INSÔNIA e CLEPTOCRACIA por sérgio da costa ramos / florianópolis

A situação em Brasília anda tão surrealista, o vírus da cleptocracia tão disseminado, que o único remédio plausível é mesmo o realismo fantástico.

A capital da República tem muito a aprender com Macondo, a vila intemporal de Cem Anos de Solidão, com a licença de Gabriel Garcia Márquez. Sabe-se que a doença de Macondo era menos grave: não se tratava de compulsão pelo roubo. Não eram cleptocratas os moradores da cidade SERGIO DA COSTA RAMOSsímbolo do realismo-fantástico.

Eles sofriam de insônia. Tocados pela estranha síndrome do “sol poente”, os cidadãos viviam condenados ao “estado de alerta”. Jamais conseguiam pregar o olho.

Para que os forasteiros não “pegassem” a doença, José Arcádio Buendia teve uma ideia inspiradora: tirar os sininhos dos cabritos e colocá-los numa caixa nos portões da vila, à disposição dos que insistiam em visitar a aldeia. Os visitantes que portassem guizos no pescoço, alertariam a população: “somos seres saudáveis, “não contaminados”.

A população seria advertida: nada desse de comer ou de beber a esses adventícios – pois não havia dúvida de que a “peste” se transmitia pela boca. Assim, a doença ficou circunscrita ao povoado, sem se propagar pelas cidades vizinhas, os poucos visitantes recebiam a eficaz vacina preventiva: o guizo no cangote.

Brasília bem que poderia adotar quarentena semelhante. Era só trocar o nome da enfermidade. Em vez de insônia, “corrupção”. Para que a doença não se espalhasse pelo país inteiro, os sadios usariam um sininho, e jamais comeriam ou beberiam nos mercados ou nas fontes citadinas, principalmente naquelas situadas em torno da Praça dos Três Poderes – todas infectadas.

Daria certo? O problema é que todo mundo ia querer usar esse crachá de honesto, mesmo sem merecer. Logo seria instituído um “vestibular” para a aquisição de sininhos. E apareceria alguém propondo cotas, privilégios, sininhos “secretos”. Os que não exibissem o seu sininho balançando no pescoço logo seriam apontados à execração pública:

– Ô seu filho de um Lalau! Ô seu Maluf! Ô seu Zé Sarney! Ô seu Salvatore Cacciola! – e outros nomes próprios pra lá de impróprios.

Outra dificuldade: as ratazanas da cidade jamais se habituariam com a virtude da honestidade, nem abjurariam a adoração do ouro público, o preferido para a prática da “subtração”. Pior: logo prosperaria entre os contaminados o “tráfico” de sininhos e não tardariam a aparecer os sininhos falsos. A fábrica teria que adotar medidas extras de segurança, como revistar os funcionários na saída do expediente.

A situação estaria definitivamente comprometida quando descobrissem funcionários recebendo propina para vender sininhos a desonestos. E sabem quem apareceria para manipular a licitação da venda de sininhos autênticos a funcionários públicos?

Claro, o parente secreto de algum senador.

Gabo Garcia Márquez logo descobriria, chocado. Macondo tem uma identidade secreta: na verdade se chama Brasília!

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