidade?

.

A cidade nada tem a oferecer

lugar de encontros e culturas devia ser

mas as pessoas estão a se esconder

nela identidades estão a se perder

às vezes as pernas sob um carro

um nariz na porta de vidro a se espremer

o gerente branco do banco a dizer

que o crédito está mesmo caro.

.

Na cidade pessoas correm a todos lugares

mas correm mesmo para levar tudo à casa,

depois se enterram nela como se tivessem

num casulo, duro, protegido e compacto

.

__ Por que ainda estou aqui?

Será que ao ir embora da cidade

poderei ir embora de mim e assim…

…ser resposta a todas interrogações?

.

Será que encontrarei em outras paragens

bois e passarinhos substitutos dos amigos

agora enterrados em seus casulos?

.

Melhor seria ir embora daqui

e de todo lugar

voar de um edifício

ou acariciar a bala com um soluço

de um dos dois ouvidos meus

talvez o mais mouco deles.

Melhor seria beber um bom vinho

com um pó especial nele diluído

sentindo a transição do prazer

do vinho seco para o amargor da morte

ela esvaindo-se de mim como alma mostrada

.

De fato a cidade não mais me serve

bem por isto virei andarilho de estradas

podendo até reconhecer as manchas

do banco lateral à minha poltrona predileta

para destinos repetidos e nauseabundos

como a velha camisa onde falta um botão.

.

Ah, a cidade e os amigos

recebam este poema como convite

para um caixão de madeira de terceira.

Deixo a vocês o legado da promessa:

do poeta que não fui

do pintor de quadros que morreu antes

do músico que apreciou os acordes de tantos

ah! quanta inveja sincera tive.

Falo da inveja branda, que não agride

nem quer o mal de quem tem o dom

e a fortuna da técnica construída no tempo.

.

Pois podem descer o caixão à terra

a alma há muito já se mudou

tem novo endereço no céu

virou lágrima que pousará com a chuva.

Como água benfazeja, chuva miúda.

Quem quiser me encontrar

pode procurar-me em poemas

ou na barriga de uma barracuda

nascerei de novo, virei qual um peixe

mas acredito que até eu mesmo

muitas vezes me perdi neles, me deixe.

.

Portanto, não chorem por mim.

O corpo velho não merece

lágrimas da dor de ninguém.

Bebam apenas a mim e lembrem-se

que nós, simples mortais,

vivemos apenas enquanto

durarem nossos filhos

talvez os netos e os queria Fluminense.

O resto é história e obra.

Isto é, se tivermos construída uma.

BEETHOVEN, VIDA AMOROSA – editoria


Amor e casamento, sentimento de solidão e busca constantemente frustrada de alguém que preencha o vazio de sua vida: estes são, nos primeiros anos do século XIX, problemas essenciais e secretamente tormentosos para Ludwig van Beethoven. Nesse sentido, é muito significativo que a fidelidade conjugal seja o tema de sua única ópera:Fidélio, composta nos anos de 1805 e 1806, na qual a esposa de um prisioneiro político disfarça-se de homem para ter acesso à fortaleza onde ele está encerrado e descobrir um meio de libertá-lo. Envolvimentos muitos freqüentes e intensos, mas em geral também muito breves, sucedem-se rapidamente, entre 1806 – época em que pareceu estar a ponto de pedir em casamento a amiga Josephine von Deym – e os dez anos seguintes. Relacionamentos saldados por fracassos, dos quais ele se consolava absorvendo-se no trabalho.

Em 1806, mais ou menos na época em que sua amizade com Josephine entrava em uma fase de esfriamento, Ludwig tentou aproximar-se da pianista Marie Bigot. Mas essa oferta de amizade foi muito mal entendida pelo marido da artista, que viu nela uma manobra de sedução. O episódio se Beethovenencerrou com duas penosas cartas de explicação e pedidos de desculpas enviados por Beethoven a seu amigo Bigot, que conhecera como bibliotecário de um de seus protetores, o nobre russo Conde Andrei Kirilovitch Rasumovsky.

Dois anos mais tarde, Ludwig entusiasmou-se pela jovem Julie von Vering; mas nem chegou a manifestar seus sentimentos, ao perceber que ela estava apaixonada por seu amigo dos tempos de Bonn, Stephan von Breuning, com quem se casou em abril de 1808. (Julie morreria subitamente, aos 19 anos, em março do ano seguinte).

No outubro de 1808, Ludwig aceitou hospedar-se nos alojamentos que lhe foram oferecidos pela Condessa Anna Marie Erdödy, no nº 1074 da Krugerstrasse, no mesmo prédio em que moravam os seus amigos Lichnowsky. Era enorme a confiança que depositava nela como conselheira para assuntos pessoais e de negócios, a ponto de chamá-la de Beichvater(padre confessor). E acredita-se que tenha existido algum tipo de envolvimento amoroso entre ambos, porque, em 1809, numa daquelas suas reações intempestivas bem típicas, Beethoven mudou-se para outro endereço, por suspeitar que a Consessa Erdödy estivesse interessada em seu camareiro. O mal-entendido viria a se desfazer mais tarde e, em 1815, ele dedicaria a essa aristocrata de origem húngara suas duasSonatas para Violoncelo, Opus 120.

Ainda em 1809, Ludwig cortejou a jovem Therese Malfatti, recorrendo aos bons empréstimos de um amigo, o Barão Ignaz von Gleichenstein, para que pedisse a mão da moça a seu pai, o médico Johann Mafatti. Mas não só a família se opôs ao casamento como parece não ter havido indício de que o afeto de Ludwig fosse correspondido. “Para ti, pobre B (Beethoven) – escreve o músico numa carta da época endereçada a Von Gleichenstein –, não há felicidade no mundo exterior: é em ti mesmo que deves procurá-la. Só no mundo ideal encontrarás amigos e é só em teu próprio coração que deves, agora, procurar apoio.

Um novo alento virá, em maio de 1810, com um namoro inconseqüente, que durou umas poucas semanas, com Bettina Brentano (1785-1859), a irmã do escritor Clemens Brentano. No ano seguinte, porém, ela se casaria com o poeta romântico Achim von Arnim. Nessa época os dois futuros cunhados já eram célebres por terem recolhido, entre 1806 e 1808, os tesouros da poesia popular, na coletânea Das Knaben Wunderhorn (A Trompa Mágica da Infância), que, mais tarde, seria rica fonte de inspiração para um compositor como Gustav Mahler. Um dos biógrafos de Beethoven, o italiano Leonello Vinceni, descreveu Bettina como “uma mulher ao mesmo tempo diabolicamente viva e inexplicavelmente preguiçosa, leal e cheia de maldade, verdadeira e mentirosa, ingênua e maliciosa”. Seu temperamento irrequieto e volúvel – a ponto de, nos últimos anos de sua vida, ter entusiasmado pelas teorias socialistas – não era de molde a permitir que fosse estável o seu envolvimento com um homem de caráter forte como Beethoven. Mas para o compositor o contato com ela teve considerável importância.

Foi Bettina quem lhe ofereceu para ler essa grande meditação sobre liberdade que é a peçaEgmont de Goethe, para a qual, em junho de 1810, ele escreveria uma música de cena. Foi ela também, de certa forma, a intermediária do primeiro encontro entre o músico e o poeta, em julho de 1812, no balneário de Teplitz (atual Teplice), na Boêmia. “Nunca vi um artista mais concentrado, mais energético, mais profundo”, escreveu Goethe, numa carta de 19 de julho à sua mulher, Christiane Vulpius. “Compreendo bem porque a todo mundo ele possa parecer excêntrico”. E em 2 de setembro, Goethe comentava, em carta ao compositor Carl Friedrich Zelter: “Em Teplitz, conheci Beethoven e seu talento encheu-me de espanto. É claro que ele tem uma personalidade totalmente indisciplinada e não está todo errado em achar o mundo detestável; mas isso não o torna mais agradável nem para si mesmo nem para os outros. No entanto, há nele muito o que desculpar e lamentar, pois está perdendo a audição, o que talvez prejudique menos a parte musical do que a social de sua natureza, pois esse defeito torna duplamente lacônico a quem já o é por natureza”.

É de Bettina Brentano, também, a autoria de um episódio que, por muito tempo, foi tido pelos biógrafos como verdadeiro, pois se encontra narrado numa carta de Beethoven endereçada a ela. Mas hoje se sabe que essa carta é falsa, tendo sido escrita pela própria Bettina. O mínimo que se pode dizer dessa história, entretanto, é que, se não é verdadeira, foi bem inventada, pois se adapta com perfeição ao temperamento altivo e rebelde do compositor. De acordo com ela, passeando junto com Goethe pelo parque de Teplitz, Beethoven teria cruzado a carruagem do casal imperial, que também passava as férias nesse balneário. E, enquanto o poeta se inclinava servilmente, o músico enterrava o chapéu na cabeça e continuava seu caminho com arrogância, os braços atrás das costas.

O ANO BISSEXTO – editoria

Ano bissexto é aquele que possui um dia a mais do que os convencionais 365 dias. No calendário gregoriano, o dia extra é incluído a cada 4 anos, sendo adicionado no mês de fevereiro, que passa a ter 29 dias. O ano bissexto ocorre pelo fato de que o ano-calendário convencional possui uma pequena diferença em relação ao ano solar. Enquanto que no primeiro, o ano dura 365 dias para se completar; no segundo, dura 365,25 dias.

Esses 0,25 corresponde a um quarto de um dia. Portanto, a cada quatro anos existe a diferença de um dia em relação ao calendário convencional e solar. Esse dia é justamente o que caracteriza o ano bissexto.

Na verdade, o dia extra que serve como sincronismo não é o dia 29 de fevereiro, como a maioria das pessoas pensa, mas sim, o dia 24 do mesmo mês.

O ano bissexto passou a ser adotado em 238 a.C. no Egito, por Ptolomeu III (246-222 a.C.). O mesmo surgiu a partir da necessidade de sincronizar os dias do ano, uma vez que qualquer discrepância no calendário poderia afetar a agricultura, a base da economia dos povos antigos.

Alguns pensam que o nome “bissexto” é dado pelo fato de tal ano possuir 366 dias, o que não é correto. Na verdade, Julio César optou pelo mês de fevereiro e escolheu “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Foi assim que surgiu o nome “bissexto”.

O SOM DO CONCRETISMO por bráulio tavares

A poesia concreta deu uma ênfase excessiva ao visualismo, tornando-se com isto o ponto mais alto da poesia escrita, da poesia que só existe no espaço visual, na página. Ao mesmo, tempo, entretanto, ela promoveu o desmembramento da palavra em unidades menores autônomas: a sílaba, a própria letra. E com isto trabalhou as sonoridades, as aliterações, as paronomásias, os jogos de palavras que sempre levam a Poesia de volta ao terreno da fala e do canto. Parece que o grande alvo, o grande adversário do Concretismo não era tanto a Fala e sim a Discursividade, o blá-blá-blá retórico de uma poesia que falava muito e dizia pouco, ou que tentava dizer muito recorrendo a conteúdos mas mostrando um enorme desleixo quanto à forma. Aquilo que Leminski chamou “uma poesia porosa”.

O Concretismo explodiu essa discursividade profusa, confusa, prolixa. Compactou a sintaxe, erodiu todo o supérfluo, redefiniu as relações entre as palavras usando novos conceitos geométricos e espaciais, numa tentativa de quebrar a fluência beletrista da “poesia de bacharéis” capaz de encher com texto descartável léguas e mais léguas de papel indefeso.

O Concretismo tentou reduzir a poesia ao essencial, baseado naquela velha equação (Dichten = condensare) em que o termo alemão para “poesia”, “Dichtung”, mostra suas raízes no verbo “condensar” e termos correlatos (denso, densidade, etc.) Poesia é linguagem concentrada, compactada, o máximo de sentido no mínimo de palavras.

Sem o Concretismo o caminho poético de Gilberto Gil e Caetano Veloso seria outro, como seria outro o de artistas posteriores como Arnaldo Antunes e Chico César. Todos estes são poetas (poetas da música, é claro, mas para efeito da presente análise não se distinguem dos poetas de livro) que se beneficiaram do que o Concretismo descobriu ao explodir o supérfluo e voltar ao essencial. Mas, ao defender a bandeira do Visual, os poetas paulistanos trouxeram de volta à luz o que a poesia tinha de auditivo, redescobrindo a importância do som das palavras, e o prazer lúdico cuja origem está na Oralidade.

Os poetas do grupo Concretista (Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari) pagaram caro pelo seu eventual elitismo, pela sua propensão à polêmica, e pelas críticas impiedosas dirigidas à produção poética que lhes era contemporânea – críticas que, mesmo quando esteticamente fundamentadas, encontravam resistência devido ao tom às vezes arrogante ou desdenhoso com que eram formuladas.

Quando tentou cantar embaixo de vaias a música “É Proibido Proibir” num festival de música, Caetano Veloso bradou para a platéia: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!” (ou seja, “estamos lascados”). Se o grupo concretista tivesse tido uma habilidade política e uma flexibilidade diplomática à altura das suas muitas e fundamentais contribuições estéticas, sua influência na poesia brasileira teria sido muito maior e mais benéfica do que efetivamente foi.

BASHÔ O MESTRE DO HAICAI – editoria

Bashô Menino

De acordo com as diversas literaturas, Bashô nasceu em 1644 e morreu em 1694, portanto morreu na plenitude de seus 50 anos. Se por um lado, algumas informações pesquisadas, ditam que pouco material está disponível para recriar a vida de Bashô antes de seu estabelecimento na cabana, outras são mais otimistas e recompõem a vida de Bashô com grande admiração. Acredita-se que ele nasceu em ou perto de Ueno na província de Iga, aproximadamente trinta milhas ao sudeste de Kyoto e duas centenas de milhas a oeste de Edo.

Seu pai, Matsuo Yozaemon, foi provavelmente um samurai de categoria mais baixa que se dedicava ao cultivo nas horas vagas. Pouco se sabe sobre sua mãe, exceto que seus pais não eram nativos de Ueno. Foi chamado Kinsaku e diversos outros nomes quando criança; teve um irmão mais velho e quatro irmãs. O status social da família eramatsuo bashôrespeitável, mas não era do tipo que prometia um futuro brilhante para Bashô, se ele quisesse seguir um curso da vida.

Na idade de 9 anos, Bashô entrou a serviço da família Todo como um acompanhante do caçula da família, Todo Yoshitada, seu mestre. Os dois meninos desenvolveram uma forte amizade e juntos estudaram literatura e poesia.

A ligação mais forte entre os dois era o haikai, um dos passa tempos favoritos dos homens da sociedade na época. Aparentemente Yoshitada tinha afinidades com a escrita do verso e até adquiriu o pseudônimo Sengin. Se ou não o estímulo inicial veio de seu mestre, Bashô desenvolveu também um gosto para a escrita do haikai, usando o pseudônimo Sobo. O primeiro poema de Bashô preservado até hoje foi escrito em 1662, quando ele tinha 18 anos. Em 1664, já com 20 anos, dois haicais de Bashô e um de Yoshitada apareceram em uma antologia de versos publicada em Kyoto. No ano seguinte, Bashô, Yoshitada, e três outros juntaram-se e comporam um renku (versos linkados, tipo renga, mais voltados para o verão) com cem versos. Bashô contribuiu com dezoito versos, seus primeiros versos do tipo.

Quando Yoshitada morreu, na idade de 25 anos, Bashô por conta do choque, foi para Kyoto onde acredita-se foi ao templo Kinpukujui, para continuar seus estudos em chinês e japonês clássico como também a caligrafia.

Em sua juventude Bashô também foi um samurai, quando em 1666, aos 22 anos passou a dedicar-se a escrita da poesia como Matsuo Munefusa. Outra suposta razão para Bashô deixar sua casa tem a ver com seus casos amorosos, contam diversas biografias, porém não parecem ter apoio no que afirmam.

Em 1672, aos 29 anos, Bashô foi para Edo, onde publicou uma série de versos. Em 1675 ele compôs versos linkados em sequência com Nishiyama Soin, da escola Danrin e pelos próximos quatro anos ele se dedicou ao trabalhos de hidráulica para se manter. Em 1682 ou 1683, a cabana de Bashô sofreu um incêndio e por outro lado foi o ano em que a mãe de Bashô morreu. Bashô, então foi para a Província de Kai. Sua cabana foi reconstruída em 1683 ou posteriormente, e Bashô voltou para Edo. Nessa época, acredita-se que Bashô tenha iniciado seu estudo zen no Templo Fukagawa. Algumas biografias sugerem que Bashô foi um monge budista, pelo fato de que ele vestia-se e expressava-se mostrando maneiras clericais. Outras biografias porém informam que é errôneo pensar que Bashô foi realmente um monge em algum tempo em sua vida.

Aos 40 anos, ou seja em 1684, Bashô viajou por diversos lugares, como um andarilho, caminhando pelo interior das cidades, vivendo do ensino da poesia, em cada vilarejo por onde passava. Em 1690 Bashô passou algum tempo em retiro, ao norte de Kyoto. Em 1691, aos 47 anos, Bashô retornou a Edo.

Matsuo Munefusa foi um nome adotado quando Bashô se tornou um samurai. Porém todos concordam que Bashô, na verdade é o pseudônimo adotado por este famoso mestre do haicai, em 1681, aos 37 anos. Há várias versões para a origem deste pseudônimo. Uma delas conta que o mestre costumava isolar-se para meditar em sua cabana onde havia uma bananeira que em japonês é chamada de Bashô-an. Alguns estudantes, que visitavam o lugar, chamavam a residência de Bashô e logo o seu morador. Uma outra versão conta que um dia, na primavera de 1681, uma bananeira foi plantada ao lado de uma modesta cabana em uma área rústica de Edo, hoje Tokyo. A planta foi um presente de um residente local a seu professor da poesia (Bashô), que tinha se mudado para a cabana diversos meses antes. O professor, um homem de trinta e seis anos de idade, ficou encantando com o presente e gostou muito da bananeira porque era um tanto como ele na maneira como ela parecia. Suas folhas grandes eram macias e sensíveis e rasgavam-se fàcilmente quando as rajadas de ventos chegavam do mar. Suas flores pequenas e discretas, pareciam solitárias, como se soubessem que não poderiam dar frutos no clima frio do Japão. Seus caules eram longos e frescos, contudo não eram de nenhum uso prático. O haicai parecia sugerir a consciência do poeta, a sua afinidade espiritual com a bananeira. Algumas pessoas que visitavam o mestre podem ter observado essa afinidade considerando a banananeira como um ponto de referência. Em todo o caso, passaram a chamar a residência, de Bashô (bananeira), e logo o nome foi aplicado a seu residente: o professor passou a ser conhecido como o mestre da cabana Bashô, ou o mestre Bashô. Bashô gostou muito do apelido e passou a usá-lo para o resto de sua vida. Em outra versão, a cabana era feita de folhas de bananeira. Ainda, Bashô teve centenas de estudantes pelos diversos lugares por onde andava e alguns deles construiram para ele uma pequena cabana. No jardim da frente eles plantaram uma bananeira, que em japonês se chama bashô, e assim foi como ele ganhou esse nome. Porém encontramos biografias, onde Basho adotou esse nome, ao mudar-se para a cabana onde encontrava-se uma bananeira.

É comum chamar o mestre também de Matsuo Bashô, nome que está associado especialmente com a celebrada era Genroku (1680-1730), que viu florescer muitas das maiores personalidades artísticas japonesas.

Todos concordam porém que o mestre viveu sempre sozinho na cabana. Em noites quando não tinha nenhum visitante, sentava-se quieto para escutar o vento através das folhas da bananeira e produzia haicais com base nessa atmosfera, que tornava-se mais profunda em noites chuvosas. Em um desses momentos, a água da chuva escapando através do telhado gotejava intermitentemente em uma bacia. Aos ouvidos do poeta que sentado no quarto não ofuscante iluminado, aquele som produzia uma harmonia estranha com o barulho das folhas da bananeira lá fora.

no vendaval do outono
escuto o gotejo da chuva
em uma bacia na noite.

A Escrita de Bashô

Alguns sites de literatura japonesa, informam que Bashô, inicialmente, escreveu poemas usando piadas e brincadeiras em seus primerios estágios, porém comecou a dar maior importância ao papel do haikai, especialmente o hokku (verso inicial do renga) perto de 1680. Bashô foi influenciado pelas idéias de Tchouang-tseu, filósofo do quarto século B.C. e frequentemente se referia aos textos do mestre em seus hokku. A natureza, o entendimento de sua beleza e a aceite de sua força é amplamente usada por Bashô para expressar a beleza que ele observa do mundo.

Bashô e o Zen

Bashô incluia em muitos de seus poemas um toque místico influenciado pelo Zen Budismo e expressava seus temas através de imagens simples desde a lua nova até as pulgas de sua cabana (http://www.randomviolins.org/~dwap/literati/renga/Bashô.htm).

Bashô se tornou a maior referência da poesia Japonesa, por sua sensibilidade e profundidade. Como um poeta Zen ouvia o som da força da vida emergindo do vazio para encher tudo, como em este exemplo:

The silence
The voices of the cicadas
Penetrates the rocks.

(trans. Blyth)

O silencio
As vozes das cigarras
penetram as rochas

(trans. Clement)

Bashô e a Metáfora

De acordo as regras que se formaram pelos anos, a metáfora e a simile nao devem ser utilizadas em haicai. Mas até mesmo Bashô não resistiu aos encantos desse recurso poético que tanta vida dá a um poema. Como Jane Reichhold (www.ahapoetry.com) explica em este exemplo:

on a bare branch / a crow settles / autumn dusk
em um galho desfolhado/ pousa um corvo/ crepúsculo de outono

E ela reescreve o haicai para da uma idéia mais precisa da metáfora:

“the heavy way a crow settles on a bare branch is just like the way dusk comes in late autumn.”

o jeito pesado como um corvo pousa em um galho sem folhas é tal como o crepúsculo que chega em outono tardio.

Como diz Jane, “o leitor pode perceber que o corvo e a noite de outono são escuras. Existe uma associação entre o pássaro no galho sem folhas sentindo seu vazio e o tempo de descanso na natureza e na vida.”

Neste outro site In the Moonlite a Worm…, que também trata da metáfora de Bashô, o autor tem outra visão para esse mesmo haicai de Bashô, porém sobre uma visão zen:

The crow sits
on a dead branch –
evening of autumn

(trans. Marsh)

O corvo pousa
em um galho morto —
noite de outono

(trans. Clement)

Segundo ele o corvo veste preto e lembra o traje de um monge:

Um outro exemplo de metáfora encontra-se no haicai seguinte, no mesmo site, sugerindo o campo da meditação, do particular para o universal.

Why flap to town?
A country crow
going to market

(trans. Marsh)

Por que bater as asas?
um corvo do campo
indo para o mercado

(trans. Clement)

Porém, a maneira com que Bashô usa a metáfora é diferente. Em seus haicais, os elementos são simplesmente estabelecidos em suas expressões mais claras e mais elementares, geralmente em justaposição ligadas por um verbo ou uma terceira imagem. Podemos dizer que o haicai é a própria metáfora.

As Obras de Bashô

No sumário apresentado em http://www.stonebridge.com/basho.html, “Narrow Road to the Interior (Oku no Hosomichi) é seu masterpiece. Trata de uma extensa contagem cronológica da jornada de cinco meses do poeta em 1689 no norte e oeste da velha capital Edo. O trabalho é cuidadosamente esculpido, rico em literatura e alusões Zen, cheio de grandes insites e ritmos vitais. Em “Narrow Road: Spring and Autumn Passages” o poeta e tradutor Hiroaki Sato apresenta o trabalho completo em Inglês e examina o seguimento da história, geografia, filosofia e literatura que são tecidas na exposição de Bashô. Ele detalha em particular a extensão na qual Bashô confiava na comunidade de escritores com quem ele viajou e escreveu versos linkados (renga).”

Muitas antologias de grande importância foram escritas por Bashô e seus discípulos e foram amplamente publicadas. O trabalho poético de Bashô conhecido como Seven Anthologies of the Bashô School foi publicado separadamente de 1684 a 1698. Neste trabalho que consta de 2500 versos e Bashô é o principal contribuinte.

Conclusão

Bashô foi o mestre que deu força à importância e prática do haicai no Japão. Viveu boa parte de sua vida como um andarilho, foi treinado para o zen, utilizou-se de forma discreta da metáfora e nunca se decidiu se queria ou não ser um monge, embora alguns autores sugerem que ele foi de fato um monge em sua vida. Bashô viveu por algum tempo em uma cabana que definitivamente lhe deu o nome com o qual ficou conhecido, Bashô, devido a presença de uma bananeira (bashô, em japonês) existente em alguma área de sua cabana. O clima de Tokyo, no entanto, não é propício para a frutificação da banana e mesmo que Bashô tenha se identificado com a planta, ele próprio deixou milhares de frutos e espalhou pelo mundo esse fenômeno da poesia japonesa, que é o haicai.

A MOÇA DA VIDA – por marilda confortin / curitiba


Olhando assim,
pela janela
a vida dela
parece boa
.
Olhando assim,
pela vidraça
quando ela passa,
parece boa.
.
Olhando assim,
pra essa danada,
não se dá nada,
parece à toa
.
Mas, a vida dela
não tem janela
nem tem vidraça
ela passa a vida
na rua, na raça,
no peito, na cara
na esquina da praça.
.
Ela vende pedaços
da vida na cama
como se fosse
um bagaço de cana.
.
O que será que se passa
na vida da moça
que mora lá dentro
da moça da vida?

A GRIPE, A FEBRE E A POESIA de joão batista do lago / são luís.ma

Desgraça pouco é besteira!
Reza a lenda popular brasileira.
Foi assim que fiquei paciente
Duma cama fria e lacônica
Doía tudo. Até a alma, minha gente.
.
A danada da gripe foi de lascar
Era dor de tudo que é jeito
Remédio tomei pra dela escapar
Qual nada! Nenhum fez efeito
Fiquei na cama com febre a me danar
.
O Maneco inda me telefonou
Tentou de todo jeito me reanimar
Mas o corpo já de tanto véio
Num respondia, seu moço
Queria mesmo era cama pra se aninhar
.
Depois ligou o Vidal oferecendo carona
Também isso não me fez fugir da cama
Tentou me incentivar dizendo que seria bacana
Participar desta primeira semana
Sarau de poesia na noite curitibana
.
Em seguida me disse a Marilda
Num e-mail quebrado no meio do dia:
– “Poeta, deixa de frescura sem demora;
hoje no Massudas é noite de poesia…
cachaça com limão e vamo simbora.”
.
Mas a filha-da-puta da gripe
Não veio sozinha, não!
Trouxe a tiracolo a danada da febre
Não bastasse isso, me deu por companhia
O cof-cof… cof-cof… nesta noite de poesia
.
Êta, gripezinha sem-vergonha… safada
Adoeceu minha poesia a danada
Agora ta indo imbora a marvada
Sacaneou comigo a semana inteira
De repente quer ir embora toda faceira
.
Não! Num vai ficar barato não
Vou mostrar pra essa filha-de-bordel
Que não se brinca com poeta. Não!
“Vai pra eternidade nas asas dum cordel.”
– Dirá o poeta numa cachaça com limão e mel
.
E pra terminar toda essa cantoria
Faço aqui meu agradecimento
Ao professor e poeta Hélio pelo lamento
Que manifestou de me ver fora do evento
Vai daqui todo o meu reconhecimento
.
Chega assim, ao fim, esse poema-cordel
Feito por um poeta rabugento
Que ta ruminando feito touro velho
Toda raiva da gripe, da febre e da tosse
Que durante dois dias me tomaram por posse
.
Antes de por fim a esta cantoria
Quero aqui muito me desculpar
Num outro evento dessa natureza
Quando se engrandece a poesia
Lá estarei, custe o que custar, com certeza.

Editora Hemisfério Sul lança livro na Casa Aberta / itajaí.sc

menino pobre (1)

Editora Hemisfério Sul lança livro na Casa Aberta

.

No próximo sábado, dia 27 de junho, a partir das 9 horas, a editora Hemisfério Sul lança o livro Memórias de um menino pobre do autor Silveira Júnior, na Livraria Casa Aberta.

Na ocasião haverá um café cultural  e bate papo com a escritora blumenauense Urda Alice Klueger, que atualmente, ocupa a cadeira de Silveira Júnior na Academia Catarinense de Letras.

O prefácio é do próprio autor, e na orelha, a escritora Urda Alice Klueger faz uma breve apresentação do livro, onde cita que “antes de começar a ler este livro, seria importante que se mudassem alguns conceitos a respeito de algumas coisas que lhe disseram: Memórias de um Menino Pobre não é um livro de literatura catarinense, como querem tantos – trata-se de um clássico da língua portuguesa, capaz de fazer a delícia de quantos o leiam, seja aqui, em Portugal, na África ou na Ásia”.

A nova edição traz ainda desenhos, fotografias, pautas musicais e “nota” organizada pelos netos de Silveira Júnior, revisão e atualização ortográfica de Daise Fabiana Ribeiro e belíssima capa Johnny Kamigashima.

A 1ª edição veio a público em 1978 e agora em sua 5ª edição, está sendo publicado pela Editora Hemisfério Sul, que possui 220 páginas e custará 30 reais.

Sobre o escritor:

Falecido em 1990, Silveira Júnior foi um menino pobre oriundo do interior agrícola de Santa Catarina, de uma região muito humilde e desassistida. Perdeu o pai quando pequeno e teve uma infância dura e penosa, onde relampejam alguns faiscantes brilhos, como a escola do professor Cantalício e poucos, mas importantes livros clássicos da literatura brasileira e mundial. Possuía a primeira carteira de Jornalista emitida pelo estado de Santa Catarina e era membro da Academia Catarinense de Letras.

UM HOMEM NA PRAÇA por hamilton alves / florianópolis

Um homem está sentado num banco de praça sozinho. Ali parece que edificou seu reino. Em torno dele só ele,  uns pássaros, umas plantas, uma ou outra árvore, nada mais. Está só convivendo consigo mesmo. Olha os transeuntes, que por ele passam ou lhe lançam um olhar entre curioso ou desdenhoso, e volta a si mesmo, ao seu reino solitário.

Quem é ele?

Não importa.

Não será um poeta, um pintor, um novelista, longe disso.

Nem será muito menos um artesão, um carpinteiro, um pedreiro, um sapateiro. Sua aparência não leva a deduzir que tenha uma dessas qualificações.

É apenas um homem sentado num banco de praça. Pouco importa que seja isso ou aquilo. Ele também parece transmitir essa idéia a seu respeito – é um  zé ninguém.

Está ali no banco de praça incógnito, como uma interrogação: “quem sou eu?”

– Não sou ninguém. – responde silenciosamente.

Ou até passa outra mensagem:

– Me deixem sossegado no meu anonimato.

Está ali, usufruindo a condição essencial de ser, essa criatura estranha, que tanto pode se chamar João, José, Pedro, Joaquim e tantos outros nomes, o que não altera essencialmente sua natureza humana.

Ocorre-me que poderia, eventualmente, ser autor de um poema. Ou de um quadro. Ou ter composto a letra de uma música. Ou seja ele um músico. Nada disso, porém, irradia de sua pessoa comum, até se poderia dizer vulgar.

Usa um trajo resumido: uma camisa rala, de mangas curtas, uma calça de cor indefinida, sapatos cambados presumivelmente sem meias. A cara fechada, como se repelindo qualquer aproximação de sua pessoa.

Tem ainda o detalhe de que, quando passei por ele e me demorei um pouco a examiná-lo, pitava um cigarro de palha, de um bom palheiro.

Feliz, infeliz?

O que é felicidade para um homem sentado solitário num banco de praça?

Se lhe formulasse tal pergunta: – Você é feliz? – talvez nem entendesse a pergunta ou nem lhe interessaria definir o que é felicidade.

Ou diria:

– Vivo; o resto pouco me importa.

O homem sentado solitário num banco de praça não é ninguém.

esquerda, direita! – por walmor marcellino /curitiba

O novo Brasil “desenvolvimentista” chega tarde na estação do “progresso da humanidade”, pois tem duas “missões” (visões) antagônicas: a) fomentar uma produção não-destrutiva auto-sustentada, b) garantir planos e projetos de desmonte (não só de mão-de-obra organizada) mas dos recursos naturais e ambientais. Exatamente quando a característica geral do sistema capitalista se define pela “destruição produtiva” para garantir e maximalizar, inevitavelmente, o lucro. A fase em que uma “produção destrutiva” era desejada para suprir uma sociedade em carência absoluta, e necessária porque o móvel da mudança do modo de produção (e suas relações sociais autorizava) está em obsolescência. (Sobre “destruição produtiva” vide István Mészaros: “Para Além do Capital”, capítulos 15 e 16. e “O Século XXI, Socialismo ou Barbárie”).

A vantagem capitalista nestes tempos é que a ex-esquerda (agora “liberal de esquerda”, seja o que for isso!) se deslocou para o “centro”, se ajustou ao sistema representativo eleitoral e seus condicionantes e, no governo, se associa com os planos da renegada social-democracia (a “terceira via” da mesma Rota 66) para cumprir as tarefas de uma “compensação nacionalista” (inimaginável?) aos alinhamentos do neo-liberalismo subserviente ao imperialismo.

Não é por acaso que a intelligentsia burguesa se esforça a demonstrar que não há mais esquerda, porque: 1) o regime jurídico-político capitalista de forças (armadas, institucionais e de regulação na organização de trabalhadores e representações de massas) conformou movimentos de trabalhadores, juventude, feminino, raciais, etnopolíticos e democrático-liberais a ser consumidores no seu modo de produção, clientes de suas relações sociais e figurantes em seu “estilo de vida”; 2) os controles (políticos) “sociais” sobre as relações de propriedade-e-produção e a organização do  mercado ficaram pela mesma “conta liberal” da sistemática financeiro-produtiva; e 3) assim, os partidos revolucionários se desorientaram, como perderam sentido.

A maior evidência do impasse está na Amazônia. A destruição prossegue: especuladores, empresários e trabalhadores pedem iniciativas, obras, empresas e trabalho. E o governo democrático-liberal está confuso, estimulado e insuflado pelo sucesso do seu capitalismo social e promessas desenvolvimentistas. Reúne “sua equipe” de democratas-sociais e sociais-democratas e procura convencer-nos de que a “destruição produtiva” da Amazônia (e do Brasil) será equilibrada por auto-“controles” no governo,  do PT-PCdoB-OS-PMDB-PP et… o empresariado. Olha aí o que vem por trás!

A TELA BRANCA por alceu sperança / cascavel.pr

“Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira”. Esses magníficos versos de Ferreira Gullar traduzem certamente o que estamos passando nestes dias difíceis, em que autoritários posam de democratas e arrivistas se fazem de esquerda, enquanto, felliniana, la nave va. Mesmo quando dá vontade de perder a paciência de vez com tantas injustiças, trapalhadas, sacanagens que envolvem dos cemitérios aos muito vivos, dos contratos de lixo a usinas nucleares, dos prefeitos mendigos aos presidentes desgovernados, essa parte que pondera pesa tudo na balança e avalia que, afinal de contas, a parte que delira tem lá suas razões.

O historiador anglo-egípcio Eric J. Hobsbawn, que nos contempla do alto de sua vasta pirâmide de obras essenciais ao conhecimento da história deste mundo, aconselha que a gente precisa de algo mais que a esperança concreta de que este vasto mundo um dia será justo. Para ele, é pouco pesar e ponderar. Essa esperança concreta “tem que ser completada com os grandes sonhos”, afirma. E é aqui que a parte delirante entra em cena.

São os grandes sonhos que mantêm o sujeito ativo e explicam a longevidade dos que sonham com uma humanidade redimida dessa atual etapa de desgraças, contradições, tragédias, infelicidades. Hobsbawn fez com 92 anos dia 9 de junho. O comandante Prestes morreu com esses mesmos 92. O incrível Bertrand Russel manteve a vivacidade brejeira e rebelde até os 98 anos. Delirar, sonhar com algo melhor, realmente faz bem à saúde – espero que a dra. Karine não me desminta. Deliremos, portanto, e vivamos mais.

O Pólo de Cinema de Cascavel não é o único, mas é certamente o maior desafio do movimento cultural do Oeste paranaense. Como o Teatro Municipal já está assegurado, o Pólo, que chamaremos PCdeC para evitar más sugestões de siglas, passa de fato a ser um grande alvo para aqueles teimosos que insistem em rodar a moviola. Os lançamentos dos filmes “O Argentino que Derreteu a Jules Rimet”, com felizes produção e atuação do advogado Sérgio Zandoná, e “Desaparecidos”, de Antônio Marcos Ferreira, foram momentos de entusiasmo que estimulam a delirar sobre a possibilidade de acumular forças e viabilizar a formação do PCdeC. Agora mesmo segue a movimentação em torno de “A Saga”, César Pilatti avança em seu “Monte Carmel”, Talício Sirino divulga seu “Conexão Japão” e há outros vários projetos em andamento no interior do Paraná. O Paraná não é só Curitiba!

Ao mesmo tempo em que essa parte delirante ergue a tocha do Pólo, a parte que pesa e pondera nos leva a ter a certeza de que todo o trabalho desenvolvido pelo pioneiro Acir Kochmanski, por esse admirável Antônio Marcos Ferreira, Talicio Sirino e suas atuações no palco e fora dele em favor da nossa cultura, Sally Machado e sua persistência, Luiz Carlos Castelhano, que mesmo depois de ter vivido momentos pessoais difíceis não pode ser esquecido como um dos mais importantes nomes da cena teatral e cinematográfica do Oeste paranaense, nosso prezado Manaoos Aristides e tanta gente que lida com o processo todo de bolação, viabilização, execução, montagem e distribuição de filmes – esse trabalho, pesemos e ponderemos, não pode ser em vão. Ele terá forçosamente que produzir frutos.

Mas tais frutos não virão apenas de esperar, mesmo concretamente, que o poder público será o construtor do PCdoC. Aos políticos interessa mais o cinema de entretenimento e distração, o circo para compensar o pouco pão. Nas condições atuais do Brasil e do Paraná de hoje, quando os engabeladores manipulam consciências e os financiadores de campanha cobram a conta em maracutaias, pesar, ponderar e delirar são projeções na branca tela das nossas possibilidades.

ESTAMOS COM PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO COM O SERVIDOR DESDE  O DIA 21/6/09. AS AÇÕES PARA  SUPERAR AS DIFICULDADES ESTÃO EM ANDAMENTO. PEDIMOS A COMPREENSÃO DOS LEITORES. EM BREVE ESTAREMOS DE VOLTA.

O EDITOR.

Lobo em pele de ovelha “Cartas para Albert Nane” – jorge barbosa filho / curitiba

Oi, Albert:

Não quero me fazer de vítima ou coitadinho. Eu aprontei muito… Mas tenho certeza que contribuí muito, também, para o cenário cultural e poético de Curitiba, seja formando novos escritores, seja polemizando, na produção de eventos, recitais, divulgando idéias, e principalmente a atitude de minha produção poética. Vale dizer que minha poesia tem mais verdades que minha própria existência!

Mas todo mundo tem seu lado negro… o meu sobressaiu devido a falta constante de dinheiro,incompreensão pública, instabilidade afetiva, e por conseqüência, causando minha

jorge barbosa filho

jorge barbosa filho

instabilidade emocional e concomitantemente, o alcoolismo, que anestesia minha ansiedade, minha depressão e meu tédio.

Mas vamos aos fatos.

No ano passado, eu estava trabalhando como PSS da Secretaria de Educação do Estado. Estava com minha vida normalizada, mas essa Instituição não me pagou por três meses consecutivos em uma das escolas em que eu dava aulas. Contraí dívidas que posteriormente poderia liquidá-las, com a seqüência das aulas. Mas neste ano o PSS só me chamou em Maio… Imagina o tamanho da dívida e da degradação em que fui caindo. Para acumular, problemas afetivos, a humilhação de pedir dinheiro e não poder pagar… Estava sempre tenso, ansioso, deprimido, envergonhado, sem esperança e sem perspectiva…

Mandei meu livro para a Secretaria de Cultura, para ser publicado. Na primeira instância o livro foi aprovado. Na segunda, negaram a publicação. Isso porque essa Instituição não achou conveniente editar um livro com “palavras de baixo calão”.

Nas grandes editoras do Rio e São Paulo, mesmo meu livro tendo prefácios de pessoas com respeitabilidade poética e mercadológica, eu teria de pagar a edição, como é sabido. Não tenho dinheiro nem para editar e nem para entrar com projetos na Lei Rouanet ou na FCC. Concursos de poemas no Brasil e no exterior, desisti…. Trabalhos com Oficinas Poéticas apareceram, mas não garantem minha sobrevivência.

Curriculum para jornais, revistas, escolas e cursinhos foram enviados, mas falta o “quem me indique”. Para fazer produção cultural, tenho de ter estrutura econômica e operacional… tentei várias vezes formar grupos para atuar nesta área, ou como um mutirão poético. Não funcionou.

Acho que ou existe algo errado em minha atitude, ou há medo, inveja, ciúme pela ousadia de minhas atitudes de vida e poesia.

Bem… sem dinheiro e sem perspectiva fui colocado para fora da casa da mulher com que morava e não amava. Meus móveis, textos, documentos e a maioria de minhas roupas foram despachados para um guarda-móveis em Piraquara. Inclusive meu computador, onde está o registro de todo o meu trabalho poético, musical, trabalhos em revista, contos crônicas, etc… Estava trabalhado com produções de evento em bares e restaurante daqui de Curitiba. Mas como trabalhar sem ter onde morar e o que comer?

Dormi vários dias na rua, roubaram-me os registros que fiz em estúdio em São Paulo, Curitiba, Shows, Recitais, até meu irmão se prontificar a me resgatar desta situação. Ele pode ria me abrigar, mas tem família, seus problemas e nunca concordou com minha opção de vida: a poesia. Somos ideologicamente avessos. Nosso convívio não daria certo.

Não tenho para onde ir…

Então a solução encontrada, quando eu estava em estado de choque, bêbado, traumatizado, foi me internar numa instituição de recuperação de alcoólatras. Topei, pois não tinha para quem mais recorrer. Meus amigos moram com pais e mães, ou têm suas vidas conjugais e familiares organizadas e não estariam dispostos a colocar um elemento estranho, muito estranho, dentro de suas casas.

Só me restou essa instituição… Topei e achei legal me tratar.

Me informei como era a rotina e as terapias desta Instituição: Acordar, rezar, lavar banheiro, cuidar do pátio e da cozinha, rezar a tarde, de noite. Perguntei ao pastor da instituição quais eram as atividades físicas, intelectuais, e se poderia levar livros, meus poemas, fazer música.

Bem, os livros e os meus textos só entrariam na Instituição depois de uma avaliação ideológica, religiosa de acordo com as crenças destes. A música só se tiver temática evangélica. Outro tipo de música, não! Perguntei se poderia escrever, eles disseram que só se o pastor liberasse o caderno e a caneta. E mais, que eu apenas teria duas horas por dia para ler e escrever. Ou seja: Censura e discriminação… e ainda, em seus discursos, pregam respeitar as diferenças. Hilário, não?

Sei que não é este o lugar para uma terapia.

Cara, se eu ficar muito tempo lá eu vou pirar ou morrer…

Por isso, estou te pedindo ajuda. Faça um movimento para me tirar de lá o mais breve possível. Fale com poetas, escritores e pessoas influentes. Preciso de um trabalho, casa para morar e comida. Mal ou bem , sou um patrimônio da literatura de Curitiba. Por favor, me ajude.

Obrigado!

Jorge.

UM POEMA DO JORGE:

Cemitério de Pulgas

Você sempre quis ser bonita,

Sair bem na fotografia!

Ser muito bem editada

Só pra ficar na fita…

Da sociedade imbecil de Curitiba…

Eu tenho amigos

Que querem se matar

Por motivos tão breves,

Mas não têm a coragem de se jogar…

Ou recitar um verso honesto!

Ninguém está na minha pele

Para saber se choro ou Rio.

Talvez eu seja São Jorge, São Paulo!

O santo oco quando estou quieto,

Desde o instante que começo vociferar…

Não quero ninguém do meu lado!

Pra me dizer que sou o culpado

Pelos milagres dos incompetentes

Do sorriso Largo da Ordem,

Banguela da Boca Maldita.

A Rua XV é uma reta

Que me atinge como o cinismo

Da mulher que amo, e sangro!

Tanto, tanto! Até morrer por enquanto…

Por enquanto… Por enquanto…

Sou uma sombra vermelha na calçada,

Pisoteada com alegria, dos passantes

Que vem e vão, em vão!!!!!

De lá pra do aqui do aqui mesmo…

Os mesmos…

Você fica com este cemitério de pulgas

Pulsando ao teu lado, uhummm!!!

Se coça… desconfio da mulher que roça…

A xota pra fazer cultura…

Aposta!!!!!! Aposta?????

A NOVA ELITE de CABUL por patrick cockburn – portugal

As agências de ajuda ocidentais estão, generosamente, a gastar elevadas quantidades de dinheiro com os seus altos cargos no Afeganistão, ao mesmo tempo que a extrema pobreza está a levar jovens afegãos a lutar juntamente com os talibans. O preço normal pago pelos talibans por um ataque a um posto de controlo da polícia naquele país é 4 dólares, mas os assessores estrangeiros em Cabul, pagos com os orçamentos de ajuda estrangeiros, podem dispor de salários anuais entre 250.000 e 500.000 dólares.

Os elevados custos para pagar, proteger e alojar num estilo de vida faustoso os altos funcionários das agências ocidentais ajudam a compreender por que razão o Afeganistão ocupa um lugar entre 174º e 178º na classificação da riqueza dos países elaborada pelas Nações Unidas. Isto, apesar do esforço de ajuda internacional em que só os Estados Unidos gastaram 31.000 milhões de dólares desde 2002 até ao final deste ano.

Durante muito tempo o elevado montante de dinheiro gasto na ajuda ao Afeganistão foi um segredo sussurrado. Em 2006, o então director no país do Banco Mundial, Jean Mazurelle, calculou que entre 35% e 40% da ajuda tinha sido «mal gasta». «O esbanjamento da ajuda é elevadíssimo», disse. «Está a dar-se um autêntico saque, fundamentalmente por parte das empresas privadas. É um escândalo».

Do ponto de vista político, a reputação que o esforço da ajuda estadunidense no Afeganistão tem de disfuncional é crucial porque, com o apoio de Gordon Brown, Barack Obama prometeu enviar para o Afeganistão uma vaga de peritos não militares para fortalecer o governo e fazer com que os acontecimentos se voltassem contra os talibans. O número destes técnicos poderá chegar aos 600, incluindo agrónomos, economistas, juristas, ainda que Washington tivesse admitido há semanas que estava a ter dificuldades no recrutamento das pessoas suficientes e com o perfil adequado.

Ocuparam-se zonas inteiras de Cabul ou foram reconstruídos para alojar os trabalhadores ocidentais da agência de ajuda ou das embaixadas. «Acabo de alugar este edifício por 30.000 dólares mensais a uma organização de ajuda», afirmou Torialai Bahadery, director de Property Consulting Afganistán, especializado em alugueres a estrangeiros. «Foi tão caro porque tem 24 quartos com casa-de-banho, portas blindadas e janelas à prova de bala» explicou, ao mesmo tempo que mostrava uma foto de uma enorme e horrorosa mansão.

Ainda que 77% dos afegãos não tenha acesso a água limpa, o sr. Bahadery afirmou que as agências de ajuda e as empresas estrangeiras contratadas que trabalham para elas tinham insistido em que cada quarto devia ter casa-de-banho privada, o que faz duplicar o preço do alojamento.

Além deste caro alojamento, os trabalhadores estrangeiros em Cabul estão invariavelmente protegidos por companhias de segurança, caras, e cada casa converte-se numa fortaleza. Os estrangeiros têm uma liberdade de movimentos muito limitada. «Nem sequer posso ir ao melhor hotel de Cabul» queixou-se uma mulher que trabalha numa organização de ajuda governamental estrangeira. Acrescentou que para viajar até uma zona que os afegãos considerem completamente livre de talibans teve de ir de helicóptero e depois num veículo blindado até onde ela queria ir.

Em Cabul houve muitos ataques a estrangeiros e os atentados suicida tem sido, sob o ponto de vista dos talibans, tão eficazes que obrigaram os trabalhadores estrangeiros a irem para complexos luxuosos, mas onde estão tão confinados como numa prisão. Isto significa que a maioria dos estrangeiros enviados para o Afeganistão para ajudar a reconstruir o país e a máquina estatal têm um contacto escasso com os afegãos, aparte os seus choferes e os afegãos com quem trabalham directamente.

«Evitar riscos tem inutilizado o esforço de ajuda internacional» disse um técnico em Cabul. «Se o governo está verdadeiramente preocupado com o risco, então não deveria mandar as pessoas para aqui e fazê-la trabalhar em condições tão limitadas».

No Iraque, a efectividade dos assessores e técnicos estrangeiros é ainda mais limitada, devido ao pouco tempo que permanecem no país. «Muitas pessoas vão-se embora ao fim de nove meses», disse um trabalhador estrangeiro que pediu anonimato. «Além disso, alguns trabalhadores têm duas semanas livres por cada seis de permanência no país, para lá das suas férias habituais».

A alguns quadros que trabalham para organizações não governamentais no Afeganistão preocupa-os a quantidade de dinheiro que os altos cargos dos governos estrangeiros e das suas agências de ajuda gastam com o pessoal, em comparação com a pobreza do governo afegão.

«Estive na província de Badakhshan no norte do Afeganistão, que tem uma população de 830.000 habitantes, a maioria dos quais dependentes da agricultura», afirmou Matt Waldman, director de política e serviços legais de Oxfam em Cabul. «Todo o orçamento do departamento local de agricultura, irrigação e pecuária, que é extremamente importante para os agricultores de Badakhshan, é de apenas 40.000 dólares. Isto é o que cobraria, em poucos meses um consultor estrangeiro em Cabul».

Matt Walkman, autor de vários e muito detalhados artigos sobre o fracasso da ajuda no Afeganistão, diz que nas mais altas esferas se investe um elevado montante de dinheiro, mas que ele é desviado antes de chegar aos afegãos comuns, os que estão ao mais baixo nível. Está de acordo que os problemas que há que enfrentar são horríveis, num país que sempre foi pobre, e que foi arruinado por 30 anos de guerra. Aproximadamente 42% dos 25 milhões de afegãos vivem com menos de um dólar por dia, e a esperança de vida é de apenas 45 anos. O índice total de alfabetização é de 34%, e no caso das mulheres é 18%.

Mas a maior parte do dinheiro da ajuda vai para as companhias estrangeiras que subcontratam até cinco vezes e cada contratado, por sua vez, ganha entre 10% e 20%, antes de fazer qualquer trabalho para o projecto. O maior doador do Afeganistão é os EUA, cujo departamento de ajuda ao estrangeiro, USAID, entrega a cinco grandes contratadores estadunidenses quase metade do seu orçamento de ajuda ao Afeganistão.

Os exemplos referidos num relatório de Oxfam incluem a construção de uma estrada pequena, entre o centro de Cabul e o aeroporto internacional, em 2005, que, depois da subcontratação a uma companhia afegã, custou 2,4 milhões de dólares o quilómetro ou, o que é o mesmo, quatro vezes o custo médio de construção de uma estrada no Afegnistão. Também é frequente a ajuda ser gasta no país doador.

Outra consequência do uso de contratadores estrangeiros é não ter havido qualquer impacto no desemprego entre os jovens afegãos, o que é fundamental para derrotar os talibans. De acordo com um relatóriodo Instiituto para Informar sobre a Guerra e a Paz, nas províncias do sul, como Farah, Helmans, Uruzgan e Zabul, mais de 70% dos combatentes talibans são jovens sem trabalho e sem motivação ideológica a quem se entrega uma arma e se lhes paga uma miséria antes de cada ataque. Ao recorrer a estes combatentes a tempo parcial como carne para canhão, os talibans podem ter poucas baixas entre os seus veteranos combatentes, ao mesmo tempo que infligem perdas entre as forças governamentais.

Descuidaram-se algumas formas simples e óbvias de gastar dinheiro em benefício dos afegãos. Will Beharrell da organização caritativa Turquoise Mountain, que fomenta o artesanato tradicional afegã e a reconstrução da cidade velha, afirma que as melhorias simples e tangíveis são importantes. «Participámos na limpeza do lixo porque é simples e proporciona emprego. Nalguns lugares, com a limpeza fizemos com que o nível das ruas baixasse dois metros, afirmou.

Um facto surpreendente em Cabul é que, enquanto as ruas principais estão pavimentadas, as ruas laterais não passam de terra batida com montes e buracos e enormes poças de água suja. Construíram-se novas estradas entre as cidades, como Cabul e e Kandahar, mas são muito perigosas de percorrer, devido aos pontos de controlo móveis dos talibans onde quem quer que tenha a ver com o governo é imediatamente abatido.

O programa de ajuda internacional é particularmente importante no Afeganistão, pois o governo tem poucas fontes de receitas para além dessa. As doações dos governos estrangeiros representam 90% da despesa pública. A ajuda é muito mais importante que no Iraque, onde o governo tem receitas provenientes do petróleo. Um salário mensal de um polícia no Afeganistão é de apenas 70 dólares, que não é suficiente para viver sem subornos.

Desde a queda dos talibans que o governo afegão tem procurado dirigir um país em que a infra-estrutura física foi destruída. Cabul recebe a electricidade do Uzbequistão, mas 55% não tem qualquer electricidade e apenas 20% a tem durante todo o sai. O exército estadunidense pode distribuir o dinheiro mais rapidamente, mas isto pode não acabar com o apoio político aos talibans na medida esperada.

Os próprios afegãos estão entusiasmados com os planos do presidente Obama de um maior comprometimento civil e militar dos Estados Unidos no Iraque. E o fracasso da ajuda estrangeira no momento de proporcionar uma vida melhor aos afegãos também contribui para explicar a queda a pique do apoio ao governo de Cabul e aos seus aliados estrangeiros. Matt Waldman, da Oxfam, acredita que uma ajuda melhor organizada poderia proporcionar os benefícios que os afegãos esperavam obter quando se derrotou os talibans, em 2001, mas adverte: «Está a começar a ser demasiado tarde para fazer bem as coisas».

Vejamos os números: gastos ocidentais no Afeganistão:
• 57 dólares de ajuda estrangeira per capita ao Afeganistão, face aos 580 per capita depois do conflito bósnio.
• 250.000 dólares é o salário médio dos consultores estrangeiros no Afeganistão, incluindo cerca de 35% de subsídio por trabalho em condições difíceis e 35% de subsídio de perigosidade. Os funcionários afegãos têm um salário de cerca de 1.000 dólares anuais.
• 22.000 milhões de dólares é o deficit das doações em relação ao que a comunidade internacional calcula que o Afeganistão necessita, aproximadamente 48%.
• Cerca de 40% é a percentagem do orçamento de ajuda internacional que regressa aos países de procedência, soba a forma de lucros das empresas e salários dos consultores, mais de 6.000 milhões de dólares desde 2001.
• 7 milhões de dólares diários de ajuda são gastos no Afeganistão. A despesa militar diária do governo estadunidense é de aproximadamente 100 milhões de dólares.


* Jornalista irlandês, presentemente correspondente do The Independent no Médio Oriente.

Tradução de José Paulo Gascão

CARTA DE FERNANDO PESSOA para OPHÉLIA QUEIROZ / portugal

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podesfernando-pessoa[1]imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta – a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d’elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só – pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando 19/02/1920

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?” – são paulo

A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo.

LUCRÉCIA - MOÇAMBIQUE

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.

Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?

Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”

Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.

Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.

Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.

Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.

“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

ELIANE BRUM – RE

INSÔNIA e CLEPTOCRACIA por sérgio da costa ramos / florianópolis

A situação em Brasília anda tão surrealista, o vírus da cleptocracia tão disseminado, que o único remédio plausível é mesmo o realismo fantástico.

A capital da República tem muito a aprender com Macondo, a vila intemporal de Cem Anos de Solidão, com a licença de Gabriel Garcia Márquez. Sabe-se que a doença de Macondo era menos grave: não se tratava de compulsão pelo roubo. Não eram cleptocratas os moradores da cidade SERGIO DA COSTA RAMOSsímbolo do realismo-fantástico.

Eles sofriam de insônia. Tocados pela estranha síndrome do “sol poente”, os cidadãos viviam condenados ao “estado de alerta”. Jamais conseguiam pregar o olho.

Para que os forasteiros não “pegassem” a doença, José Arcádio Buendia teve uma ideia inspiradora: tirar os sininhos dos cabritos e colocá-los numa caixa nos portões da vila, à disposição dos que insistiam em visitar a aldeia. Os visitantes que portassem guizos no pescoço, alertariam a população: “somos seres saudáveis, “não contaminados”.

A população seria advertida: nada desse de comer ou de beber a esses adventícios – pois não havia dúvida de que a “peste” se transmitia pela boca. Assim, a doença ficou circunscrita ao povoado, sem se propagar pelas cidades vizinhas, os poucos visitantes recebiam a eficaz vacina preventiva: o guizo no cangote.

Brasília bem que poderia adotar quarentena semelhante. Era só trocar o nome da enfermidade. Em vez de insônia, “corrupção”. Para que a doença não se espalhasse pelo país inteiro, os sadios usariam um sininho, e jamais comeriam ou beberiam nos mercados ou nas fontes citadinas, principalmente naquelas situadas em torno da Praça dos Três Poderes – todas infectadas.

Daria certo? O problema é que todo mundo ia querer usar esse crachá de honesto, mesmo sem merecer. Logo seria instituído um “vestibular” para a aquisição de sininhos. E apareceria alguém propondo cotas, privilégios, sininhos “secretos”. Os que não exibissem o seu sininho balançando no pescoço logo seriam apontados à execração pública:

– Ô seu filho de um Lalau! Ô seu Maluf! Ô seu Zé Sarney! Ô seu Salvatore Cacciola! – e outros nomes próprios pra lá de impróprios.

Outra dificuldade: as ratazanas da cidade jamais se habituariam com a virtude da honestidade, nem abjurariam a adoração do ouro público, o preferido para a prática da “subtração”. Pior: logo prosperaria entre os contaminados o “tráfico” de sininhos e não tardariam a aparecer os sininhos falsos. A fábrica teria que adotar medidas extras de segurança, como revistar os funcionários na saída do expediente.

A situação estaria definitivamente comprometida quando descobrissem funcionários recebendo propina para vender sininhos a desonestos. E sabem quem apareceria para manipular a licitação da venda de sininhos autênticos a funcionários públicos?

Claro, o parente secreto de algum senador.

Gabo Garcia Márquez logo descobriria, chocado. Macondo tem uma identidade secreta: na verdade se chama Brasília!

Ética e Ciência: Urgência Do Debate – por raul enrique cuore / campo grande.ms

Ética e ciência, esta discussão necessita previamente passar pela concepção filosófica de “ser humano”, ‘ética’ e ‘ciência’. Na perspectiva existencialista, o homem é um ser capaz de autodeterminação, ou seja, ser sujeito do conhecimento e da ação. Em conseqüência, no campo ético, tudo aquilo que tira ou diminui essa dimensão de sujeitoRAUL HENRIQUE CUORE - FOTO é considerado violência. Por sua vez, a ciência moderna ocidental contém em si um amplo projeto de dominação: da natureza, de si mesmo e do outro. Portanto, uma ciência ética só é possível a partir de uma nova postura diante da própria ciência e dos valores da sociedade.

1         introdução

A relação ética e ciência é um dos debates que nos foram equacionados no século XXI. A partir do lançamento da bomba nuclear nas cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão no fim da II Guerra Mundial em 1945, e mais neste século com a degradação do meio ambiente, a ambigüidade do progresso científico e tecnológico passou do plano teórico para o existencial. Começamos a perceber na vida cotidiana a deterioração do ambiente físico e social ao lado do mundo maravilhoso da tecnologia. Isto cria um paradoxo entre a ciência e a ética. As conquistas tecnológicas nos campos da comunicação, transporte, alimentação, moradia, saúde e lazer convivem ao lado do desequilíbrio ecológico, da miséria, da fome, o desemprego, os sem-terra, sem-teto, enfim ao lado de toda a violência que destrói dignidade humana. Para falarmos da relação entre ciência e ética é preciso, ao principio buscarmos uma definição para a ética, e como esta vem a se contrapor a ciência.

2        como definirmos ética?

Poderíamos entender ética de várias formas. Uma delas poderia ser como a busca ou caminho para ou pela “verdade” que seria, talvez, e em algumas condições, subjetiva. Se relembrarmos da origem da filosofia na Grécia, por exemplo, os sofistas, que através da retórica e do convencimento pelas palavras, da oratória, julgavam que “a verdade é resultado da persuasão e do consenso entre os homens”. Isso era combatido por Sócrates, Platão e Aristóteles que julgavam ser a essência da verdade através da razão e não do “simples” convencimento e consenso. Sócrates fazia isto através de perguntas básicas, feitas a diversos profissionais especialistas, tais como: ao “sapateiro” – o que é um sapato? Ao “juiz” – o que é a justiça? Ou o que é a verdade? E assim, a partir de um questionamento, buscava desvendar, através da razão e da lógica e não mais por um simples convencimento retórico, o que seria esta verdade. Poderíamos dizer então que, de certa forma, Sócrates inaugura a ética dentro do discurso. Sócrates, como comenta MARCONDES (1998) seria: “(…) um divisor de águas. É nesse momento que a problemática ético-política passa ao primeiro plano da discussão filosófica como questão urgente da sociedade grega superando a questão da natureza como temática central, pois a temática racionalista filosófica, inicialmente, era a natureza, iniciada por Tales de Mileto que buscava na própria natureza a explicação para ela própria, se afastando assim do mito em que tudo era explicado pelos deuses…” Assim teríamos a questão da subjetividade na ética, e a formação da própria sociedade interagindo entre ela e os indivíduos. A ética ajudando-nos a refletir sobre os costumes, sobre as práticas da ciência, da religião, da família, da empresa, em fim, em todas as instituições da sociedade. A ética nos ajuda a pensar a subjetividade. Que sujeito é esse em tal momento da história? Que sujeito é este hoje? Que “conhecimento” é este que buscamos pela ciência? Ainda MARCONDES (1998) nos define ética da seguinte forma: “A ética do grego “ethike”, diz respeito aos costumes e tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral (finalidade e sentido da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral.”

3         a ciência, a ética e a filosofia

Não existe um profissional ético, sem antes um homem ético. Portanto, a discussão sobre ética deve ser vista como uma situação-problema que provoca e estimula uma reflexão abrangente sobre a própria natureza da relação ética e ciência. Em sua reflexão sobre o conceito de progresso MATOS (1993) conclui que: “como não há progresso que não seja também moral, a principal tarefa dos nossos dias é o combate pelo progresso dos direitos humanos.” Referenciando a utopia que temos em comum: a humanidade com vida digna e feliz. Visto deste ponto, a reflexão filosófica não tem a utilidade imediata no sentido do senso comum. Sua contribuição à ciência e à técnica explicando os fundamentos epistemológicos e metodológicos e certamente, éticos. Citando CHAUÍ (1994): “Não se trata, pois, rigorosamente de uma ciência, mas de uma reflexão em busca de uma fundamentação teórica e crítica dos nossos conhecimentos e de nossas práticas”. Segundo o existencialismo, o ser humano está em processo de autoconstrução. Em outras palavras, é um agente transformador da Natureza que, ao transformá-la, constrói sua própria essência. A natureza humana vem sendo construída pela própria humanidade no processo histórico atualizando sua potencialidade com agente transformador. Sobre este conceito MATOS (1993) nos expõe: “Temos uma natureza em devir. O ser humano é, ao mesmo tempo, um ser atualmente advindo e um ser ainda a vir, apenas prometido a si mesmo. (…) É aqui que se manifesta a estrutura fundamental da ação: de um lado, ela é aquilo em que se tornou, aquilo que ela é agora: do outro, também é uma antecipação de seu ser realizado e, por ser ação de um agente autônomo, ela implica em si a responsabilidade daquilo que fazemos de nós mesmos. E veremos como a responsabilidade de cada ser humano para consigo mesmo constitui, ao mesmo tempo, um responsabilidade que ele tem com todos os homens”.

4         ciência e ética nos dias atuais

A ciência, traço que singulariza as sociedades modernas, vem sendo analisada sob os mais diversos ângulos. Desde o enfoque mais clássico da epistemologia ao olhar mais recente dos estudos culturais, multiplicam-se os estudos sobre a atividade científica. Entretanto, em nossos dias, uma perspectiva, a da ética, exerce particular interesse, associada ao desenvolvimento contemporâneo das ciências da vida. Alternativas inéditas, antigamente nem sequer questionadas, fazem hoje, parte do cotidiano. Possibilidades como a preservação duradoura da vida em condições artificiais, a intervenção em fetos ou as que decorrem do amplo repertório de ações ligadas à clonagem evidenciam a expansão do nosso poderio científico-tecnológico. Poderio que nos inscreve, de imediato, no horizonte ético: podendo fazer, devemos fazer? Os órgãos que regulam a ética nas pesquisas científicas que envolvam seres humanos, o crescente cuidado no trato dos animais associados à pesquisa científica, a atenção e a sensibilidade com que são vistas as questões relativas à intervenção no meio ambiente são indicadores de que estamos diante de um novo cenário. Mas, se, de um lado, devemos celebrar o reaparecimento da temática ética, na medida em que se localiza no campo da ação humana, por outro lado, cabe perguntar sob que condições é razoável esperar uma aproximação permanente entre a ciência e a ética. Ética, entre outras coisas, significa restrição. O recurso a valores, constitutivos de qualquer agenda ética, implica aceitar proibições e limites. Caso existisse, uma sociedade inteiramente permissiva levaria à supressão da dimensão ética, que se tornaria supérflua num ambiente onde tudo fosse tolerado. Se aceitarmos a associação entre a atitude ética e o estabelecimento de alguma espécie de limite, como poderíamos aproximar a ética e a ciência, entre os procedimentos éticos e a busca do conhecimento? No contexto da sociedade atual, à que pertencemos, a criação dos campos científicos na modernidade ocidental é decorrência, entre outros fatores, da ideologia que preconiza a defesa da liberdade mais plena no que diz respeito ao conhecimento. A concepção moderna de ciência, a que estamos, ainda hoje, associados, é inseparável da progressiva reafirmação do princípio da autonomia da pesquisa e da rejeição, inegociável, da tutela, seja religiosa, seja política.

5       conclusão

Notamos que nos dias de hoje várias instituições se preocupam em elaborar um código de ética. Isso demonstra claramente a necessidade que a sociedade tem de “controlar” as medidas e atitudes das diversas profissões. Será que podemos permitir que a ciência, por exemplo, faça o que ela quiser? A ciência pode pesquisar o que ela quiser? A ética seria desta maneira então, intermediária, buscaria a justiça, a harmonia e os caminhos para alcançá-las. Quando buscamos, a justiça, a verdade, o entendimento e o conhecimento, o buscamos para satisfazer uma necessidade do sujeito. O que é que distingue a ciência da não-ciência? Como podemos demarcar a fronteira entre elas? É importante mencionar que a ciência deve ser entendida de maneira diversa, conforme o tempo em que a estudamos. O que chamamos de “conhecimento científico”, também, pode variar conforme os diversos períodos da história. Na área médica, por exemplo, quando ouvimos uma voz científica dizendo: evite comer ou fazer tal coisa, que faz mal à saúde, e depois alguns anos mais tarde se contradizem dizendo que não é bem assim. Podemos citar o recente comunicado da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com respeito à gema do ovo mal cozida. Concluiu-se que ciência é um conhecimento sistemático, dá-se pela leitura, reflexão, sistematização, conhecimento lógico, sendo quase impossível vivermos sem seus benefícios. A ciência tenta discernir com sabedoria ética o melhor para o ser humano. Sendo de muita importância este apelo ético na ciência, pois a sociedade depende das conseqüências. A ética é uma característica própria a toda ação humana, tendo como objetivo facilitar a realização das pessoas. A ciência envolve investigação e busca pela verdade. Na ciência temos a ética como suporte para não haver erros, pois a responsabilidade faz parte da ética e é fundamental no meio cientifico. A produção cientifica não se realiza fora de um determinado contexto social e político.

6        referências

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. MATOS, O. C. F. A escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Coleção Logos. São Paulo: Editora Moderna, 1993. MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. São Paulo: JZE. 2º ed.1998.

AQUARIO de manoel de andrade / curitiba

Silente e impassível
o mar
navega sua beleza
em  preguiçosas caudas
e barbatanas velozes,
ilumina-se em translúcidas medusas
e na cromática simetria das escamas.
Refrata a luz e a vida
no remanso submerso das águas,
em seus relicários de pérolas
e no  balé  itinerante dos cardumes.
Mar, ó mar…
escondeste teus íntimos mistérios
na pressão insuportável dos abismos
nessas paisagens indevassáveis da vida
onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.
Abres, contudo, as pálpebras da aurora
e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente
e na superfície das águas
ilumina tua face absoluta
nesta horizontal extensão do azul
nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios
onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes
e as asas serenas do albatroz.
Teus brancos litorais abraçam a Terra
desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.
Tuas marés redesenham os cinturões de areia
e delimitam teu espaço inconquistável.
Os manguezais invadidos retratam teus domínios.
Contra teu furor levantam-se falésias
fiordes verticais e punhais de granito.
Edificas tua linha de recifes,
teus castelos de corais,
cultivas teus jardins de algas e sargaços
onde mandíbulas poderosas,
venenos e descargas fulminantes,
ditam teu código submerso.
Mar, ó mar
transparente  beleza de flores e de frutos
território enigmático de vidas e silêncio
abismo onde flutuam os sobreviventes
sudário de todos os náufragos.
Mar azul
chamo-te água absoluta
porque absoluta é a tua sedução
a tua irresistível espuma
a mobilidade do teu ritmo
tua incessante sinfonia
teu eloqüente silêncio.
E contudo…
diante do etérico oceano…
diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…
tu és apenas um úmido ponto no infinito
um aquoso respingo
minúsculo aquário
um minuto ondulante na eternidade
há bilhões de anos se espraiando
nessa gota salgada suspensa no universo.
Curitiba, março de 2004
Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras
Curitiba, março de 2004

Silente e impassível

o mar

navega sua beleza

em  preguiçosas caudas

e barbatanas velozes,

ilumina-se em translúcidas medusas

e na cromática simetria das escamas.

.

Refrata a luz e a vida

no remanso submerso das águas,

em seus relicários de pérolas

e no  balé  itinerante dos cardumes.

.

Mar, ó mar…

escondeste teus íntimos mistérios

na pressão insuportável dos abismos

nessas paisagens indevassáveis da vida

onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.

.

Abres, contudo, as pálpebras da aurora

e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente

e na superfície das águas

ilumina tua face absoluta

nesta horizontal extensão do azul

nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios

onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes

e as asas serenas do albatroz.

.

Teus brancos litorais abraçam a Terra

desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.

Tuas marés redesenham os cinturões de areia

e delimitam teu espaço inconquistável.

Os manguezais invadidos retratam teus domínios.

Contra teu furor levantam-se falésias

fiordes verticais e punhais de granito.

Edificas tua linha de recifes,

teus castelos de corais,

cultivas teus jardins de algas e sargaços

onde mandíbulas poderosas,

venenos e descargas fulminantes,

ditam teu código submerso.

.

Mar, ó mar

transparente  beleza de flores e de frutos

território enigmático de vidas e silêncio

abismo onde flutuam os sobreviventes

sudário de todos os náufragos.

.

Mar azul

chamo-te água absoluta

porque absoluta é a tua sedução

a tua irresistível espuma

a mobilidade do teu ritmo

tua incessante sinfonia

teu eloqüente silêncio.

.

E contudo…

diante do etérico oceano…

diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…

tu és apenas um úmido ponto no infinito

um aquoso respingo

minúsculo aquário

um minuto ondulante na eternidade

há bilhões de anos se espraiando

nessa gota salgada suspensa no universo.

.

Curitiba, março de 2004

Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras

EXORCISADO EST de raymundo rolim / morretes.pr


Não passava um dia sem que pudesse se livrar do barulho no interior dos seus ouvidos. Consultou-se a muitos do ramo e também a leigos e ninguém lhe pode ajudar. Perguntavam-se então de como e se era possível que naqueles ouvidos cantassem sereias. Ulisses nem aí! Pedia que o amarrassem mais e vigorosamente com cordas novas e nós fortes. Não poderia jamais ceder aos cantos-encantos daqueles seres míticos. O homem era um rolo de amarrias, suspiros e desajeitos e já não podia mais se mover, nem falar, nem nada; (enquanto os rabos-de-peixe, de canto constante, lhe desfiguravam a face). Mantinha os olhos fechados. Nada pedia nem de nada reclamava. Acreditavam que desta vez, em sua quietude, teria ele se livrado para sempre da cantoria daqueles demônios, do qual o mesmo se achava vítima confessa e fiel. Não saberiam nunca! Quando ao cabo de longa travessia o desamarraram, seu corpo estava esticado, frio, impassível e sua voluntariosa alma possuída da sensação de quem ouvira a mesma e aguda nota do começo ao fim. Jogaram-no ao mar. (Por sobre ondas e marolas, seres invisíveis ao cair da tarde, carregavam-no para todo o canto e assim que se ultimava o dia, como se fosse ele um cão de estimação, um bichinho de brincar de faz de conta, puxavam-no para lá e para cá até o deixarem assim, boiando, subindo e descendo com as marés. Queriam tais seres que Ulisses se rehidratasse e que ficasse fortinho, bonzinho. Queriam que Ulisses aprendesse a cantar, como elas, com elas). Optou-se enfim, por consentir estas práticas de técnica vocal para as calendas gregas. Descansou Ulisses e não aprendeu a cantar nesta vida!

O CAPITALISMO AMERICANO SE FOI COM UM GEMIDO por stalisnav mishin

Aparentemente, ainda que tenhamos sofrido 70 anos desse show de horrores financiado pelo Ocidente, nada sabemos, tais bêbados tolos russos que somos, então que nossos “sábios” tolos anglo-saxões encontrem a estultice de seu próprio orgulho.

Deve-se dizer que, como no rompimento de uma grande barragem, a queda americana no marxismo está acontencendo com velocidade alucinante, em oposição ao pano de fundo de um rebanho ─ digo, povo ─ passivo e indefeso.

É verdade, a situação foi bem preparada ao longo do século passado, especialmente nos últimos vinte anos. O primeiro campo de testes foi nossa Sagrada Rússia, e foi um teste sangrento. Mas nós russos não iríamos simplesmente ir em frente e desistir de nossas liberdades e nossas almas, independente de quanto dinheiro Wall Street derramasse nas mãos dos marxistas.

Estas lições foram aprendidas e usadas para devidamente preparar o povo americano para a rendição de suas liberdades e almas aos caprichos de suas elites e melhores.

Primeiro, a população foi emburrecida através de um sistema educacional politizado e abaixo da média baseado em cultura pop ao invés dos clássicos. Os americanos sabem mais sobre seus dramas televisivos que sobre o drama em Washington que afeta diretamente suas vidas. Eles ligam mais para o “direito” de deglutir um hambúrguer McDonalds ou BurgerKing do que para seus direitos constitucionais. E então eles se voltam para nós e nos passam lições sobre nossos direitos e nossa “democracia”. O orgulho cega os tolos.

E então a fé deles em Deus foi destruída, até que suas igrejas, todas as dezenas de milhares de diferentes “ramos e denominações” se tornaram mormente pouco mais que circos dominicais e seus tele-evangelistas e seus maiores mega-pregadores protestantes ficaram mais que felizes em vender suas almas e rebanhos para estar no lado “vencedor” de um ou outro político pseudo-marxista. Seus rebanhos podem reclamar, mas quando esclarecidos que estariam no lado “vencedor”, mais rápido que nunca rejeitam Cristo com esperanças de poder mundano. Até as nossas igrejas Sacras Ortodoxas são escandalosamente liberalizadas na América.

O colapso final veio com a eleição de Barack Obama. Sua velocidade nos últimos três meses foi realmente impressionante. Seus gastos e impressão de moeda foram recordes, não apenas na curta história americana, mas no mundo. Se continuar assim por um ano mais ─ e não há sinais de que não continue ─ a América parecerá, na melhor hipótese, a República de Weimar e, na pior, o Zimbábue.

Estas últimas duas semanas foram as mais alucinantes. Primeiro veio o anúncio de um remodelamento planejado do bizantino sistema tributário americano pelos mesmos ladrões que o usaram para financiar seus roubos, prejuízos e fraudes de centenas de bilhões de dólares. Eles fazem nossos oligarcas russos parecerem, em comparação, pouco mais que pivetes. Sim, os americanos venceram nossos ladrões em volume bruto. Deveríamos parabenizá-los?

Estes homens, é claro, não são um quadro eleito, mas consistem de homens de confiança coletados dos mesmos oligarcas financeiros e caterva que agora se esbaldam em trilhões de dólares americanos, em um estímulo atrás de outro. Eles também estão usurpando os direitos, deveres e poderes do parlamento americano. Novamente, o congresso opôs pouco mais que um gemido a seus donos.

E então veio a ordem de Barack Obama para que o presidente da GM (General Motors) saísse da liderança de sua empresa. É isso mesmo, caro leitor: na terra dos “puros” livres mercados, o presidente americano agora tem o poder, o poder auto-investido, de despedir presidentes de empresas e, podemos supor, outros empregados, ao seu bel-prazer. Para cá, para lá, o centurião comanda seus esbirros.

Então não surpreende que o presidente americano prossiga com uma “ousada” jogada de declarar que ele e outro grupo escolhido de patetas não-eleitos escolhidos remodelarão agora a indústria automotiva inteira e serão até mesmo a garantia de políticas automobilísticas. Tenho certeza de que, dada a chance, eles alegremente a remodelariam para o resto do mundo também. O Primeiro Ministro Putin, menos de dois meses atrás, alertou a Obama e a Blair do Reino Unido para não seguirem o caminho do marxismo, ele só leva ao desastre. Aparentemente, ainda que tenhamos sofrido 70 anos desse show de horrores financiado pelo Ocidente, nada sabemos, tais bêbados tolos russos que somos, então que nossos “sábios” tolos anglo-saxões encontrem a estultice de seu próprio orgulho.

Novamente, o público americano engoliu isto com algo que mal foi um gemido… mas um gemido de “homem livre”.

Então, deveria pois ser alguma surpresa descobrir que o Democraticamente controlado Congresso da América está trabalhando para passar um novo regulamento que iria dar ao departamento do Tesouro americano o poder de definir salários máximos “justos”, avaliar desempenho e controlar como empresas privadas dão aumentos e bônus? O senador Barney Franks, um pervertido social gozando de sua homossexualidade (é claro, no meio da norma social americana moderna e iluminada, assim como na do Ocidente em geral, homossexualidade não é apenas uma opção de vida não desprezada, como freqüentemente também louvada como uma virtude) e seu iluminismo marxista, esteve à frente neste esforço. Ele frisa que isto afeta apenas empresas que recebem financiamentos do governo, mas é retroativo e, levado a um extremo lógico, incluiria qualquer empresa ou indústria que tenha recebido uma isenção ou incentivo.

Os donos russos de empresas americanas deveriam meditar sobre isto e sobre a opção de fechar suas instalações e fugir da terra dos Vermelhos o mais rápido possível. Em outras palavras, depenar enquanto ainda vale algo.

O americano orgulhoso irá cair nesta escravidão sem lutar, batendo em seu peito e proclamando ao mundo o quão livre ele realmente é. O mundo apenas rirá.

Publicado originalmente no blog do autor, Stanislav Mishin – http://mat-rodina.blogspot.com/

Tradução do inglês: David B. Carvalho

DAS PALAVRAS E MEIAS de lilian reinhardt

Quando a cadeira fala com a mesa
e a toalha branca com meus sonhos brinca
as suas flores bordadas revoam
meus travesseiros alados.
Queria revoar a tinturaria das palavras
com essas minhas taturanas vazadas
queria soletrar borboletas
porque a palavra antes de Ser
é mais que letra
é som de pedra lavrada
som de  estirado barranco
som queimado de capim seco
na língua molhada do  amado
é respingo de aresta na fresta azul
da  enrugada testa
é entalhe de suor sobre a sua cansada pedra
a palavra antes de verder é revoada
que aqui no peito bate ameiada desse jeito
É tua sempre a meação dessa revoação
da  minha perdida palavra!

ANA PALÍNDROMA de altair de oliveira / curitiba


Pressinto Ana presente

Sorridente Ana vinha

De frente, prazeriana…

Mostrando o riso pra gente.

Mas foi somente um instante

De repente Ana ia…

De costas, reboliana…

Ana já tinha partido

Seu riso indo pra sempre…

Já muitos anos nos passam

A mente ainda nos mente

Pois sabe que Ana é ida

E nos mostra desinibida

Que Ana vem toda vida

Vem vindo Ana! …benvinda!

Altair de Oliveira – In: O Lento Alento

DECISÃO por delinar pedrinho


Vacilei em escrever você…

Estive com medo…

Recluso em meus pensamentos após algum tempo quis voltar

Insto a você, pois…

Diante de tal decisão espero que consinta em continuar sendo inspiração.

Iriante beleza d’alma de que tu és…

Atento eu, e tenho convicção dos que o cercam também

Noctívago ando eu…

Afrasia me toma, mas estou a alar minha imaginação para dar forma mais condigna a tu…,.

ARTETERAPIA: pós-graduação no ISEPE

e-mail_arteterapia_2009 (1)

Olá,

O ISEPE oferece em Curitiba o curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Arteterapia. Se você tem interesse em adquirir conhecimentos sobre como utilizar a arte como   ferramenta terapêutica, ainda há tempo para fazer as matrículas neste curso, o início foi prorrogado para 25 e 26 de julho . Não fique fora dessa, venha participar desta nova turma de Arteterapeutas em Curitiba, ainda há vagas!

As matrículas podem ser feitas na sede do ISEPE ou por e-mail.

Endereço do ISEPE:

Rua Comendador Araújo, 143 – 18° andar do Executive Center Everest (em frente à TokStok), no centro de Curitiba-PR. Nosso horário de atendimento é das 8h30 as 18h00.

Atenciosamente,

Elizabeth Freitas
Pós-ISEPE Curitiba
Instituto Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão
Fone: 41 3091-8080 ou 8439-4909
atendimentopos@isepe.com.br
www.isepe.com.br

O ISEPE atende a todas as recomendações do MEC para oferecer cursos de Pós-Graduação Lato Sensu. Credenciamento no MEC: Portaria nº 579, de 04 de março de 2002, publicada no DOU em 05 de março de 2002.
Caso o número mínimo de 25 alunos não seja alcançado, o ISEPE reserva-se ao direito de adiar o início do curso e devolver a taxa referente à matrícula, se solicitado pelo aluno.

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RETTA e o seu ÂNGULO INSÓLITO por joice gumiel passos / curitiba

RETTA FOTO o artista visual retta

Uma obra em conjunto, quase anônima, a proposta de Rettamozo, autor e regente da Sociedade dos Pintores do Ângulo Insólito do Vale do Itajaiaçu. Gaúcho, radicado no Paraná funda este grupo após a oficina: ARTE,TERRA E RETTA, no vale do Itajaí. E com ele propõe alguns motes teóricos, quase um manifesto, motivadores da ação utópica de uma (n)ova poética para a velha pintura, que ainda, de quebra, além de trágica pode ser divertida e fazer novos amigos.

Faz parte destes motes O ângulo Insólito (Roland Barthes), ângulo de piquete, de topo:(…) nestes trabalhos ninguém pode estar olhando de cima, todos têm que estar ligados no chão! Ou então minha arte vira ilustração ou apenas uma demonstração de “olha eu aqui mamãe” (Retta), e os temas de topo reproduzem na sombra o seu duplo. Este mote propõe a terra como tema, personagem e matéria prima. As terras Curitiba, de Itajaí, de Piraquara, de Campo Largo, de Londrina e de Brasília pintam as telas do grupo. Desta terra, nesta terra, para esta terra. A terra trágica concentrada, vista de topo, mais os pássaros, as borboletas, os peixes, as joaninhas, as capivaras, os gravetos, as sementes de pinheiro e os contrapontos : os piões, as bolas de gude, as bolas de tênis, mais o cachorro de verdade e o de pelúcia, as meninas, os meninos , o palhaço, de verdade e de mentira. Quase sempre contam uma história. Num quasehaikay , numa QuaseCabala. E o segundo mote: O caos organizador do espaço profundo, o que produz a nova paisagem que deriva daquela que a gente pisa e que nos traz reminiscências culturais eexistenciais (…) depois de caminhar sobre a terra, pé sujo, descalço, ensapatado, andar de bicicleta com pneu sujo de barro de uma região diferente, bate um vento e as folhas e flores voam enchendo a tela de cores e sombras que determinam a hora, pinto o tempo, pois, pois, caos organizador do espaço profundo…(Retta).

O terceiro mote, a hipermodernidade, que anuncia: Terra à Vista! É a paisagem na sola do pé ou na roda da bicicleta para percorrer esta terra, nesta terra, desta terra, feito e com o jeito de terra, olhar de topo que remete o duplo, trágico e sem salvação. Medievo Retta hipermoderno que te proteja Zeus e o pára-raios! (Retta Rettamozo em exposição no SESC Água Verde, Curitiba, Pr). A Sociedade dos Pintores do Ângulo Insólito do Vale do Itajaí é composta por: Retta Rettamozo, Patrick Albuquerque, Rafaelo Góes, Odécio Adriano e Carlo Rettamozo.

RETTA - retta pinta e borda com os p+®s no ch+úo retta o gênio multimidia, pintando com os pés.

Joice Gumiel Passos

Membro ABCA/AICA

ilustrações do site. fotos livres.

NAVEGAR É PRECISO de fernando pessoa

com a intenção de desfazer equívocos utilizados por escritores, poetas, jornalistas e críticos de literatura, que veem publicando opiniões em prefácios e outros modos na mídia virtual e impressa afirmando ser de autoria do grande poeta a frase ” NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO” que , em verdade, é do romano JULIO CÉSAR, a caminho do Egito, ao enfrentar gigantesca tempestade no Mediterrâneo grita aos seus soldados e marinheiros, que queriam retornar: “NAVIGARE NECESSE VIVERE NON EST NECESSE!, é que estamos divulgando este “post” de autoria de FERNANDO PESSOA onde ele próprio afirma:

” Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso;  viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário;  o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”

O EDITOR.

GUIA da REFORMA ORTOGRÁFICA/MELHORAMENTOS – editoria

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FRAGMENTAÇÃO DAS FLORESTAS por bento dias da costa neto

Com o desenvolvimento (desordenado e inconseqüente) humano vieram várias conseqüências para o meio e ambiente de uma forma geral, uma delas é a fragmentação das florestas. A fragmentação das florestas traz um inversão no lugar de termos grandes florestas temos várias florestas pequenas e com isso vêm as conseqüências.
Para FLEURY(2003) “O processo de fragmentação florestal, além do isolamento e da redução de hábitat, produz um aumento do microhábitat de borda.” Isso significa dizer que o processo de fragmentação traz inúmeras conseqüências a fauna e a flora. A flora observamos as conseqüências com maior facilidade devido a extinção da mesma, já as conseqüências da fauna só é observada com uma análise critica e com um período de observação tendo em vista que o processo de extinção dos animais e a própria mutação do mesmo ocorrem no decorrer de um período e não de imediato como um desmatamento por exemplo.
A redução do habitat traz como conseqüência a falta de recursos alimentícios em uma quantidade que satisfaça a demanda, ou seja a quantidade de espécies que ainda estão no local – gerando com isso a redução ou até meso a extinção da espécie. Com relação as aves existe o problema que algumas se adaptam a toda uma floresta mas não conseguem se adaptar ao fragmento da mesma devido ao próprio espaço necessário ao seu desenvolvimento e a outras condições como o clima e a intervenção humana.
Diversidade biológica ” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica).

Os principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são:

  • ü Perda e fragmentação dos hábitats;
  • ü Introdução de espécies e doenças exóticas;
  • ü Exploração excessiva de espécies de plantas e animais;floresta amazonas
  • ü Uso de híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de reflorestamento;
  • ü Contaminação do solo, água, e atmosfera por poluentes; e
  • ü Mudanças Climáticas.

Além dos motivos expostos, podemos acrescentar o empobrecimento genético como mais um causador da perda da biodiversidade nas florestas fragmentadas, devido ao isolamento das espécies elas passam a se inter-relacionarem gerando assim apenas um ciclo de reprodução.
Efeito de borda:
“Bordas são áreas onde a intensidade dos fluxos biológicos entre as unidades de paisagem se modifica de forma abrupta, devido à mudança abiótica repentina das matrizes para os fragmentos e vice-versa” (Metzger 1999)
A estruturação da floresta é um importante aliado ou adversário das aves ou outras espécies, quanto mais estruturado for o fragmento mais proteção o mesmo dará as espécies, é importante também que o local seja circular e compactado para o seu interior resistir mais aos efeitos de borda. Já os fragmentos estreitos sofrem mais com o efeito de borda devido a falta de proteção ao seu interior. Mas existem espécies que se adaptam e vivem tranqüilamente nas bordas, da mesma forma que existem espécies que se isolam em fragmentos diferentes e devido as condições e os recursos diferentes aquela mesma espécie se transforma em duas espécies diferentes.
Algumas espécies aumentam sua densidade populacional em florestas fragmentadas, é o que denomina-se densidade compensatória. Uma das hipóteses levantadas para essa ocorrência é a diminuição da competitividade, tendo em vista que muitas espécies vão se extinguindo com o processo sendo assim diminuindo o número de predadores de outras. Outra hipótese é que em ambientes menores há- em alguns casos- a possibilidade de se explorar um gradiente maior de habitat’s do que em ambientes extensos( BLONDEL et al.1988). Para Anjos e Boçon (1999) as causas da densidade compensatória não estão claras mas elas podem ser diferentes de acordo com a auto-ecologia de cada espécie.
De uma forma geral é vista como negativa a fragmentação das florestas em relação a uma floresta completa. Devido as razões já expostas anteriormente, pode-se observar que os fragmentos não têm perspectivas a longo prazo sendo uma tendência o fim das espécies vivas contidas neles. Existe a possibilidade da criação de corredores que liguem os fragmentos próximos o que ainda gera bastante discussão por não se saber ao certo a eficiência dos mesmos. O certo é que os fragmentos tem suas vantagens por serem espaços verdes que servem de abrigo para muitas espécies, mas o ideal é a manutenção das grandes florestas e a recuperação de muitas outras, tendo em vista que no estado em que estamos não adianta apenas manter temos também que recuperar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLEURY, Marina. Efeito da fragmentação florestal na predação de sementes da palmeira jerivá (Syagrus romanzoffiana) em florestas semidecíduas do estado de São Paulo. 2003

METZGER, J.P.. Estrutura da paisagem e fragmentação: análise bibliográfica. Anais da Academia Brasileira de Ciências 71:445-463. 1999

BLONDEL, J. et al.. Birds impoverishment, niche expansion, and density inflation in mediterranean island habitats. Ecology, Washington, D.C., v. 69, p. 1899-1917,
1988.

ANJOS, L. dos; BOÇON, R. Bird communities in natural forest patches in southern Brazil. Wilson Bull., Lawrence, v. 111, n. 3, p. 397-414, 1999.

ilustração do site. foto livre.

EDU HOFFMANN e seus haicais / curitiba

diga, comadre

o que faz um monge

de maus hábitos ?

-.-

Época

esperta formiga

passando uma cantada

na bela cigarra

-.-

benditos

beijos

de

poucas

palavras

-.-

prédios

carregados de ciUmentos

paixão concreta ?

-.-

o que ?!

um militar nesses trajes !?

onde já civil  ?

-.-

a nau

pego em fraga

afogando horizontes

(segundo testemunhas

naufragava calmamente )

-.-

onde irá sua tia

se os dragões invadem

a sacristia ?

-.-

que te falta ?

o   a r

o   o i  ?

o   u i  ?

-.-

linda flauta

Altamiro tocando

me descarrilhou !

-.-

trovão medonho

fugiu rápido a lebre

ficou a sombra

-.-

vergam lindos bambus

pelo sopro do vento a flecha

atinge o alvo

Corpus do Christi – de marilda confortin / curitiba

ATOR REPRES CRISTO

Teu corpo, não dispo: Visto.

Tua cruz, não ergo: Vergo.

Teus pecados, não absolvo: Absorvo.

Tuas chagas, não vi: Cri.

Teu cio, não sacio: Sedo-me.

E por te amar,

não te toco: Abstenho-me.

Não te traio: Abstraio-te.

Cubro teu falo

e me calo

omissa

e dominical.

CRUZ E SOUZA: O CISNE NEGRO ESQUECIDO por joão batista do lago / são luís.ma

Vida Obscura

De Cruz e Souza

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,

Mas eu sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu teus braços
e o teu suspiro como foi profundo!

Não tenho tendência para crendices. Não acredito que os números, por exemplo, cometam quaisquer tipos de interferências em nossas vidas pessoais ou sociais. Os fatos, aos meus olhos, quando relacionados a esses eventos são meros acasos ou felizes ou tristes coincidências. Mas o dia de hoje, dia 19, me é extraordinariamente excepcional. Foi num dia 19 que meu pai nasceu; foi num dia 19 que minha mãe morreu; foi num dia 19 que ganhei o primeiro livro de poesia; foi num dia 19 que um dos poetas da minha mais expressiva admiração morreu: Cruz e Souza – João da Cruz e Souza –, aos meus olhos o principal poeta simbolista do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.

E a coincidência mais evidente foi haver recebido, do meu pai, coisa que não era comum, um livro de poesia, Broqueis (Broquéis é o livro escrito pelo poeta catarinense Cruz e Sousa. Publicado em 1893, ele é composto por poesias, sendo uma das obras simbolistas brasileiras. É marcado pela influência de Baudelaire, que traz o mal como algo belo. Neste livro, Cruz e Souza utiliza uma linguagem mais erudita, fazendo todo um jogo de palavras. Usa a cor branca para representar a espiritualidade, além de elementos vagos. A todo tempo deseja o espiríto, mas perde a espiritualidade com o elemento material), de autoria de Cruz e Souza. Contava então com 10 anos de idade. Naquele dia, um dia 19 (março de 1960), despertei para a poesia. E mais: descobri, muitos anos depois, que meu pai fora admirador deste ramo da literatura. Que meu fora admirador de Cruz e Souza. Que ele me dera o livro porque, naquele dia 19, assim como no 19 de hoje, completa assim como completa hoje, mais um aniversário de morte do Dante Negro do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.

CRUZ E SOUSA

João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) 24 de novembro de 1861Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.

Filho de negros alforriados, desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa – de quem adotou o nome de família. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.

Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista naEstrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular. Em Fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem tem quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose, levando-a à loucura.

Faleceu a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, num povoado chamado Estação do Sítio, para onde fôra transportado às pressas vencido pela tuberculose. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos, dentre eles José do Patrocínio.Onde permaneceu até 2007, quando seus restos mortais foram acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa no centro de Florianópolis.

Foi integrante da Academia Catarinense de Letras, de cuja cadeira 15 é patrono.

Análise da obra

Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, ànebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.

No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Baudelaireao espiritualismo (e dentro desse, idéias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como a fases na vida do autor.

Embora quase metade da população brasileira seja negra, poucos foram nossos escritores negros e mulatos. E, entre eles, poucos foram os que escreveram em favor da causa negra. Cruz e Souza, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de “Cisne Negro”, o poeta João da Cruz e Souza não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista. A acusação, porém, não precede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Souza militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha antiescravista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.

Quando Cruz e Souza diz “brancura”, é preciso recorrer aos mais altos significados desta palavra, muito além da cor em si.

__________

Com textos da Wikipédia

A VANTE de walmor marcellino / curitiba

Um lapidário, desterrado

em si de mim desmemoriado;

timoneiro reverberante

em arras para diante,

sextante à vante, guante para trás.

Desse ofício lapidante

o seu labor desfaz

em simples pedra diamante;

desvelante, de lance, andante

em singra, navegante

‑ sua melancolia, piloto ausente.

Em ofício de pedrarias

navegando por suas faisqueiras

defesso das intempéries,

mediterrâneo de todas sesmarias

desliando suas bandeiras,

coloridos fracassos em séries.

O CÂMARA por hamilton alves / florianópolis

Fazia um bocado de tempo que não punha os olhos no Câmara, que conheço desde os tempos de infância. Jogamos pelada, bolinha de gude, soltamos balão e pandorga, fizemos peraltices pelo curso da vida. Mais tarde, freqüentamos os botecos tradicionais daqui e d’alhures, onde sempre se revelou um bom copo.

Um dos fracos do Câmara, que nunca escondeu, foi o  belo sexo. Por um rabo de saia é capaz de proezas inimagináveis.
Lembro-me de casos amorosos que o deixavam na maior lona.

Câmara é desses amantes chatos, que se apaixonam à primeira vista. Se a paixão não der certo ou por alguma razão não evolui,  curte uma dor de corno inenarrável. Haja a se lamuriar como os mais sofredores dos homens, para quem as mulheres sempre foram insensíveis e sem alma.

Quantas vezes, alta madrugada, tive que aturá-lo em mesas de botequim, que, depois da terceira dose de uísque (ou de traçado) – para ele dava no mesmo, nunca distinguiu uma bebida de outra, só não tolerava pinga, desfilando as paixões dolorosas, que  não acabavam em sangue porque o Câmara sempre foi uma pessoa pacata e civilizada, incapaz de atos tresloucados.

Como disse, fazia tempo que não o encontrava. O que tinha sabido é que se mudara. Prometera não voltar mais à Ilha, onde deixara outra de suas grandes paixões. Não queria mais vê-la. Essa moça foi um negócio meio complicado. Era casada. Separou-se do marido. Teve um filho com ele. Quando o amor acabou (o amor sempre acaba, como diz Paulo Mendes Campos, em memorável crônica), estava de novo na pior, sem eira nem beira. Nem um teto tinha para morar. Como nunca teve emprego fixo, socorreu-se de amigos para se mandar nem sei para onde.

Pois vou passando de carro há dias por uma rua central e quem vejo, com uma camisa de listras verticais azuis e brancas? Quem poderia ser com todo aquele ar dengoso e agarrado a uma morena de primeiro time? Ele provavelmente beirando os 70. Ela em torno dos trinta (balzaqueana), inteiriça, como lhe convém.

O Câmara, como foi sempre de seu feitio, punha o braço em volta do pescoço da moça, aconchegava-a, em gestos que, em público, não o recomendavam.

Mas o Câmara ligou algum dia para o que os demais acharem de um pouco mais de agressividade no trato de uma garota?

Procurei um estacionamento próximo para abordá-lo.

Notei que tinha emagrecido um pouco mais. Andava pelos oitenta quilos.

Era um massa bruta. E mais: bom de briga. Por muito pouco é capaz de ir às fuças de qualquer um.

Percorri a rua onde presumivelmente poderia estar com a morena.

Não houve jeito de achá-lo.

Ou não seria ele? Ou alguém parecido com ele?

Não tenho dúvida. Com aquela “pinta” não poderia ser outro.

Deve ter pegado um rumo qualquer com a morena. Convidou-a para tomar um chá. Sempre começa com convites menos sofisticados. Até conduzir a moça a uma alcova.

Mulherengo incorrigível, só acha graça na vida quando  agarrado, como o vi, a um bom pedaço de mulher.

(junho/09)

À ESQUINA – de otto nul / palma sola.sc

Só à esquina
A vida passou
O vento soprou
Triste à esquina
A luz apagou
Um homem passou
Isolado à esquina
O sol acabou
O dia murchou
Indeciso à esquina
O tempo parou
A sorte voou
Mudo à esquina
O barulho cessou
O mundo acabou
x x x
(junho/09) – Otto Nul)
Só à esquina
A vida passou
O vento soprou

Triste à esquina
A luz apagou
Um homem passou

Isolado à esquina
O sol se evaporou
O dia murchou

Indeciso à esquina
O tempo parou
A sorte voou

Mudo à esquina
O barulho cessou
O mundo acabou
x x x
(junho/09) – Otto Nul)

FOTOPOEMA de rudi bodanese, silvio caldas e orestes barbosa / florianópolis / riode janeiro

RUDI poema&foto22

TRES GARGANTAS – por alceu sperança / cascavel.pr

O Oeste do Paraná recebeu algum tempo atrás o ministro chinês Pu Haiging, o encarregado de construir a maior hidrelétrica do mundo – Três Gargantas. Mas o camarada ministro não vai poder cantar muito de galo com sua hidrelétrica superior a Itaipu, já que no Brasil temos três gargantas muito maiores.

Temos, por exemplo, a garganta do presidente. Quanto mais fala em povo, mais se entrega aos ricos. Menos verbas para a educação, mais grilagem oficializada na Amazônia etc. É o pequeno-burguês escalado para fazer a alegria dos grandes burgueses: a “força do povo” bancando as PPPs. Além de pretender a América Latina unida “da Patagônia à Terra do Fogo” (os argentinos amaram), vem aí a tal da flexibilização, que dará muito arrepio em quem reelegeu Lula. Temos, também, a garganta dos governadores. Falam diabos e os tubos, mas seus estados continuam com índices ridículos de IDH.

Por último, temos a garganta dos prefeitos. Montados em cima da bala, como no conto de Stephen King, garganteiam que estão executando suas prioridades e, contudo, apenas assistem à míngua de seus cofres com o pagamento de salários altos a compadres, sócios e parentes. As prefeituras estão em petição de miséria e não cumprem seus deveres. Algumas ainda desviam dinheiro de programas sociais para custear guardas municipais inúteis. Garganteiam e mascam maravilhas, mas cospem a poeira do custeio. Se não usassem alguns truques – como parar praticamente tudo – nem fechariam o ano com as contas em dia. Seriam sérios candidatos ao rigor da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Além dessas três gargantas, bem maiores que as chinesas, temos também três, trinta, trezentos gargalos. E continuaremos a tê-los enquanto as três gargantas que nos enrolam continuarem fazendo das suas. Nas eleições, o poder econômico e os ricos faturaram geral. Gargantearam democracia, mas o que se viu? As empresas que mais negociam com a administração pública foram as principais doadoras de recursos para as campanhas vitoriosas. O caso do governador mineiro Aécio Neves (PSDB) é típico para mostrar quem gosta de tucanos: ele recebeu R$ 1,18 milhão em doações de bancos e R$ 2,26 milhões de construtoras ou empresas de engenharia. Petistas e seus rebocados de “esquerda” também foram por aí.

No meio dessa garganteação toda, temos agora uma novidade: o bolsa-ingresso. Como além do bolsa-família (pão) é também preciso o circo, os pobres receberam de presente em Cascavel essa coisa que também poderia ser chamada de “bolsa-rodeio” ou “bolsa-circo”. Passes para pobre ir à Exposição Agropecuária fazer de conta que está comprando e vendendo boi.

Talvez não fosse má idéia se além de ouvir insossas duplas “sertanejas” e assistir a rodeios asquerosos nossos miseráveis pudessem também receber bolsa-ingresso para ouvir boa MPB, aquela que não toca em rádio, e assistir a peças de teatro. E, sonho dos sonhos, “bolsa-livro” para ler pelo menos obras básicas como “o que é cidadania”, “como nossos direitos são pisoteados”, “safadezas do clientelismo” e “de como eles brigam e porque só dói na gente”. Só faltará então disponibilizar, verbo que adoram, um genuflexório para o miserável se joelhar e agradecer ao bondoso político que lhe dá o bolsa-ingresso.

Mais salário, terra e renda, tri-garganteadores! Esmolinha, não.

APESAR de TUDO – de vera lúcia kalahari / portugal

E apesar de tudo

Ainda sou a mesma.

Filha de quanta rebeldia me viu nascer,

Irmã de toda a revolta que me viu crescer.

E desafio-te a que cales em mim

Esta ânsia de lutar.

Rio-me dos vossos preconceitos loucos,

Rio-me de tudo e de todos:

Da honestidade dos homens,

Dos cânticos dos vencedoras,

Das solicitações místicas…

Rio-me de tudo e de todos:

Da vossa condição de mundo civilizado…

Porque eu, sou livre…
Livre como o viço juvenil

Na sinfonia das árvores,

Como o odor inesquecível dos desertos em flor,

Como os rios borbulhantes,

Como o cântico dos tambores

Apelando ao amor…

Como as chamas das fogueiras

Ardendo nas sanzalas.

Como o ritmo febril dos batuques tropicais,

Como corpos que se entregam,

Como velhos embondeiros,

Como capim que nasce em profusão.

Livre como o tempo que não pára,

Como asa chuvas desabando

Em jeito de nunca findar.

E desafio-te a prender-me.

Eu sou, afinal,

A África-terra, a Àfrica – mãe.

Só isto…Nada mais.

Livros sobre Hiroshima e Nagasaki – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Quero livros

Que deixe quem ler bêbado,

que viciem

e sejam cheios de propagandas  subliminares.

Quero livros vasodilatadores,

que causem priapismo,

e se picotar suas páginas de para fazer um cigarro de maconha.

Quero livros que dividam o mundo.

Livros que sejam excomungados,

que matem Deus

e que Deus e revide escrevendo seu terceiro livro.

Livros com sabor de carne

para serem devorados por leões.

Livros que entrem como fantasmas dentro dos computadores.

Livros sobre Hiroshima e Nagasaki.

Livros nasçam em pés da marula e macieira

e que os livros vermelhos floresçam nas papoulas.

Livros que tenham cheiro de cio e cartões de crédito.

Que façam as mulheres se masturbarem.

Livros venham em formato de falo

vibrem e que suas letras façam vezes de espermatozóides e fecundem

úteros.

Livros que gritem, que se aumente o volume das letras

até elas deixarem os olhos surdos.

Quero livros que alucinem quem se atrever a lamber suas páginas.

Que seja pego no antidoping pela substâncias deixadas pela leitura no sangue.

Livros pretos que voem com urubus.

Livros que explodam quando aberto.

Quero livros cheios de veneno,

e só passar a ponta do dardo na capa, pegar a zarabatana

e sair para matar macacos na selva da Venezuela.

Livros que possam ser transplantados no lugar dos corações e rins,

e que se coma suas letras amargas com arroz.

ORAÇÃO de luíz felipe leprevost / curitiba

LUIZ FELIPE LEPREVOST - CONFUSÃO 8-2008 leprevost_foto_gilsoncamargo_comfusao2_teatroapaiol_ago2008luíz felipe leprevost em ComFusão 2 no teatro paiol – curitiba – foto de gilson camargo

ORAÇÃO

Que Deus te proteja das gorduras trans, do bacon, do Baconzitos e de todas aquelas merdas da Elma Chips, das batatinhas fritas do Mac, e do Big Mac, e do Funcionário do Mês. Deus te proteja. Esse querido Deus parceiro do Sundown fator 30. Esse Deus inimigo dos raios ultra violeta. Inimigo dos canos de escape dos caminhões da Ford. Esse Deus maravilhoso, botânico da Boticário. Parceiro dos condicionadores de cabelo. Esse Deus feito à imagem e semelhança do Brad Pitt. Sócio investidor das mais bem equipadas academias de musculação, de fitness. Sócio investidor das clínicas de estética. Prestador de consultorias pra fabricantes de antiácidos e anfetaminas. Esse Deus da Vitamina C, D, E, K, A, B, B1, B2, B12. Esse da Aspirina. Do sabonete Phebo. Das lâminas da Gillette. Do Polvilho Antisséptico Granado. Que esse Deus, que amamos, me proteja e te proteja de sarnas e micoses. De artrites, alzheimers e artérioescleroses. Obrigado Deus. Obrigado Deus pelo aparelho nos dentes, pelas lentes de contato, pelas botinhas ortopédicas e por essas maravilhosas próteses.

leprevost veste: manto de papéis de balas e chocolates de efigênia rolim.

PARDAL SOLITÁRIO por tonicato miranda/curitiba.pr

TONICATO MIRANDA - Pardal solitário 4a

Como pode o passarinho cantar

quando triste, está solitário?

Que trinado é este se não o pio de uma saudade

minha pena mais amarela, eu quase canário

Como dividir o amor com o sol e as nuvens?

mas ainda sorrio do bamboleio sensual das lagartas

indo ao encontro das folhas ou dos casulos

Ah que falta me fazem as palavras e as cartas

Quem mais precisa de quem?

O mar da praia; os coqueiros da brisa

a aventura do aventureiro, o azeite do pão

ou a minha boca louca por paladares e por tua voz que alisa?

Como posso voar se tua ausência me aprisiona?

Quis telefonar mas a palavra sumiu do outro lado da linha

passarinho pousado é bom para a mira das atiradeiras

quem sabe uma pedra delas decrete meu fim de linha

Pena que muitos não saibam

dos cantos dos pássaros tristes e abandonados

somente porque todos são trinados musicais

Mas alguns trazem os doloridos ais dos mal-amados

Pena que não estás disponível para meus trinados

eles que seriam capazes de loucuras animais

trinando Aquarelas do Brasil, pintando tudo com arco-íris

piando serra abaixo, das enseadas até os manguezais

Pena que não tenho de ti nem um retrato

para mirar teu olhar, descobrir teu mistério mais rico

saber como grita teu janeiro diante deste sol ardente

depois morrer de saudade com tua foto presa ao bico

TM, 30/Jan/2006


Manoel de Andrade, o poeta brasileiro que escreveu para toda a América Latina – por julio daio borges / são paulo

A globalização enfraqueceu os regionalismos. Somos “do mundo todo”, mas, para isso, não somos “de nenhum lugar específico”. Particularidades, hoje, afastam; similitudes aproximam, a ponto de nos homogeneizarem até demais… Há pouco tempo, era diferente. Há algumas décadas, quero dizer. E tão diferente que agora não conseguimos entender direito… Estou falando da segunda metade doMANOEL DE ANDRADE - FOTO DELE - IMG_7355 século XX e da aproximação que sentíamos, aqui no Brasil, da América Latina. Hoje, por exemplo, estamos mais próximos de Rússia, Índia e China (a fim de compor os tais BRICs) do que de nossos vizinhos.

Entre os anos 60 e 70, havia um poeta brasileiro que podia nos transmitir esse sentimento perdido: de ser latino-americano e ser do Brasil. Ainda pode, na verdade. Trata-se de Manoel de Andrade, que teve o seu Poemas para a Liberdadelançado, recentemente, em edição bilíngue (pela Escrituras Editora). Numa época como a nossa, em que artistas brasileiros almejam se lançar no exterior, Andrade escreveu poesia para toda a América Latina. Ecoou o sentimento do homem latino-americano, a partir do Brasil, e percorreu o continente, num autoexílio de provação e, ao mesmo tempo, de consagração.

O apelo à coletividade ecoa já no princípio, em “Canción para los hombres sin rostro”, poema escrito em setembro de 1968, em Curitiba. Manoel fala em mártires: “Yo he de morir para que tú no mueras”. Fala de outsiders: “Canto a los parias de la vida” (“Canto a los hombres sin raíces, sin familia, sin patria”). E se espanta, obviamente, com os anos de chumbo: “Ah, que tiempos son esos?”. Entregando, finalmente, sua produção a todos: “Mis versos que al final nunca serán de nadie”. Dentro do contexto de triunfo do indivíduo a que chegamos, atualmente, com mais falantes do que ouvintes (por exemplo, nas novas mídias), fica quase impossível entender como alguém podia abrir mão do que escrevia, preferindo soltar poemas apócrifos, diluindo-se no sentimento geral.

As palavras de Manoel de Andrade rodaram a América Latina, sendo republicadas em periódicos de quase todos os países, mas não porque ele apostasse em “marketing pessoal”, fizesse “marketing viral” ou fortalecesse “sua marca” – e, sim, porque preferia não assinar, para ser mais simpático à causa de todos; porque, nesse esforço de identificação, todos o repassavam de bom grado; e porque, sem interesse, ele transcendeu suas limitações pessoais.

“Portunhol selvagem”

Em “Que es la poesia… mi hermano?”, ao afimar “es el amor hecho fuego”, Manoel se aproxima do nosso contemporâneo Douglas Diegues, que, neste momento, prega, além do “portunhol selvagem”, a “poesia feita com esperma”. Fora coincidências como essa, que não poderia jamais prever, Manoel de Andrade se aproxima de antecessores consagrados, como Fernando Pessoa, em “Mensaje” (dirigindo-se profeticamente ao futuro): “Vosotros que aguardáis la vida en el vientre de los siglos”. Evocando Pessoa, outra vez (mais especificamente Bernardo Soares, do Livro do Desassossego), em “El sueño del sembrador”: “Es necesario hacer del sueño la última trinchera”. E, naturalmente, traçando paralelos com o universal Che Guevara, em “Réquiem para um poeta guerillero”.

Em entrevistas, inclusive, Manoel reconheceria: “Por ahora creo que soy más necessario en la poesía que en outro tipo de lucha”. Lemos, ainda, que “poesía comprometida” se opunha então à chamada “poesía de consumo” e percebemos que, apesar de todas as aproximações que podemos fazer através da forma, há um abismo entre a produção de agora e a de antes, por um simples motivo, o do engajamento (ou da falta dele): “Los nuevos poetas del continente [nos anos 60 e 70]… han sabido comprometer sua poesia con la época que les toca vivir”.

Nem tudo são rosas na trajetória e na produção de Manoel de Andrade, contudo. Em El marinero y su barco, escrito em Lima, em 1969, ele deixa escapar: “Si, hay cosas tristes en la vida”. E, abordando o autoexílio (que infelizmente não detalha muito no livro), registra ainda entrevistas que acrescentou ao volume (como “fortuna crítica”): “Las acusaciones contra Manoel de Andrade se resumen en una: hace versos”. Em Canto a los marginales, parece falar a si próprio: “Donde están tus fariseos y las piedras que te lanzaron?”. E, num momento de desespero, volta-se, mais uma vez, a Guevara: “En cualquier lugar que nos sorprenda la muerte, bienvenida sea”.

Esquecido

Mas a principal tragédia de Manoel de Andrade não foi, artisticamente, a perseguição ou mesmo a ameaça de morte física. Foi o esquecimento nestas últimas décadas (no Brasil): “De celebrado autor de libros por el continente, se resignaba a ser un modesto vendedor de enciclopedias”. Os anos de chumbo se consolidaram nos 70 e desembocaram, finalmente, na abertura, a partir dos 80, mas o poeta não conheceu, novamente, a consagração de antes, nem teve a oportunidade de ser resgatado, como autor. Fala com distanciamento hoje, 40 anos depois, em sua primeira edição desde o auge.

Poemas para a Liberdade, em suma, deve ser lido menos como uma curiosidade de uma época distante, que se afastou do próprio autor com o passar dos anos, e mais como uma realização, legitimamente autoral, que transcendeu as fronteiras e alcançou o que muitas obras não alcançaram, com toda a eficiência posterior das comunicações. Dizem que o que nossa época perdeu em matéria de “sonho”, ganhou em matéria de “realidade”, mas é o caso de perguntar, talvez a Manoel de Andrade, se é este o “futuro” com que se sonhou e, principalmente, se estamos sendo dignos dos que lutaram a fim de que desfrutássemos dessas liberdades todas.

O pós-modernismo nos roubou o senso histórico. Podemos não cair em armadilhas utópicas e totalitarismos, mas, ao mesmo tempo, guardamos no íntimo a sensação de não estar dialogando o suficiente com os problemas do novo milênio… É tudo menos “monolítico” hoje, as opiniões não são mais “a favor” ou “contra”, mas, apesar desta nova consciência, o sentido (e a força) de um desejo de transformação evaporou-se. Manoel de Andrade, como nós, não deve entender o que está acontecendo, mas seu Poemas para a Liberdade pode nos mostrar, ao menos, diferenças inquietantes do sentimento de ser brasileiro e de ser latino-americano.

Organização Mundial de Saúde declara pandemia da nova gripe / serviço social

Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou nesta quinta-feira (11) que a nova gripe A (H1N1) encontra-se em situação de pandemia, declarou um oficial norte-americano. O comitê de emergência da OMS se reuniu por teleconferência e decidiu aumentar o nível de alerta para o mais alto, da fase 5 para a 6, o que significa que o vírus está provocando a primeira epidemia global de gripe em 41 anos.

A decisão foi motivada pelo aumento dos casos de infecção pelo vírus nos EUA, Europa, Austrália, América do Sul e em outros lugares. Mais cedo, o governo da Suécia já havia informado a imprensa da decisão da OMS.

“Neste estágio inicial, a pandemia pode ser caracterizada como sendo moderada em sua severidade” diz o comunicado enviado aos seus membros, em que a OMS informou que o nível de alerta para a gripe suína foi elevado da fase 5 para 6, o topo da escala, já que há um surto global do vírus. A organização pediu que as nações não fechem suas fronteiras nem restrinjam viagens e comércio. “Continuamos em diálogo com os produtores de vacina contra gripe”, disse.

A fase seis, que se traduz em que uma epidemia global está em andamento, significa que já há focos que se contagiam em nível comunitário em pelo menos outro país de uma região da OMS diferente da primeira na qual foi detectado, no caso, o vírus A(H1N1).

Até agora, um total de 27.737casos foram comunicados à OMS por parte de 74 países, com 141 mortes. O país que lidera a lista de atingidos é os Estados Unidos, com 13 mil casos; seguido pelo México – onde houve os primeiros casos -, com cerca de 6 mil; o Canadá, com mais de 2 mil; e a Austrália, que já superou mil casos. Os outros Estados com maior número de casos são EspanhaJapão, Reino Unido Chile.

Vírus

Na quarta-feira (10), a diretora-geral da OMS, Margaret Chan conversou com os ministros de saúde dos países mais afetados pelo vírus. Segundo a porta-voz da OMS, Fadela Chaib, Chan consultou “os ministros dos sete ou oito países mais afetados”.

A OMS havia reconhecido nesta semana que a declaração de uma pandemia era iminente, e disse que ainda não havia ocorrido porque era preciso preparar o mundo para que entenda esse passo corretamente.

“O vírus continua se estendendo pelo mundo, e a atividade do mesmo está aumentando em diferentes países. Estamos cada vez mais perto de uma situação pandêmica, mas a OMS está trabalhando duro para preparar os países e as pessoas”, disse o diretor-geral adjunto, Keiji Fukuda.

“Queremos que seja muito bem entendida a mensagem se declaramos a fase 6 de pandemia, isso significa que o vírus se estende e que há contágios estáveis em comunidades em países de várias regiões”, assinalou Fukuda.

Porém ele esclareceu que “isso não significa que o vírus tenha se tornado mais grave, que a doença seja mais séria e que a taxa de mortalidade tenha aumentado”.

7ª Bienal do Mercosul abre concurso para artistas

A 7ª Bienal do Mercosul, que se realiza em Porto Alegre, de 16 de outubro a 29 de novembro, abre concurso para artistas de todo o mundo, para uma de suas exposições, a mostra Projetáveis.

As inscrições seguem até o dia 10 de julho. Só serão aceitos trabalhos inscritos através do site http://www.bienalmercosul.art.br/projetaveis.

A exposição será apresentada no Santander Cultural, instituição que patrocina a Bienal do Mercosul. Esta seção da 7ª Bienal, concebida pelo curador adjunto e artista Roberto Jacoby, se propõe a explorar a materialização e localização específica dos projetos que utilizam a Web como canal além das fronteiras geográficas ou de suportes finais.

Os Projetáveis são peças bytes + atoms, formas híbridas que viajarão pela internet para serem “baixadas” ou transmitidas em tempo real, via streaming, para em seguida integrarem a exposição na 7ª Bienal do Mercosul.

Os projetos apresentados podem ser visuais (fotografias, imagens, slide shows, sombras, vídeos, filmes de curta, media ou longa metragem, animações, vídeo-instalações, flashes), sonoros ou performáticos (VJ e DJ, performances, conferências), ou outros meios (páginas web e jogos interativos). Devem ser “projetáveis” em monitores, telas ou objetos, em contextos específicos concebidos como parte do projeto.

Também devem ser projetos que possam andar pelo mundo sem bagagem, para em seguida adquirir sua forma local definitiva, a serem instalados dentro ou no entorno do Santander Cultural.

Divulgação (GP).

IF (es) – por zuleika dos reis / São Paulo

Se não te conferires

– de preferência ainda nesta vida

para não te pores a aguardar

ad infinitum

aquela certidão

passada em cartório

com assinatura de Deus

e firma reconhecida

a mesma que o Vinícius

não teve permissão para trazer

ao amigo Sérgio Buarque de Holanda

(segundo testemunho de fonte

talvez apócrifa)

um simulacro de identidade

seja lá de quê ou de quem

jamais deixarás de ser

mero poema anacrônico

e pior, anônimo.

Oh, meu filho

ou filha,( se neste momento

consegues crer, ao menos,

pertenceres tu

ao sexo feminino

ainda que

apenas do ponto de vista linguístico)

-virtual, se preferires,

para estarmos up-to-date.

SEMELHANÇA da SEMENTE por walmor marcellino / Curitiba

In dies singulus (um a um, um depois do outro) o movimento se dá dialeticamente. Porém, como ressalta Paul Foulquié, na “Dialética”: “Não é a predominância dos motivos econômicos na explicação da história que distingue de uma maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa; é o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, a predominância universal do todo sobre as partes, constitui a própria essência do método que Marx retomou de Hegel, que ele transformou de maneira a fazer dele o fundamento original de uma ciência inteiramente nova […]”. E acrescenta Georg Luckács: “A predomimância da categoria da totalidade é o suporte do princípio revolucionário na ciência”.

Exacerbar os ânimos na apreciação dos aspectos políticos parciais só poderá conduzir à radicalidade do oportunismo, pois o cotidiano político é a própria política no dia-a-dia que nos esconde a totalidade dos acontecimentos. Tal visão obscura do cotidiano não consegue ultrapassar o oportunismo e seu anedotário social nesta sociedade do espetáculo, principalmente porque nossa vivência é simplificadora e alienante, construída sob interesse e proveito de pessoas e suas classes sociais. Ademais, não poderia ser suficiente uma leitura tática do que acontece, nos passos que se revelam; e somente uma visão estratégica da política poderá evidenciar os fatos e seus desdobramentos à luz dialética de um racional discernimento político.

Como o movimento é o modo de existência da matéria, a própria vida orgânica é por ele determinada; e como a vida biológica e as ações sociais nos seus movimentos, também as políticas são práticas em processos de ações com sentidos contraditórios. Sua efetividade se expressa dialeticamente por aspectos positivados e sua negação ‑ sendo necessários ou causais, fundantes para… ou alienantes de…, oportunos, úteis ou anódinos. Importa-nos considerá-los se justos, oportunos e beneficiosos, porém sob as leis do movimento dialético qual será seu devir a partir das premissas? E se não podemos antevê-las nos pormenores, como saberemos de seu fio condutor no processo da luta de classes senão pela confirmação primacial de transformações revolucionárias (e não “evolucionárias” no sentido de conservação e consolidação das estruturas de dominação capitalista-imperialista, logo de aumento na opressão e exploração das classes trabalhadoras) e se se dirige à evolução das classes trabalhadoras, em especial do seu cerne operário-técnico-científico.

Não aprendemos ainda a distinguir a política Vargas (fundante do liberalismo social e da nacionalidade livre) da política Juscelino (consolidante da democracia liberal e da abertura de fronteiras à importação imperialista). Também não discernimos a função do BNDES de hoje como instrumento de extravasão econômica brasileira na Bolívia, Equador, Uruguai e Venezuela, daquela das relações com Colômbia, Chile, Peru e México (paises assumidamente “alinhados” a Washington). Porque não se trataria de apoiar e estimular a expansão capitalista da Camargo Correia, Odebrecht, Vale do Rio Doce e similares (sendo a lógica do capitalismo sua expansão e acumulação, etc…) e sim do contexto econômico polarizado e das relações políticas bilaterais e seu reflexo em nossa própria economia política. Pagamos assim um “superávit primário” a essa expansão monopolista. (Revisto de outro)

HIPOCRISIA de leonardo meimes / Curitiba

Fama

Sorte

Eufemismo

Hipocrisia

Fome

Morte

Paralisia

Colheita

Corto

Queimo

O mato

E faço

A morte

Minha

Safra

Minha santa

Guerra

Mata

Mas a guerra

A morte

E a fome

Santa

Salvam

Hipocrisia

CORPUS e TAPETES por sérgio da costa ramos / Florianópolis

O feriado de quinta-feira convidava ao exercício da fé e da reflexão. O que mais atraía os meninos da Cruzada Eucarística, do Colégio Catarinense, não eram os tapetes ornamentais, cuidadosamente desenhados nas ruas pelas Filhas de Maria. Verdadeiras obras de arte,SERGIO DA COSTA RAMOSreproduzindo imagens sacras, a Santa Ceia, a Via Crucis, o martírio de Jesus Cristo.

O impulso dos pequenos facínoras era transgredir, cometer pecadilhos veniais, colocar o pé no trilho daqueles artísticos canteiros, privilégio único de D. Joaquim Domingues de Oliveira, o D. Quincas, arcebispo Metropolitano e Primeiro Representante do “corpo de Cristo” naquela procissão de liturgia tão espetacular. A Eucaristia nas mãos do arcebispo, rodeado de “autoridades”, sob o abrigo do pálio – a “casinha ambulante”, espécie de cercadinho móvel dentro do qual se alojavam o Redentor e… os políticos.

– Queremos Deus, homens ingratos! – proclamava o refrão do hino sacro, entoado a plenos pulmões pelos jovens cruzados.

Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da Banda da Polícia Militar, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores, que já haviam pisoteado os tapetes e trocado a contrição pala descontração. Ali, na altura do “Poema Bar”, cabeceira da Praça XV, à direita da Catedral, os trânsfugas abandonavam o cortejo, imiscuindo-se com os que o assistiam. O chamariz irresistível estava na Rua Padre Miguelinho, ao lado da Cúria Metropolitana: um seriado do Cavaleiro Negro ou o celuloide inteiro de Sinbad, o Marujo, legítimo “capa e espada marítimo”, com Douglas Fairbanks Junior, Maureen O’Hara e Antony Queen – “filme de pirata” , cartaz do Cine Roxy, para contrastar com a atmosfera de contrição e recolhimento.

Segunda-feira, passado o feriadão, a “galera” voltava ao colégio, imaginando-se imune à punições, persuadida de que cometera o crime perfeito. Até que padre Jeremias, o Pomboca, atirasse a sua seta embebida em vingança:

– Para quem foi ver o “Marujo” na hora da procissão, tirem uma folhinha…. Tema de redação – e valendo nota: “Um Cruzado não pode ser um Infiel!”…

Impressionado com os pagadores de promessa da Procissão de Passos, perguntei à minha avó:

– Por que é que aqueles homens carregam pedras tão grandes?

A avó aproveitava para extrair daquela fé extrema uma boa lição para a pedagogia do nosso cotidiano, habitado por cinco irmãos nem sempre bem comportados, “cinco quibingas”, na definição já exausta de minha mãe.

– É que aqueles homens cometeram muitas artes quando meninos. Agora vão ter que carregar pedras pelo resto de suas vidas.

– Vó, a vida toooda?

– Até morrer, meu filho, aí o Senhor os libertará.

Entendia pouco aquele cilício, açoite voluntário que pune os fanáticos. Pensava: carregando uma pedra dessas, esses homens vão acabar morrendo antes que cheguem até “A Soberana”, ali na Rua Tiradentes – onde eu comprava as minhas balas “Uva do Norte”.

DC.

de HELENA SUT / Rio de Janeiro

HELENA SUT - img.php

Percorro os corredores do Louvre com a vivacidade de uma lembrança pueril. A luz de um quadro de George de La Tour  – “Saint Joseph, Charpentier” –despertou minha atenção quando o museu ainda não tinha a pirâmide e permaneceu como uma imagem que se projeta no tempo protegida do esquecimento. Luz! Percorro as galerias reconhecendo aos poucos as telas e os pintores, mas não consigo divisar o que é a presença da virginal percepção ou a recorrência das reproduções nos livros de história da arte.
Reencontro a Monalisa com o olhar amadurecido. Confesso que acho o quadro maior do que a memória. O sorriso… O enigma… Ou talvez a simplicidade que perverte a observação e deixa que os próprios mistérios e interditos assumam o olhar. Deixo-me envolver com o renascimento italiano, mas é necessário continuar a pegrinação em busca do encontro com a religiosidade de George de La Tour que pintava inspirado no cristianismo e no dia-a-dia das pessoas comuns com o exercício do “chiaroscuro” ou da perspectiva tonal, técnica criada por Leonardo da Vinci no Renascimento e desenvolvida no Maneirismo e no Barroco italiano.

Sem recordar em qual corredor guardei a lembrança, caminho num labirinto de cores e quase sonhos, tentando reconhecer a tela que tanto me impressionara. Ao entardecer encontro o espaço com os quadros de George de La Tour. A imagem restaurada de realidade. Quase memória, a revelar as estações como negativos projetados na emoção. Exploro com os olhos juvenis a superfície do tempo sazonado. O encantamento com a pintura permanece na convergência do olhar, talvez o verdadeiro significado de religiosidade.

VIDA APÓS A VIDA por bemvindo sequeira /Rio de Janeiro

Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos… Tudo me levava a crer que não chegaria aos 30 anos. Para quem tem 20 anos, quem tem 30 já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos 30. Aos 40 percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? De frente para a morte.” Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.
Aos 50 apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “Aos 50 anos, insistoBemvindoSequeira-333-180109 na juventude…”, isso enquanto percebia meu  ângulo peniano caminhando  para os 90 graus. Mas, antes dos 60, a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos.

Agora estou além dos 60. Aos 40 rezava pela alma dos mortos amigos e parentes. Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7, que diz: “Mil cairão ao teu lado e dez mil à sua direita, mas você não será atingido.” Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquises pra São Pedro não me ver.

Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos 30 descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no iutube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas.

Após os 60 você já está quite com tudo isso e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia, cuidar do joanete, dormir cedo,vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto.

Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho, mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade.” E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça infartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal.

Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo: “Só há dois caminhos: envelhecer… o outro, muito pior.” Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória.
Hoje, quando encontro vaga num elevador de shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma  bênção gigantesca e agradeço a Deus pela graça alcançada.

Após os 60, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo. Como
diz o amigo Percinotto, também idoso: “O diabo é sábio porque é velho.”

Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me.

* Bemvindo Sequeira é autor, ator e diretor de teatro e TV

O Irã é muito independente e desobediente, ironiza Chomsky / Filadelfia

NOAM CHOMSKI - 28-05-2009_13_58_09_

NOAM CHOMSKI. foto livre.

Em entrevista a Kourosh Ziabari, do site Foreign Policy Journal, o acadêmico e ativista americano Noam Chomsky critica a política de dois pesos, duas medidas contra o Estado do Irã e sua política nuclear, demonstrando que, durante o regime do Xá Reza Pahlevi, os EUA defendiam o desenvolvimento de tecnologia nuclear pelo país, na época submetido aos interesses americanos.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, traduzida por João Manuel Pinheiro para o site O Diário.info.

Noam Chomsky não precisa de apresentação. De acordo com o The Guardian, trata-se, indiscutivelmente, do catedrático e analista sócio-político mais importante da era contemporânea e está considerado junto a Marx, Shakespeare e a Bíblia, como uma das dez fontes mais citadas das humanidades, e é também o único escritor, entre eles, que ainda está vivo.

Em referência ao livro Hegemonia e Sobrevivência de Chomsky, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, dirigindo-se à Nações Unidas, disse: “Convido-os, com todo o respeito, a quem ainda não tenha lido o livro, a que o façam.”

Em resposta à pergunta formulada numa entrevista em 2006 sobre que ações tomaria se fosse presidente, Chomsky respondeu: “Instauraria um Tribunal de Crimes de Guerra para os meus próprios crimes pois caso tivesse assumido essa posição teria que tratar com a estrutura institucional e com a cultura, a cultura intelectual. A cultura deve ser curada”.

Nesta entrevista, conversei com o professor Chomsky sobre o Irã, os assuntos nucleares, as relações entre Washington e Teerã e o impacto global dos lobbies sionistas. Um resumo desta conversa foi primeiramente publicado no diário iraniano de língua inglesa “Teheran Times”.

Kourosh Ziabari: Professor Chomsky, o senhor tem reiterado em numerosas ocasiões que a maior parte dos países do mundo, incluindo os membros do Movimento dos Países Não Alinhados, apoia o programa nuclear iraniano, no entanto, os neoconservadores dos Estados Unidos continuam a proclamar o seu lema agressivo.

Noam Chomsky: O Movimento dos Países Não Alinhados, mas também a grande maioria dos americanos pensa que o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Todavia, quase ninguém nos Estados Unidos tem consciência disso. Isto inclui todos aqueles que são inquiridos e que provavelmente acreditam que são os únicos que pensam assim. Nunca se publica nada sobre este tema. O que aparece constantemente nas mídias é que a comunidade internacional exige que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Em quase nenhum meio se explica que a designação “comunidade internacional” é utilizada convencionalmente para se referir a Washington e a quem estiver de acordo, não só sobre este assunto mas em geral.

Kourosh Ziabari: A maioria dos analistas de assuntos internacionais ainda não pôde assimilar o duplo critério nuclear do governo dos Estados Unidos. Apesar de apoiar o arsenal atômico de Israel continua a pressionar o Irã para que suspenda os seus programas nucleares. Quais são as razões? Possui a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) autoridade suficiente para investigar os casos de armamento nuclear em Israel

Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

A AIEA possui a autoridade, contudo os Estados Unidos nunca permitiriam que a exerça. A nova administração dos Estados Unidos não tem dado provas de nenhuma alteração nesse sentido.”

Kourosh Ziabari: Existem quatro estados soberanos que ainda não ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e que desenvolvem livremente bombas atômicas. Será o Irã libertado das pressões constantes; deve obter a sua ratificação e abandonar o tratado?

Noam Chomsky: Não, isso só faria aumentar as pressões. Excluindo a Coreia do Norte, todos esses países recebem apoio extensivo dos Estados Unidos. O governo de Reagan, fingia ignorar que o seu aliado Paquistão desenvolvia armas nucleares, para que a ditadura recebesse ajuda massiva dos Estados Unidos. Também os Estados Unidos, aceitaram ajudar a Índia a desenvolver as suas instalações nucleares; Israel é um caso especial.

Kourosh Ziabari: Que prováveis fatores poderiam dificultar a realização de conversações diretas entre o Irã e os Estados Unidos? É maior a influência do lobby judaico do que a dos sistemas empresariais dos Estados Unidos?

Noam Chomsky: O lobby judaico tem alguma influência mas é limitada. Isto foi demonstrado, uma vez mais, no caso do Irã no verão passado, durante a campanha presidencial, quando a influência dos lobbies se encontrava no seu apogeu. O lobby israelita pretendia que o Congresso aprovasse uma legislação que se aproximasse de um ato de bloqueio ao Irã, um ato de guerra. A medida obteve um apoio considerável, mas desapareceu de imediato, provavelmente devido à Casa Branca deixar bem claro, discretamente, que se opunha.

Quanto aos verdadeiros fatores, ainda não temos registros suficientes, de modo que é necessário especular. Sabemos que a grande maioria dos americanos quer ter uma relação normal com o Irã, mas a opinião pública raramente influencia a política. As grandes companhias dos Estados Unidos, incluindo as poderosas empresas de energia, gostariam de explorar os recursos petrolíferos do Irã. Contudo, o Estado insiste no contrário. Suponho que a razão principal, é que o Irã é demasiado independente e desobediente. As grandes potências não toleram aquilo que eles consideram ser parte dos seus domínios e as regiões de maior produção de energia do mundo há muito que são consideradas domínio da aliança anglo-americana, agora com o Reino Unido reduzido a sócio subalterno.

Kourosh Ziabari: Haverá uma transformação táctica ou sistemática na aproximação dos principais meios de comunicação social ao Irã durante a presidência de Obama? Podemos esperar uma redução da propaganda anti-Irã?

Noam Chomsky: Em geral, as mídias aderem ao sistema geral da política de estado embora algumas vezes os programas políticos sejam criticados com fundamentos tácticos. Muito irá depender, portanto, da postura que assuma o governo de Obama.

Kourosh Ziabari : Finalmente, acredita que o presidente dos Estados Unidos deveria seguir a proposta do Irã e pedir desculpa, pelos seus crimes históricos contra o Irã?

Noam Chomsky: Creio que os poderosos sempre devem reconhecer os seus crimes e pedir desculpa às vítimas e ainda reparar os danos causados. Infelizmente, o mundo rege-se maioritariamente pela máxima de Tucidides: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem como lhes é devido. Lentamente, a pouco e pouco, o mundo, em geral, torna-se mais civilizado. Mas ainda tem muito caminho a percorrer.

ANTES DO ULTIMO VOO por affonso romano de sant’anna / Rio de Janeiro

Domingo passado, 31 de maio,  fazia um ameno sol de inverno no Rio de Janeiro. Havia uma expectativa de chuva ou tempestade à noite. Mas havia uma certa luminosidade sobre as praias. Os aviões chegavam e partiam.  Em Paris, sendo primavera, o clima era agradável. Os aviões chegavam e partiam.

No Rio o comissário de bordo Lucas Gagliano preparava-se para o vôo que o levaria uma vez mais à França. Voltava à vida, apesar de  há 15 dias ter  assistido ao enterro do pai. Deu uns telefonemas e preparou sua bagagem.

O cirurgião plástico Roberto  Chem com sua mulher Vera e a filha Letícia,  vindos de Porto Alegre   sobrevoavam o Rio  encantados uma vez mais com o cenário   que viam, e anteviam já  as delícias de estar no dia seguinte na Europa.

Pedro Luiz de Orleans e Bragança, com seus 26 anos de estudante,  preparava-se para retornar a Luxemburgo.Havia visitado seus pais em Petrópolis  e tomava o rumo do aeroporto do Galeão.

O casal Christine e Fernando fez como fora combinado. Não deveriam nunca viajar juntos com os filhos. Por isto ele seguiu num outro avião mais cedo com o filho de três anos e ela dirigiu-se com o filho de 5 anos para o outro vôo dentro da noite.

Os 19 funcionários da  empresa francesa CGED  que haviam ganho como prêmio uma viagem de férias  no Rio, iam fazendo piadas na condução para o  aeroporto. Levavam em suas bagagens presentes para os colegas e familiares que ficaram na França.

Moritz Koch,  arquiteto, havia realizado o seu sonho, que era se encontrar com o mítico Oscar Niemeyer e com ele realizar um projeto para a cidade em que morava Postdam. Voltava para casa como quem leva um troféu.

Eles estavam em lua de mel- Ana Negra e Javier Alvarez. E agora retornavam para casa. Mas Javier, pensava em ir antes para Dubai, enquanto ela seguiria para Barcelona.

Agora, o dentista Jose Amorim e sua esposa francesa Isis,  podiam partir tranquilos, pois haviam comemorado o aniversário com seus familiares em Niterói.

Um bailarino precisava viajar mais cedo e uma senhora cedeu o seu lugar, por 200 euros e embarcou no lugar dele no avião que sairia à noite.

Enfim, 228 pessoas de 32 nacionalidades, estavam tomando seus assentos  no mesmo avião e embarcando para a fatalidade.

Entre elas, meu amigo o maestro Silvio Barbato. Tentei contatá-lo dias antes para que viesse assistir a uma palestra que eu faria   na casa dos colecionadores de arte Sérgio  e Hecilda Fadel naquele domingo à noite. Éramos amigos há tempos. Foi na Biblioteca Nacional que ele apresentou pela primeira vez um concerto com árias inéditas de “O Guarany” de Carlos Gomes. Estivemos juntos inúmeras vezes, muitas delas, na mansão de Cesarina Rizo.

Silvio despediu-se de sua amada Antonella Pareschi – primeira violinista da Orquestra Petrobrás Sinfônica, e foi para o aeroporto. Já sentado no avião telefonou para ela reclamando jocosamente que o puseram lá no fundo, no último assento.

O avião levantou vôo. Como sempre.

Naquela hora eu fazia uma conferência sobre a arte de nosso tempo.

Cesarina Rizo, movida por estranho impulso, às 10 da noite, quando o avião cruzava o Atlântico, ligou para o celular de Silvio.

Um silêncio  absurdo, foi a resposta.

O SILÊNCIO de otto nul / palma sola.sc

o silêncio borda

o ar da sala

.

de cores tristes

e pálidas

.

tece a música

das moscas

.

rumina no canto

das portas

.

fala no beiral

das janelas

.

sopra sôfrego

no vagar das horas

.

ecoa nos buracos

negros da alma

.

x x x

(maio/09 – otto nul)

TAINHA enche as redes da ILHA DE SANTA CATARINA

OS VIGIAS A POSTOS OBSERVANDO A CHEGADA DOS CARDUMES:

José Ercílio Gonçalves, o Piranha, é um dos mais experiêntes vigias do Pântano do Sul. Nascido no Campeche há 54 anos , ele está na pesca desde os quatorze. De sóli parido a sóli murrido ele está lá na vigia, concentrado nos cardumes e de olhos fixos no infinito. Hoje, é um dos poucos camaradas que vivem exclusivamente da pesca. É um pescador profissional. Sem decuidar do mar, ele explica como é que vê os peixes.

SEXTA-FEIRA, 5 DE JUNHO DE 2009

NOS INGLESES!  40 toneladas de tainha!!

PESCA DA TAINHA - INGLESES

OS VIGIAS, do alto dos morros,  observam a chegada dos cardumes e avisam seus companheiros que se lançam ao mar.

PESCA DA TAINHA - VIGIAS vigias03

Fernando alexandre jorn poeta

Fernando Alexandre é jornalista, poeta, editor e autor do “Dicionário da Ilha – Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina” e “Dicionário do Surf – A Língua das Ondas“.

Também é o autor da matéria acima e editor do blog: ÚÚÚÚ!!! A PESCA DA TAINHA

CLUBE BILDERBERG: OS SENHORES DO MUNDO por vera lúcia kalahari / Portugal

VERA LÚCIA KALAARI - fim da humanidade

Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos,  X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado  em  1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Vera Lúcia
Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos,  X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado  em  1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Vera Lúcia
ilustração da autora.

“HOTEL” OU “L’HOTEL” por hamilton alves / Florianópolis

Se precisasse algum dia me hospedar num hotel local (não é o caso) escolheria, sem pestanejar, o “Hotel” (um pardieiro velho na rua Padre Roma, bem próximo do terminal Rita Maria), cujo nome é feito a tinta na parede que dá para o lado da rodoviária. Embaixo tem o “Portuga Show, petiscos e snooker” e ainda a “Serralheria Cardoso”. Se fosse o caso de me hospedar em Paris, para onde pretendo ir um dia, nem que seja apenas por alguns dias (pisar no solo parisiense já me proporcionará certamente muita alegria, tanto é meu entusiasmo por tudo que lhe diz respeito, seus escritores, seus artistas, sua paisagem), ficaria no “L,Hotel”, não sei se à margem esquerda ou direita do Sena. Foi nele que se hospedou Oscar Wilde, depois de ter amargado uma prisão estúpida, em Londres, por sua homossexualidade (tempos de moral vitoriana). O hotel, diz-se, a partir de então, ficou com má fama. À noite, ao que se conta, o fantasma de Wilde perambula por todas as suas dependências.

Conta-se que, quando Jorge Luis Borges chegou a uma cidade na Suiça, teve dificuldades de encontrar um hotel para se hospedar, justamente porque nenhum hotel quer assumir a fama de nele ter morrido uma celebridade. Borges pretextou que isso faz boa propaganda, embora o gerente insistisse em argumentar que não. Borges teve que ser enfático para ser, por fim, admitido como hóspede, ajudado pela interferência de Maria Kodama.

O prédio do “Hotel” é de feições coloniais, grandes janelões de frente, um único lance de escada, que dá acesso a um varandão como nos moldes de antanho. Faço um apelo pela sua preservação naquela paisagem que vai tomando ares sofisticados, com espigões horríveis, quando a paisagem precisa de casarões desse estilo. Sei que o interesse imobiliário ou a especulação do lucro não levam em conta aspectos como tais. A maioria das pessoas pouco se lixa para isso. Beleza não conta, e, sim, quanto se pode ganhar numa boa transação de um imóvel, não obstante sua importância paisagística e até, porque não dizer, cultural. A área está supervalorizada. Por isso, deve estar, certamente, com seus dias contados. Paris continua sendo cidade tão atraente porque nela convivem o novo e o velho pacificamente. Joyce, quando morava em Trieste, encontrou uma amiga que lhe disse achar Paris uma cidade suja. Ao que lhe respondeu: “Dirty is marvellous”.

Presumo que deva ser tranquilo um pernoite ali, melhor do que em hotéis sofisticados. Tem uma fachada que evoca tempos imemoriais, em que a cidade ainda era uma singela província. Por suas ruas trafegavam carrinhos puxados a cavalos. A vida era mais quieta e pacata. Não era esse atropelo de hoje.

Albert Camus considerava que o melhor lugar para se escrever uma novela (ou qualquer obra literária) é um quarto de hotel. O “Hotel” me parece o ideal para tal fim, dado o seu aspecto sossegado e à parte de tudo.

Os quartos devem ser exíguos, segundo os imagino, com uma cama de casal, um pequeno guarda-roupa, uma mesinha, um quadro à parede, numa moldura feia, mostrando uma figura vulgar. É tudo que espero que o decore.

Terá janelas?

Nas laterais não as vejo. Talvez só exista uma porta e nada mais de abertura. Deve ter um único banheiro para todos os hóspedes, o que é um inconveniente, mas altamente compensado pela beleza e amenidade que inspira.

Qualquer dia, quando me der na telha, vou lá me hospedar para sentir o prazer de passar ali umas boas horas escondido do mundo.


CANTO AOS MARGINAIS por manoel de andrade / Curitiba

Canto aos marginais
Manoel de Andrade
Quem quer que sejas,
ainda que um pária,
hoje é para ti que eu canto.
Não importa quem és ou quem foste…
se ladrão, mendigo, prostituta ou bandido
se desprezado, condenado, execrado pelo mundo…
eu te acolho na guarida dos meus versos
te saúdo com o coração limpo
e no calor de minha poesia
espero dar-te o que de mais belo eu tenho.
Sente que te estendo a mão
te cumprimento e saímos juntos a caminhar
e não creias que eu possa ser melhor que tu
ainda que sejas a mais vil das criaturas…
Quem sabe, no insondável itinerário da alma,
já tropecei na mesma pedra onde caíste
e escorreguei no mesmo abismo onde te encontras.
Talvez eu já tenha  empunhado uma arma para o assalto,
já tenha me prostituído e me vendido.
Por certo, no saldo milenar das injustiças,
também provei, como tu, a fome, o frio e o abandono.
Busco aqui o teu perfil no tempo…
tua alma amanhecida…
teu coração desarmado.
E te pergunto, comovido: onde morreu tua infância?
Quem abriu tuas feridas?
Quem causou teu desencanto?
Quando te faltou o pão e a miséria sitiou teus passos?
Quem rasgou tua cartilha?
Onde abateram teu norte e te demarcaram a sarjeta?
Quando abortaram teus sonhos e te enredaram na lama?
E no torvelinho da vida, quem partilhou teus pecados?
Onde estão teus fariseus e as pedras que te atiraram?
São só tuas as cicatrizes?
Somente tu és culpado?
Eis a tua penitência… a tua herança infamante,
é o teu fardo solitário,
tuas algemas, teu cárcere
teu pecado original.
Quem quer que sejas
ambos nascemos no berço da inocência
e a vida poderia fazer de ti um poeta
e de mim um marginal…
eis porque sou teu irmão
e minha sorte não pode me separar de ti..
E se um dia,
minha poesia chegar aos subúrbios da existência humana
e puder ecoar em teus ouvidos,
onde quer que estejas,
também lá eu estarei contigo
tão presente como neste momento.
Quero que saibas
o quanto és importante para mim,
quanto  preciso de ti para cantar-te
e sinto
e desejo que tu sintas
que este poema foi escrito em parceria contigo.
Mas não queiras saber quem sou
meu nome nada significa
por isso não me procures além da poesia.
Sou apenas um rosto a mais na multidão,
um viandante invisível do encanto,
um passo solitário da utopia.
Mas sou também, como tu, um passageiro da angústia,
cidadão e prisioneiro de uma noite oficial.
Hoje sou um transeunte do impasse e da  penumbra
indiciado no meu lírico combate…,
bebendo na taça indesejável do silêncio,
a indignação por outras delinqüências.
Sou, eu te confesso, um portador do medo e dos pressentimentos…
carregando também meu fardo de espanto
e uma trincheira de luta
que bem quisera partilhar contigo.
Agora que me dei a conhecer,
peço que também tu me compreendas,
que aceites meu gesto solidário
e minha compaixão pela falência dos teus passos.
E eis porque me faço semelhante a ti…
para que olhes mais de perto pra ti mesmo
e perguntes se valeu a pena a tua escolha.
Sobretudo eu te peço
que também tu me saúdes com o melhor de ti
e me recebas no teu íntimo território
como o primeiro convidado à festa da tua redenção.
Canto para dizer-te que há uma semente de amor no teu caminho,
que um olhar compassivo te ampara desde sempre.
Que há dois mil anos o mesmo Mestre te busca em outras faces…
sejas tu Dimas, Madalena ou Barrabás.
Sou teu irmão, teu amigo fraterno, o teu grande camarada
e canto para te soletrar a esperança,
para dizer-te que a luz das estrelas viaja nos teus olhos
e que cabe a ti reconstruir o amanhecer.
Bem… amigo!!!
eu te deixo agora
e espero que tu saibas o que fazer de ti.
Quanto a mim,
não te preocupes,
eu vou por onde meu sonho me levar.
Adeus, então…
tenho um compromisso inadiável…
um encontro solidário com as bandeiras do meu tempo
e, por isso, muitas coisas pra cantar.
Mas se nossos caminhos nunca se cruzarem,
se nós não nos reconhecermos na multidão,
não importa…
mas se um dia me encontrares nestes versos,
não te esqueças de mim,
leva-me contigo
porque hoje sou apenas uma página clandestina.
Lembro-te que só estarei vivo e presente nas palavras…
na realidade já estarei muito longe
talvez vivo, talvez morto, talvez um sobrevivente
ou um viandante da imortalidade.
Mas o que eu pensei de ti
deixo a vagar pela eternidade afora
e não importa que tu me encontres amanhã
ou na curva dos séculos,
o importante é que eu escrevi para ti,
que tive saudade de ti, como de um  amigo de infância.
Adeus,
canto em tua busca.
Curitiba, março de 1969
Este poema consta do livro “Poemas para a Liberdade”, editado por Escrituras
drumonnd e ELE.

drummond e ELE.

Quem quer que sejas,

ainda que um pária,

hoje é para ti que eu canto.

Não importa quem és ou quem foste….

se ladrão, mendigo, prostituta ou bandido

se desprezado, condenado, execrado pelo mundo…

eu te acolho na guarida dos meus versos

te saúdo com o coração limpo

e no calor de minha poesia

espero dar-te o que de mais belo eu tenho.

Sente que te estendo a mão

te cumprimento e saímos juntos a caminhar

e não creias que eu possa ser melhor que tu

ainda que sejas a mais vil das criaturas…

Quem sabe, no insondável itinerário da alma,

já tropecei na mesma pedra onde caíste

e escorreguei no mesmo abismo onde te encontras.

Talvez eu já tenha  empunhado uma arma para o assalto,

já tenha me prostituído e me vendido.

Por certo, no saldo milenar das injustiças,

também provei, como tu, a fome, o frio e o abandono.

Busco aqui o teu perfil no tempo…

tua alma amanhecida…

teu coração desarmado.

E te pergunto, comovido: onde morreu tua infância?

Quem abriu tuas feridas?

Quem causou teu desencanto?

Quando te faltou o pão e a miséria sitiou teus passos?

Quem rasgou tua cartilha?

Onde abateram teu norte e te demarcaram a sarjeta?

Quando abortaram teus sonhos e te enredaram na lama?

E no torvelinho da vida, quem partilhou teus pecados?

Onde estão teus fariseus e as pedras que te atiraram?

São só tuas as cicatrizes?

Somente tu és culpado?

Eis a tua penitência… a tua herança infamante,

é o teu fardo solitário,

tuas algemas, teu cárcere

teu pecado original.

Quem quer que sejas

ambos nascemos no berço da inocência

e a vida poderia fazer de ti um poeta

e de mim um marginal…

eis porque sou teu irmão

e minha sorte não pode me separar de ti..

E se um dia,

minha poesia chegar aos subúrbios da existência humana

e puder ecoar em teus ouvidos,

onde quer que estejas,

também lá eu estarei contigo

tão presente como neste momento.

Quero que saibas

o quanto és importante para mim,

quanto  preciso de ti para cantar-te

e sinto

e desejo que tu sintas

que este poema foi escrito em parceria contigo.

Mas não queiras saber quem sou

meu nome nada significa

por isso não me procures além da poesia.

Sou apenas um rosto a mais na multidão,

um viandante invisível do encanto,

um passo solitário da utopia.

Mas sou também, como tu, um passageiro da angústia,

cidadão e prisioneiro de uma noite oficial.

Hoje sou um transeunte do impasse e da  penumbra

indiciado no meu lírico combate…,

bebendo na taça indesejável do silêncio,

a indignação por outras delinqüências.

Sou, eu te confesso, um portador do medo e dos pressentimentos…

carregando também meu fardo de espanto

e uma trincheira de luta

que bem quisera partilhar contigo.

Agora que me dei a conhecer,

peço que também tu me compreendas,

que aceites meu gesto solidário

e minha compaixão pela falência dos teus passos.

E eis porque me faço semelhante a ti…

para que olhes mais de perto pra ti mesmo

e perguntes se valeu a pena a tua escolha.

Sobretudo eu te peço

que também tu me saúdes com o melhor de ti

e me recebas no teu íntimo território

como o primeiro convidado à festa da tua redenção.

Canto para dizer-te que há uma semente de amor no teu caminho,

que um olhar compassivo te ampara desde sempre.

Que há dois mil anos o mesmo Mestre te busca em outras faces…

sejas tu Dimas, Madalena ou Barrabás.

Sou teu irmão, teu amigo fraterno, o teu grande camarada

e canto para te soletrar a esperança,

para dizer-te que a luz das estrelas viaja nos teus olhos

e que cabe a ti reconstruir o amanhecer.

Bem… amigo!!!

eu te deixo agora

e espero que tu saibas o que fazer de ti.

Quanto a mim,

não te preocupes,

eu vou por onde meu sonho me levar.

Adeus, então…

tenho um compromisso inadiável…

um encontro solidário com as bandeiras do meu tempo

e, por isso, muitas coisas pra cantar.

Mas se nossos caminhos nunca se cruzarem,

se nós não nos reconhecermos na multidão,

não importa…

mas se um dia me encontrares nestes versos,

não te esqueças de mim,

leva-me contigo

porque hoje sou apenas uma página clandestina.

Lembro-te que só estarei vivo e presente nas palavras…

na realidade já estarei muito longe

talvez vivo, talvez morto, talvez um sobrevivente

ou um viandante da imortalidade.

Mas o que eu pensei de ti

deixo a vagar pela eternidade afora

e não importa que tu me encontres amanhã

ou na curva dos séculos,

o importante é que eu escrevi para ti,

que tive saudade de ti, como de um  amigo de infância.

Adeus,

canto em tua busca.

Curitiba, março de 1969
Este poema consta do livro “Poemas para a Liberdade”, editado por Escrituras
ilustração do site, a pedido. foto livre.

ESQUELETOS NO ARMÁRIO por alceu sperança / cascavel.pr

Os gravíssimos problemas ambientais da nossa época são mais graves que as fofocas paroquianas, com suas louras misteriosas e políticos garanhões. Chegam a empatar com a corrupção, o contubérnio maroto entre financiadores de campanha e seus eleitos e a imensa ingenuidade do eleitorado, que toma Coca-Cola, compra Omo e, também indo na onda do marketing vende-sabão, consome produtos cancerígenos digitando seus números nas urnas eletrônicas. Mas, nos dias tórridos, fumacentos e/ou chuvosos que vivemos, o que poderia preocupar mais que o terrível aquecimento global (AG)?

Mas talvez fosse necessário perder um pouco de tempo com nossos próprios umbigos antes de simplesmente espinafrar o AG, para reconhecer que ele é, afinal, um subproduto dos prazeres que auferimos com a fabulosa Revolução Industrial, tanto a ponto um quanto os pontos seguintes.

Se lançarmos um olhar sobre nós mesmos e à nossa volta, constataremos que cada um de nossos pequenos ou grandes prazeres produz resíduos – e nem sempre os menos agradáveis às narinas são os piores.

Um daqueles “inocentes” sacos de plástico que atiramos por aí depois de sacar dele o objeto do prazer que acabamos de comprar; aquele papel de bala que o presidente descartou; o incômodo pacote de chips de cujo conteúdo nossos piás aspiraram obesidade e um futuro câncer, atirado (o pacote, não a pança e o câncer) ao deus-dará; a guimba de cigarro e suas respectivas cinzas jogadas por aí; tudo isso é a face local, cotidiana, bem próxima a nós, correspondente ao pecado dos fantoches dos conglomerados econômicos (também conhecidos como “políticos”) manifestado no AG.

O AG é o equivalente, para as grandes corporações, à nossa atitude de gastar energia à toa, fazer barulho para os ouvidos dos vizinhos, estressar o cão e fazê-lo infernizar a vizinhança, dar porcaria às crianças só porque a TV diz que elas são “iradas”.

Se Bush e as grandes corporações têm inúmeros esqueletos em seus armários, nós também temos os nossos esqueletinhos e culpa por aqueles tsunamis todos. À medida que o planeta esquenta, as conseqüências vão aparecendo em sua cara suada: secas recordes, incêndios dantescos, enchentes monumentais.

Na Ásia, há algo além do tsunami: cerca de cem mil pessoas já morreram de doenças respiratórias por causa de uma misteriosa “nuvem marrom”, segundo revela Jeremy Rifkin, uma espécie de Grilo Falante para os Pinóquios desta geração.

Os coletadores de produtos recicláveis são – ao lado das crianças de mães que não vêem novelas e pais que não fumam – a grande esperança da humanidade. Esses entes iluminados que empurram seus carrinhos por aí são, aliás, uma clara metáfora do eleitor brasileiro: empurram lixo pela vida afora. A diferença é que eles melhoram a vida de todos carregando esse lixo e o eleitor piora a vida de todos elegendo inservíveis.

Mas, apesar dos pesares, no lento e persistente caminhar dos agentes ecológicos recicladores, do jeito que a coisa começa a andar entre os jovens mais conscientes, a gente vai acabar dando conta de apontar um rumo melhor a este planeta tão estuprado e torturado, mesmo porque, em termos humanos, estupro e tortura são tão hediondos quanto o aquecimento global.

Abaixo o AG, viva o agir. Há que agir geral, gente. A começar por resolver os esqueletos dos armários. Os do armário local e os do armário global.

TU por jb vidal

em meus lençóis brancos

ausência das tuas cores

teus cheiros

teus pudores

tuas taras raras

me debato na agonia

espermeio fantasias

 

nada

 

nada  

 

lembrar-te alimenta

meus sentidos

insensatos

 

 

PHILOMENA GEBRAN participa da abertura do I SIMPÓSIO SOBRE HISTÓRIA e CONHECIMENTO na UFRJ neste mês de junho/2009.

TEXTO DE PHILOMENA GEBRAN PARA APRESENTAÇÃO NA ABERTURA DO SIMPÓSIO:

 

É de suma importância realizar nesta palestra de abertura do 1º Simpósio sobre História e Conhecimento uma reflexão pertinente sobre esses conceitos; acho que é também uma oportunidade para propormos algumas reflexões sobre nosso Pós graduação ( Mestrado e Doutorado),sobre a importância do conhecimento histórico.

Hoje vivemos em um tempo dominado muito mais pela informação, pelo marketing e por especialistas e profissionais da informação que insistem em dizer que seus “métodos” são estritamente  “científicos”, quando não passam de “teorias” , se é que podemos conceituar assim,  de meras suposições superficiais.

Esse é o perigo, pois o tempo da informação, da superficialidade tornou-se também o tempo da “aparência”. Vale o que aparenta ser e não o que realmente é; vale a aparência do conhecimento e não o conhecimento em si. Peter Burk  diz que os historiadores do futuro poderão se referir ao final do século XX e início do XXI como a era da “informação”, ou a era da “aparência” de ser e de conhecer.

Neste sentido, é que a confiabilidade do conhecimento está sendo questionada por filósofos e outros pensadores: “os filósofos concordam com os  economistas e com os  sociólogos em definir nosso próprio tempo em termos de sua relação com o conhecimento”. 

Peter Burke fala dos filósofos e sociólogos, e por que não, nós historiadores não deveremos nos preocupar com esse tema? Devemos sim, e porque devemos, é que estou propondo que façamos uma reflexão sobre o mesmo, no qual se insere a produção do conhecimento, a pesquisa, a produção historiográfica e a própria História.

A confiabilidade do conhecimento científico e/ou histórico é também problema nosso e por isso devemos defendê-la vigorosamente  e de forma radical, da mercantilização da informação, pois o conhecimento, também se tornou uma questão política importante, construída no aspecto público ou privado, considerando sempre, seu aspecto social, mas manipulada pelos governos através da superficialidade da informação.

Essa manipulação não é recente, pelo contrário, o uso sistemático pelos governos da mercantilização do conhecimento e de sua manipulação através da informação é tão antigo, quanto o conhecimento e quanto a discussão do capitalismo; governos explorando ou reforçando o “senso comum” para mais facilmente poder manipular a sociedade.

Peter Burk detectou  o aparecimento da “ciência da informação” em três países diferentes; França, Alemanha e Estados Unidos, onde segundo ele a informação sobrepujou o conhecimento; e aqui ele fala do conhecimento científico, indagando como países da Europa moderna que vivenciaram o Renascimento, a Revolução Científica, o Iluminismo, enfim as chamadas Revoluções Intelectuais mergulham na ciência da informação em detrimento a ciência do conhecimento. [1]    

 Em meu entendimento, compete a nós historiadores o papel de recolocar a questão, ou seja, valorizar a “ciência do conhecimento” e não a da mera “informação” ou da “Sociologia do Conhecimento”,  mas resgatar o que me parece mais adequado para  área a “Antropologia do Conhecimento”, ou História do Conhecimento, adequando assim, um novo conceito para uma antiga  polêmica que remonta ao início do século XX ou mesmo final do XIX.

É só lembrarmos que na França Emile Durkheim e Marcel Mauss já problematizavam a relação dos opostos espaço / tempo; profano /sagrado; prática / teoria; ciência /senso comum, etc., propondo o conceito de “história social do conhecimento” e as representações coletivas, lembrando que as categorias sociais são projetadas de modo que a classificação das coisas reproduza a classificação das pessoas.

Ainda no início de século XX os historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre falavam em “mentalidades coletivas” ou “pressupostos compartilhados” salientando a importância do conhecimento em oposição à “simples” idéia da fé.

Em sua magnífica obra: “A Descrença no Século XVIFebvre aborda o problema da oposição entre crença e conhecimento. Não é o momento aqui de entrarmos por esse caminho, mas é apenas um lembrete, de como vai longe o debate sobre o “conhecimento”.

Outros teóricos seguiram discutindo o problema do conhecimento; não é possível citar todos neste breve espaço, mas em meu entender quem mais se destacou na continuação da polêmica sobre a “construção do conhecimento”, foi o antropólogo Lévi – Strauss e o filósofo ou sociólogo Michel Foucault; ambos trataram a questão, desde o micro (nível família, comunidade, etc.) até o macro (nível Estado), que ambos conceituaram como “lugares do conhecimento”.

Enfim, o tema continuou e continua sendo tratado por teóricos importantes que se dedicaram a aprofundar o debate, como por exemplo, Nobert Elias Jurgen Habermas ao estabelecerem a relação entre conhecimento e esfera política. Pierre Bourdieu  abordou o tema em vários artigos, ensaios, etc. e em diferentes ângulos da questão, conceituando-a como “prática teórica” ou “capital cultural”; onde aborda o tema do poder e da  Instituição Universitária como depositária desse “capital cultural” do conhecimento.

Clifford Geertz escreveu, também, vários artigos sobre “o conhecimento” e os “saberes locais”, como forma de conhecimento. Poderia citar ainda, muitos outros teóricos das mais diferentes épocas se quisesse fazer aqui uma história do conhecimento, o que não é o caso nem a oportunidade.

Queria apenas colocar essas reflexões, aparentemente simples, mas que devem fazer parte do trabalho não só do historiador, como do antropólogo, do sociólogo do filósofo, enfim dos que pensam as ciências humana e sociais; afinal nós também trabalhamos com elas e devemos responder certas questões e nos aprofundar em outras, como:

  • O que é o conhecimento?
  • O que é informação?

E afinal onde está a verdade? Na academia? No senso comum? Nas sociedades científicas? No saber erudito? No trabalho de campo? E, finalmente que papel a Universidade desempenha no avanço do conhecimento?

Poderíamos ficar aqui discutindo por muito tempo sobre o que a antiguidade, a Idade Média  e  a modernidade consideravam como conhecimento. Mas o que nos interessa, neste exato momento, é pensar o que é conhecimento para a Universidade e no nosso caso, particularmente o que fazemos no Pós Graduação (Mestrade Doutorado), senão uma sistemática reflexão sobre os vários tipos do conhecimento e seu aprofundamento.

Esse parece ser nosso papel na Universidade porque quer queiramos ou não, fazemos parte de uma elite do país que tem acesso ao que chamamos de “conhecimento acadêmico” ou “alternativo” que os mestrandos só irão detectar através da pesquisa, quer seja ela local regional ou nacional.

Essa pesquisa é que nos conduz  aos vários tipos de conhecimento pratico ou teórico, popular ou erudito, artístico ou científico e consequentemente a sua legitimidade só se realiza através das Instituições acadêmicas indispensáveis para o reconhecimento da produção do conhecimento.

SIR WINSTON CHURCHIL e seus diálogos – editoria

 

 

WINSTON CHURCHIL e o V da vitória da segunda guerra mundial (1945).

WINSTON CHURCHIL e o V da vitória da segunda guerra mundial (1945).

 

Quando CHURCHILL completou os 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

– Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill:

– Por que não? Você parece-me bastante saudável.

 

…………

 

 

Telegramas trocados entre Bernard Shaw e Churchill.

Convite de Bernard Shaw a Churchill:

“Tenho o prazer e a honra de convidar Sua Excelência Primeiro-Ministro para  a apresentação da minha peça “Pigmaleão”. Venha e traga um amigo, se tiver.” – Bernard Shaw.

 

Resposta de Churchill a Bernard Shaw:

“Agradeço ao ilustre escritor o honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer primeira apresentação. Irei à segunda, se houver.” – Winston Churchill.

 

………..

 

 

O General  Montgomery estava sendo homenageado, depois de vencer Rommel numa batalha na África, durante a IIª Guerra Mundial.

Discurso do General Montgomery:

“Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói”.

 

Churchill ouviu o discurso e retorquiu:

“Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele.”

 

………

 

 

Debate no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill, quando foi interrompido por uma deputada da oposição. Ora, todos sabiam que Churchill não gostava de ser interrompido… Mas foi dada a palavra à deputada e ela disse, alto e bom som:

-“Sr. Ministro, se V. Exa. fosse o meu marido, punha-lhe veneno no chá!”

Churchill, com muita calma, tirou os óculos e, depois de uns minutos de 
silêncio em que todos estavam suspensos da resposta, exclamou:

-“E se eu fosse o seu marido, tomava-o.”

GEORGE BERNARD SHAW – editoria

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Shaw é autor de mais de 70 obras teatrais e de numerosas críticas sobre arte e críticas sociais. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1925 e é considerado o fundador do teatro moderno inglês. Muitas de suas obras são qualificadas de “peças-idéias”, pois tanto a ação como a linguagem e as personagens giram em torno de um leitmotiv, uma idéia ou uma concepção do mundo particular. Influenciado por Hendrik Ibsen, desenvolveu a ação teatral como uma forma de discussão. Shaw expunha seus princípios críticos por meio de diálogos tensos, dotados de grande criatividade. Nas primeiras obras, retrata a sociedade vitoriana acomodada, cuja hipocrisia moral desmascara em Mrs. Warren’s Profession (1894). Em Candida (1894), surge o moralismo ilustrado de Shaw, que coloca em evidência a estreiteza de horizontes do sexo masculino por meio de suas personagens femininas, inteligentes e plenas de senso comum. Recriou igualmente temas históricos, como César e Cleópatra (1901). Em dramas posteriores, como Man and Superman (1903), manifestam-se a evolução de seu pensamento e suas crenças na força da filosofia vitalista. Também escreveu Pigmalião (1913), que adquiriu fama mundial graças à sua versão musical, chamada My Fair Lady (1956). Shaw, cuja infância como filho de um alcoólatra não foi particularmente feliz, exerceu as profissões de agente imobiliário e de jornalista. Antes de alcançar o sucesso na literatura e no teatro, adquiriu renome como crítico teatral, artístico e musical. Dotado de uma criatividade indiscutível e de uma linguagem corrosiva, reivindicou uma série de reformas sociais e culturais. Em 1884, ingressou na Fabian Society, uma instituição que impulsionava as reformas sociais. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “pela obra poética, marcada pelo idealismo e pelo humanismo, e especialmente pela poderosa sátira, na qual flui uma beleza poética muito pessoal”.

ANA MADUREIRA e o MEGA BAZAR LÚDICA convidam:

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FOTOPOEMA de RUDI BODANESE e RAMON SANTOS

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BARACK OBAMA: um novo Martin Luther King ou um Lula yankee? – por ubirajara passos

 

BARACK OBAMA e as multidões.

BARACK OBAMA e as multidões.

 

 

Ninguém tem a menor dúvida de que o novo presidente americano constitui-se numa daquelas surpresas espetaculares e absolutamente “revolucionárias” (no sentido de rompimento brusco e radical de um paradigma).

Afinal, um presidente da república NEGRO no país do mais empedernido e excludente racismo, como os Estados Unidos da América, é algo tão sensacional quanto um cardeal (explicitamente) gay e adepto da teologia da libertação no trono do Vaticano!

Martin Luther King, no seu inquieto túmulo, deve estar se revirando… e dando gargalhadas histéricas como uma solteirona que foi agarrada por um surfista bêbado! A presença de Obama na Casa Branca é um fantástico tapa na cara da arrogância brancófila, caipira e voluntariosa do dominador yankee!

Mas ninguém se engane, nem espere que a “revolução” vá além deste plano metafórico e do imaginário sócio-cultural. Porque o novo chefe do Império yankee pode ser negro e democrata, mas continua a ser o “chefe do Império yankee” e sua função, condicionada pelos interesses da classe dominante imperialista a que serve o Estado americano, é, antes de mais nada, manter intocados os privilégios e interesses de seus senhores burgueses, que são os reais detentores do poder no centro político da espoliação internacional.

É evidente que o “negrão” Obama representa um tremendo avanço em relação à truculência furibunda e inquisitorial de George Bush. Para fazer honra ao liberalismo formal de democrata é bem possível que haja um certo afrouxamento do policialismo endoidecido do império. O que não significa, absolutamente, que os Estados Unidos, sob o seu governo, se tornaram um doce cordeirinho benévolo e altruísta e deixarão de sugar o sangue, com seus parceiros europeus e asiáticos, das colônias extra-oficiais da África, Ásia ou América Latina (como o Brasil), se apropriando do produto do suor sofrido de seus trabalhadores. É mais provável mesmo que nem o Iraque seja desocupado pelas tropas do Império, apesar de um discurso humanitário e “tolerante”.

E nem espere o típico negro norte-americano o beneplácito de seu representante de raça em Washington para com as suas necessidades de dignidade social e econômica! Eleito dentro das regras e dos padrões de comportamento típicos da sociedade branca e protestante, da elite “ilustrada” democrata americana, Obama realmente fará, em breve, Martin Luther King se “revirar no túmulo”, só que de raiva e indignação e não de admiração por seu pretenso sucessor catapultado ao supremo poder! Por mais que se esforce para ser um Kennedy “bronzeado”, dificilmente o “companheiro” Barack ultrapassará as limitações do, pretensamente, grande mito humanista da América  – que era tão “humanista” que, durante o seu governo, foi o responsável pela tentativa de invasão de Cuba nacionalista e revolucionária e pelo esquema de suborno dos países explorados da América Latina, o pretenso “Plano Marshal” do Novo Mundo, a “Aliança para o Progresso”, que financiou, entre outras “humanistas e caridosas obras”, o golpe militar fascista de 1964 no Brasil.

O mais provável é que se repita, no Grande Irmão do Norte, o fenômeno já conhecido de nós, brasileiros, em que o operário fudido e nordestino chegou ao Palácio nos braços do povo miserável que via nele um seu irmão, e nele depositava todas as esperanças, para depois trair seus ingênuos eleitores e nos submeter a todos à continuidade da miséria e do quotidiano autoritário, opressivo e sacrificante de trabalhar para os privilégios de burgueses e lacaios burocratas do Estado, sem qualquer direito, sob o pretexto de defesa de nós mesmos, os trabalhadores.

Se o mito do operário redentor se transformou na realidade crua e atroz do algoz pretensamente semi-analfabeto e arrogante do operariado, ninguém se iluda, porque, assim como a negra Condolezza Rice, Obama, salvo um lance improvável e digno do “Fim do Mundo”, se tornará o humilde negro opressor de índios, mestiços, negros, árabes, amarelos e fudidos trabalhadores em geral das nações dominadas do terceiro mundo, em nome da prepotência e da rica mesa farta de bacon do imperialista branco americano!

LULA  e BUSH

LULA e BUSH

 ilustrações do site. fotos livres.

CONVERSA COM A ESPOSA SOBRE MEU DIA por solivan brugnara

 

                                           

                                             Não, senhor Prutok

                                             infelizmente, seu plano de saúde

                                             não lhe dará eternidade.

                                             Pensei cinicamente,

                                              enquanto ouvia

                                              durante nossa partida de xadrez

                                               o senhor Prutok

                                               falar longamente sobre seu plano de saúde,

                                              e das sete maravilhas tecnológicas                                                   

                                              feitas para prolongar o sofrimento.

                                              Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos

                                               imantados pela rua.

                                               E achei novas ranhuras no visor do relógio.

                                             Gosta de mim o velho, traz pistaches, arguile.

                                             Deus, como é tedioso ser amado por insossos.

                                              Como me irritei,

                                              mas fixei uma agradável máscara da comédia,

                                                quando me perguntou.

–  Gostou do vinho?

–  Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.

Calei, mas minha alma continuou.

É também marcante a presença

de acidulantes e conservantes

e tem um bem definido odor de aromatizante para

                                                      [automóveis.

Só Liszt dava-me certo alívio

 engraçado esses pianistas

cumprimentam a platéia, sentam-se

 e tiram sons maravilhosos

 dedilhando presas de elefante.

   Tem um analgésico?

Minha têmpora lateja como um coração.

VINÍCIUS ALVES em SEM TÍTULO I

minha palavra é coisa
minha coisa é palavra
coisa palavra é minha
palavra minha é coisa
coisa minha é palavra
minha é coisa palavra
é coisa minha palavra
palavra é coisa minha
é coisa palavra minha
é minha palavra coisa

CARLITA’S convida

CARLITAS

TUA CANÇÃO DE AURORA EM MIM poema de marizete zanon

( homenagem a Solivan Brugnara)

A tua voz envolvente

me enche de doçura

quando cantas

colocas em mim

toda ternura

arrancas de mim 

toda tristeza.

Reviras as palavras

como um arame fino

e teus olhos macios

me enchem de carinho

e teu riso sonolento

ensaia a aurora do meu dia.

AQUELA TRISTE E LEDA MADRUGADA poema de luís vaz de camões

Aquela triste e leda madrugada,

cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de üa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
de que uns e outros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões (Poeta português, 1524 ou 1525 – 1579 ou 1580)

JACK KEROUAC UM DOS ÍCONES DA GERAÇÃO BEAT – pela editoria

 

JACK KEROUAC - ÚLTIMA smJack Kerouac20JACK KEROUAC AUTOR DE “ON THE ROAD” LIVRO DE CABECEIRA DOS ANOS 60 E 70 DO SÉCULO XX.

Jack Kerouac nasceu a 12 de março de 1922, em Massachusetts. Era uma criança séria e muito dedicada à sua mãe. Como jogador de futebol, o jovem Kerouac ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que ele abandonou em seguida após uma briga com o treinador. Não se ajustando ao exército, acabou na Marinha Mercante, onde ficou algum tempo. Quando não estava viajando, Jack andava por Nova Iorque acompanhado de seus amigos “delinqüentes” de Columbia, entre eles Allen Ginsberg.

Kerouac começou a escrever um romance, falando sobre os tormentos que sofria para equilibrar a vida selvagem da cidade com os seus valores do velho mundo. Foi o seu primeiro romance publicado, porém não chegou a lhe trazer fama. Passaria muito tempo para que ele publicasse novamente. Na tentativa de escrever sobre as surpreendentes viagens que vinha fazendo com o amigo de Columbia, Neal Cassady, Kerouac experimentou formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido, sem parar para pensar ou formular frases. O manuscrito resultante sofreria 7 anos de rejeição até ser publicado. Jack escrevia vários romances, que ia guardando em sua mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país.

Em 1957, quando Allen Ginsberg e outros escritores de sua categoria começavam a celebrizar-se como a “Geração Beat” (termo que o próprio Kerouac tinha criado anos antes), os editores manifestaram o seu interesse pelos manuscritos de Jack, publicando, finalmente, “Pé Na Estrada”, que se tornou um estrondoso sucesso popular. De repente, Kerouac foi surpreendido para viver o papel de jovem ícone beat para o público, porém, amargado pelos anos de rejeição, ele não sabia como reagir. Os críticos literários não o levavam a sério como escritor, passando a ridicularizar o seu trabalho e ferindo-o profundamente. A partir dessa súbita celebridade, ele passa por um declínio moral e espiritual. Tentando viver a imagem selvagem que tinha apresentado em “Pé Na Estrada”, entregou-se ao alcoolismo, o que apagou o seu brilho natural e lhe envelheceu prematuramente. Seus amigos lhe viam como uma pessoa carente e instável. Ele ainda publicaria outros livros, mas a maioria tinha sido escrita no período em que não encontrava um editor.

Sentindo-se fracassado e solitário, vai morar com a sua mãe em Long Island. Seus últimos trabalhos exibiam uma alma desconectada de um ser humano perdido em ilusões. Apesar do estereótipo de beatnik, Kerouac era um conservador, especialmente sob a influência de sua mãe católica.

Frequentemente apaixonado, ele chegou a casar duas vezes ao longo da vida, mas ambos os matrimônios acabaram em poucos meses. Na metade dos anos 60, Jack casa novamente, agora com uma velha conhecida de infância. Ele, a esposa e a mãe mudam para St. Petersburg, na Flórida, onde ele morre em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, destruído pela bebida.

VOO DA AIR FRANCE – DOM PEDRO LUIZ DESAPARECE – informações da CASA IMPERIAL DO BRASIL

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Sua Alteza Real
Príncipe Dom Pedro Luiz Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança
(12/01/1983 – 01/06/2009)

Príncipe do Brasil
Príncipe de Orleans e Bragança
4o na sucessão dinástica ao Trono e Coroa do Brasil
Presidente de Honra da Juventude Monárquica

D. Pedro Luiz, filho mais velho do Príncipe D. Antônio e da Princesa D. Cristhine de Ligne, que moram em Petrópolis, era graduado em Administração pelo IBMEC do Rio e realizou sua pós-graduação em economia pela FGV. Fazia estágio numa instituição financeira de Luxemburgo.

Também atuou bastante junto com seus tios, pais e irmãos nos eventos monárquicos no Brasil. Por acreditarem que pode estar próxima a restauração da monarquia no Brasil, a maioria dos monarquistas brasileiros depositavam nele as esperanças pela restauração. Foi sucedido pelo seu irmão D. Rafael de Orleans e Bragança. 

Cumprimos o doloroso dever de informar que D. Pedro Luiz, filho mais velho de SS.AA.RR. os Príncipes D. Antonio e D. Christine e 4º na linha de sucessão ao Trono brasileiro, encontrava-se no avião da Air France desaparecido no vôo Rio de Janeiro – Paris.

Em razão do trágico desaparecimento do avião da Air France em que se encontrava seu sobrinho o Príncipe Dom Pedro Luiz, o Chefe da Casa Imperial do Brasil, Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança houve por bem cancelar a realização, no sábado dia 6 de junho, no Rio de Janeiro, do XX Encontro Monárquico, o qual fica adiado para nova data ainda a ser marcada. Pela mesma razão Sua Alteza suspendeu a Missa de Ação de Graças e almoço por seu 71º aniversário, que se realizariam no domingo dia 7.O6.09.

Atenciosamente,
Pró Monarquia.

DESTINO?…VERDADE OU MENTIRA? por vera lúcia kalaari

Hoje tenho seguido, aliás, como todo o mundo, a tragédia que se abateu sobre o avião da Air France que desapareceu, com duas centenas de passageiros, sem que se saiba o que realmente aconteceu.

E, mais uma vez me interrogo se, na verdade, existe ou não um destino que está marcado para cada um de nós, desde o dia da nossa entrada neste mundo, até ao nosso desaparecimento. Isto pensando naqueles que estavam para embarcar e, por um motivo ou outro, deixaram de o fazer, o que deve ter constituído na altura, um grande aborrecimento, como se poderá calcular.

E melhor do que ninguém o posso fazer, porque eu própria passei por uma experiência idêntica, que me marcou para toda a vida.

Nas minhas frequentes viagens por esse mundo fora, ao serviço do Governo angolano, com o objectivo de angariar investidores que estivessem interessados em fixar-se em Angola, para a sua reconstrução, tive oportunidade de ser procurada por um grande empresário francês, Bernard Bouchaier, que há mais dum ano havia tentado entrar no meu país para ali investir nalgum projecto de utilidade para os angolanos. Com as burocracias que existiam, num país hermeticamente fechado à entrada de estrangeiros, estava prestes a desistir de tal empreendimento, quando ouviu falar de mim e procurou-me para ver se, com a minha ajuda, levava a cabo o seu projecto. Tratava-se da construção de uma fábrica de medicamentos na região do Dundo, no norte de Angola, região extremamente carente de todas as infra-estruturas.

Não foi preciso muito para me aperceber que não poderíamos deixar de aproveitar este

parceiro, que se evidenciava um homem cem por cento africanista que seria uma mais valia para o futuro de Angola.

Resolvemos, pois, trabalhar em parceria não só para esse, como para outros projectos, todos do maior interesse.

Durante cerca de seis meses, desdobrámo-nos entre Africa e França, para ultrapassarmos todas as démarches, para a sua fixação em Luanda. Homem de grandes recursos financeiros, com uma experiência já longa no que se propunha fazer e grandes empreendimentos na Guiné Konakri, tínhamos, de certa forma, a vida facilitada nas constantes deslocações, por dispormos do seu avião privado.

Portanto, como dizia, ao fim de seis meses estava tudo concretizado e passámos então à fase de se contratar pessoal, constituído numa primeira leva, por engenheiros, arquitectos e pessoal especializado para o arranque do projecto.

Escusado será dizer que quando se divulgou na Europa o anuncio de procura de pessoal

para trabalhar em Angola, inúmeros foram as candidaturas que surgiram e depois de se estudarem atentamente as mesmas, foram escolhidos cerca de trinta pessoas para uma

primeira fase. Foi a mim que ele incumbiu de seleccionar os oito primeiros homens a

seguirem na primeira viagem, já que a capacidade do avião era de doze passageiros: O piloto, o co-piloto, o Bouchaier, eu, e os trabalhadores. Uma visão que nunca mais me deixou foi a minha, espalhando os passaportes na secretária, olhando para as pequenas fotos e separando os que achei dever seleccionar para aquela partida, pensando como eles se sentiriam contentes por terem a oportunidade de conseguirem um emprego com tão boas condições.

Estava tudo programado para que a viagem se iniciasse a partir de Bruxelas, onde o avião se encontrava estacionado, numa segunda-feira de manhã, estando prevista a chegada a Luanda na quarta – feira seguinte, já que tinha que fazer escala, para reabastecimento, em Argel e posteriormente Kinshasa.

Nesse domingo, logo pela manhã, inesperadamente, fui acometida dum fortíssimo ataque de malária, julgo que o primeiro e último que alguma vez me atacara.

O mal-estar era tão grande que o médico me aconselhou a não seguir viagem, ainda mais num avião que levaria cerca de quarenta e oito horas a chegar a Luanda.

O pânico que se apoderou do meu amigo ao pensar que iria chegar sozinho a Angola com o grupo, sem o meu apoio, foi tal, que para o tranquilizar, resolvi embarcar nesse

mesmo dia num avião da Sabena que oferecia outras condições e uma viagem mais rápida, de forma a estar à espera  deles no aeroporto de Luanda, no dia da chegada.

E foi isso mesmo que aconteceu. Só que nessa quarta-feira, o avião não chegava e ninguém conseguia contactar, a partir de Luanda, com quem quer que fosse que nos explicasse o que se havia passado. Embora toda a gente envolvida no processo estivesse

completamente tranquila quanto ao que teria acontecido, eu era a única que pressentia que algo de grave se havia passado. Só ao fim desse dia a notícia chegou a Angola:

O avião tinha-se despenhado ao aterrar em Argel, por isso na primeira escala que fizera após a partida. Todos os ocupantes morreram e o acidente nunca ficou muito claro: Uns diziam que tinha sido apanhado por uma tempestade de areia, outros por erro do piloto e outros ainda que tinha sido, pura e simplesmente, abatido. A verdade é que nunca houve um inquérito rigoroso a partir de França, e todos tivemos que aceitar, pura e simplesmente, aquilo que nos foi facultado pelas entidades argelinas.

O meu choque foi tremendo, porque pensei e por vezes ainda penso, que quando fui posta no caminho deste empresário, numa altura em que ele já havia desistido de investir em Angola, o seu destino ficou traçado. E igualmente ficaram traçados os destinos daqueles que eu seleccionei para iniciarem essa viagem que acabaria algures em Argel. E, ironicamente, eu, que tinha sido escolhida pela mão do Destino ou seja lá pelo que tenha sido, fui a única que sobreviveu, porque um ataque de malária, que me fez chorar de raiva e frustração quando se desencadeou, me impediu de fazer aquela viagem maldita.

Ainda hoje me interrogo, se, na verdade, o nosso destino está mesmo marcado e se teremos ou não capacidade para lutarmos contra ele.

Pensando nos infelizes passageiros da Air France que, eventualmente, se encontram sepultados no fundo do oceano, e nos meus amigos franceses, desaparecidos nas areias

desérticas de Argel e, principalmente naqueles, que tal como eu, não estavam ainda predestinados a acabarem a sua viagem , interrogo-me a mim própria  a que forças

incógnitas, malditas ou divinas, estamos nós entregues? E o destino? Existe ou não existe?

Esta é a minha homenagem a todos aqueles que perderam a vida nesta sua última viagem.

 

Vera Lúcia

O REBELDE CHINÊS por niara de oliveira

REBELDE CHINÊS - FOTO -tank man_widener

 

Essa foto foi intitulada “O Rebelde Desconhecido“. Mesma alcunha atribuída ao jovem estudante anônimo que se tornou internacionalmente conhecido ao ser gravado e fotografado em pé em frente a uma linha de tanques durante a revolta da Praça de Tiananmen em 5 de junho de 1989 na China.

A foto foi tirada por Jeff Widener, e na mesma noite foi capa de centenas de jornais, noticiários e revistas de todo mundo. O jovem estudante se interpôs a duas linhas de tanques que tentavam avançar. No ocidente, as imagens foram apresentadas como um símbolo do movimento democrático chinês: um jovem arriscando a vida para opor-se a um esquadrão militar.

Na China, a imagem foi usada pelo governo como símbolo do “cuidado dos soldados do Exército Popular de Libertação para proteger o povo chinês: apesar das ordens de avançar, o condutor do tanque recusou-se a fazê-lo se isso implicava causar algum dano a um cidadão” – versão chinesa.

“Eu estava no 5 º andar do Hotel Pequim. Consegui contrabandear minha câmera dentro de vasos chineses antigos com a ajuda de um estudante americano chamado Kirk, que estava hospedado no hotel. Esse estudante levou as imagens ainda no filme dentro da cueca de volta para o escritório da agência, de onde foram transmitidas para o mundo. (…) Quando vi a coluna de tanques achei que o solitário homem iria estragar a minha foto. Eu não estava conseguindo raciocinar direito porque estava muito gripado. Apenas alguns dias mais tarde, quando outros fotógrafos internacionais começaram a me cumprimentar pela foto foi que me dei conta da importância da imagem,” declarou Widener, da Associated Press.

Junto com as imagens da queda do Muro de Berlim, a foto do estudante enfrentando os tanques chineses foi um sopro de democracia e liberdade para o movimento estudantil mundo afora. No Brasil, o movimento estudantil se referia a essa imagem como “A primavera de Pequim”.

MUSEU NACIONAL DO PRADO – ESPANHA

DÊ UM CLIQUE NO CENTRO DO VÍDEO

 

 

Seus Olhos Verdes – poema de tonicato miranda

TONICATO MIRANDA - Olhos Verdes - FOTO

 


 

para uma que sabe ser para ela

 

não sei de onde vem

este desejo de ser triste

qual um pobre passarinho

na busca de um só alpiste

 

não sei onde não lhe achei

em qual ponte de rio

em qual ponte do coração

habita-me este inverno frio

 

não sei onde não havia flores

nem águas, nem verdes

e mesmo assim era bom

bastavam-me seus olhos verdes

 

não sei onde capotei na estrada

onde descarrilei de mim

onde veio parar esta minha vida

cheia de saudades de você assim

 

não sei porque o triste é tão belo

não sei porque ele todo me dói

como picada de muitos mosquitos

dor gentil que consome e rói

 

não sei porque não parto agora

no rumo que o pé apontar

saindo de mim e da cidade

para o rumo onde a dor andar

AVISOS PARA QUEM VAI SE AVENTURAR EM MATA VIRGEM – poema de darlan cunha

 

 

olhar no olho do sapo, e ver que ele é cego

ouvir o gogó do sapo, e percebê-lo gago

 

olhai o duro orgulho do sapo

e notareis que ele é feito camaleão:

com os sons e a cores

do sim, contra o peso do não

(coisa de rhesus e de irmãos de jesus: írritos e nulos)

 

veja que a manhã renasce

com o sexo em riste: na cara do sapo

há inconfesso e irrefreado

ensejo por uma rã descabelada

(“eu quero essa mulher assim mesmo”)

 

atente à barriga do sapo

e verá a sua sinergia, que ele tem posses,

gorda manta de sexo envolve-o

à beira d’água ele é rei

sobre uma pedra lisa faz seu reino de heresias brilhar

PRINCÍPIO, MEIO e FIM – poema de joão batista do lago

disse-me el diablo:

– rezo diariamente para o deus

peço encarecidamente

contritamente

que me livre de ti

não te o quero aqui no tártaro…

vai de reto

vai

vai

vai

não me corrompas o inferno

não quero o caos administrado

 

 

…então voltei ao sagrado

disse-me ele:

– penas como quiseres

entre céus e terras (e)

procuras teu reino e trono

acima e abaixo do mar já têm donos

 

 

manifesto:

– absurdo

como não ser como eles

como não ter poderes

vou mostrar a ambos

não sou refém da minha ambição

serei maior que os dois

terra terei por redenção

 

 

agora os dois me suplicam

el diablo: – alma alguma me quer agora

acabaram-se os encantos do tártaro…

o sagrado: – deixe-me os anjos e os santos

não os roube…

ambos então se ajoelham:

– poeta, perdoai nossos pecados

vem-nos completar a trindade

nem o uno

nem o outro

sejamos três: alteridade