Arquivos Diários: 25 junho, 2009

A MOÇA DA VIDA – por marilda confortin / curitiba


Olhando assim,
pela janela
a vida dela
parece boa
.
Olhando assim,
pela vidraça
quando ela passa,
parece boa.
.
Olhando assim,
pra essa danada,
não se dá nada,
parece à toa
.
Mas, a vida dela
não tem janela
nem tem vidraça
ela passa a vida
na rua, na raça,
no peito, na cara
na esquina da praça.
.
Ela vende pedaços
da vida na cama
como se fosse
um bagaço de cana.
.
O que será que se passa
na vida da moça
que mora lá dentro
da moça da vida?

A GRIPE, A FEBRE E A POESIA de joão batista do lago / são luís.ma

Desgraça pouco é besteira!
Reza a lenda popular brasileira.
Foi assim que fiquei paciente
Duma cama fria e lacônica
Doía tudo. Até a alma, minha gente.
.
A danada da gripe foi de lascar
Era dor de tudo que é jeito
Remédio tomei pra dela escapar
Qual nada! Nenhum fez efeito
Fiquei na cama com febre a me danar
.
O Maneco inda me telefonou
Tentou de todo jeito me reanimar
Mas o corpo já de tanto véio
Num respondia, seu moço
Queria mesmo era cama pra se aninhar
.
Depois ligou o Vidal oferecendo carona
Também isso não me fez fugir da cama
Tentou me incentivar dizendo que seria bacana
Participar desta primeira semana
Sarau de poesia na noite curitibana
.
Em seguida me disse a Marilda
Num e-mail quebrado no meio do dia:
– “Poeta, deixa de frescura sem demora;
hoje no Massudas é noite de poesia…
cachaça com limão e vamo simbora.”
.
Mas a filha-da-puta da gripe
Não veio sozinha, não!
Trouxe a tiracolo a danada da febre
Não bastasse isso, me deu por companhia
O cof-cof… cof-cof… nesta noite de poesia
.
Êta, gripezinha sem-vergonha… safada
Adoeceu minha poesia a danada
Agora ta indo imbora a marvada
Sacaneou comigo a semana inteira
De repente quer ir embora toda faceira
.
Não! Num vai ficar barato não
Vou mostrar pra essa filha-de-bordel
Que não se brinca com poeta. Não!
“Vai pra eternidade nas asas dum cordel.”
– Dirá o poeta numa cachaça com limão e mel
.
E pra terminar toda essa cantoria
Faço aqui meu agradecimento
Ao professor e poeta Hélio pelo lamento
Que manifestou de me ver fora do evento
Vai daqui todo o meu reconhecimento
.
Chega assim, ao fim, esse poema-cordel
Feito por um poeta rabugento
Que ta ruminando feito touro velho
Toda raiva da gripe, da febre e da tosse
Que durante dois dias me tomaram por posse
.
Antes de por fim a esta cantoria
Quero aqui muito me desculpar
Num outro evento dessa natureza
Quando se engrandece a poesia
Lá estarei, custe o que custar, com certeza.

Editora Hemisfério Sul lança livro na Casa Aberta / itajaí.sc

menino pobre (1)

Editora Hemisfério Sul lança livro na Casa Aberta

.

No próximo sábado, dia 27 de junho, a partir das 9 horas, a editora Hemisfério Sul lança o livro Memórias de um menino pobre do autor Silveira Júnior, na Livraria Casa Aberta.

Na ocasião haverá um café cultural  e bate papo com a escritora blumenauense Urda Alice Klueger, que atualmente, ocupa a cadeira de Silveira Júnior na Academia Catarinense de Letras.

O prefácio é do próprio autor, e na orelha, a escritora Urda Alice Klueger faz uma breve apresentação do livro, onde cita que “antes de começar a ler este livro, seria importante que se mudassem alguns conceitos a respeito de algumas coisas que lhe disseram: Memórias de um Menino Pobre não é um livro de literatura catarinense, como querem tantos – trata-se de um clássico da língua portuguesa, capaz de fazer a delícia de quantos o leiam, seja aqui, em Portugal, na África ou na Ásia”.

A nova edição traz ainda desenhos, fotografias, pautas musicais e “nota” organizada pelos netos de Silveira Júnior, revisão e atualização ortográfica de Daise Fabiana Ribeiro e belíssima capa Johnny Kamigashima.

A 1ª edição veio a público em 1978 e agora em sua 5ª edição, está sendo publicado pela Editora Hemisfério Sul, que possui 220 páginas e custará 30 reais.

Sobre o escritor:

Falecido em 1990, Silveira Júnior foi um menino pobre oriundo do interior agrícola de Santa Catarina, de uma região muito humilde e desassistida. Perdeu o pai quando pequeno e teve uma infância dura e penosa, onde relampejam alguns faiscantes brilhos, como a escola do professor Cantalício e poucos, mas importantes livros clássicos da literatura brasileira e mundial. Possuía a primeira carteira de Jornalista emitida pelo estado de Santa Catarina e era membro da Academia Catarinense de Letras.

UM HOMEM NA PRAÇA por hamilton alves / florianópolis

Um homem está sentado num banco de praça sozinho. Ali parece que edificou seu reino. Em torno dele só ele,  uns pássaros, umas plantas, uma ou outra árvore, nada mais. Está só convivendo consigo mesmo. Olha os transeuntes, que por ele passam ou lhe lançam um olhar entre curioso ou desdenhoso, e volta a si mesmo, ao seu reino solitário.

Quem é ele?

Não importa.

Não será um poeta, um pintor, um novelista, longe disso.

Nem será muito menos um artesão, um carpinteiro, um pedreiro, um sapateiro. Sua aparência não leva a deduzir que tenha uma dessas qualificações.

É apenas um homem sentado num banco de praça. Pouco importa que seja isso ou aquilo. Ele também parece transmitir essa idéia a seu respeito – é um  zé ninguém.

Está ali no banco de praça incógnito, como uma interrogação: “quem sou eu?”

– Não sou ninguém. – responde silenciosamente.

Ou até passa outra mensagem:

– Me deixem sossegado no meu anonimato.

Está ali, usufruindo a condição essencial de ser, essa criatura estranha, que tanto pode se chamar João, José, Pedro, Joaquim e tantos outros nomes, o que não altera essencialmente sua natureza humana.

Ocorre-me que poderia, eventualmente, ser autor de um poema. Ou de um quadro. Ou ter composto a letra de uma música. Ou seja ele um músico. Nada disso, porém, irradia de sua pessoa comum, até se poderia dizer vulgar.

Usa um trajo resumido: uma camisa rala, de mangas curtas, uma calça de cor indefinida, sapatos cambados presumivelmente sem meias. A cara fechada, como se repelindo qualquer aproximação de sua pessoa.

Tem ainda o detalhe de que, quando passei por ele e me demorei um pouco a examiná-lo, pitava um cigarro de palha, de um bom palheiro.

Feliz, infeliz?

O que é felicidade para um homem sentado solitário num banco de praça?

Se lhe formulasse tal pergunta: – Você é feliz? – talvez nem entendesse a pergunta ou nem lhe interessaria definir o que é felicidade.

Ou diria:

– Vivo; o resto pouco me importa.

O homem sentado solitário num banco de praça não é ninguém.