O CÂMARA por hamilton alves / florianópolis

Fazia um bocado de tempo que não punha os olhos no Câmara, que conheço desde os tempos de infância. Jogamos pelada, bolinha de gude, soltamos balão e pandorga, fizemos peraltices pelo curso da vida. Mais tarde, freqüentamos os botecos tradicionais daqui e d’alhures, onde sempre se revelou um bom copo.

Um dos fracos do Câmara, que nunca escondeu, foi o  belo sexo. Por um rabo de saia é capaz de proezas inimagináveis.
Lembro-me de casos amorosos que o deixavam na maior lona.

Câmara é desses amantes chatos, que se apaixonam à primeira vista. Se a paixão não der certo ou por alguma razão não evolui,  curte uma dor de corno inenarrável. Haja a se lamuriar como os mais sofredores dos homens, para quem as mulheres sempre foram insensíveis e sem alma.

Quantas vezes, alta madrugada, tive que aturá-lo em mesas de botequim, que, depois da terceira dose de uísque (ou de traçado) – para ele dava no mesmo, nunca distinguiu uma bebida de outra, só não tolerava pinga, desfilando as paixões dolorosas, que  não acabavam em sangue porque o Câmara sempre foi uma pessoa pacata e civilizada, incapaz de atos tresloucados.

Como disse, fazia tempo que não o encontrava. O que tinha sabido é que se mudara. Prometera não voltar mais à Ilha, onde deixara outra de suas grandes paixões. Não queria mais vê-la. Essa moça foi um negócio meio complicado. Era casada. Separou-se do marido. Teve um filho com ele. Quando o amor acabou (o amor sempre acaba, como diz Paulo Mendes Campos, em memorável crônica), estava de novo na pior, sem eira nem beira. Nem um teto tinha para morar. Como nunca teve emprego fixo, socorreu-se de amigos para se mandar nem sei para onde.

Pois vou passando de carro há dias por uma rua central e quem vejo, com uma camisa de listras verticais azuis e brancas? Quem poderia ser com todo aquele ar dengoso e agarrado a uma morena de primeiro time? Ele provavelmente beirando os 70. Ela em torno dos trinta (balzaqueana), inteiriça, como lhe convém.

O Câmara, como foi sempre de seu feitio, punha o braço em volta do pescoço da moça, aconchegava-a, em gestos que, em público, não o recomendavam.

Mas o Câmara ligou algum dia para o que os demais acharem de um pouco mais de agressividade no trato de uma garota?

Procurei um estacionamento próximo para abordá-lo.

Notei que tinha emagrecido um pouco mais. Andava pelos oitenta quilos.

Era um massa bruta. E mais: bom de briga. Por muito pouco é capaz de ir às fuças de qualquer um.

Percorri a rua onde presumivelmente poderia estar com a morena.

Não houve jeito de achá-lo.

Ou não seria ele? Ou alguém parecido com ele?

Não tenho dúvida. Com aquela “pinta” não poderia ser outro.

Deve ter pegado um rumo qualquer com a morena. Convidou-a para tomar um chá. Sempre começa com convites menos sofisticados. Até conduzir a moça a uma alcova.

Mulherengo incorrigível, só acha graça na vida quando  agarrado, como o vi, a um bom pedaço de mulher.

(junho/09)

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