Arquivos Diários: 28 junho, 2009

NO MEIO DO CAMINHO por hamilton alves / florianópolis.sc



Drummond tem um poema que, para alguns críticos e outras pessoas, que de crítico não têm nada, como o psiquiatra Hélio Pellegrino, inaugurou a poesia moderna ou ingressou, de certo modo, no espírito moderno que guiou a arte brasileira a partir de 22. Ei-lo:

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”.


O psiquiatra referido, amigo de Paulo Mendes Campos, de Otto Lara Resende e de Fernando Sabino, quando, freqüentando à época os bancos do ginásio, ouviu o professor de português dizê-lo, em aula, ficou profundamente impressionado, a ponto de perceber que ali nascia a poesia moderna brasileira. De certo modo mudava tudo na poética que vinha desde então se praticando.

Acredito que esse deva ter sido um dos primeiros poemas de Drummond. Foi escrito (referido no livro de Geneton de Moraes Neto – uma biografia sobre o poeta) em 1927.

O poema tornou Drummond, da noite para o dia, uma espécie de mago. Suscitou um verdadeiro choque na opinião pública e, especialmente, nas pessoas que lidavam ou estudavam poesia, uns estranhando-o, outros entendendo, como Hélio Pellegrino, que era uma janela ampla que se abria ou um vento renovador que soprava na poesia tupiniquim.

Ainda hoje suscita narizes torcidos, palavras de menoscabo ao poeta, e, claro, comentários de toda a natureza, pois tornou-se uma espécie de revolução no modo de formular ou conceber a poesia.

Na biografia de Drummond referida, o poeta numa resposta dada a uma pergunta formulada por esse jornalista, envolvendo a feitura desse poema, diz muito francamente:

“Minha intenção era fazer um poema monótono, sobretudo monótono”.

Assim, sendo uma novidade boa para uns e algo atroz para os ouvidos ou a sensibilidade para outros, esse poema atravessa já 81 anos de existência.

Devemos-lhe muito, pois arejou a mesmice até então vigente na poesia brasileira, feita de métrica e rima (nada contra), dentro de cânones já mais ou menos superados, tendo a Semana da Arte Moderna, de 1922, formulado tal

rompimento por via de um grupo paulista conhecido, tendo Oswald de Andrade à frente.

“No meio do caminho” foi a senha de liberdade que ecoou na tribo lá se vão tantos anos.

SOB O CAOS de otto nul / palma sola.sc

SOB O CAOS
Imerso no caos
Que o tumultua
E também o situa
Na incerteza dos
Conflitos da alma
Ante o dilema
De ser ou não ser
Que é o tema
Que ora aflora
Para todo ele
Que cultua e adora
A percepção nua
Sempre amarga
Sob a clara lua
x x x
(junho/09 – Outro Nul)
Imerso no caos
Que o tumultua
E também o situa
Na incerteza dos
.
Conflitos da alma
Ante o dilema
De ser ou não ser
Que é o tema
.
Que ora aflora
Para todo ele
Que cultua e adora
.
A percepção nua
Sempre amarga
Sob a clara lua
.
x x x
(junho/09 – Outro Nul)

JÁ DOEU DEMAIS por alceu sperança / cascavel.pr

Quem lê o relato denso e emocionado de Frei Betto em seu livro “Batismo de Sangue” e o texto leve e bem documentado de Aluízio Palmar no livro-questão “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” talvez não consiga debelar todas as incertezas e dúvidas que ainda cercam os anos de chumbo da ditadura.

Mas desses dois livros uma coisa salta à vista: o Partido Comunista Brasileiro (PCB) apanhou duro sem dever nada, pois quem fez a luta armada contra os lutadores armados foram os grupos dissidentes, que saíram ou foram expulsos do Partidão. Agora cabe apenas à história julgá-los, desde que a anistia veio e passou uma borracha geral em tudo aquilo.

Frei Betto conta de maneira pormenorizada como Carlos Marighella saiu do PCB para formar sua ALN. Contrariado com a decisão do PCB de pugnar pacificamente pela democracia, Marighella escreveu, segundo Frei Betto, que a saída para os brasileiros “só pode ser a luta armada (…) com todas as consequências e implicações que daí resultam”.

Já Palmar narra com extrema precisão a teia dos acontecimentos que conduziram bravos jovens à sua dramática opção de enfrentar a ditadura e a CIA. O pai de Aquiles Reis (MPB-4), velho militante do PCB, pediu calma ao filho e a Palmar, que estavam se preparando para resistir pelas armas: ele supunha que aquela “quartelada” não iria durar muito tempo. Por aí vemos que o PCB também errou: confiou demais no espírito democrático da classe dirigente.

O general Raymundo Negrão Torres, autor do livro “O fascínio dos anos de chumbo”, foi honesto e preciso ao responder a uma pergunta sobre qual era o grau de “infiltração” nas Forças Armadas em 1964: “Mais esquerdistas do que comunistas e um grande número dos que se intitulavam nacionalistas”. Ele, glória!, sabe distinguir entre esquerdistas e comunistas, coisa que alguns ainda confundem por ignorância ou má-fé.

Quando as guerrilhas estouraram, a repressão naturalmente as golpeou com dureza, mas aproveitou, covardemente, para levar de roldão os comunistas brasileiros, que se opunham a aventuras armadas. Sofreram comunistas que só queriam democracia, religiosos, cientistas, professores, sindicalistas, jornalistas, advogados, estudantes e muitos militares – bastava pensar em democracia e vinha a censura, a perseguição, a repressão, a tortura.

Aluízio Palmar um dia se tornou paranaense ao vir para organizar uma guerrilha no Parque Nacional do Iguaçu, mas a tarefa acabou de vez quando foi preso em Cascavel. Apesar do título questionador, quem lê a obra de Palmar não encontra nela nenhum rancor ou mágoa. Descobre a serenidade de seu raciocínio, a clara evidência de seu amor ao povo mesclada a análises rápidas, diretas, firmes, sobre as situações enfrentadas.

Palmar fez opções e elas foram derrotadas em combate, muitas vezes desleal. O supra-sumo da deslealdade foi cometido no Parque Nacional do Iguaçu, quando o famigerado sargento Alberi, egresso do grupo brizolista, atraiçoou guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que já estavam amplamente vencidos, levando-os a uma armadilha fatal.

O livro de Aluízio Palmar mostra um espírito desarmado, a quem interessa agora apenas a verdade. E não mais para doer a quem possa doer, pois já doeu muito. Demais.