Arquivos Diários: 24 junho, 2009

esquerda, direita! – por walmor marcellino /curitiba

O novo Brasil “desenvolvimentista” chega tarde na estação do “progresso da humanidade”, pois tem duas “missões” (visões) antagônicas: a) fomentar uma produção não-destrutiva auto-sustentada, b) garantir planos e projetos de desmonte (não só de mão-de-obra organizada) mas dos recursos naturais e ambientais. Exatamente quando a característica geral do sistema capitalista se define pela “destruição produtiva” para garantir e maximalizar, inevitavelmente, o lucro. A fase em que uma “produção destrutiva” era desejada para suprir uma sociedade em carência absoluta, e necessária porque o móvel da mudança do modo de produção (e suas relações sociais autorizava) está em obsolescência. (Sobre “destruição produtiva” vide István Mészaros: “Para Além do Capital”, capítulos 15 e 16. e “O Século XXI, Socialismo ou Barbárie”).

A vantagem capitalista nestes tempos é que a ex-esquerda (agora “liberal de esquerda”, seja o que for isso!) se deslocou para o “centro”, se ajustou ao sistema representativo eleitoral e seus condicionantes e, no governo, se associa com os planos da renegada social-democracia (a “terceira via” da mesma Rota 66) para cumprir as tarefas de uma “compensação nacionalista” (inimaginável?) aos alinhamentos do neo-liberalismo subserviente ao imperialismo.

Não é por acaso que a intelligentsia burguesa se esforça a demonstrar que não há mais esquerda, porque: 1) o regime jurídico-político capitalista de forças (armadas, institucionais e de regulação na organização de trabalhadores e representações de massas) conformou movimentos de trabalhadores, juventude, feminino, raciais, etnopolíticos e democrático-liberais a ser consumidores no seu modo de produção, clientes de suas relações sociais e figurantes em seu “estilo de vida”; 2) os controles (políticos) “sociais” sobre as relações de propriedade-e-produção e a organização do  mercado ficaram pela mesma “conta liberal” da sistemática financeiro-produtiva; e 3) assim, os partidos revolucionários se desorientaram, como perderam sentido.

A maior evidência do impasse está na Amazônia. A destruição prossegue: especuladores, empresários e trabalhadores pedem iniciativas, obras, empresas e trabalho. E o governo democrático-liberal está confuso, estimulado e insuflado pelo sucesso do seu capitalismo social e promessas desenvolvimentistas. Reúne “sua equipe” de democratas-sociais e sociais-democratas e procura convencer-nos de que a “destruição produtiva” da Amazônia (e do Brasil) será equilibrada por auto-“controles” no governo,  do PT-PCdoB-OS-PMDB-PP et… o empresariado. Olha aí o que vem por trás!

A TELA BRANCA por alceu sperança / cascavel.pr

“Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira”. Esses magníficos versos de Ferreira Gullar traduzem certamente o que estamos passando nestes dias difíceis, em que autoritários posam de democratas e arrivistas se fazem de esquerda, enquanto, felliniana, la nave va. Mesmo quando dá vontade de perder a paciência de vez com tantas injustiças, trapalhadas, sacanagens que envolvem dos cemitérios aos muito vivos, dos contratos de lixo a usinas nucleares, dos prefeitos mendigos aos presidentes desgovernados, essa parte que pondera pesa tudo na balança e avalia que, afinal de contas, a parte que delira tem lá suas razões.

O historiador anglo-egípcio Eric J. Hobsbawn, que nos contempla do alto de sua vasta pirâmide de obras essenciais ao conhecimento da história deste mundo, aconselha que a gente precisa de algo mais que a esperança concreta de que este vasto mundo um dia será justo. Para ele, é pouco pesar e ponderar. Essa esperança concreta “tem que ser completada com os grandes sonhos”, afirma. E é aqui que a parte delirante entra em cena.

São os grandes sonhos que mantêm o sujeito ativo e explicam a longevidade dos que sonham com uma humanidade redimida dessa atual etapa de desgraças, contradições, tragédias, infelicidades. Hobsbawn fez com 92 anos dia 9 de junho. O comandante Prestes morreu com esses mesmos 92. O incrível Bertrand Russel manteve a vivacidade brejeira e rebelde até os 98 anos. Delirar, sonhar com algo melhor, realmente faz bem à saúde – espero que a dra. Karine não me desminta. Deliremos, portanto, e vivamos mais.

O Pólo de Cinema de Cascavel não é o único, mas é certamente o maior desafio do movimento cultural do Oeste paranaense. Como o Teatro Municipal já está assegurado, o Pólo, que chamaremos PCdeC para evitar más sugestões de siglas, passa de fato a ser um grande alvo para aqueles teimosos que insistem em rodar a moviola. Os lançamentos dos filmes “O Argentino que Derreteu a Jules Rimet”, com felizes produção e atuação do advogado Sérgio Zandoná, e “Desaparecidos”, de Antônio Marcos Ferreira, foram momentos de entusiasmo que estimulam a delirar sobre a possibilidade de acumular forças e viabilizar a formação do PCdeC. Agora mesmo segue a movimentação em torno de “A Saga”, César Pilatti avança em seu “Monte Carmel”, Talício Sirino divulga seu “Conexão Japão” e há outros vários projetos em andamento no interior do Paraná. O Paraná não é só Curitiba!

Ao mesmo tempo em que essa parte delirante ergue a tocha do Pólo, a parte que pesa e pondera nos leva a ter a certeza de que todo o trabalho desenvolvido pelo pioneiro Acir Kochmanski, por esse admirável Antônio Marcos Ferreira, Talicio Sirino e suas atuações no palco e fora dele em favor da nossa cultura, Sally Machado e sua persistência, Luiz Carlos Castelhano, que mesmo depois de ter vivido momentos pessoais difíceis não pode ser esquecido como um dos mais importantes nomes da cena teatral e cinematográfica do Oeste paranaense, nosso prezado Manaoos Aristides e tanta gente que lida com o processo todo de bolação, viabilização, execução, montagem e distribuição de filmes – esse trabalho, pesemos e ponderemos, não pode ser em vão. Ele terá forçosamente que produzir frutos.

Mas tais frutos não virão apenas de esperar, mesmo concretamente, que o poder público será o construtor do PCdoC. Aos políticos interessa mais o cinema de entretenimento e distração, o circo para compensar o pouco pão. Nas condições atuais do Brasil e do Paraná de hoje, quando os engabeladores manipulam consciências e os financiadores de campanha cobram a conta em maracutaias, pesar, ponderar e delirar são projeções na branca tela das nossas possibilidades.

ESTAMOS COM PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO COM O SERVIDOR DESDE  O DIA 21/6/09. AS AÇÕES PARA  SUPERAR AS DIFICULDADES ESTÃO EM ANDAMENTO. PEDIMOS A COMPREENSÃO DOS LEITORES. EM BREVE ESTAREMOS DE VOLTA.

O EDITOR.