“HOTEL” OU “L’HOTEL” por hamilton alves / Florianópolis

Se precisasse algum dia me hospedar num hotel local (não é o caso) escolheria, sem pestanejar, o “Hotel” (um pardieiro velho na rua Padre Roma, bem próximo do terminal Rita Maria), cujo nome é feito a tinta na parede que dá para o lado da rodoviária. Embaixo tem o “Portuga Show, petiscos e snooker” e ainda a “Serralheria Cardoso”. Se fosse o caso de me hospedar em Paris, para onde pretendo ir um dia, nem que seja apenas por alguns dias (pisar no solo parisiense já me proporcionará certamente muita alegria, tanto é meu entusiasmo por tudo que lhe diz respeito, seus escritores, seus artistas, sua paisagem), ficaria no “L,Hotel”, não sei se à margem esquerda ou direita do Sena. Foi nele que se hospedou Oscar Wilde, depois de ter amargado uma prisão estúpida, em Londres, por sua homossexualidade (tempos de moral vitoriana). O hotel, diz-se, a partir de então, ficou com má fama. À noite, ao que se conta, o fantasma de Wilde perambula por todas as suas dependências.

Conta-se que, quando Jorge Luis Borges chegou a uma cidade na Suiça, teve dificuldades de encontrar um hotel para se hospedar, justamente porque nenhum hotel quer assumir a fama de nele ter morrido uma celebridade. Borges pretextou que isso faz boa propaganda, embora o gerente insistisse em argumentar que não. Borges teve que ser enfático para ser, por fim, admitido como hóspede, ajudado pela interferência de Maria Kodama.

O prédio do “Hotel” é de feições coloniais, grandes janelões de frente, um único lance de escada, que dá acesso a um varandão como nos moldes de antanho. Faço um apelo pela sua preservação naquela paisagem que vai tomando ares sofisticados, com espigões horríveis, quando a paisagem precisa de casarões desse estilo. Sei que o interesse imobiliário ou a especulação do lucro não levam em conta aspectos como tais. A maioria das pessoas pouco se lixa para isso. Beleza não conta, e, sim, quanto se pode ganhar numa boa transação de um imóvel, não obstante sua importância paisagística e até, porque não dizer, cultural. A área está supervalorizada. Por isso, deve estar, certamente, com seus dias contados. Paris continua sendo cidade tão atraente porque nela convivem o novo e o velho pacificamente. Joyce, quando morava em Trieste, encontrou uma amiga que lhe disse achar Paris uma cidade suja. Ao que lhe respondeu: “Dirty is marvellous”.

Presumo que deva ser tranquilo um pernoite ali, melhor do que em hotéis sofisticados. Tem uma fachada que evoca tempos imemoriais, em que a cidade ainda era uma singela província. Por suas ruas trafegavam carrinhos puxados a cavalos. A vida era mais quieta e pacata. Não era esse atropelo de hoje.

Albert Camus considerava que o melhor lugar para se escrever uma novela (ou qualquer obra literária) é um quarto de hotel. O “Hotel” me parece o ideal para tal fim, dado o seu aspecto sossegado e à parte de tudo.

Os quartos devem ser exíguos, segundo os imagino, com uma cama de casal, um pequeno guarda-roupa, uma mesinha, um quadro à parede, numa moldura feia, mostrando uma figura vulgar. É tudo que espero que o decore.

Terá janelas?

Nas laterais não as vejo. Talvez só exista uma porta e nada mais de abertura. Deve ter um único banheiro para todos os hóspedes, o que é um inconveniente, mas altamente compensado pela beleza e amenidade que inspira.

Qualquer dia, quando me der na telha, vou lá me hospedar para sentir o prazer de passar ali umas boas horas escondido do mundo.


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