Arquivos Diários: 14 junho, 2009

O CÂMARA por hamilton alves / florianópolis

Fazia um bocado de tempo que não punha os olhos no Câmara, que conheço desde os tempos de infância. Jogamos pelada, bolinha de gude, soltamos balão e pandorga, fizemos peraltices pelo curso da vida. Mais tarde, freqüentamos os botecos tradicionais daqui e d’alhures, onde sempre se revelou um bom copo.

Um dos fracos do Câmara, que nunca escondeu, foi o  belo sexo. Por um rabo de saia é capaz de proezas inimagináveis.
Lembro-me de casos amorosos que o deixavam na maior lona.

Câmara é desses amantes chatos, que se apaixonam à primeira vista. Se a paixão não der certo ou por alguma razão não evolui,  curte uma dor de corno inenarrável. Haja a se lamuriar como os mais sofredores dos homens, para quem as mulheres sempre foram insensíveis e sem alma.

Quantas vezes, alta madrugada, tive que aturá-lo em mesas de botequim, que, depois da terceira dose de uísque (ou de traçado) – para ele dava no mesmo, nunca distinguiu uma bebida de outra, só não tolerava pinga, desfilando as paixões dolorosas, que  não acabavam em sangue porque o Câmara sempre foi uma pessoa pacata e civilizada, incapaz de atos tresloucados.

Como disse, fazia tempo que não o encontrava. O que tinha sabido é que se mudara. Prometera não voltar mais à Ilha, onde deixara outra de suas grandes paixões. Não queria mais vê-la. Essa moça foi um negócio meio complicado. Era casada. Separou-se do marido. Teve um filho com ele. Quando o amor acabou (o amor sempre acaba, como diz Paulo Mendes Campos, em memorável crônica), estava de novo na pior, sem eira nem beira. Nem um teto tinha para morar. Como nunca teve emprego fixo, socorreu-se de amigos para se mandar nem sei para onde.

Pois vou passando de carro há dias por uma rua central e quem vejo, com uma camisa de listras verticais azuis e brancas? Quem poderia ser com todo aquele ar dengoso e agarrado a uma morena de primeiro time? Ele provavelmente beirando os 70. Ela em torno dos trinta (balzaqueana), inteiriça, como lhe convém.

O Câmara, como foi sempre de seu feitio, punha o braço em volta do pescoço da moça, aconchegava-a, em gestos que, em público, não o recomendavam.

Mas o Câmara ligou algum dia para o que os demais acharem de um pouco mais de agressividade no trato de uma garota?

Procurei um estacionamento próximo para abordá-lo.

Notei que tinha emagrecido um pouco mais. Andava pelos oitenta quilos.

Era um massa bruta. E mais: bom de briga. Por muito pouco é capaz de ir às fuças de qualquer um.

Percorri a rua onde presumivelmente poderia estar com a morena.

Não houve jeito de achá-lo.

Ou não seria ele? Ou alguém parecido com ele?

Não tenho dúvida. Com aquela “pinta” não poderia ser outro.

Deve ter pegado um rumo qualquer com a morena. Convidou-a para tomar um chá. Sempre começa com convites menos sofisticados. Até conduzir a moça a uma alcova.

Mulherengo incorrigível, só acha graça na vida quando  agarrado, como o vi, a um bom pedaço de mulher.

(junho/09)

À ESQUINA – de otto nul / palma sola.sc

Só à esquina
A vida passou
O vento soprou
Triste à esquina
A luz apagou
Um homem passou
Isolado à esquina
O sol acabou
O dia murchou
Indeciso à esquina
O tempo parou
A sorte voou
Mudo à esquina
O barulho cessou
O mundo acabou
x x x
(junho/09) – Otto Nul)
Só à esquina
A vida passou
O vento soprou

Triste à esquina
A luz apagou
Um homem passou

Isolado à esquina
O sol se evaporou
O dia murchou

Indeciso à esquina
O tempo parou
A sorte voou

Mudo à esquina
O barulho cessou
O mundo acabou
x x x
(junho/09) – Otto Nul)

FOTOPOEMA de rudi bodanese, silvio caldas e orestes barbosa / florianópolis / riode janeiro

RUDI poema&foto22

TRES GARGANTAS – por alceu sperança / cascavel.pr

O Oeste do Paraná recebeu algum tempo atrás o ministro chinês Pu Haiging, o encarregado de construir a maior hidrelétrica do mundo – Três Gargantas. Mas o camarada ministro não vai poder cantar muito de galo com sua hidrelétrica superior a Itaipu, já que no Brasil temos três gargantas muito maiores.

Temos, por exemplo, a garganta do presidente. Quanto mais fala em povo, mais se entrega aos ricos. Menos verbas para a educação, mais grilagem oficializada na Amazônia etc. É o pequeno-burguês escalado para fazer a alegria dos grandes burgueses: a “força do povo” bancando as PPPs. Além de pretender a América Latina unida “da Patagônia à Terra do Fogo” (os argentinos amaram), vem aí a tal da flexibilização, que dará muito arrepio em quem reelegeu Lula. Temos, também, a garganta dos governadores. Falam diabos e os tubos, mas seus estados continuam com índices ridículos de IDH.

Por último, temos a garganta dos prefeitos. Montados em cima da bala, como no conto de Stephen King, garganteiam que estão executando suas prioridades e, contudo, apenas assistem à míngua de seus cofres com o pagamento de salários altos a compadres, sócios e parentes. As prefeituras estão em petição de miséria e não cumprem seus deveres. Algumas ainda desviam dinheiro de programas sociais para custear guardas municipais inúteis. Garganteiam e mascam maravilhas, mas cospem a poeira do custeio. Se não usassem alguns truques – como parar praticamente tudo – nem fechariam o ano com as contas em dia. Seriam sérios candidatos ao rigor da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Além dessas três gargantas, bem maiores que as chinesas, temos também três, trinta, trezentos gargalos. E continuaremos a tê-los enquanto as três gargantas que nos enrolam continuarem fazendo das suas. Nas eleições, o poder econômico e os ricos faturaram geral. Gargantearam democracia, mas o que se viu? As empresas que mais negociam com a administração pública foram as principais doadoras de recursos para as campanhas vitoriosas. O caso do governador mineiro Aécio Neves (PSDB) é típico para mostrar quem gosta de tucanos: ele recebeu R$ 1,18 milhão em doações de bancos e R$ 2,26 milhões de construtoras ou empresas de engenharia. Petistas e seus rebocados de “esquerda” também foram por aí.

No meio dessa garganteação toda, temos agora uma novidade: o bolsa-ingresso. Como além do bolsa-família (pão) é também preciso o circo, os pobres receberam de presente em Cascavel essa coisa que também poderia ser chamada de “bolsa-rodeio” ou “bolsa-circo”. Passes para pobre ir à Exposição Agropecuária fazer de conta que está comprando e vendendo boi.

Talvez não fosse má idéia se além de ouvir insossas duplas “sertanejas” e assistir a rodeios asquerosos nossos miseráveis pudessem também receber bolsa-ingresso para ouvir boa MPB, aquela que não toca em rádio, e assistir a peças de teatro. E, sonho dos sonhos, “bolsa-livro” para ler pelo menos obras básicas como “o que é cidadania”, “como nossos direitos são pisoteados”, “safadezas do clientelismo” e “de como eles brigam e porque só dói na gente”. Só faltará então disponibilizar, verbo que adoram, um genuflexório para o miserável se joelhar e agradecer ao bondoso político que lhe dá o bolsa-ingresso.

Mais salário, terra e renda, tri-garganteadores! Esmolinha, não.