Arquivos Diários: 2 junho, 2009

DESTINO?…VERDADE OU MENTIRA? por vera lúcia kalaari

Hoje tenho seguido, aliás, como todo o mundo, a tragédia que se abateu sobre o avião da Air France que desapareceu, com duas centenas de passageiros, sem que se saiba o que realmente aconteceu.

E, mais uma vez me interrogo se, na verdade, existe ou não um destino que está marcado para cada um de nós, desde o dia da nossa entrada neste mundo, até ao nosso desaparecimento. Isto pensando naqueles que estavam para embarcar e, por um motivo ou outro, deixaram de o fazer, o que deve ter constituído na altura, um grande aborrecimento, como se poderá calcular.

E melhor do que ninguém o posso fazer, porque eu própria passei por uma experiência idêntica, que me marcou para toda a vida.

Nas minhas frequentes viagens por esse mundo fora, ao serviço do Governo angolano, com o objectivo de angariar investidores que estivessem interessados em fixar-se em Angola, para a sua reconstrução, tive oportunidade de ser procurada por um grande empresário francês, Bernard Bouchaier, que há mais dum ano havia tentado entrar no meu país para ali investir nalgum projecto de utilidade para os angolanos. Com as burocracias que existiam, num país hermeticamente fechado à entrada de estrangeiros, estava prestes a desistir de tal empreendimento, quando ouviu falar de mim e procurou-me para ver se, com a minha ajuda, levava a cabo o seu projecto. Tratava-se da construção de uma fábrica de medicamentos na região do Dundo, no norte de Angola, região extremamente carente de todas as infra-estruturas.

Não foi preciso muito para me aperceber que não poderíamos deixar de aproveitar este

parceiro, que se evidenciava um homem cem por cento africanista que seria uma mais valia para o futuro de Angola.

Resolvemos, pois, trabalhar em parceria não só para esse, como para outros projectos, todos do maior interesse.

Durante cerca de seis meses, desdobrámo-nos entre Africa e França, para ultrapassarmos todas as démarches, para a sua fixação em Luanda. Homem de grandes recursos financeiros, com uma experiência já longa no que se propunha fazer e grandes empreendimentos na Guiné Konakri, tínhamos, de certa forma, a vida facilitada nas constantes deslocações, por dispormos do seu avião privado.

Portanto, como dizia, ao fim de seis meses estava tudo concretizado e passámos então à fase de se contratar pessoal, constituído numa primeira leva, por engenheiros, arquitectos e pessoal especializado para o arranque do projecto.

Escusado será dizer que quando se divulgou na Europa o anuncio de procura de pessoal

para trabalhar em Angola, inúmeros foram as candidaturas que surgiram e depois de se estudarem atentamente as mesmas, foram escolhidos cerca de trinta pessoas para uma

primeira fase. Foi a mim que ele incumbiu de seleccionar os oito primeiros homens a

seguirem na primeira viagem, já que a capacidade do avião era de doze passageiros: O piloto, o co-piloto, o Bouchaier, eu, e os trabalhadores. Uma visão que nunca mais me deixou foi a minha, espalhando os passaportes na secretária, olhando para as pequenas fotos e separando os que achei dever seleccionar para aquela partida, pensando como eles se sentiriam contentes por terem a oportunidade de conseguirem um emprego com tão boas condições.

Estava tudo programado para que a viagem se iniciasse a partir de Bruxelas, onde o avião se encontrava estacionado, numa segunda-feira de manhã, estando prevista a chegada a Luanda na quarta – feira seguinte, já que tinha que fazer escala, para reabastecimento, em Argel e posteriormente Kinshasa.

Nesse domingo, logo pela manhã, inesperadamente, fui acometida dum fortíssimo ataque de malária, julgo que o primeiro e último que alguma vez me atacara.

O mal-estar era tão grande que o médico me aconselhou a não seguir viagem, ainda mais num avião que levaria cerca de quarenta e oito horas a chegar a Luanda.

O pânico que se apoderou do meu amigo ao pensar que iria chegar sozinho a Angola com o grupo, sem o meu apoio, foi tal, que para o tranquilizar, resolvi embarcar nesse

mesmo dia num avião da Sabena que oferecia outras condições e uma viagem mais rápida, de forma a estar à espera  deles no aeroporto de Luanda, no dia da chegada.

E foi isso mesmo que aconteceu. Só que nessa quarta-feira, o avião não chegava e ninguém conseguia contactar, a partir de Luanda, com quem quer que fosse que nos explicasse o que se havia passado. Embora toda a gente envolvida no processo estivesse

completamente tranquila quanto ao que teria acontecido, eu era a única que pressentia que algo de grave se havia passado. Só ao fim desse dia a notícia chegou a Angola:

O avião tinha-se despenhado ao aterrar em Argel, por isso na primeira escala que fizera após a partida. Todos os ocupantes morreram e o acidente nunca ficou muito claro: Uns diziam que tinha sido apanhado por uma tempestade de areia, outros por erro do piloto e outros ainda que tinha sido, pura e simplesmente, abatido. A verdade é que nunca houve um inquérito rigoroso a partir de França, e todos tivemos que aceitar, pura e simplesmente, aquilo que nos foi facultado pelas entidades argelinas.

O meu choque foi tremendo, porque pensei e por vezes ainda penso, que quando fui posta no caminho deste empresário, numa altura em que ele já havia desistido de investir em Angola, o seu destino ficou traçado. E igualmente ficaram traçados os destinos daqueles que eu seleccionei para iniciarem essa viagem que acabaria algures em Argel. E, ironicamente, eu, que tinha sido escolhida pela mão do Destino ou seja lá pelo que tenha sido, fui a única que sobreviveu, porque um ataque de malária, que me fez chorar de raiva e frustração quando se desencadeou, me impediu de fazer aquela viagem maldita.

Ainda hoje me interrogo, se, na verdade, o nosso destino está mesmo marcado e se teremos ou não capacidade para lutarmos contra ele.

Pensando nos infelizes passageiros da Air France que, eventualmente, se encontram sepultados no fundo do oceano, e nos meus amigos franceses, desaparecidos nas areias

desérticas de Argel e, principalmente naqueles, que tal como eu, não estavam ainda predestinados a acabarem a sua viagem , interrogo-me a mim própria  a que forças

incógnitas, malditas ou divinas, estamos nós entregues? E o destino? Existe ou não existe?

Esta é a minha homenagem a todos aqueles que perderam a vida nesta sua última viagem.

 

Vera Lúcia

O REBELDE CHINÊS por niara de oliveira

REBELDE CHINÊS - FOTO -tank man_widener

 

Essa foto foi intitulada “O Rebelde Desconhecido“. Mesma alcunha atribuída ao jovem estudante anônimo que se tornou internacionalmente conhecido ao ser gravado e fotografado em pé em frente a uma linha de tanques durante a revolta da Praça de Tiananmen em 5 de junho de 1989 na China.

A foto foi tirada por Jeff Widener, e na mesma noite foi capa de centenas de jornais, noticiários e revistas de todo mundo. O jovem estudante se interpôs a duas linhas de tanques que tentavam avançar. No ocidente, as imagens foram apresentadas como um símbolo do movimento democrático chinês: um jovem arriscando a vida para opor-se a um esquadrão militar.

Na China, a imagem foi usada pelo governo como símbolo do “cuidado dos soldados do Exército Popular de Libertação para proteger o povo chinês: apesar das ordens de avançar, o condutor do tanque recusou-se a fazê-lo se isso implicava causar algum dano a um cidadão” – versão chinesa.

“Eu estava no 5 º andar do Hotel Pequim. Consegui contrabandear minha câmera dentro de vasos chineses antigos com a ajuda de um estudante americano chamado Kirk, que estava hospedado no hotel. Esse estudante levou as imagens ainda no filme dentro da cueca de volta para o escritório da agência, de onde foram transmitidas para o mundo. (…) Quando vi a coluna de tanques achei que o solitário homem iria estragar a minha foto. Eu não estava conseguindo raciocinar direito porque estava muito gripado. Apenas alguns dias mais tarde, quando outros fotógrafos internacionais começaram a me cumprimentar pela foto foi que me dei conta da importância da imagem,” declarou Widener, da Associated Press.

Junto com as imagens da queda do Muro de Berlim, a foto do estudante enfrentando os tanques chineses foi um sopro de democracia e liberdade para o movimento estudantil mundo afora. No Brasil, o movimento estudantil se referia a essa imagem como “A primavera de Pequim”.