Arquivos Diários: 10 junho, 2009

IF (es) – por zuleika dos reis / São Paulo

Se não te conferires

– de preferência ainda nesta vida

para não te pores a aguardar

ad infinitum

aquela certidão

passada em cartório

com assinatura de Deus

e firma reconhecida

a mesma que o Vinícius

não teve permissão para trazer

ao amigo Sérgio Buarque de Holanda

(segundo testemunho de fonte

talvez apócrifa)

um simulacro de identidade

seja lá de quê ou de quem

jamais deixarás de ser

mero poema anacrônico

e pior, anônimo.

Oh, meu filho

ou filha,( se neste momento

consegues crer, ao menos,

pertenceres tu

ao sexo feminino

ainda que

apenas do ponto de vista linguístico)

-virtual, se preferires,

para estarmos up-to-date.

SEMELHANÇA da SEMENTE por walmor marcellino / Curitiba

In dies singulus (um a um, um depois do outro) o movimento se dá dialeticamente. Porém, como ressalta Paul Foulquié, na “Dialética”: “Não é a predominância dos motivos econômicos na explicação da história que distingue de uma maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa; é o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, a predominância universal do todo sobre as partes, constitui a própria essência do método que Marx retomou de Hegel, que ele transformou de maneira a fazer dele o fundamento original de uma ciência inteiramente nova […]”. E acrescenta Georg Luckács: “A predomimância da categoria da totalidade é o suporte do princípio revolucionário na ciência”.

Exacerbar os ânimos na apreciação dos aspectos políticos parciais só poderá conduzir à radicalidade do oportunismo, pois o cotidiano político é a própria política no dia-a-dia que nos esconde a totalidade dos acontecimentos. Tal visão obscura do cotidiano não consegue ultrapassar o oportunismo e seu anedotário social nesta sociedade do espetáculo, principalmente porque nossa vivência é simplificadora e alienante, construída sob interesse e proveito de pessoas e suas classes sociais. Ademais, não poderia ser suficiente uma leitura tática do que acontece, nos passos que se revelam; e somente uma visão estratégica da política poderá evidenciar os fatos e seus desdobramentos à luz dialética de um racional discernimento político.

Como o movimento é o modo de existência da matéria, a própria vida orgânica é por ele determinada; e como a vida biológica e as ações sociais nos seus movimentos, também as políticas são práticas em processos de ações com sentidos contraditórios. Sua efetividade se expressa dialeticamente por aspectos positivados e sua negação ‑ sendo necessários ou causais, fundantes para… ou alienantes de…, oportunos, úteis ou anódinos. Importa-nos considerá-los se justos, oportunos e beneficiosos, porém sob as leis do movimento dialético qual será seu devir a partir das premissas? E se não podemos antevê-las nos pormenores, como saberemos de seu fio condutor no processo da luta de classes senão pela confirmação primacial de transformações revolucionárias (e não “evolucionárias” no sentido de conservação e consolidação das estruturas de dominação capitalista-imperialista, logo de aumento na opressão e exploração das classes trabalhadoras) e se se dirige à evolução das classes trabalhadoras, em especial do seu cerne operário-técnico-científico.

Não aprendemos ainda a distinguir a política Vargas (fundante do liberalismo social e da nacionalidade livre) da política Juscelino (consolidante da democracia liberal e da abertura de fronteiras à importação imperialista). Também não discernimos a função do BNDES de hoje como instrumento de extravasão econômica brasileira na Bolívia, Equador, Uruguai e Venezuela, daquela das relações com Colômbia, Chile, Peru e México (paises assumidamente “alinhados” a Washington). Porque não se trataria de apoiar e estimular a expansão capitalista da Camargo Correia, Odebrecht, Vale do Rio Doce e similares (sendo a lógica do capitalismo sua expansão e acumulação, etc…) e sim do contexto econômico polarizado e das relações políticas bilaterais e seu reflexo em nossa própria economia política. Pagamos assim um “superávit primário” a essa expansão monopolista. (Revisto de outro)

HIPOCRISIA de leonardo meimes / Curitiba

Fama

Sorte

Eufemismo

Hipocrisia

Fome

Morte

Paralisia

Colheita

Corto

Queimo

O mato

E faço

A morte

Minha

Safra

Minha santa

Guerra

Mata

Mas a guerra

A morte

E a fome

Santa

Salvam

Hipocrisia

CORPUS e TAPETES por sérgio da costa ramos / Florianópolis

O feriado de quinta-feira convidava ao exercício da fé e da reflexão. O que mais atraía os meninos da Cruzada Eucarística, do Colégio Catarinense, não eram os tapetes ornamentais, cuidadosamente desenhados nas ruas pelas Filhas de Maria. Verdadeiras obras de arte,SERGIO DA COSTA RAMOSreproduzindo imagens sacras, a Santa Ceia, a Via Crucis, o martírio de Jesus Cristo.

O impulso dos pequenos facínoras era transgredir, cometer pecadilhos veniais, colocar o pé no trilho daqueles artísticos canteiros, privilégio único de D. Joaquim Domingues de Oliveira, o D. Quincas, arcebispo Metropolitano e Primeiro Representante do “corpo de Cristo” naquela procissão de liturgia tão espetacular. A Eucaristia nas mãos do arcebispo, rodeado de “autoridades”, sob o abrigo do pálio – a “casinha ambulante”, espécie de cercadinho móvel dentro do qual se alojavam o Redentor e… os políticos.

– Queremos Deus, homens ingratos! – proclamava o refrão do hino sacro, entoado a plenos pulmões pelos jovens cruzados.

Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da Banda da Polícia Militar, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores, que já haviam pisoteado os tapetes e trocado a contrição pala descontração. Ali, na altura do “Poema Bar”, cabeceira da Praça XV, à direita da Catedral, os trânsfugas abandonavam o cortejo, imiscuindo-se com os que o assistiam. O chamariz irresistível estava na Rua Padre Miguelinho, ao lado da Cúria Metropolitana: um seriado do Cavaleiro Negro ou o celuloide inteiro de Sinbad, o Marujo, legítimo “capa e espada marítimo”, com Douglas Fairbanks Junior, Maureen O’Hara e Antony Queen – “filme de pirata” , cartaz do Cine Roxy, para contrastar com a atmosfera de contrição e recolhimento.

Segunda-feira, passado o feriadão, a “galera” voltava ao colégio, imaginando-se imune à punições, persuadida de que cometera o crime perfeito. Até que padre Jeremias, o Pomboca, atirasse a sua seta embebida em vingança:

– Para quem foi ver o “Marujo” na hora da procissão, tirem uma folhinha…. Tema de redação – e valendo nota: “Um Cruzado não pode ser um Infiel!”…

Impressionado com os pagadores de promessa da Procissão de Passos, perguntei à minha avó:

– Por que é que aqueles homens carregam pedras tão grandes?

A avó aproveitava para extrair daquela fé extrema uma boa lição para a pedagogia do nosso cotidiano, habitado por cinco irmãos nem sempre bem comportados, “cinco quibingas”, na definição já exausta de minha mãe.

– É que aqueles homens cometeram muitas artes quando meninos. Agora vão ter que carregar pedras pelo resto de suas vidas.

– Vó, a vida toooda?

– Até morrer, meu filho, aí o Senhor os libertará.

Entendia pouco aquele cilício, açoite voluntário que pune os fanáticos. Pensava: carregando uma pedra dessas, esses homens vão acabar morrendo antes que cheguem até “A Soberana”, ali na Rua Tiradentes – onde eu comprava as minhas balas “Uva do Norte”.

DC.