Arquivos Diários: 19 junho, 2009

INSÔNIA e CLEPTOCRACIA por sérgio da costa ramos / florianópolis

A situação em Brasília anda tão surrealista, o vírus da cleptocracia tão disseminado, que o único remédio plausível é mesmo o realismo fantástico.

A capital da República tem muito a aprender com Macondo, a vila intemporal de Cem Anos de Solidão, com a licença de Gabriel Garcia Márquez. Sabe-se que a doença de Macondo era menos grave: não se tratava de compulsão pelo roubo. Não eram cleptocratas os moradores da cidade SERGIO DA COSTA RAMOSsímbolo do realismo-fantástico.

Eles sofriam de insônia. Tocados pela estranha síndrome do “sol poente”, os cidadãos viviam condenados ao “estado de alerta”. Jamais conseguiam pregar o olho.

Para que os forasteiros não “pegassem” a doença, José Arcádio Buendia teve uma ideia inspiradora: tirar os sininhos dos cabritos e colocá-los numa caixa nos portões da vila, à disposição dos que insistiam em visitar a aldeia. Os visitantes que portassem guizos no pescoço, alertariam a população: “somos seres saudáveis, “não contaminados”.

A população seria advertida: nada desse de comer ou de beber a esses adventícios – pois não havia dúvida de que a “peste” se transmitia pela boca. Assim, a doença ficou circunscrita ao povoado, sem se propagar pelas cidades vizinhas, os poucos visitantes recebiam a eficaz vacina preventiva: o guizo no cangote.

Brasília bem que poderia adotar quarentena semelhante. Era só trocar o nome da enfermidade. Em vez de insônia, “corrupção”. Para que a doença não se espalhasse pelo país inteiro, os sadios usariam um sininho, e jamais comeriam ou beberiam nos mercados ou nas fontes citadinas, principalmente naquelas situadas em torno da Praça dos Três Poderes – todas infectadas.

Daria certo? O problema é que todo mundo ia querer usar esse crachá de honesto, mesmo sem merecer. Logo seria instituído um “vestibular” para a aquisição de sininhos. E apareceria alguém propondo cotas, privilégios, sininhos “secretos”. Os que não exibissem o seu sininho balançando no pescoço logo seriam apontados à execração pública:

– Ô seu filho de um Lalau! Ô seu Maluf! Ô seu Zé Sarney! Ô seu Salvatore Cacciola! – e outros nomes próprios pra lá de impróprios.

Outra dificuldade: as ratazanas da cidade jamais se habituariam com a virtude da honestidade, nem abjurariam a adoração do ouro público, o preferido para a prática da “subtração”. Pior: logo prosperaria entre os contaminados o “tráfico” de sininhos e não tardariam a aparecer os sininhos falsos. A fábrica teria que adotar medidas extras de segurança, como revistar os funcionários na saída do expediente.

A situação estaria definitivamente comprometida quando descobrissem funcionários recebendo propina para vender sininhos a desonestos. E sabem quem apareceria para manipular a licitação da venda de sininhos autênticos a funcionários públicos?

Claro, o parente secreto de algum senador.

Gabo Garcia Márquez logo descobriria, chocado. Macondo tem uma identidade secreta: na verdade se chama Brasília!

Ética e Ciência: Urgência Do Debate – por raul enrique cuore / campo grande.ms

Ética e ciência, esta discussão necessita previamente passar pela concepção filosófica de “ser humano”, ‘ética’ e ‘ciência’. Na perspectiva existencialista, o homem é um ser capaz de autodeterminação, ou seja, ser sujeito do conhecimento e da ação. Em conseqüência, no campo ético, tudo aquilo que tira ou diminui essa dimensão de sujeitoRAUL HENRIQUE CUORE - FOTO é considerado violência. Por sua vez, a ciência moderna ocidental contém em si um amplo projeto de dominação: da natureza, de si mesmo e do outro. Portanto, uma ciência ética só é possível a partir de uma nova postura diante da própria ciência e dos valores da sociedade.

1         introdução

A relação ética e ciência é um dos debates que nos foram equacionados no século XXI. A partir do lançamento da bomba nuclear nas cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão no fim da II Guerra Mundial em 1945, e mais neste século com a degradação do meio ambiente, a ambigüidade do progresso científico e tecnológico passou do plano teórico para o existencial. Começamos a perceber na vida cotidiana a deterioração do ambiente físico e social ao lado do mundo maravilhoso da tecnologia. Isto cria um paradoxo entre a ciência e a ética. As conquistas tecnológicas nos campos da comunicação, transporte, alimentação, moradia, saúde e lazer convivem ao lado do desequilíbrio ecológico, da miséria, da fome, o desemprego, os sem-terra, sem-teto, enfim ao lado de toda a violência que destrói dignidade humana. Para falarmos da relação entre ciência e ética é preciso, ao principio buscarmos uma definição para a ética, e como esta vem a se contrapor a ciência.

2        como definirmos ética?

Poderíamos entender ética de várias formas. Uma delas poderia ser como a busca ou caminho para ou pela “verdade” que seria, talvez, e em algumas condições, subjetiva. Se relembrarmos da origem da filosofia na Grécia, por exemplo, os sofistas, que através da retórica e do convencimento pelas palavras, da oratória, julgavam que “a verdade é resultado da persuasão e do consenso entre os homens”. Isso era combatido por Sócrates, Platão e Aristóteles que julgavam ser a essência da verdade através da razão e não do “simples” convencimento e consenso. Sócrates fazia isto através de perguntas básicas, feitas a diversos profissionais especialistas, tais como: ao “sapateiro” – o que é um sapato? Ao “juiz” – o que é a justiça? Ou o que é a verdade? E assim, a partir de um questionamento, buscava desvendar, através da razão e da lógica e não mais por um simples convencimento retórico, o que seria esta verdade. Poderíamos dizer então que, de certa forma, Sócrates inaugura a ética dentro do discurso. Sócrates, como comenta MARCONDES (1998) seria: “(…) um divisor de águas. É nesse momento que a problemática ético-política passa ao primeiro plano da discussão filosófica como questão urgente da sociedade grega superando a questão da natureza como temática central, pois a temática racionalista filosófica, inicialmente, era a natureza, iniciada por Tales de Mileto que buscava na própria natureza a explicação para ela própria, se afastando assim do mito em que tudo era explicado pelos deuses…” Assim teríamos a questão da subjetividade na ética, e a formação da própria sociedade interagindo entre ela e os indivíduos. A ética ajudando-nos a refletir sobre os costumes, sobre as práticas da ciência, da religião, da família, da empresa, em fim, em todas as instituições da sociedade. A ética nos ajuda a pensar a subjetividade. Que sujeito é esse em tal momento da história? Que sujeito é este hoje? Que “conhecimento” é este que buscamos pela ciência? Ainda MARCONDES (1998) nos define ética da seguinte forma: “A ética do grego “ethike”, diz respeito aos costumes e tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral (finalidade e sentido da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral.”

3         a ciência, a ética e a filosofia

Não existe um profissional ético, sem antes um homem ético. Portanto, a discussão sobre ética deve ser vista como uma situação-problema que provoca e estimula uma reflexão abrangente sobre a própria natureza da relação ética e ciência. Em sua reflexão sobre o conceito de progresso MATOS (1993) conclui que: “como não há progresso que não seja também moral, a principal tarefa dos nossos dias é o combate pelo progresso dos direitos humanos.” Referenciando a utopia que temos em comum: a humanidade com vida digna e feliz. Visto deste ponto, a reflexão filosófica não tem a utilidade imediata no sentido do senso comum. Sua contribuição à ciência e à técnica explicando os fundamentos epistemológicos e metodológicos e certamente, éticos. Citando CHAUÍ (1994): “Não se trata, pois, rigorosamente de uma ciência, mas de uma reflexão em busca de uma fundamentação teórica e crítica dos nossos conhecimentos e de nossas práticas”. Segundo o existencialismo, o ser humano está em processo de autoconstrução. Em outras palavras, é um agente transformador da Natureza que, ao transformá-la, constrói sua própria essência. A natureza humana vem sendo construída pela própria humanidade no processo histórico atualizando sua potencialidade com agente transformador. Sobre este conceito MATOS (1993) nos expõe: “Temos uma natureza em devir. O ser humano é, ao mesmo tempo, um ser atualmente advindo e um ser ainda a vir, apenas prometido a si mesmo. (…) É aqui que se manifesta a estrutura fundamental da ação: de um lado, ela é aquilo em que se tornou, aquilo que ela é agora: do outro, também é uma antecipação de seu ser realizado e, por ser ação de um agente autônomo, ela implica em si a responsabilidade daquilo que fazemos de nós mesmos. E veremos como a responsabilidade de cada ser humano para consigo mesmo constitui, ao mesmo tempo, um responsabilidade que ele tem com todos os homens”.

4         ciência e ética nos dias atuais

A ciência, traço que singulariza as sociedades modernas, vem sendo analisada sob os mais diversos ângulos. Desde o enfoque mais clássico da epistemologia ao olhar mais recente dos estudos culturais, multiplicam-se os estudos sobre a atividade científica. Entretanto, em nossos dias, uma perspectiva, a da ética, exerce particular interesse, associada ao desenvolvimento contemporâneo das ciências da vida. Alternativas inéditas, antigamente nem sequer questionadas, fazem hoje, parte do cotidiano. Possibilidades como a preservação duradoura da vida em condições artificiais, a intervenção em fetos ou as que decorrem do amplo repertório de ações ligadas à clonagem evidenciam a expansão do nosso poderio científico-tecnológico. Poderio que nos inscreve, de imediato, no horizonte ético: podendo fazer, devemos fazer? Os órgãos que regulam a ética nas pesquisas científicas que envolvam seres humanos, o crescente cuidado no trato dos animais associados à pesquisa científica, a atenção e a sensibilidade com que são vistas as questões relativas à intervenção no meio ambiente são indicadores de que estamos diante de um novo cenário. Mas, se, de um lado, devemos celebrar o reaparecimento da temática ética, na medida em que se localiza no campo da ação humana, por outro lado, cabe perguntar sob que condições é razoável esperar uma aproximação permanente entre a ciência e a ética. Ética, entre outras coisas, significa restrição. O recurso a valores, constitutivos de qualquer agenda ética, implica aceitar proibições e limites. Caso existisse, uma sociedade inteiramente permissiva levaria à supressão da dimensão ética, que se tornaria supérflua num ambiente onde tudo fosse tolerado. Se aceitarmos a associação entre a atitude ética e o estabelecimento de alguma espécie de limite, como poderíamos aproximar a ética e a ciência, entre os procedimentos éticos e a busca do conhecimento? No contexto da sociedade atual, à que pertencemos, a criação dos campos científicos na modernidade ocidental é decorrência, entre outros fatores, da ideologia que preconiza a defesa da liberdade mais plena no que diz respeito ao conhecimento. A concepção moderna de ciência, a que estamos, ainda hoje, associados, é inseparável da progressiva reafirmação do princípio da autonomia da pesquisa e da rejeição, inegociável, da tutela, seja religiosa, seja política.

5       conclusão

Notamos que nos dias de hoje várias instituições se preocupam em elaborar um código de ética. Isso demonstra claramente a necessidade que a sociedade tem de “controlar” as medidas e atitudes das diversas profissões. Será que podemos permitir que a ciência, por exemplo, faça o que ela quiser? A ciência pode pesquisar o que ela quiser? A ética seria desta maneira então, intermediária, buscaria a justiça, a harmonia e os caminhos para alcançá-las. Quando buscamos, a justiça, a verdade, o entendimento e o conhecimento, o buscamos para satisfazer uma necessidade do sujeito. O que é que distingue a ciência da não-ciência? Como podemos demarcar a fronteira entre elas? É importante mencionar que a ciência deve ser entendida de maneira diversa, conforme o tempo em que a estudamos. O que chamamos de “conhecimento científico”, também, pode variar conforme os diversos períodos da história. Na área médica, por exemplo, quando ouvimos uma voz científica dizendo: evite comer ou fazer tal coisa, que faz mal à saúde, e depois alguns anos mais tarde se contradizem dizendo que não é bem assim. Podemos citar o recente comunicado da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com respeito à gema do ovo mal cozida. Concluiu-se que ciência é um conhecimento sistemático, dá-se pela leitura, reflexão, sistematização, conhecimento lógico, sendo quase impossível vivermos sem seus benefícios. A ciência tenta discernir com sabedoria ética o melhor para o ser humano. Sendo de muita importância este apelo ético na ciência, pois a sociedade depende das conseqüências. A ética é uma característica própria a toda ação humana, tendo como objetivo facilitar a realização das pessoas. A ciência envolve investigação e busca pela verdade. Na ciência temos a ética como suporte para não haver erros, pois a responsabilidade faz parte da ética e é fundamental no meio cientifico. A produção cientifica não se realiza fora de um determinado contexto social e político.

6        referências

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. MATOS, O. C. F. A escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Coleção Logos. São Paulo: Editora Moderna, 1993. MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. São Paulo: JZE. 2º ed.1998.

AQUARIO de manoel de andrade / curitiba

Silente e impassível
o mar
navega sua beleza
em  preguiçosas caudas
e barbatanas velozes,
ilumina-se em translúcidas medusas
e na cromática simetria das escamas.
Refrata a luz e a vida
no remanso submerso das águas,
em seus relicários de pérolas
e no  balé  itinerante dos cardumes.
Mar, ó mar…
escondeste teus íntimos mistérios
na pressão insuportável dos abismos
nessas paisagens indevassáveis da vida
onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.
Abres, contudo, as pálpebras da aurora
e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente
e na superfície das águas
ilumina tua face absoluta
nesta horizontal extensão do azul
nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios
onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes
e as asas serenas do albatroz.
Teus brancos litorais abraçam a Terra
desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.
Tuas marés redesenham os cinturões de areia
e delimitam teu espaço inconquistável.
Os manguezais invadidos retratam teus domínios.
Contra teu furor levantam-se falésias
fiordes verticais e punhais de granito.
Edificas tua linha de recifes,
teus castelos de corais,
cultivas teus jardins de algas e sargaços
onde mandíbulas poderosas,
venenos e descargas fulminantes,
ditam teu código submerso.
Mar, ó mar
transparente  beleza de flores e de frutos
território enigmático de vidas e silêncio
abismo onde flutuam os sobreviventes
sudário de todos os náufragos.
Mar azul
chamo-te água absoluta
porque absoluta é a tua sedução
a tua irresistível espuma
a mobilidade do teu ritmo
tua incessante sinfonia
teu eloqüente silêncio.
E contudo…
diante do etérico oceano…
diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…
tu és apenas um úmido ponto no infinito
um aquoso respingo
minúsculo aquário
um minuto ondulante na eternidade
há bilhões de anos se espraiando
nessa gota salgada suspensa no universo.
Curitiba, março de 2004
Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras
Curitiba, março de 2004

Silente e impassível

o mar

navega sua beleza

em  preguiçosas caudas

e barbatanas velozes,

ilumina-se em translúcidas medusas

e na cromática simetria das escamas.

.

Refrata a luz e a vida

no remanso submerso das águas,

em seus relicários de pérolas

e no  balé  itinerante dos cardumes.

.

Mar, ó mar…

escondeste teus íntimos mistérios

na pressão insuportável dos abismos

nessas paisagens indevassáveis da vida

onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.

.

Abres, contudo, as pálpebras da aurora

e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente

e na superfície das águas

ilumina tua face absoluta

nesta horizontal extensão do azul

nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios

onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes

e as asas serenas do albatroz.

.

Teus brancos litorais abraçam a Terra

desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.

Tuas marés redesenham os cinturões de areia

e delimitam teu espaço inconquistável.

Os manguezais invadidos retratam teus domínios.

Contra teu furor levantam-se falésias

fiordes verticais e punhais de granito.

Edificas tua linha de recifes,

teus castelos de corais,

cultivas teus jardins de algas e sargaços

onde mandíbulas poderosas,

venenos e descargas fulminantes,

ditam teu código submerso.

.

Mar, ó mar

transparente  beleza de flores e de frutos

território enigmático de vidas e silêncio

abismo onde flutuam os sobreviventes

sudário de todos os náufragos.

.

Mar azul

chamo-te água absoluta

porque absoluta é a tua sedução

a tua irresistível espuma

a mobilidade do teu ritmo

tua incessante sinfonia

teu eloqüente silêncio.

.

E contudo…

diante do etérico oceano…

diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…

tu és apenas um úmido ponto no infinito

um aquoso respingo

minúsculo aquário

um minuto ondulante na eternidade

há bilhões de anos se espraiando

nessa gota salgada suspensa no universo.

.

Curitiba, março de 2004

Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras