UM HOMEM NA PRAÇA por hamilton alves / florianópolis

Um homem está sentado num banco de praça sozinho. Ali parece que edificou seu reino. Em torno dele só ele,  uns pássaros, umas plantas, uma ou outra árvore, nada mais. Está só convivendo consigo mesmo. Olha os transeuntes, que por ele passam ou lhe lançam um olhar entre curioso ou desdenhoso, e volta a si mesmo, ao seu reino solitário.

Quem é ele?

Não importa.

Não será um poeta, um pintor, um novelista, longe disso.

Nem será muito menos um artesão, um carpinteiro, um pedreiro, um sapateiro. Sua aparência não leva a deduzir que tenha uma dessas qualificações.

É apenas um homem sentado num banco de praça. Pouco importa que seja isso ou aquilo. Ele também parece transmitir essa idéia a seu respeito – é um  zé ninguém.

Está ali no banco de praça incógnito, como uma interrogação: “quem sou eu?”

– Não sou ninguém. – responde silenciosamente.

Ou até passa outra mensagem:

– Me deixem sossegado no meu anonimato.

Está ali, usufruindo a condição essencial de ser, essa criatura estranha, que tanto pode se chamar João, José, Pedro, Joaquim e tantos outros nomes, o que não altera essencialmente sua natureza humana.

Ocorre-me que poderia, eventualmente, ser autor de um poema. Ou de um quadro. Ou ter composto a letra de uma música. Ou seja ele um músico. Nada disso, porém, irradia de sua pessoa comum, até se poderia dizer vulgar.

Usa um trajo resumido: uma camisa rala, de mangas curtas, uma calça de cor indefinida, sapatos cambados presumivelmente sem meias. A cara fechada, como se repelindo qualquer aproximação de sua pessoa.

Tem ainda o detalhe de que, quando passei por ele e me demorei um pouco a examiná-lo, pitava um cigarro de palha, de um bom palheiro.

Feliz, infeliz?

O que é felicidade para um homem sentado solitário num banco de praça?

Se lhe formulasse tal pergunta: – Você é feliz? – talvez nem entendesse a pergunta ou nem lhe interessaria definir o que é felicidade.

Ou diria:

– Vivo; o resto pouco me importa.

O homem sentado solitário num banco de praça não é ninguém.

2 Respostas

  1. senhorita desconhecida,

    o comentário que você fez pouco importa. importa, sim, lhe dizer que você é uma gracinha. este recado não vai alcançá-la porque “le temp a passé”. de qualquer modo, um beijo. volte sempre a dar palpite nas minhas crônicas. hamilton

  2. O pior é que todos nos somos um dia, o homem sentado solitário num banco de praça.
    Mas esse aí, pelo menos foi notado. risos

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