Arquivos Diários: 15 junho, 2009

Corpus do Christi – de marilda confortin / curitiba

ATOR REPRES CRISTO

Teu corpo, não dispo: Visto.

Tua cruz, não ergo: Vergo.

Teus pecados, não absolvo: Absorvo.

Tuas chagas, não vi: Cri.

Teu cio, não sacio: Sedo-me.

E por te amar,

não te toco: Abstenho-me.

Não te traio: Abstraio-te.

Cubro teu falo

e me calo

omissa

e dominical.

CRUZ E SOUZA: O CISNE NEGRO ESQUECIDO por joão batista do lago / são luís.ma

Vida Obscura

De Cruz e Souza

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,

Mas eu sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu teus braços
e o teu suspiro como foi profundo!

Não tenho tendência para crendices. Não acredito que os números, por exemplo, cometam quaisquer tipos de interferências em nossas vidas pessoais ou sociais. Os fatos, aos meus olhos, quando relacionados a esses eventos são meros acasos ou felizes ou tristes coincidências. Mas o dia de hoje, dia 19, me é extraordinariamente excepcional. Foi num dia 19 que meu pai nasceu; foi num dia 19 que minha mãe morreu; foi num dia 19 que ganhei o primeiro livro de poesia; foi num dia 19 que um dos poetas da minha mais expressiva admiração morreu: Cruz e Souza – João da Cruz e Souza –, aos meus olhos o principal poeta simbolista do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.

E a coincidência mais evidente foi haver recebido, do meu pai, coisa que não era comum, um livro de poesia, Broqueis (Broquéis é o livro escrito pelo poeta catarinense Cruz e Sousa. Publicado em 1893, ele é composto por poesias, sendo uma das obras simbolistas brasileiras. É marcado pela influência de Baudelaire, que traz o mal como algo belo. Neste livro, Cruz e Souza utiliza uma linguagem mais erudita, fazendo todo um jogo de palavras. Usa a cor branca para representar a espiritualidade, além de elementos vagos. A todo tempo deseja o espiríto, mas perde a espiritualidade com o elemento material), de autoria de Cruz e Souza. Contava então com 10 anos de idade. Naquele dia, um dia 19 (março de 1960), despertei para a poesia. E mais: descobri, muitos anos depois, que meu pai fora admirador deste ramo da literatura. Que meu fora admirador de Cruz e Souza. Que ele me dera o livro porque, naquele dia 19, assim como no 19 de hoje, completa assim como completa hoje, mais um aniversário de morte do Dante Negro do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.

CRUZ E SOUSA

João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) 24 de novembro de 1861Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.

Filho de negros alforriados, desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa – de quem adotou o nome de família. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.

Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista naEstrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular. Em Fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem tem quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose, levando-a à loucura.

Faleceu a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, num povoado chamado Estação do Sítio, para onde fôra transportado às pressas vencido pela tuberculose. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos, dentre eles José do Patrocínio.Onde permaneceu até 2007, quando seus restos mortais foram acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa no centro de Florianópolis.

Foi integrante da Academia Catarinense de Letras, de cuja cadeira 15 é patrono.

Análise da obra

Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, ànebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.

No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Baudelaireao espiritualismo (e dentro desse, idéias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como a fases na vida do autor.

Embora quase metade da população brasileira seja negra, poucos foram nossos escritores negros e mulatos. E, entre eles, poucos foram os que escreveram em favor da causa negra. Cruz e Souza, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de “Cisne Negro”, o poeta João da Cruz e Souza não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista. A acusação, porém, não precede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Souza militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha antiescravista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.

Quando Cruz e Souza diz “brancura”, é preciso recorrer aos mais altos significados desta palavra, muito além da cor em si.

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Com textos da Wikipédia

A VANTE de walmor marcellino / curitiba

Um lapidário, desterrado

em si de mim desmemoriado;

timoneiro reverberante

em arras para diante,

sextante à vante, guante para trás.

Desse ofício lapidante

o seu labor desfaz

em simples pedra diamante;

desvelante, de lance, andante

em singra, navegante

‑ sua melancolia, piloto ausente.

Em ofício de pedrarias

navegando por suas faisqueiras

defesso das intempéries,

mediterrâneo de todas sesmarias

desliando suas bandeiras,

coloridos fracassos em séries.